Pestanejar não traria Nooroo de volta, tampouco resolveria os problemas de ciências que Marinette tinha nas mãos. Já estava escurecendo e, como havia combinado com Cat Noir, aquela seria uma noite de patrulha. Pelo menos uma noite de patrulha em dupla já que Ladybug saía todas as noites para procurar o kwami perdido.

Desde a morte do Mestre Fu, há quase um ano, Marinette se manteve responsável pelos miraculous que habitavam a caixa, fato que fazia com que a culpa pela ausência de Nooroo ficasse mais pesada. Além desse problema, se via obrigada a pensar na situação de Adrien, afinal, ela fora uma das culpadas pela morte de seu pai.

Essa segunda culpa causava certo conflito em si: ela não tinha culpa do pai do garoto ser Hawk Moth, mas Adrien também não. Foi necessário para Ladybug, mas talvez devastador para Marinette, era uma das escolhas de herói: o útil desagradável, ou, o inútil agradável. Uma balança muito bem equilibrada.

Mesmo que o golpe final não tenha sido dado por ela, e, aparentemente, nem por Cat Noir, ela causou o confronto final, algo necessário dado que Hawk Moth estava exageradamente poderoso.

Aquela noite de seis meses atrás, Ladybug havia descoberto, graças à um acidente que ela mesma causou com a caixa dos miraculous, a localização de Hawk Moth: a mansão Agreste, o que confirmava noventa e oito por cento da sua suspeita sobre Gabriel Agreste. Ela e Cat Noir estavam correndo atrás de outro rapaz akumatizado, ele se denominava Raio e claramente fazia juz ao nome. Era muito difícil persegui-lo sem perdê-lo de vista.

Assim que chegaram à ampla sala que parecia ser um sótão, encontraram Hawk Moth, infelizmente, tarde demais. O vilão fez o uso de todos os miraculous da caixa e a batalha parecia inacabável. A última coisa que se lembra, foi de ver Cat Noir com o braço em um ângulo anormal e então apagou. Pouco tempo depois, acordou com uma forte dor de cabeça e boa parte da mansão dos Agreste destruída.

Cataclismo? Batalha mortal entre Hawk Moth e Cat Noir? Ela nunca iria descobrir. Depois daquilo, ela não encontrou Cat Noir e Hawk Moth estava caído entre os tijolos e ferragens da mansão, mas não estava mais na forma “Hawk Moth” e sim na forma Gabriel Agreste.

Desde então, tudo mudou. Tudo mesmo.

O humor de Cat Noir ficou mais para baixo, suas piadas sequer faziam muito sentido. Ladybug pensou ser por não ter mais motivos para ser Cat Noir, porém, ela ainda tinha uma missão para cumprir e queria que ele a ajudasse. Principalmente para não entrar numa espécie de “depressão pós-herói”.

De tudo o que Hawk Moth havia dito naquela noite, somente uma Marinette conseguia concordar naquele momento: “Seus dias de heroísmo acabaram!”. Mais ninguém comentava tanto sobre Ladybug e Cat Noir, eles eram agora apenas “heróis de periferia”, como falava um jornalista novo da cidade: Enzo Barboni. Agora, os tão aclamados inimigos de Hawk Moth combatiam crimes simples como invasão de privacidade ou roubos. Não que soasse ruim para Marinette, afinal, Paris estava milhões de vezes mais segura sem os akumas, mas havia a falta de um verdadeiro problema o que acabava por desmotivar tanto Cat Noir quanto Ladybug, Paris não precisava mais deles, eram descartáveis.

O herói precisava de seu vilão e um sem o outro, fazia a vitória perder o sentido.

Marinette fechou seu caderno e checou seu celular. Eram uma e vinte e cinco da manhã. Ela estava, mais uma vez atrasada. Acordou Tikki o mais rápido possível.

― Eu estou atrasada de novo! Cat Noir deve estar furioso! ― Reclamou.

― Marinette, acalme-se ― Ela olhou para o celular da garota e arregalou os olhos. ― É melhor irmos logo!

― Tikki! Hora de transformar!

Finalmente, depois de um dia cansativo, se sentir fisicamente revigorada era prazeroso: a elasticidade que só Ladybug possuía, a força e principalmente a certeza de que tudo que tudo daria certo.

Sentia o tecido se unir à pele e, com isso, total liberdade de movimento. O peso extra surgiu em sua cintura com a bolsa e um calor agradável pousou em seu rosto com a máscara. Sem pensar duas vezes, Ladybug saltou para a sacada do quarto e então para o telhado mais próximo.

De telhado em telhado em direção à torre Eiffel, pensava nos possíveis lugares onde Nooroo poderia estar: nas mãos de outra pessoa? E se essa pessoa fosse ruim como Hawk Moth? Ela nunca saberia ou ficaria sabendo da pior maneira?

― Está atrasada, Bugboo ― Cat Noir caçoou acompanhando a garota bem antes de chegar à torre Eiffel.

― Eu sei, mil desculpas pela demora! Eu tive que fazer uma coisa.

― Está tudo bem, eu também tive que cuidar de alguns assuntos.

Ambos pararam de correr sobre um dos telhados há algumas quadras da torre.

― Vamos procurar no leste da cidade dessa vez ― Ladybug afirmou.

― Já procuramos por lá, na verdade já procuramos em toda a cidade Ladybug.

Cat Noir não estava errado. Desde o fim de tudo, Nooroo sequer dava sinal de existência e Ladybug parecia obcecada por encontrá-lo, talvez não quisesse demonstrar pouco caso para uma causa perdida. No fundo ela sabia: Nooroo sequer devia existir mais.

Ladybug se calou. O que deviam fazer? Seguir as palavras de Enzo e se tornarem de fato somente heróis de periferia? Parecia mais em conta abandonar os miraculous e deixar os problemas que eles resolviam às autoridades competentes.

Seu silêncio foi quebrado por Cat Noir e só então percebeu que já estava calada há um tempo.

― Ladybug ― ele a tocou no ombro. ― Talvez já tenha acabado. Hawk Moth foi derrotado, não existem mais akumas. Paris está segura, o mundo está. Nós cumprimos nossa…

― Entendi, Cat Noir. Não precisa terminar essa frase ― ela interrompeu.

Cada palavra do garoto a invadiu como uma lâmina extremamente afiada.

Ser Ladybug fazia parte de Marinette e ser Marinette fazia parte de Ladybug. As personalidades eram distintas, mas o peso do heroísmo, ambas carregavam e, obviamente, ambas sofreriam com aquele “acabou”.

― Você está certo ― disse por fim.

O olhar de Cat Noir sobre ela não era muito diferente do que ela sentia sobre tudo. O fim sempre pareceu horrível, por qualquer lado que fosse.

Ladybug se virou para seguir para casa.

― Então talvez seja um adeus, gatinho ― ela disse baixo.

Antes que começasse a andar, Cat Noir a puxou para um abraço.

― Se precisar, basta mandar um sinal, My Lady. Se sentir saudade, principalmente.

Ladybug retribuiu o abraço.

― E isso não é um adeus ― Cat Noir explicou. ― Nunca vai ter um adeus.

O felino estava certo. Pelo menos falava com confiança. Apesar do peso em suas palavras, era claro que era isso que Cat Noir queria, afinal, não havia porquê continuar. Foi quando Ladybug percebeu o soluço. Cat Noir estava chorando.

― Ei, Cat Noir, não chore. ― Disse a garota. ― Veja, podemos continuar nos encontrando…

O garoto soltou o abraço e a olhou sorrindo. Apesar das lágrimas que escorriam pelo rosto de Cat Noir, ele ainda possuía o olhar esperançoso e inevitavelmente hipnotizante. Ladybug só se deu conta que estava congelada olhando para o garoto quando ele estava perto demais.

Se não fosse sua velocidade, Cat Noir provavelmente a teria beijado.

O dedo de Ladybug empurrou de volta a boca de Cat Noir e ambos se afastaram.

― Isso não é um passe-livre, gatinho ― ela sorriu vitoriosa.

― Pelo menos ainda terei tempo para tentar! ― Ele sorriu.

Ladybug retribuiu o sorriso. Depois de um “É claro que terá!”, ela lançou o iô-iô para o apoio mais próximo e partiu para casa.

Os dias de heroísmo poderiam ter acabado, mas não os de Ladybug e Cat Noir.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.