Segunda-feira Outra Vez...


Uma semana se passou desde o dia em que Ramonn descobriu sobre a existência dos Miraculous. Agora ele volta para a escola como se nada tivesse acontecido, ou pelo menos é como ele gostaria de pensar, mas a realidade não pode ser reescrita tão facilmente. Ele chega mais cedo do que o de costume, talvez por ansiedade ou antecipação, passando reto por uma equipe de limpeza que estava levando o lixo coletado na área arbórea para fora da escola. Alunos evitavam o pátio descoberto, sinal de que o episódio popularmente conhecido como “Fiapo de Demônio” ainda afetava a mente dos que o presenciaram. Tentando não lembrar do fato de que aquele cachorro, outrora gigante que aterrorizou algumas almas, agora vive debaixo do seu teto, Ramonn se concentra em suas tarefas diárias. Um garoto baixinho, de cabelo bagunçado e jeans rasgado se aproxima.


Garoto: — “Bom dia cara... Cê tá legal? Parece que viu um fantasma. Na real, todo mundo tá estranho, se pá eu tô sonhando ou fui parar em outra dimensão.”


Ramonn: — “... Dante! Que bom te ver, e não, sai dessa brisa.”


Dante: — “Alguém morreu? Pra que esse clima de velório? Se bem que as segundas-feiras são um porre mesmo.”


Ramonn: — “Cara, nem te conto, semana passada foi uma loucura, cê não viu as notícias?”


Dante: — “Nem TV eu tenho, e eu tava resolvendo uns lances meus, não enrola e me conta a fofoca. Quem saiu no braço?”


Ramonn: — “Quê? Não, é meio difícil de explicar, mas... Um cachorro gigante invadiu a escola e botou todo mundo pra correr! Aí... Bem, eu fui pra casa morrendo de medo, não contei nada pra minha mãe, ela ia achar que eu perdi a cabeça e me levar ao médico. No dia seguinte saiu tudo nos jornais, aí ficamos apavorados, ninguém foi pra escola pelo resto da semana, acho que muitos vão faltar essa também.”


Dante: — “... Mano, e depois tu fala que eu que tô na brisa? Vai entender [Me apoio contra a parede].”


Ramonn: — “E-Eu sei que parece absurdo, mas é verdade, qualquer um vai te confirmar.”


Dante: — “Relaxa, na real eu também invento umas histórias bizarras de vez em quando pra faltar nessa escola, tô pensando em faltar amanhã mesmo. Tem aquele professor mó chatão e-! “


Ramonn: — “[Seguro os ombros de Dante] Isso é sério! Você saberia se tivesse vindo semana passada... Seu turista!”


Dante: — “[Sou sacodido pelos ombros por Ramonn] Hehehe, calma ae carai.”


De repente um homem de quarenta e poucos anos aparece atrás de Ramonn, usando um terno preto e gravata borboleta branca, levando uma pasta debaixo do braço. Ele os observa por um momento mais longo do que o normal.


Homem: — “Algum problema aqui? Meninos.”


Ramonn: — “! N-Não, nenhum problema senhor... [Me viro e fico ao lado de Dante].”


Dante: — “É cara, só dois manos botando o papo em dia, saca?”


Homem: — “Entendo, desculpe interromper. Me chamo Walter, mas podem me chamar de ‘Val’. Serei o novo orientador de vocês, então se algo estiver perturbando essas mentes tendenciosas e corações férteis, saibam que estou aqui para ouvir quando estiverem à vontade.”


Ramonn: — “Oh! Seja bem-vindo e obrigado. Acho que veio na hora certa, estamos passando por um momento complicado...”


Dante: — “O nome é Dante, e esse maluco aqui é o senhor Ramonn da Silva dos Santos dos Reis.”


Ramonn: — “[Coro envergonhado] Hehe, ele não precisa saber o meu nome inteiro... Ninguém precisa.”


Dante: — “Só tô te apresentando, ele vai acabar sabendo mesmo. Ó, esse aqui é representante de sala, líder do time de vôlei da escola, vice-líder do grêmio estudantil e ainda por cima líder do clube de animais. Tem que impor respeito [Passo um braço pela cintura de Ramonn, me apoiando nele.].”


Ramonn: — “D-Dante! Não estamos causando uma boa primeira impressão... E para de me expor assim, aff.”


Val: — “Haha! Não se preocupem meninos, eu vejo além da superfície, sem julgamentos. Acho admirável que tenha tantos títulos, senhor Ramonn, talvez possa me ajudar em minha gestão por aqui também, hm? Inclusive, vocês por acaso viram o meu cachorro? Ele fugiu do meu alcance.”


Ramonn: — “[Pigarreio] Desculpe, não vimos nenhum cachorro... Bem, com certeza não o que o senhor perdeu, sinto muito. E claro, se tiver alguma dúvida e eu estiver por perto, conte comigo.”


Val: — “Obrigado, e você tem um amigo muito esperto, espero que continuem assim. Agora se me dão licença, preciso ir para a minha sala, tenham um bom dia [Aceno com a cabeça e saio andando].”


Dante: — “Mmm... Sujeito estranho, fala estranho, age estranho, até me chamou de esperto... Será que tá tramando alguma coisa?”


Ramonn: — “Isso é educação básica, Dante, agora vamos para a nossa sala antes que você olhe torto pra mais alguém hehe.”


Aulas mais tarde no início do almoço o refeitório estava lotado, e quem não ficava em pé, comia sentado no chão mesmo. Ramonn sentou em um dos bancos do lado de fora de frente para o pátio descoberto, perdido no lembrança do ocorrido, embora não tão abalado por isso. Quando percebeu, o próprio diretor estava sentado ao seu lado no banco, um homem barrigudo de cinquenta e poucos anos com a barba por fazer.


Ramonn: — “S-Senhor diretor Welligton! Boa tarde.”


Diretor Well: — “Boa tarde meu rapaz, por que não pegou um cantinho lá dentro com os outros?”


Ramonn: — “Ah... É que eu não quis ocupar o lugar que mais alguém poderia precisar. O refeitório se tornou um porto-seguro das lembranças daquele dia. Eu saí da escola a tempo, então não sei o que houve, por isso aqueles que ficaram presos precisam disso mais do que eu.”


Diretor Well: — “Entendo, é uma atitude muito nobre da sua parte... Muito bem, poderia me acompanhar até minha sala?”


Ramonn: — “T-Tudo bem. [Me levanto e sigo o diretor até a sala dele].”


Monitor e Monitorado


Uma vez lá dentro Ramonn observa a decoração. Era um tanto rústica pelos móveis de madeira e quadros de uma época antiga, mas com um computador sobre a mesa e uma cadeira ergométrica atrás dela, onde o diretor sentou sobre uma almofada. Aquele espaço era estranho para o garoto, por nunca precisar entrar lá e por parecer mais um cômodo da própria casa do diretor do que o de uma escola padrão. O cheiro leve de uma fragrância atiçava o nariz, algo como o perfume forte que o diretor usava e uma centelha de um odor indefinido, quase como se fosse escondido de propósito.


Ramonn: — “(Será que são verdade os rumores de que o diretor fuma escondido na escola?) Então, por que me chamou aqui? Algum problema? Senhor diretor.”


Diretor Well: — “Que bom que perguntou rapaz, eu estou passando por um momento difícil no meu casamento e... [Mexo nos papéis em cima da mesa].”


Ramonn: — “[Percebo uma manta e um travesseiro em cima do sofá no canto da sala] D-Digo, o senhor precisa de mim para algo em específico?”


Diretor Well: — “Ah, sim, obrigado por me lembrar. A professora Helena iria te avisar, mas já que está aqui vou te contar. Você será encarregado de monitorar um novo estudante que foi transferido.”


Ramonn: — “Um transferido? Mas quem? Quando? Eu vou precisar deixar meus deveres com o clube e o vôlei?”


Diretor Well: — “Não meu rapaz, sem você essas coisas complicadas cairiam em mãos duvidosas, não queremos que os nossos índices caiam, hm? Você sempre pode arrumar um tempinho para estudar com ele, até aos sábados ou aos domingos, claro, menos em dias de reposição de dia letivo.”


Ramonn: — “Ahhh... Certo... Não tem outro monitor disponível? É que eu tô com a agenda meio cheia.”


Diretor: — “Infelizmente não, alguns alunos precisam de mais de um monitor, e às vezes até os monitores precisam de monitoramento haha! Se quiser, podemos mudá-lo para a sua sala também, assim vocês podem caminhar no mesmo ritmo durante as aulas, deixando o estudo objetivo para quando achar melhor e aos fins de semana. O que acha disso?”


Ramonn: — “... Q-Quando eu começo? [Sorrio para não chorar].”


Diretor Well: — “Esse é o meu garoto. Você poderá encontrá-lo na secretaria antes da hora da saída. [Me levanto e acompanho Ramonn até a porta].”


Ramonn: — “Qual o nome dele mesmo? [Pergunto antes de sair].”


Diretor Well: — “Vincenzo Trajano.”

Ramonn saiu andando pelo corredor, respirando fundo o ar puro da escola enquanto processava o novo peso que caiu sobre seus ombros. Ele percebeu que não havia mais ninguém no refeitório, dando-se conta de que as aulas da tarde já haviam começado e de que precisava ir logo para a sua sala. Às vezes o diretor Wellington acabava por estender suas conversas com Ramonn, não se importando de levá-lo para outros assuntos, ou desabafos. Talvez fosse porque ele tinha sérios problemas em separar detalhes da sua vida pessoal do trabalho, comprometendo o seu profissionalismo. Ou talvez fosse pela falta de funcionários, e como a maioria são mulheres, ele se sentia mais à vontade em compartilhar certas coisas com Ramonn, que praticamente já fazia parte da logística escolar. Na última aula, antes de ir para a secretaria se encontrar com o seu futuro tutorado, ele puxou Dante para um canto do corredor.


Ramonn: — “Cara, eu... Tenho um favor pra te pedir.”


Dante: — “Late cachorro.”


Ramonn: — “Escuta, isso é sério, eu preciso da sua ajuda. Talvez eu tenha que faltar algumas aulas do clube, ou chegar atrasado, você pode me substituir?”


Dante: — “... Nem cem de mim poderiam, cachorro.”


Ramonn: — “P-Por que tá me chamando de cachorro?!”


Dante: — “Porque você não para de balançar o rabo pra esse sistema educacional opressor que te usa e sobrecarrega até não poder mais, só pra alcançar as metas do governo pra injetar mais dinheiro na gestão que deixa todo o trabalho pra gente em nome do ‘protagonismo’.”


Ramonn: — “Isso... Foi profundo. Mas nem é pra tanto, eu só tô te pedindo pra fazer as atas das reuniões, garantir que todo mundo assinou a ata e anotar os materiais que o pessoal pedir pra próxima semana. Vai ser fácil!”


Dante: — “Putz, não compensa... [Andressa passa por nós no corredor e minha visão a segue].”


Ramonn: — “... [Apalpo a traseiro de Dante, vendo-o sobressaltar-se].”


Dante: — “O-Ohw! Aí não, tô me resguardando pra cremosa.”


Ramonn: — “Quem é o cachorro agora? Rsrs. Ó, se você me ajudar com as coisas do clube, eu posso te apresentar pra ela, hm?”


Dante: — “Cê tá loko? Ela é areia demais pra minha charrete, tipo o deserto do Saara, tá ligado?”


Ramonn: — “Eu conheço ela, é a melhor do time de vôlei. Acho que só votaram em mim como líder por terem medo dela hehe. Late logo que eu tô com pressa, me ajuda ou não?”


Dante: — “Au-au, digo, sim-sim. Você é meu parça, claro que faço de tudo por mulher bonita-errr, amigo.”


Ramonn: — “[Faço careta como se tivesse chupado um limão] É, entendi... Bom, a gente se vê, tchau.”


Dante: — “Roof! [Aceno enquanto saio pelo corredor].”


Peripécias da Serpente


Ramonn toma o seu caminho em direção à secretaria, questionando levemente sua sanidade mental e elaborando a hipótese de que a sua amizade com Dante o leva por caminhos estranhos, até para ele que se tornou um garoto mágico. Ao chegar lá, um garoto sem o uniforme da escola está encostado contra o portão mexendo em seu celular, seus cabelos loiros acinzentados e de corte raspado evidenciam os seus olhos azuis entediados. Ramonn o vê caminhar em sua direção, ainda sem tirar a atenção do celular.


Ramonn: — “Ei, você é o...? [O garoto passa por mim batendo levemente o ombro no meu] (Ah?!) [Me viro] Vincenzo Trajano.”


Enzo: — “[Paro ao ouvir meu nome e me viro para o encarar] Hm? Quem te deu permissão pra me chamar pelo nome inteiro? É Enzo pra qualquer um que não for importante.”


Ramonn: — “[Sorrio para disfarçar uma carranca] Permissão? Olha, o meu nome é-!”


Enzo: — “Não precisa se explicar, eu entendo, só não espalhe meu sobrenome por aí. Agora eu preciso ir atrás da minha assistente que resolveu não aparecer, me deixando no vaco... Heh, um clássico.”


Ramonn: — “(Assistente?) Enzo, né? Você não deveria conhecer o seu MONITOR? Bem, aqui estou eu.”


Enzo: — “[Olho para o garoto dos pés à cabeça] Você? Passo. Agradeço a oferta garoto, mas prefiro alguém mais... Qualificado.”


Ramonn: — “(Aé?) Bem, sinto informar que não há outra pessoa para te (aguentar) tutorar. Por que não começamos de novo? Me chamo R-!”


Enzo: — “Mas que absurdo! Eu exijo o melhor do melhor, não um qualquer que mal sei o nome.”


Ramonn: — “D-Dá pra parar? Qual é o seu problema?”


Enzo: — “Parar? Você é quem está me prendendo aqui, esse é o problema.”


Ramonn: — “GRRR?!”


A professora Helen entra na sala dos professores perto da secretária para guardar umas coisas antes de sair da escola, então percebe o falatório vindo de fora. Ao encontrar Ramonn e outro garoto discutindo, resolve intervir questionando o motivo de estarem ali depois que o sinal tocou. Enzo reverte a situação explicando que ele estava apenas tentando ir embora quando foi abordado por Ramonn, que justifica estar ali à mando do diretor. No final todos foram parar na sala do diretor.


Diretor Well: — “Professora Helena? [Paro o que estou fazendo] A senhorita não bateu na porta. O que significa isso?”


Prof. Helen: — “[Suspiro] Desculpe entrar assim, diretor Wellington, mas eu também não esperava encontrar esses dois discutindo na secretaria. [Toco o ombro dos dois ficando entre eles].”


Diretor Well: — “Ora, mas o que que acontece? Ramonn, logo você? [Me endireito na cadeira].”


Ramonn: — “N-Não é nada disso! Eu fui vê-lo para me apresentar como monitor, mas ele nem me ouviu, só ficou me interrom-!”


Enzo: — “Diretor Wellington, eu sei que deve compreender que alguém como eu precisa de uma mentoria mais especializada e capaz, não quero ter que sobrecarregar um colega com a minha dificuldade especial para os estudos em questão. Alguém como a professora aqui presente já seria ótima para garantir minha ascensão. [Cubro a mão da professora em meu ombro com a minha].”


Ramonn: — “[Observo a cena com os sobrancelhas franzidas e uma expressão levemente embasbacada] (Sua cara já me sobrecarrega.).”


Diretor Well: — “Bem-Bem, vejo que sabe se comunicar muito bem, e sem dúvidas a Professora Helena é uma das melhores-!”


Prof. Helen: — “[Pigarreio] Wellington, acho que o rapaz não está a par de como as coisas funcionam aqui, nós não admitimos esse tipo de conduta e temos protocolos a serem seguidos, certo?”


Diretor Well: — “Muito bem dito. Não quero ter que notificar os pais de vocês por uma briga besta dessas. Então por favor, colaborem.”


Ramonn: — “Desculpe perguntar, mas não posso mudar de tutorado? Eu troco com alguém, qualquer um.”


Enzo: — “Vê? Ele mal me conhece e já está rebaixando meu valor como tutorado devido a minha dificuldade no aprendizado. Se essa é a conduta que vocês tem aqui, acho que vou ter que mudar de instituição.”


Diretor Well: — “Ordem, vocês dois! Vincenzo Trajano, eu recebi uma carta do seu pai me explicando em detalhes sobre essa sua ‘dificuldade’ especial, e acredito que um dos nossos melhores estudantes é mais que suficiente pra sanar suas dúvidas. E agora ganhou minha atenção especial, precisa de mais alguma coisa ou estamos de acordo?”


Enzo: — “[Minha expressão fica séria ao mencionar meu pai, mas sorrio.] Estamos sim, agora se me dão licença, meu carro me espera. [Levanto e saio da sala].”


Diretor Well: — “[Suspiro] E Ramonn, não quero ver você discutindo com esse garoto novamente. Poderia acompanhá-lo? Professora H-!”


Prof.Helen: — “Helen já está bom, boa tarde e até amanhã, Wellington. [Acompanho Ramonn até a calçada pela secretaria.]”


Ramonn: — “Vocês viram o que eu vi, né? Ele que começou tudo.”


Helen: — “Sim, os abusados são assim, já dei aula pra muitos iguais a esse, e dou até hoje.”


Ramonn: — “Desculpe por você ter se envolvido, eu perdi a linha, acho que faz tempo desde que tive que lidar com alguém desse tipo.”


Helen: — “Bobagem, é o meu trabalho, eu quem deveria ter intermediado desde o começo, o Wellington às vezes esquece que vocês ainda estão passando por uma fase conturbada.”


Ramonn: — “É, mas ele acredita em mim, mesmo que eu não seja tudo isso às vezes... [Seguro meu antebraço] Não sei se consigo ensinar um cara como aquele.”


Helen: — “[Toco o ombro de Ramonn] Você não precisa concertá-lo, precisa dar o exemplo. Tente, e se não funcionar, pode deixar que eu falo com o Wellington pra trocar vocês, hm?”


Ramonn: — “[Suspiro aliviado] Obrigado professora Helen, você é a melhor rsrs.”


Ninho de Serpentes


Ramonn se despede da professora Helena e vai embora para casa. Enquanto isso, um carro estaciona no estacionamento de um prédio, dele Vincenzo é acompanhado pela motorista até um apartamento. Ele tira seu casaco e o entrega a um homem para pendurar no cabideiro de parede, então tira o tênis para não sujar o carpete. Ao passar pela sala de estar, uma mulher sentada em uma poltrona no canto o chama para se sentar, ele obedece.


Mulher: — “Querido Vince, como você cresceu, fazem anos que não te vejo e mal me cumprimenta? [Ascendo um cigarro].”


Enzo: — “Desculpe, tia Anastácia, estou com a cabeça cheia.”


Tia Ana: — “Me chame de Ana, sobrinho. E como foi a sua viajem até aqui? [Trago o cigarro].”


Enzo: — “Cômoda, mas admito que o carro é de um modelo abaixo do esperado, e a motorista foi uma surpresa.”


Tia Ana: — “[Sopro a fumaça] Meu irmão, seu pai, sempre foi antiquado, mas imaginei que você fosse por um caminho diferente.”


Enzo: — “... Uma boa surpresa, lá em casa temos muitas funcionárias, assistentes, cozinheiras e etc.”


Tia Ana: — “Vai perceber que além de sua motorista, contratei duas guarda-costas, do resto um dos meus homens já será suficiente [Sinalizo com a mão para o funcionário na cozinha].”


Enzo: — “Não era a senhora que sempre me dizia pra ir atrás do que mereço e não apenas do suficiente?”


Tia Ana: — “Estamos no interior, não seja mimado. O seu pai me deixou claro que você não está aqui por bom comportamento, então cuide para me impressionar se quiser voltar aos seus padrões [Me levanto da poltrona e vou para a janela].”


Enzo: — “[Apoio os braços no encosto do sofá] Sim senhora.”


Tia Ana: — “Não sei exatamente do que se trata e também não me apetece, só faça o que tiver que fazer para que o seu pai não me indique como corretivo novamente. Tsk... Como se eu não tivesse mais o que fazer.”


Enzo: — “Sinto por nossa reunião não ser em melhores circunstâncias, mas garanto que a senhora mal me ouvirá aqui, gosto de ocupar meu tempo no meu quarto e sem ser incomodado.”


Tia Ana: — “Ah sim, no seu quarto, deixaram um envelope pra você. É da sua mãe, não entendo essa fixação por cartas.”


Enzo: — “Se me permite então, vou me retirar, tenho muito o que pensar e estou cansado [Levanto do sofá e me dirijo para o corredor].”


Tia Ana: — “Como quiser, boa noite, querido.”


Vincenzo entra em seu quarto, trancando a porta atrás dele. Há uma cama de casal, uma escrivaninha e um guarda-roupa, além de um banheiro anexado e uma pequena varanda. Ele abre sua mala em cima da cama, espalhando suas roupas por ela até encontrar um brinco dourado de uma orelha só, ao ponha-lo, um kwami verde escuro semelhante a uma serpente com plumas verde-limão e vermelho bordô aparece, analisando os arredores. Ao se sentar na escrivaninha e abrir o envelope, o kwami flutua até repousar em cima da cabeça de Vincenzo, bisbilhotando o conteúdo da carta enquanto sua cauda sinuosa traça padrões no couro cabeludo raspado dele.

“São Paulo, 08 de Junho de 2025


Querido Filho,


Quando eu soube que você iria partir para outra cidade passar o resto do ano letivo em uma escola pública, seu pai já havia te enviado, então acredito que ele não fez questão de esclarecer a situação em maiores detalhes.

A verdade é que, estamos investigando uma possível sabotagem de um concorrente para com a empresa da família. As safras de café foram perdidas por conta de uma contaminação de origem desconhecida, as vacas e o gado adoeceram, muito provavelmente pelo pasto também contaminado.

Você é o único herdeiro da empresa atualmente, e claro, sem desconsiderar os seus descasos recentes com a imagem da família, concluímos que essa temporada de teste fornecerá desafios e recompensas equivalentes para que você reflita sobre o seu papel dentro dessa família.

Sua tia, Anastásia, foi indicada por seu pai aceitou ser sua responsável durante esse período longe de nós. Tenho certeza de que ela tem o que é necessário para mantê-lo seguro e alheio à crise que estamos enfrentando. Se concentre em terminar o ano letivo com no mínimo, excelência e resultados, o futuro da nossa família depende do quão satisfatório será o seu retorno.


Atenciosamente, Elizangela Trajano.”


Kwami: — “Porra... Agora entendi de onde vem esse seu linguajar.”


Enzo: — “Não dê tanto crédito a ela, Balyssk, muito provavelmente foi a secretária dela que passou a limpo... A mesma foi quem me ensinou a falar cordialmente.”


Balyssk: — “Bem, parece que o seu plano de culpar um concorrente pela nossa sabotagem funcionou, mas isso não te ferra também? Príncipe herdeiro [Escorrego por trás da sua orelha para o ombro].”


Enzo: — “Tsk! Não me chame assim, eu sou um rei [Me levanto com a carta em mãos e vou para a varanda, me apoiando no parapeito].”


Balyssk: — “E eu sou um kwami, mas já fui chamado de Basilisco, o Rei das Serpentes.”


Enzo: — “Heh, rei ou príncipe, meus pais estão querendo me tirar do jogo. Acham que eu não sei sobre o desejo deles de ter outro filho, uma garantia, acham que sou idiota [Pego o isqueiro no meu bolso e ascendo, queimando a ponta da carta e jogando-a da varanda para vê-la sumir no horizonte].”


Balyssk: — “E como a crise que criamos ajuda?”


Enzo: — “Enquanto eles saem do meu pé até a poeira abaixar, podemos espalhar nossa diversão por essa região agora. A empresa do meu pai não é nada perto do que estamos fazendo.”


Balyssk: — “Uhhh! Gostei disso... Fazer a sua família nos mandar pra longe, deles, e da polícia. Belo bater em retirada com um toque de vingança.”


Enzo: — “Obrigado, agora, vamos relaxar. Ainda há muito o que fazer [Volto para dentro do quarto].”


Pressão Explosiva


Na casa de Ramonn, no quarto dele, o garoto trabalha em seu pequeno quadro negro pendurado na parede. Unovaa entra flutuando pela porta aberta, vendo-o rabiscar o quadro com um giz branco, então vai para o lado dele ver o que ele está fazendo.


Unovaa: — “Nossa Picasso, dessa vez você se superou ein... As letras garrafais até me lembram do cubismo.”


Ramonn: — “Hm? N-Não é uma pintura! É o meu cronograma.”


Unovaa: — “Você não tem um celular pra isso? E se vai escrever em um quadro, não é melhor um daqueles brancos?”


Ramonn: — “Às vezes eu gosto de expandir o espaço onde escrevo, ajuda a pensar. Eu ganhei de aniversário e agora que eu tô com a agenda lotada preciso cobrir cada cantinho desse quadro!”


Unovaa: — “Tá, eu ascendi o fogão com o acendedor e brinquei com o Astro, como você pediu, mas eu não sou babá de cão! Eu estou aqui para-!”


Ramonn: — “Para impedir que o portador do Miraculous da Borboleta continue transformando cães em demônios, eu sei heh [Rabisco o quadro].”


Unovaa: — “Não! É Akumatização, akumatizando cães... I-Isso não é só sobre cachorros, você não sabe do que ele é capaz.”


Ramonn: — “Qual é, eu... [Meu sorriso vacila] Eu vou pensar em alguma coisa, mas agora tenho meus próprios problemas pra lidar [Rabisco o quadro mais rápido].”


Unovaa: — “Ah, claro, como se você conseguisse lidar com qualquer coisa que apareça... Ou com mais de uma coisa ao mesmo tempo.”


Ramonn: — “Eu tenho lidado com tudo muito bem até agora, okay!? [Meu rabisco sai bruscamente da linha].”


Unovaa: — “[Me surpreendo e me afasto].”


Ramonn: — “[Suspiro] D-Desculpa, é que eu acabei de receber uma dor de cabeça nova hoje e...!”


Rosana fecha o portão e passa pela garagem. Astro corre da sala para o corredor, suas patas deslizam no piso liso fazendo-o se esparramar contra a parede, mas ele se recupera e vai ao encontro dela para farejar suas botas e calças.


Rosana: — “Ohw, coitado do menino... [Faço carinho em Astro] Meu filho, eu disse que se fossemos ter um cachorro, seria uma adoção planejada, agora aonde vamos enfiar essa bolinha de pelos saltitante? [Ouço o chiado da panela de pressão] Ramooonn, não me diga que esqueceu de desligar o feijão!”


Ramonn: — “Ah não, ai meu feijãozinho! [Corro do quarto para a cozinha para desligar o fogo rapidamente]”


Rosana: — “[Entro na sala e vou para a cozinha] Eu já disse que com panela de pressão não se brinca! Quer me matar do coração?”


Ramonn: — “[Tiro a panela do fogão e coloco debaixo da torneira ligada] É-É que eu tô com a cabeça cheia hoje heh.”


Rosana: — “Ah! Tira essa panela daí já! Assim não pode, tem que deixar perder pressão sozinha.”


Ramonn: — “!!! [Tiro a panela da pia e deixo no fogão, então vou para o lado da minha mãe] M-Merda...”


Rosana: — “[Suspiro] Agora deixa ali e não chega perto... Então como foi a escola hoje? Claramente tem algo te distraindo.”


Ramonn: — “[Coro envergonhado] P-Por onde eu começo? Hehe.”