Notas iniciais
Aviso Importante: Este capítulo, assim como os demais a partir desse, podem conter e trabalhar temas sensíveis (TW/AG/Gatil).

A Rotina de Um Kwami

O despertador toca acordando Unovaa, que passou a dormir dentro do armário de Ramonn desde que se revelou para o portador. Conforme o garoto acorda, toma seu café da manhã e se prepara para o dia na escola, o kwami permanece dentro do quarto para não chamar a atenção. Quando a mãe de Ramonn saí para trabalhar e o garoto está prestes a sair também, Unovaa lembra de que a rotina do humano é corrida, talvez até mais do que deveria. Com apenas o cachorro Astro na casa, o kwami passa as horas de pouca liberdade que tem explorando os pertences de Ramonn, que sempre está anotando coisas e deixando recados para si mesmo. No quarto da mãe, encontra-se mais organização e limpeza, um laptop barato serve de meio para Unovaa se distrair com o entretenimento humano. Astro segue o kwami sempre que pode, fazendo-o evitar o voo baixo para não levar uma mordida, mas algumas perseguições e trapalhadas do animal se mostram divertidas. Quando se dá conta de que Ramonn está para chegar em casa, Unovaa volta para o armário onde dorme ao lado do diadema, encarando o objeto enquanto reflete sobre sua própria existência e condição atual.

Ramonn: — “[Entro no quarto, deixo a mochila no chão e caio de cara na cama] Ahhh...”

Unovaa: — “[Me aproximo da cama flutuando] Garoto.”

Ramonn: — “[Levanto a cara do travesseiro] Sim?”

Unovaa: — “Eu quero sair.”

Ramonn: — “H-Hm? [Me viro de lado] Mas e se alguém te ver?”

Unovaa: — “Posso me esconder no Miraculous, lembra? Só põe o diadema e não tira da cabeça.”

Ramonn: — “É-É que eu só uso em dia de jogo de vôlei, e às vezes nos treinos...”

Unovaa: — “Então começa a usar o tempo todo, assim eu vou poder te acompanhar durante o dia.”

Ramonn: — “O tempo todo? Até no banho? Rsrs.”

Unovaa: — “[Suspiro revirando os olhos] Sim, até no banho. O Miraculous não é só uma joia ou adereço, é o que me força a ser visto, manejado e controlado por vocês, humanos. E eu me recuso a ficar preso dentro dessas paredes por um capricho.”

Ramonn: — “[Surpreendo-me e fico sem palavras processando a informação] ... É que usar a tiara sem uma ‘desculpa’ pode me fazer alvo de comentários desagradáveis.”

Unovaa: — “[Me viro dando as costas para Ramonn, minha cauda circunda minha forma defensivamente] E quando precisar se transformar? Acha mesmo que vai conseguir fugir de qualquer situação e voltar correndo pra casa?”

Ramonn: — “[Sento na cama] Não... E se eu levar na minha mochila?”

Unovaa: — “[Me viro de volta parando na metade do caminho] Não sou fã de espaços apertados, lembra do pote de biscoitos? Mas é um começo.”

Ramonn: — “Hehe. [Levanto da cama, pego a tiara no armário e a ponho] Eu confesso, tenho me distraído da ideia de passar por tudo aquilo de novo, mas eu quero que saiba que eu não te vejo como um objeto, pode se expressar honestamente comigo.”

Unovaa: — “[Termino a volta para te encarar, minha cauda cai aliviando a tensão] Isso é uma ordem?”

Ramonn: — “Pff-Hahaha, e ainda diz que não gosta de piadas. Vem logo, vamos assistir algo na TV antes que a minha mãe chegue [Saio do quarto em direção a sala de estar].”

Unovaa: — “[Sigo logo atrás, deixando um sorriso escapar] Gigante sem noção...”

Peste Noturna

Ramonn e Unovaa passam a próxima hora assistindo TV na sala de estar, evitando o anunciante de tragédias “Badalo Geral” e o canal de informação “Orbe Repórter”, focando em qualquer novela que estivesse passando no momento. Nesse meio tempo, até Astro se juntou ao garoto no sofá, procurando receber carinhos. Mas quando o cão parou de roubar a atenção ocasionalmente de Ramonn, suas orelhas saltaram e ele partiu em disparada para o portão, sinalizando que Rosana havia chegado do trabalho. Unovaa se escondeu no diadema e o garoto foi recebê-la, ambos puderam compartilhar um resumo de seus respectivos dias. Percebendo como a mãe estava particularmente exausta, já pedindo para Ramonn esquentar o jantar enquanto ela tomava um banho, ele teve uma ideia.

Ramonn: — “E se a gente pedisse comida fora hoje? Não, melhor, eu vou naquele carrinho de lanche que a gente adora perto da praça [Digo me dirigindo à porta].”

Rosana: — “Lanche em plena terça-feira? E o senhor vai assim?”

Ramonn: — “! [Aponto para a tiara] Ah, isso? É o meu novo estilo, muitos caras prendem a franja também, sabia?”

Rosana: — “Eu falo da roupa de escola, besta, ai se você sujar... [Suspiro com a mão na testa] Tá tarde, quero você de volta antes das 22:00, sem enrolar, entendeu?”

Ramonn: — “A-Ah, é mesmo heh [Coro envergonhado] Eu só vou ter que esperar o moço terminar de fazer os lanches e volto correndo, como é dia de semana, o movimento é menor e a fila também. Viu? Eu já pensei em tudo!”

Rosana: — “Pensou é? Rsrs (Saudade do tempo em que você não pensava em nada que não precisasse) Juízo, entendeu?”

Ramonn assente e saí pelo portão entusiasmado. Ao chegar em uma travessa que conecta uma rua à outra, ele se transforma discretamente, agora sem a preocupação de um perigo iminente. O garoto pula para cima dos murros e telhados das casas com agilidade felina, sentindo os ventos permearem por seus cabelos, agora volumosos tal como uma juba de leão. A corrida de obstáculos até a praça, com direito a movimentos de parkour concedidos pela magia, tornam a viagem mais rápida e sem pausas, extasiando Ramonn com a adrenalina. Ao se aproximar da praça, as mesas e bancos extras que rondam a carroceria onde são preparados os lanches estavam vazias. O garoto se transforma de volta em cima de uma árvore um pouco distante do carrinho, descendo para o chão com cuidado para não sujar sua roupa. Ao fazer o pedido, esperar o preparo e pagar pelos lanches, Ramonn volta andando calmamente pelos quarteirões, a cidade parecia adormecer a cada passo e o silêncio se tornou inquietante.

Unovaa: — “Ei-!”

Ramonn: — “[Me sobressalto] F-Fala baixo, que susto, não tá vendo que a gente tá no meio da rua?”

Unovaa: — “Eu tô com fome, já enjoei dos biscoitos da sua casa, me dá um pedaço do seu lanche.”

Ramonn: — “Não dá pra esperar até a gente chegar em casa?”

Unovaa: — “Você se transformou, agora preciso comer, só aí você pode voltar transformado, animal.”

Ramonn: — “Pff-Rsrsrs, você fica de mal humor quando tá com fome, né? Tá, mas só uma mordidinha rápida [Abro o saco do lanche, deixo Unovaa entrar e comer um pouco].”

Unovaa: — “Mmm... É bom mesmo, nunca havia experimentado isso.”

Ramonn: — “É o meu favorito. Qual é a sua comida favorita?”

Unovaa: — “Eu gosto de experimentar coisas novas o tempo todo, se eu comer uma coisa só por um tempo, fico enjoado.”

Ramonn: — “Entendi, só não espere um cardápio novo todo mês, tá? Às vezes a gente precisa se contentar com o básico.”

De repente ambos ouvem um estrondo, como o barulho de vidro quebrando, vindo de um quarteirão próximo. Ramonn vai cuidadosamente pelo canto de uma travessa checar a origem do som. Chegando ao bairro comercial, ambos veem os vitrais frontais de lojas de roupas e de eletrônicos estilhaçados na calçada. Manequins rasgados, equipamentos quebrados, como se alguém tivesse surtado e descontado a raiva na moda e no recurso. Ao final da rua, uma padaria estava aberta, mas sem ninguém dentro e com alguns produtos faltando. Ramonn pega o celular, pronto para chamar a polícia, quando o kwami percebe uma movimentação e saí da sacola, sinalizando com a cauda para um vulto subindo pela lateral da padaria em direção ao telhado.

Ramonn: — “Não pode ser um akumatizado, né? Um cachorro não faria isso.”

Unovaa: — “Óbvio que não é um cachorro, e eu te falei que isso era apenas o começo. Você precisa ir atrás de quem quer que seja aquele sujeito.”

Ramonn: — “Q-Qual a chance de ser só um criminoso normal subindo por uma escada?”

Unovaa: — “Garoto...”

Ramonn: — “Eu sei, eu sei! Mas isso é diferente do Astro akumatizado, eu não sei se consigo, não sei como reagir.”

Unovaa: — “E se aquele for o portador do Miraculous da Borboleta? É a nossa chance de acabar com esse pesadelo!”

Ramonn: — “[Suspiro e checo o horário no celular] No melhor dos casos, não é nada mágico e podemos aproveitar o embalo pra ir pra casa mais rápido. É, parece um plano.”

Unovaa: — “Você sabe o que dizer.”

Ramonn: — “Unovaa, recombinar genoma.”

Ao se transformar, Ramonn escala o edifício ao lado do beco e corre de telhado em telhado até o mais próximo da padaria. Ele pensa em dar um salto de fé até o outro lado, mas pela distância considerável, o garoto se afasta para pegar embalo. As botas de casco de carneiro ajudam na investida, e ele apoia um pé no poste para dar um segundo pulo, mas mesmo assim o outro pé escorrega na borda do telhado, fazendo-o cair no toldo da padaria. Ao subir de lá e finalmente cair dentro do telhado, Ramonn vê uma figura encapuzada de costas para ele, observando a lua cheia.

Ramonn: — “[Levanto do chão] E-Ei você!”

O Fruto Proibido

O encapuzado se vira ao ouvir o garoto, há um saco de pão em seu braço, mas transbordando de gostosuras. Ele estava no meio de uma mordida na maçã em sua outra mão, a coisa mais saudável em sua posse. Suas presas levemente afiadas penetram a casca da fruta devagar enquanto ele olha de cima a baixo o visual do garoto. No meio tempo de sua mastigação, Ramonn percebe que na testa dele, a base de uma coroa prateada contrasta com o fundo verde escuro do capuz preto, a máscara preta com o branco descendo pelas laterais realçam o olhar azulado. Por baixo do sobretudo preto com detalhes dourados, um padrão de listras vermelho-branco-preto-branco-vermelho descem até onde começa o calçado, de superfície em preto e branco alternados.

Encapuzado: — “Que porra é você?”

Ramonn: — “O-O quê? Eu? Sou uma Quimera.”

Encapuzado: — “Leão, carneiro, serpente... O que vem depois? Unicórnio? Rá!”

Ramonn: — “I-Isso não vem ao caso!”

Encapuzado: — “[Deixo o saco no chão e me aproximo] Embora, devo dizer que me sinto lisonjeado pela sua máscara de serpente, deixa todo o resto menos feio.”

Ramonn: — “De serpente? [Toco meu rosto] (Ah é, eu não me olhei no espelho assim... Espera, ele me chamou de feio?!) Isso é irrelevante, e quem é você? [Dou um passo para trás]”

Encapuzado: — “[Faço reverência] Pode me chamar de Assalto, portador do Miraculous do Basilisco, e você seria? Zoológico ambulante.”

Ramonn: — “Eu... Sou o portador do Miraculous da Quimera. E que tipo de nome é esse?”

Assalto: — “Melhor que “Quimerda” [Jogo a maçã para Quimera] Se queria participar da diversão, chegou tarde, mas como sou generoso posso permitir que me acompanhe na próxima.”

Ramonn: — “Gr, diversão? [Olho para a maçã, depois para Assalto] Olha, eu sei que você deve estar em uma situação difícil, chegando ao ponto de roubar e descontar sua frustação, mas usar um Miraculous para esse fim não é a solução.”

Assalto: — “[Levanto uma sobrancelha] Situação difícil? Ah, não, não... Eu só fiz isso porque é divertido.”

Ramonn: — “!? [Olho para Assalto incrédulo] Você não tá falando sério, isso é destruição sem propósito.”

Assalto: — “Claro que eu tô [Apoio as mãos atrás da cabeça] Aquelas roupas nas vitrines eram falsificadas, dava pra ver, então eu as rasguei pra que ninguém tivesse o mal gosto de comprá-las. Os eletrônicos estavam mofando naquelas caixas, agora eles vão ser obrigados a vender os danificados mais barato. E quem é que liga pros donos de uma padaria?”

Ramonn: — “[Minha mão se curva em um punho, esmagando a maçã] Você não sabe o que fala... E as funcionárias da padaria? Pessoas dependem desses empregos, por menores que sejam. Nunca foi sobre os donos, você só não se importa. É problemático.”

Assalto: — “... E daí?”

Ramonn: — “GR [Pego a minha corda, testo sua resistência em minhas mãos antes de jogá-la em sequências na direção de Assalto em movimentos verticais].”

Assalto: — “! [Desvio para os lados, minhas pernas compensando o desequilíbrio dos movimentos do meu tronco, ainda com as mãos atrás da cabeça] Wow, quase [Ao descruzar os braços, com uma mão seguro a corda e a puxo em minha direção, com a outra pego o chicote em minha cintura e lanço sua ponta para se enroscar na cauda de Quimera, puxando-o para trás].”

Ramonn: — “!! [Perco o equilíbrio em um pé só, caindo no chão de costas] Arg! Inovação [Ouço a voz de Unovaa em minha mente dizer “Farejar Aliados”] Farejar... Sniff-sniff, ugh, cheiro de cachorro molhado. Poderia ter vindo algo mais útil.”

Assalto: — “[Piso no peito de Quimera para mantê-lo no chão] Pfff! Então esse é seu poder? Uma roleta de cassino? Quem criaria algo tão azarado?”

Ramonn: — “A-Arg! [Seguro seu calcanhar com a mão] Não é sobre aumentar as hipóteses, mas sim controlar as perdas.”

Assalto: — “Inspirador [Tiro meu pé de cima de Quimera] Agora, permita-me mostrar o meu, Miasma [Assopro uma neblina cinza que se espalha, cobrindo o corpo de Quimera por um momento antes do vento dissipá-la].”

Ramonn: — “!!! [Respiro inevitavelmente a neblina por estar ofegante, depois que ela desaparece, me acalmo, mas começo a sentir uma dormência estranha se apossar do meu corpo] O-O que você fez comigo?!”

Assalto: — “Relaxa, é só uma paralisia temporária. Mas depois daqui recomendo fazer um check-up, você vai ficar mais frágil pelos próximos dias.”

Ramonn: — “[Tento falar ao sentir Assalto sentar sobre meu peitoral, mas devido à paralisia, não consigo] !!!”

Assalto: — “Que meia-coroa bonita, posso ver? [Digo já estendendo a mão para pegar a tiara, mas em vez disso, apenas deslizo os dedos por um dos chifres de carneiro] Mmm, esses chifres deixam mais difícil de alcançar, interessante [Saio de cima de Quimera] Que grosseria da minha parte, já tocando em seus chifres quando acabamos de nos conhecer. Que tal assim, vou marcar um segundo encontro [Ando de uma lado para o outro] Vou ter que arranjar um tempinho pra você na minha agenda apertada... Hm, terça que vem? É, acho que vai dar [Me afasto de Quimera, então volto deixando o saco de pão ao lado dele] Um presente, pra compensar o incomodo, até na terça ao pôr do sol [Corro do telhado pulando para a rua].”

O pânico silencioso de Ramonn se acalma após Assalto ir embora, suas sensações voltam conforme o efeito do Miasma passa, permitindo a ele se sentar, só para depois rolar e se esfregar no chão quase em um frenesi de instinto que não consegue controlar. Quando o formigamento passa e o corpo quente esfria em cansaço natural, o garoto pega uma gostosura do saco de pão desejando consumí-la, mas ao lembrar de onde isso veio e de quem lhe deu, ele a deixa de lado e se levanta. As mãos tremem enquanto ele respira fundo por alguns momentos, quando tudo parece ter se apaziguado dentro dele, Ramonn joga o saco de pão dentro da padaria por cima do toldo e pega outra rota para ir para casa. Ao chegar, ele entra pela abertura do telhado acima do corredor entre a garagem e a sala, transformando-se de volta ao tocar o chão. O garoto deixa o lanche da mãe na mesinha da sala de estar quando a mesma entra, vindo da cozinha.

Rosana: — “Se atrasou, deu tempo de dar um banho no Astro antes do meu próprio banho. Aconteceu alguma coisa?”

Ramonn: — “... S-Sim, a fila tava maior do que eu esperava, e o cliente na minha frente ficava andando de um lado pro outro indeciso. Foi só um erro de cálculo.”

Rosana: — “Hmm... Estranho. Tinha algum bêbado na rua? Eu sempre digo que é melhor dar a volta no quarteirão que passar do lado de bar.”

Ramonn: — “Rsrs, é mesmo, e eu não esqueci... P-Posso comer no meu quarto? Foi um dia puxado [Pego meu lanche e me dirijo para o quarto].”

Rosana: — “Tá bom então... Boa noite, filho.”

Ramonn fecha a porta do quarto e desce as costas contra ela até sentar no chão, Unovaa saí da tiara, planejando perguntar o que houve, mas ao ver o garoto comendo o seu lanche em silêncio no chão, resolve se abster até de pedir um pedaço como é costume. O kwami rapidamente se esconde no armário, como se pressentisse que sua presença poderia causar algum desconforto. Quando Ramonn está prestes a terminar o lanche, ele olha para o armário, lembrando que Unovaa também está com fome.

Ramonn: — “Unovaa... Vem aqui, eu guardei o último pedaço pra você [Estendo a mão e desvio o olhar].”

Unovaa: — “[Saio do armário e me aproximo, sento cuidadosamente na mão de Ramonn, envolvendo o pedaço com a cauda antes de começar a comer] O-Obrigado.”

Ramonn: — “[Seguro Unovaa em meu colo enquanto o vejo comer] Unovaa... Precisamos conversar.”