Juan Hussie

Eu estava nervoso. Aquela pedra onde eu sentava era desconfortável e meus pés tremiam quase que involuntariamente.

— Então... O que você tem a dizer? — perguntei a Dylan, que se sentava em outra pedra naquele pequeno acampamento no meio da floresta de pinheiros. Era possível ver que a fogueira, naquele momento apagada, esteve acesa durante a noite anterior, pois os gravetos que a montavam pareciam desgastados. As pedras que os circundavam eram cinzas, mas com um tom azulado e bonito. A barraca, ao lado, era bem simples, com o clássico formato triangular. O chão estava parcialmente coberto de neve, afinal, o amontoado de árvores prendia grande parte dela no topo.

De resto, aquilo parecia uma infinidade de árvores, todas quase idênticas, e eu teria dificuldade para sair dali sem me perder.

— Você quer ganhar minha confiança, né? Então vou contar tudo. Primeiro sobre como o portal funciona — ele disse, com bastante calma. Ele até parecia calmo demais para alguém que esteve preso em uma ilha, sozinho, por meses. Muitos teriam enlouquecido.

— O portal foi uma ideia que eu tive há muito tempo. Era meu principal projeto.

— É... Eu sei — falei, enquanto em minha mente se passavam cenas sobre ele conversando sobre aquele projeto durante nossa adolescência.

— Mas você nunca se perguntou como eu criaria essa ilha? Foi por volta dos meus treze anos que ela apareceu para mim pela primeira vez. Mas isso é uma história para outra hora.

— Essa “ela” de novo? Me explica logo o que tá acontecendo! — exclamei.

— Espera, espera. Logo, logo, tudo será respondido.

Resmunguei um pouco, mudando minha posição na pedra.

— Bom, foi assim que eu realmente fui incentivado a continuar a trabalhar com essa invenção. Mas, praticamente três anos depois, eu percebi que estava chegando em um beco sem saída. O portal não ia funcionar, tinha alguma coisa faltando — ele continuou, algumas horas gesticulando com as nadadeiras — Era a maldita equação. Faltava uma linha de código para que ele funcionasse, mas eu não conseguia completá-la. Qualquer variável iria mudar o resultado. E, é claro, ainda faltava magia para criar o local, mas isso eu deixaria pra depois.

— É claro que nessa época os projetos ainda não tinham saído do papel, e eu poderia esperar mais tempo para, quando eu fizesse algo concreto, poder testar. Mesmo assim, refiz e refiz o projeto várias vezes, testando as diversas possibilidades, mas eu sempre chegava no mesmo resultado: uma linha de código faltando. Tiveram vezes que eu achava aquilo impossível.

— Mas foi aos meus vinte anos que eu finalmente montei o primeiro protótipo. Era minúsculo, e eu só pude testar com uma bolinha. Nunca soube onde ela tinha ido parar. Quer dizer, nunca, até ano passado. — Ele pegou uma bolinha de gude de seu bolso. Ela tinha algumas rachaduras por todos os seus lados — Bom, deu parcialmente certo.

— Então esse lugar já existia na época? — perguntei. Já estava cansado de mudar de posição naquela pedra, então me levantei e sentei na neve, que, ao menos, era macia.

— Não exatamente. Era apenas um vazio, sem luz, sem nada. Como você deve saber, era preciso de magia para criar um lugar assim. Após muitos estudos, descobri que já existiram diversas bruxas, mas cada uma tinha uma função própria de si, como recuperar memórias ou reanimar mortos, além dos poderes comuns que todas dominavam. — nesse momento, me perguntei qual seria o poder especial de Greeny — Por sorte, qualquer bruxa poderia criar esse lugar, desde que meu portal estivesse montado. Basicamente funcionaria assim: uma vez que a Ilha do Club Penguin fosse criada, qualquer vez que o portal fosse montado, aqui ou lá no Club Penguin original, ele funcionaria. A magia da bruxa só seria necessária uma vez.

— Então, quando eu estava na caverna e o portal se abriu, você estava tentando abrir ele por aqui? — perguntei.

— Exatamente. Aliás, o que você estava fazendo lá? — ele perguntou para mim.

— Ah, umas tretas... — pensei, imaginando pelo que meus amigos estariam passando.

Dylan ficou quieto por um minuto, mas logo continuou:

— Bom... É... Continuando... Existia um culto de bruxas. Mas, por algum motivo, todas desapareceram. Mas ainda tinha uma no Club Penguin, e eu sabia.

“Greeny.” Pensei.

— No fim, deu tudo certo. O portal foi aberto e a Ilha do Club Penguin foi criada. Mas eu imagino as possibilidades... Uma bruxa dos portais poderia criar uma passagem para esse lugar, sem tecnologia ou máquina alguma.

A ideia me intrigou um pouco.

— Sério? Assim, simplesmente? Puf? — fiz um gesto com minhas nadadeiras.

— Não tenho certeza. Os portais poderiam chegar a muitas dimensões, mas esse lugar é muito separado do Club Penguin. Talvez, para um local tão distante assim, só se o poder da bruxa estivesse em seu auge. Mas, para encontrar uma bruxa dos portais? Acho que para ter essa sorte, eu precisaria morrer e nascer de novo umas três vezes...

***

Dylan passou o resto da manhã contando sobre seus estudos e sobre como seu portal tinha sido criado, detalhadamente. Aquilo era realmente intrigante, e eu fui me lembrando de quanto gostava de tecnologia. Mesmo assim, ainda não sabia se devia confiar no pinguim. Eu ainda estava desconfiado sobre tudo aquilo.

Depois de terminarmos a conversa, resolvemos comer algo. Dylan tinha contado o porquê de a comida aparecer instantaneamente quando estivéssemos com fome. Era um mecanismo da ilha. Um de seus objetivos ao criá-la era fazer com que todos fossem felizes. Se ninguém passasse fome, não seria preciso roubar comida, obviamente. Outras coisas, como a fogueira que tinha aparecido instantaneamente, evitaria o frio. Várias outras coisas evitariam que alguém passasse necessidades.

De repente, uma pergunta surge em minha cabeça:

— Ei, Dylan. Tem uma coisa que não faz sentido no seu plano. Por que você quis trazer todo mundo pra cá a força? Não seria mais fácil fazer uma propaganda, sei lá?

Aquilo tinha passado por minha cabeça várias vezes. Era muito mais difícil levar todos da ilha com vários pinguim encapuzados.

— Eu tentei — ele respondeu.

— Oi?

— Eu tentei... Falei com o Gary, fiz um acordo com o governo. Eles iriam financiar todo o projeto e o Gary iria me ajudar no que fosse necessário. Estava tudo indo perfeitamente, tudo iria dar certo. Até já tínhamos começado. O governante iria anunciar o projeto dentro de alguns meses, quando eles descobriram minhas verdadeiras intenções.

— Suas intenções? Tipo, de ser um ditador? — perguntei, com os olhos semiabertos. Não podia me esquecer de que, no fundo, ele não era um bom pinguim.

Dylan hesitou um pouco.

— Basicamente.

— E aí? O que você fez depois?

— Estava tudo acabado. Eles tentaram me incriminar e se eu continuasse a criar o portal, poderia até ser preso. Então eu falei que iria parar com tudo e não incomodaria mais ninguém. Eu menti. Não era depois de tão perto que eu desistiria.

— Comecei a procurar alguém confiável para me ajudar. Depois de meses, percebi que os Henderson poderiam ser de grande ajuda. Os Henderson eram uma família rica, milionária. Consegui entrar em contato e fizemos um acordo. Eles financiariam toda a construção do portal em troca de privilégios na Ilha do Club Penguin. Eles seriam de classe alta e teriam muito poder. Tudo deu certo e eu pude continuar a construção do portal.

— Mas, agora, havia um porém. Como eu disse, se eu continuasse a fazer o projeto, poderia ser preso. Por isso, tudo deveria ser feito escondido. E não teria mais isso de propagandas, todos precisariam ser levados a força. Eu não conseguiria fazer tudo sozinho, então fui contratando várias pessoas, principalmente das ilhas vizinhas. E assim, eu fui criando o grupo de encapuzados que me ajudaram mais tarde. Quanto maior a ajuda, maiores os privilégios que eles ganhariam na nova ilha.

Quando percebi uma pausa, perguntei:

— Então foi aí que você virou um louco fanático que destrói natais? Nós nem fizemos o festival do solstício ano passado...

Ele pareceu irritado com o comentário, e só continuou:

— No dia do evento beneficente da Cadence, que era o dia do ataque, primeiro nós capturamos o primeiro-ministro e as pessoas que trabalhavam com ele. Depois, aproveitamos que a maioria dos pinguins estaria no evento e atacamos.

“E foi aí que tudo começou.” Pensei.

— Sério que tudo isso aconteceu enquanto estivemos separados? — perguntei — É estranho... Tipo, eu nunca imaginaria essa história toda. E os Henderson? O que aconteceu com eles?

— Ah, eles devem ter conseguido tirar todas as provas que envolviam eles com o portal. Mas acho que estão muito bravos comigo. Afinal, todo o investimento deles não serviu para nada.

Ele ficou quieto, olhando para o chão. Agora, já estava anoitecendo.

— Por que nós não voltamos para o píer? Essa floresta aqui não é um lugar muito bom pra gente ficar. — ele sugeriu.

Eu fiquei pensando antes de dar a resposta.

— É... Podemos ir.

— Então vamos logo. Tem muitas coisas dessa ilha que eu ainda quero te mostrar! — ele parecia empolgado com aquilo, e após um segundo já estava de pé, pronto para sair dali.

Eu não conseguia imaginar que surpresas me aguardariam naquela ilha incrível e misteriosa.