Notas iniciais

Espero realmente que gostem! Boa leitura!

Mesmo com a insistência da terapeuta, Adrien não abria mão da sua casa por outra cidade. Não abria mão da sua antiga vida por uma nova. Agora, o herdeiro e único Agreste restante, se via na responsabilidade de manter, pelo menos a parte boa, de seu pai ainda vivo.

Ele não era um rapaz de negócios apesar de ter muito conhecimento sobre. Depois da prisão de Nathalie pela morte do pai, Adrien entrou em contato com a senhora Tsurugi, mãe de Kyoko, para tomar a frente dos negócios da família temporariamente, Adrien, por sua vez, manteria os olhos sobre a mulher e cada passo deveria ser comunicado à ele. Assim, poderia dar sua total atenção à escola e, no tempo livre, às exigências quase escravistas de Plagg.

O kwami tivera um papel decisivo na última batalha, há quase seis meses e, desde então, não houveram mais vilões, sequer houve problemas em Paris. Muito pouco passou a ver Ladybug e, nas poucas vezes que via, ela parecia mais distante que o normal, como se não fosse mais a mesma pessoa por trás da máscara. Adrien entendia o motivo.

Nooroo, o kwami que pertencia à Hawk Moth, desapareceu no dia em que tudo acabou. A princípio, nada havia mudado: Nooroo continuou desaparecido e, mesmo no aniversário de Plagg, ele não apareceu. Ladybug afirmava que a culpa era dela e que ela fora descuidada, contudo, talvez com um olhar egoísta que Adrien negava para si mesmo, tudo estava acabado: Nooroo continuava desaparecido, mas não havia mais um segundo Hawk Moth, o que era um ótimo sinal.

― Adrien! ― Plagg cutucou a cabeça do garoto várias vezes até que esse abrisse bem os olhos. ― Adrien!

A pequena criatura do tamanho de um polegar flutuava com seus grandes olhos verdes cutucando ainda freneticamente o garoto.

― O que foi?! ― Perguntou assim que se sentou. Estava assustado, o ocorrido era incomum. Seu braço doeu, o que gerou um “ai!”, havia machucado seriamente na batalha de seis meses atrás. Carregava um ar de medo e esperança nos olhos.

Finalmente, Plagg apontou para o despertador.

― Já vai apitar!

Adrien suspirou.

― E por que me acordou?

― Por que já vai apitar.

― Mas é exatamente para isso que serve um despertador, Plagg.

O garoto se levantou quando o beep do despertador tocou.

― Pensei que devesse acordar mais cedo, hoje, sinto que é um dia especial! ― O kwami comemorou.

― É? Por quê?

Adrien não conseguia pensar no porquê aquele dia poderia ser especial. Checou a agenda antes de dormir e aquela sexta-feira seria um dia comum: escola, fotos, piano, entrevista, lazer, piano, dormir.

― Você é realmente insensível. Hoje faz cinco anos! Três anos que se tornou o Cat Noir.

Ouvir Cat Noir causou um forte arrepio no garoto. Não que o incomodasse, mas Cat Noir era um dos responsáveis pelas piores coisas que aconteceu para Paris e na própria vida de Adrien: O surgimento de Hawk Moth e a morte de Gabriel Agreste. Por sorte, Paris se recuperava rápido das coisas, já Adrien, nem tanto.

― Três anos? ― O tom da sua voz era mais que suave, era carregado de emoção e não boas emoções.

Plagg não respondeu. O kwami sentiu o que Adrien sentia, o elo empático não falhava.

― Desculpe, Adrien, eu não quis…

Adrien se virou para Plagg com um largo sorriso no rosto. Quase que imediatamente, Plagg se sentiu melhor, talvez Adrien também estivesse bem com tudo e o que aconteceu não passou de uma tristeza de momento.

― Então temos que comemorar!

Ele não falhava nas promessas para Plagg como também não tentava falhar com ninguém. Comprou na padaria um dos queijos mais caros ― e fedidos ― do estoque e prometeu passear durante a noite, afinal, nada poderia atrapalhar depois da hora de dormir. Depois de tomar café-da-manhã, Adrien seguiu para a escola. Talvez o único lugar onde podia ser quase tão livre quanto Cat Noir.

Cumprimentou Nino e Alya com muita calma e o sorriso de sempre além da típica reclamação de ter dormido de mais. Com a falta da necessidade de um Cat Noir, Paris estava tão segura quanto antes da existência dos heróis, o que permitia que Adrien dormisse mais cedo que o normal, matando parte do tempo que reservava da antiga rotina para praticar piano. Mesmo depois de tanto tempo, ele não se sentia bom o suficiente para desistir das teclas do piano.

Ou talvez fosse uma das mais fortes lembranças do pai.

― Bom dia, Adrien! ― chamou uma garota.

Os cabelos loiros denunciavam claramente quem era.

― Bom dia, Chloé. ― O garoto sorriu.

Mesmo depois do fim do mandato de seu pai, Chloé optou por morar com Sabrina Raincomprix já que o pai se mudaria para a Inglaterra com a mãe. Para ela Chloé: “eles estão perdendo uma grande oportunidade”, e talvez ela estivesse certa. Chloé foi, talvez pela primeira vez, aluna destaque do último semestre e ― sim, pela primeira vez ― por mérito próprio. Até mesmo a relação com Marinette Dupain-Cheng se estreitava.

― Vi que vai estar na capa da Photo desse mês, é verdade? ― a garota perguntou.

― Vou sim, eles estavam esperando eu me sentir melhor sobre, sabe, o ocorrido.

― Já faz seis meses, Adrien, além do mais, era Hawk Moth!

― Era meu pai, Chloé.

Chloé se calou por um momento, se desculpou friamente e voltou a caminhar. Talvez fosse a vantagem de estar de luto: evitar pessoas como Chloé.

Paris inteira estava chocada com o que aconteceu. Um grande designer sendo descoberto como mais terrível vilão existente, contudo, Adrien via a motivação do pai depois de tudo. Se unisse os dois miraculous, o seu e o da Ladybug, Adrien poderia ter sua mãe de volta. Contudo, Mestre Fu havia deixado claro o preço das coisas, a troca equivalente, uma alma por outra, um corpo por outro, um sumiço por outro e nenhuma das opções parecia boa para Adrien, mas Gabriel Agreste não sabia disso.

― Adrien? ― Nino chamou arrancando o garoto dos pensamentos tão distantes que sequer o permitiam perceber Marinette em sua frente. ― Marinette quer falar com você.

Nino e Alya se afastaram para deixar os dois à sós. Marinette não demonstrava o nervosismo rotineiro e tampouco o nervosismo para falar com Adrien. A relação dos dois era quase piada, ela fingia, muito mal por sinal, que não gostava de Adrien e ele fingia, provavelmente perfeitamente, que não sabia o que ela sentia. Adrien se sentia prometido à Ladybug e, por mais que a heroína o negasse, se via na necessidade de insistir. Também não queria magoar Marinette e a rejeitar sem que ela ao menos tentasse dizer algo além do “vamos sair para tomar um sorvete hoje?”.

Então era mais fácil se fazer de inocente.

― Não vai dar hoje, estou com a agenda lotada, mas podemos ir amanhã? Sem falta, eu prometo.

Nos últimos dias, a jovem de olhos levemente puxados, como um intermédio entre o pai e a mãe, se apresentava mais reclusa. Não comparecia mais com a mesma frequência à escola e alegava estar ajudando os pais na confeitaria. Adrien não a questionava. O ocorrido há seis meses não fora algo fácil para a população parisiense.

― Claro, tudo bem ― concordou a garota e então fez uma curta pausa. ― Como está se sentindo com tudo? Sabe, com as coisas do seu pai e…

― Estou indo bem, eu acho ― disse quase que instantaneamente.

Gostava de conversar com Marinette, ela era uma ótima ouvinte e uma amiga inigualável. Sabia quando comentar as coisas certas.

― A minha terapeuta insiste que eu me mude, mas não consigo me ver em outro lugar, gosto de estar aqui.

Marinette sorriu.

― Ainda bem, aqui podemos te ajudar com, hum, sorvetes baratos e passeios cansativos.

Adrien soltou um riso.

― Gosto de sorvetes baratos e passeios cansativos.

O sinal tocou alto. Depois de sugerir irem para a sala, Marinette concordou sem pestanejar. Outro dia estava se iniciando. E seria longo.