Juan Hussie

No momento em que anoiteceu, nós já estávamos de volta ao píer da ilha. Aquele lugar ainda parecia o mesmo de quando eu tinha chegado lá. As palmeiras predominavam no mesmo local, as pedras também... É, não sei por que eu estranhava. Por que algo estaria diferente?

É que... Depois de Dylan falar tanto sobre a tal “ela”, comecei a desconfiar que ele se referia à própria ilha. O lugar teria vida? Afinal, aqueles terremotos não pareciam ser feitos por alguém em si. Parecia que a própria ilha tinha vontade própria.

Mas eu não tinha certeza. Não tinha certeza de nada e ele não queria entrar no assunto. Mas ele tinha prometido, e, provavelmente, uma hora falaria. Então, fiquei um pouco tranquilo em relação a isso.

— Você realmente acha uma boa ideia me mostrar a ilha agora? Tipo, já está anoitecendo, é melhor a gente esperar ficar de dia. Eu nem vou conseguir ver as coisas — falei para Dylan.

— É, você tem razão. Vamos dormir aqui e amanhã nós damos uma olhada por aí.

Nós montamos nosso “acampamento” e começamos a comer em seguida. Dessa vez, experimentamos um famoso prato da cultura do Club Penguin que tinha vários frutos do mar. A comida daquele lugar era realmente deliciosa. E, pelo que parecia, eu não ia morrer por comer ela, e isso me deixava aliviado.

Depois da janta, vi uns instrumentos que estavam em uma loja na pequena área comercial da praia. Eu corri para pegar um ukulele e voltei para o lado da fogueira que emitia uma pequena luz no meio da areia. Eu e Dylan começamos a conversar e depois eu comecei a tocar Be wherever you are, do desenho Steven Universe, que era uma das únicas músicas que eu sabia tocar. Não era fácil usar um instrumento de corda.

Eu não podia acreditar nisso, mas estava me divertindo ali. Eu não estava apaixonado, nem amava Dylan, nem o odiava por ser meu ex. Nós estávamos apenas ali, como... amigos. E parecia que tudo estava bem.

Mas no fundo, todas as minhas preocupações caíam sobre meus amigos e os outros cidadãos do Club Penguin. Eu não podia evitar pensar neles, nem que quisesse. Queria tanto uma maneira de ajudar...

— Ei, Dylan — chamei — E o portal? Você tinha conseguido ativar. Não tem como você ativar de novo pra gente voltar pro CP?

Ele pareceu decepcionado.

— É... Eu demorei meses pra ativar ele novamente. Estamos em outubro, como você disse, não é? Eu tinha conseguido, mas... Do momento que você passou pra cá, muitas peças saíram do lugar e eu perdi a energia que estava armazenada. Seria bem complicado montá-lo de novo.

— Ah...

Fiquei observando o fogo. Eu não sabia o que fazer. Uma agonia crescia em mim a cada dia. E se eu voltasse para o Club Penguin e tudo estivesse diferente? Calma, vamos pensar positivo!, uma voz dizia em minha cabeça. Mas muitas horas não dava.

Eu parei de tocar e me deitei em uma toalha na areia. Estava quente. Eu olhei para o céu, para as estrelas... Para a enorme lua, aquela bola de neve gigante que refletia a luz do sol.

Dylan também se deitou em uma toalha, a alguns metros de mim. Ele olhou para o céu, assim como eu.

— Está tudo tão diferente... — comecei a falar — Eu estou diferente, você também. Não se parece quase nada com o Dylan de 16 anos.

— É, ainda bem, né? Já se passaram dez anos.

Dez anos.

Tudo tinha mudado tanto. De vez em quando, mudanças me davam medo. Mas de vez em quando, tudo estava bem.

Mas, após alguns minutos, adormeci.

O sonho daquela noite pareceu mais real do que os demais.

Eu estava de volta no Club Penguin. Estava em um iglu, e lá estavam Greeny, Minkis e Thay. E também... Outro pinguim, que eu não sabia identificar quem era.

— Precisamos encontrar o Juan! — Greeny exclamava.

— Não. Nós estamos melhores sem ele — Minkis dizia, contrariando-o.

Nós estamos melhores sem ele, a frase se ecoava em minha mente. Melhor sem ele, estamos melhor sem ele, sem ele, sem ele... Nós estamos melhores sem ele.

— PARA! — exclamei.

E então, o sonho mudou completamente.

Thay estava no centro de sete bruxas, que, de olhos fechados, diziam várias palavras que eu não conseguia distinguir. A lua estava avermelhada, como se uma faca a tivesse perfurado e o sangue saísse por um buraco, cobrindo-a por inteiro. A luz vermelha se refletia por toda a ilha. Nada fazia sentido.

Eu dava gritos de horror. Aquilo era realista demais. Eu não queria, não queria ver. Imagens passaram pelos meus olhos, mas eu tentei tampá-los para não ver.

Melhores sem ele, melhores sem ele. A frase voltava a ecoar. Eu não queria mais, não queria...

E então, acordei. E vi o sol bater na minha cara. Dei um suspiro ao saber que aquilo tinha sido apenas um pesadelo.

***

Logo que acordamos, Dylan me chamou para ir até a área de lojinhas do píer. Várias lojas de roupas estavam ali, mas uma se destacava no centro. Era como uma Ultimate Clothes Store, de acordo com o pinguim. Fiquei ansioso para ver o que teria de tão especial lá, até que entramos pela porta circular.

Era um lugar bem espaçoso e arejado. A sala era toda retangular e tinha várias portas em suas paredes. Parecia até um shopping, ainda mais com a fonte que jorrava água no meio, seus banquinhos e plantas. A diferença é que não tinham lojas. Apenas as portas de madeira e as paredes brancas.

Ele me levou até a mais próxima e me empurrou para dentro. Dylan parecia muito empolgado. Já eu... Nem tanto.

— Vem cá, coloca isso aqui — disse ele, apontando para um capacete de metal, bem daqueles de cientista maluco. Fiquei um pouco receoso, mas, por fim, coloquei — Certo, agora só deixa eu ligar e...

Ele foi andando até um computador no canto da sala. Enquanto isso, observei o local. Ele era cheio de papéis com estampas, tintas, tesouras, colas e outros objetos de DIY. Bem no centro, estava um manequim: um pinguim de madeira em tamanho real, em cima de um suporte roxo. O teto da sala era coberto de máquinas com pinças, que, provavelmente carregariam coisas. Por fim, em uma estante com várias prateleiras, estavam peças de roupas: moletons, saias, vestidos, camisas, calças... Mas todos eram totalmente brancos, nenhum tinha cor ou estampa.

Quando Dylan ligou a máquina, ouvi um barulho de algo vibrando. Ela estava funcionando. Agora, o que aquilo faria? Comecei a entender quando vi a plataforma onde o manequim estava começar a girar. E parecia que... eu queria fazer aquilo. Era eu que estava a controlando.

— Agora... Você cria a sua própria roupa — Dylan disse, atrás de mim.

Eu não entendi muito bem, até ver que, quando eu pensei em uma camiseta, uma das pinças do teto começou a funcionar, pegou uma camiseta das prateleiras e a “vestiu” no manequim. Quando pensei na cor preta para a peça, outra pinça pegou um tipo de tubo de tinta e o pressionou sobre uma parte da roupas. Ela, automaticamente, ficou inteiramente preta.

Aquilo era simplesmente... Incrível.

Após algum tempo de criação, eu tinha roupas novinhas: uma calça jeans azul clara, uma camiseta roxa com uma estampa cheia de estrelas em um universo e, para colocar por cima, uma blusa quentinha de moletom de zíper preta com um desenho de um arco íris bem em seu centro. Ainda eram roupas comuns, mas eram muito bonitas.

O dia passou rápido. Logo depois, Dylan me levou até o Monte Nevasca. Era uma das montanhas mais altas da ilha, e seu topo era mais frio do que o Dojô da Neve. Lá dava pra ver grande parte da ilha. Suas florestas, suas construções...

Depois, fomos até a vizinhança de iglus, onde diversos iglus pareciam se aglomerar e se misturavam em meio à neve. A Prainha do Coco era um bom lugar para relaxar: era cheia de areia, pranchas eram vistas de um lado ao outro e algumas cabaninhas. Me lembrava a Prainha do Club Penguin original.

Após o rápido dia me “aventurando” pelos vários locais daquela grande ilha, nós estávamos de volta ao píer, o lugar onde estávamos na noite anterior.

— Dylan, não acredito que vou dizer isso, mas... Hoje foi bem divertido.

Ele riu agradavelmente.

— É, foi sim...

— Eu imaginava essa ilha como um lugar horrível, sabe? Cinza e escuro, triste... Mas é tudo tão agradável, tão colorido. Todos os pinguins teriam acesso a isso tudo? Não parece tão horrível...

Ele hesitou naquele momento.

— É... Então... — Olhou para o chão, com um meio sorriso em seu bico — Na verdade, para ter um iglu maior, você precisaria ser um assinante. E para criar as roupas também.

A alegria foi desaparecendo de mim. Não podia ser...

— E para usar a tirolesa... E nadar... E usar o telescópio do farol... — a lista foi crescendo. Era tão grande que, para resumir, era mais fácil dizer que tudo menos respirar era apenas para assinantes. Eu não podia acreditar que tinha confiado novamente naquele idiota corrupto.

— É. Esse lugar não parece mais tão legal assim — eu falei, seriamente, enquanto me levantava e andava um pouco para longe, sem olhar para trás.

— Juan! — Dylan exclamou — espera!

Eu parei por um segundo.

— Eu não acredito que confiei em você. Dylan, você é mais corrupto do que os últimos governantes do Club Penguin. Você realmente acha que as pessoas viveriam aqui? Ou apenas... sobreviveriam? Sabe, nesse momento eu fico realmente feliz que seus planos deram errado. Ninguém merece, sabe?

— Mas eu disse, eu mudei! Por favor, confia em mim.

— Eu tentei, Dylan. Mas não tem como.

Ele ficou em silêncio. Eu ainda não tinha olhado para trás. Já estava pronto para continuar a andar, quando ouvi o pinguim falar em voz alta:

— Então eu vou fazer o que você me pediu desde que eu falei que ia contar tudo: vou te falar quem ela é!

Meus olhos se arregalaram. Eu não podia evitar me sentir ansioso. Eu queria muito saber.

— Venha aqui e me siga, se quiser as respostas para suas perguntas.