Miracle

24 Capítulo 24 - Uniform


Notas iniciais
Olá ~
Tenham uma boa leitura ~

Miracle


Capítulo 24 – Uniform


Mai olhou pelo canto dos olhos para Izaya. Não havia mais motivos para manter isso em segredo, certo?


– Mas eu nunca tive a intensão de enganar ninguém, principalmente você. – Respondeu, voltando a olhar para frente. – Só achei que seria mais fácil se achassem que eu era humana.


O informante se aproximou, ficando ao lado da garota, que olhava sem emoção para o cemitério do outro lado da rua. Izaya nunca gostou de cemitérios – nunca gostou de nada que estivesse relacionado à morte –, mas esse parecia ainda mais desagradável por causa das nuvens escuras que se acumulavam logo acima.


– Você me odeia? – Ela cortou o silêncio, virando-se para ele.


– Não.


– Eu achei que você fosse me odiar, como odeia o Shizuo. – Pareceu se sentir um pouco culpada.


– Você é tão imprevisível quanto ele, mas não tenho ódio de você. – Deu de ombros. – Afinal, você é minha fonte de diversão. – Riu, mas logo parou ao perceber que a outra não reagia; continuava a olha-lo de forma vazia. – Por que veio ao cemitério?


– Eu queria entender um pouco sobre o que é a morte, mas só olhar para um cemitério não parece ajudar muito, além de me fazer ver coisas desagradáveis.


– Coisas desagradáveis?


– Não parece, mas... Há muitas diferenças entre nós dois, digo, eu e os humanos. Muitas coisas fogem à minha realidade, que eu não consigo entender.


– Como a morte?


– Isso. E com o pouco que aprendi, confesso que tenho medo de saber mais.


– Mas isso significa que deseja ser ignorante. – Contrapôs.


– Pensar demais nisso me deixa insegura. – Ela respondeu, olhando diretamente nos olhos de Izaya, deixando claro que não era dela que estava falando.


– Eu não vou morrer. – Olhou seriamente.


Alguns pingos isolados começaram a cair sobre a calçada, até que começaram se espalhar por todo lugar. Para não se molharem, Izaya e Mai saíram rapidamente de onde estavam e entraram para debaixo de uma soleira de um prédio abandonado. O rapaz subiu para o último degrau da escada de cimento trincado e se sentou, enquanto a menina ficava ao seu lado, porém um degrau abaixo.


– Que chuva mais irritante, só serve para deixar o tempo ainda mais abafado. – Izaya reclamou, tirado seu casaco e colocando-o ao seu lado. Olhou com curiosidade para Mai, que estava logo abaixo, à procura de algo fora do “normal”.


– Quer que eu te mostre? – Perguntou, quase adivinhando seus pensamentos. – Algo além dos meus olhos que prove que não sou humana?


Antes que o informante respondesse, Mai já havia levado a mão até seu casaco e tirado seu canivete. Ela o abriu um pouco sem jeito e pousou a lâmina sobre a palma da mão, para depois aplicar força e arrasta-la lentamente. Sangue vermelho brilhante começou a brotar do corte. Deixou que saísse mais um pouco aos olhos de Izaya, para depois descer as escadas e colocar a mão para fora da proteção, deixando a água lavar seu machucado. Mai ainda ficou um tempo olhando para a própria mão, até que voltou a subir as escadas, parando com a palma aberta virada para Izaya. Não havia mais ferimentos.


– Viu? Meus ferimentos não duram muito, mas depende da gravidade e do local lesado.


– Não faça mais isso. – Repreendeu com evidente raiva no olhar. – Não é porque você é assim que pode se ferir ou deixar os outros fazerem com você.


– Desculpe. – Devolveu o canivete, que foi pego bruscamente, e voltou a se sentar.


Nenhum dos dois tomou a iniciativa para voltarem a conversar, deixaram que a chuva tomasse o silêncio. O moreno olhava para frente, sem um foco especifico, pensando em sua recente descoberta. Mai não era humana... Para a própria surpresa, não estava tão impressionado. Na verdade, saber disso só deixava as coisas mais simples de entender. Agora ele sabia que havia um motivo para ela ser desse jeito estranho e ter tantos mistérios. Só lhe restava descobrir quais.


– Se você não é humana, então o que você é? – Perguntou, fazendo-a virar-se para ele.


– Eu realmente não quero esconder nada de você, Izaya, porém essa é uma pergunta que, por agora, não posso responder. – Ela sorriu um sorriso gentil, mas que tinha um toque de tristeza. – Mas espere um pouco, que quando chegar a hora, vou lhe dizer.


– Esperar, é? – Estalou a língua. – Já é a segunda vez que você me pede isso.


– Segunda? – Olhou em duvida. –Quando foi a primeira?


– Não vou dizer.


– ... Você é estranho.


– Não mais do que você. – Respondeu. – Agora parando para pensar, um ser não humano está apaixonado por mim! Nunca imaginei que um dia isso pudesse acontecer. ~


– Não fique dizendo isso em voz alta! – Corou, fazendo Izaya rir ainda mais.


Ainda tiveram que ficar sentados naquela soleira por mais de meia hora, até que a chuva parasse. Assim que o último pingo bateu no chão, os dois saíram daquela escada e foram embora do aglomerado de prédios velhos. Caminhavam lado-a-lado, quando Izaya sentiu a manga felpuda de sua blusa ser puxada.


– Ei, Izaya, olha! – Mai apontou para o céu.


– Um arco-íris. – Observou.


– Sim! Não é lindo? É a primeira vez que vejo um com cores tão fortes. – Mai olhava para o céu, animada com a visão.


– Você se contenta com tão pouco, Mai-chan. Há tantas coisas no mundo que muito mais interessantes.


– Isso não é pouco, você humanos que não sabem apreciar as coisas.


– Fico imaginando como você reagiria se visse neve.


– Neve? – Olhou com curiosidade.


– Imagine milhares de pedaços gelados de algodão caindo do céu e se acumulando no chão. Isso acontece no inverno e faz muito frio. – Explicou, achando divertida a reação da menina.


– Que incrível! – Sua imaginação ia á mil, tentando visualizar a descrição que o informante lhe dera.


– No mundo existem muitas coisas interessantes que você nunca imaginou que pudessem existir, Mai-chan. E se minha boa vontade permitir, posso te mostrar algumas delas.


– Sério? Isso seria maravilhoso! – Sorriu com verdadeira gratidão.


Izaya encarou aquele sorriso. Ninguém sorria para ele daquele jeito, fora a própria Mai. Ninguém confiava ou esperava algo de bom dele, a não ser ela. Aquela estranha garota, tão inocente e pura, era a única pessoa a ter algum tipo de satisfação em ficar perto dele. Era a única que o amava.

Estreitou de leve os olhos e se inclinou sobre ela, que ao perceber a aproximação, deu um passo assustado para trás, com o rosto vermelho.


– De-desculpe. – Disse um pouco perdida.


Izaya preferiu não dizer mais nada, deu as costas para a garota e começou a caminhar, logo sendo alcançado por ela.



– Aconteceu alguma coisa, Anri? – Mai perguntou. Estavam no horário do intervalo, entretanto a de óculos preferiu não acompanhar Mikado e Masaomi até o terraço, se mantendo na sala durante o lanche na companhia de Mai, que puxou uma cadeira e sentou perto da amiga.


– Por que a pergunta? – Levou um pedaço de seu lanche à boca.


– Você anda um pouco distraída... – Estreitou um pouco os olhos e deixou sua voz um pouco mais séria. – Fora que as Saikas andam um pouco inquietas.


Anri se assustou com o comentário, olhando para os lados para ver se alguém havia escutado, felizmente ninguém estava prestando atenção nas duas.


– Nã-não fale dessas coisas em voz alta. – Pediu.


– Tome cuidado, Anri. – Advertiu. – A cidade anda muito perigosa.


– Mai-san... – Abaixou os próprios hashis. – Eu acho que o Orihara-san tem algo com o que está acontecendo.


– Provavelmente. – Assentiu simplesmente. – Mas infelizmente não há muito o que eu possa fazer.


– Por que não? – Se alterou um pouco. – Ele vai acabar ferindo pessoas inocentes.


– Eu sei disso. Só que o assunto agora só diz respeito a humanos, nada que tenha alguma relação comigo. Se ao menos tivesse um Dullahan envolvido, eu até poderia fazer algo.


– Você fala como se não fizesse parte desse mundo, mesmo vivendo nele.


– E não faço.


Com o último comentário, a conversa se deu por encerrada. Nenhuma das duas preferiu dar continuidade ao assunto, ao perceberem que iriam acabar discutindo e saindo completamente do foco principal. Logo as aulas se reiniciaram e lentamente chegaram ao fim. Enquanto se dirigiam para fora do colégio, Masaomi se despediu rapidamente dizendo que tinha um compromisso. Não demorou muito, Anri fez o mesmo, deixando Mikado e Mai sozinhos.


– ... Como foi o seu dia? – Tentou Mikado iniciar uma conversa, um tanto sem graça, pois eram poucos os momentos em que ficava sozinho com a amiga.


– Não precisa ficar assim, não vou fazer nada com você. ~ – Mai riu, imaginando que situações desse tipo eram comuns entre ela e Izaya.


– Não foi isso que eu quis demonstrar... – Respirou fundo. – Uns dias atrás eu te vi com o Orihara Izaya-san... Quer dizer, você disse que mesmo com o sobrenome igual, não tinha nenhum tipo de parentesco com ele, então qual a relação entre vocês dois?


– Ah. – A garota parou realmente para pensar. Agora que Mikado havia comentado, nunca tentou dar um nome para o tipo de relação que tinham. – Eu realmente não sei dizer.


– Hm... – Mikado parecia pensativo. – Você sabe quem é ele?


– Sei, sim.


Os dois caminharam juntos, até o momento em que seus caminhos se divergiram; Ele seguiu para sua casa e Mai continuou a andar sem rumo.

Seu colega havia levantado uma questão interessante. Nunca tentou definir o tipo de relação que tinha com o informante. Eles eram amigos? Conversavam bastante, ocasionalmente se divertiam e passavam muito tempo juntos. Porém haviam se beijado, e amigos não se beijam. Seriam namorados? Não, Izaya não a amava... E muito menos casados, apensar de ser secretamente sua vontade.

Então o que eles eram?


Durante boa parte de sua caminhada, ela ficou tentando dar um nome àquela complexa relação, mas sem muito sucesso. Parou de andar ao perceber que estava perto daquela mesma cafeteria em que viu Izaya com Atsuki. Ainda um pouco receosa, se aproximou lentamente, olhando furtivamente para dentro através dos vidros. Ficou muito surpresa, e até um pouco aliviada, ao ver Izaya lá dentro sozinho. Mais relaxada, entrou no estabelecimento e foi até onde o informante estava sentado – uma espécie de bancada virada diretamente para os janelões de vidro.


– Ora, ora, que agradável coincidência. ~ – Falou ao vê-la se aproximando.


– O que faz aqui sozinho? – Puxou uma cadeira para sentar ao seu lado.


– Apenas alguns negócios importantes. – Falou com uma macabra satisfação, olhando para fora. – Me responda uma coisa, Mai-chan, o que você tem a dizer sobre as Saikas?


– Por que quer saber? – Olhou desconfiada.


– Apenas curiosidade.


– ... Elas andam um pouco agitadas, alguém está ativando as filhas. – Respondeu, sabendo bem quem de quem estava falando.


– Como sempre sua habilidade é certeira. – Tomou um gole de seu café. – Quer comer algo? Mesmo que não vendam camarão com chocolate, sei que há muitas coisas que você vai gostar.


– Não estou com fome... – Respondeu emburrada.


– Há quanto tempo não come? Nem pediu à Namie-san que preparasse algo para escola. É melhor tomar cuidado para não ficar muito magra, gosto de mulheres com curvas. ~


– Não diga coisas assim, ainda mais em público. – Suplicou com o rosto corado, fazendo o outro rir. – Ei, Izaya. – Mai tentou deixar seu tom de voz um pouco sério e menos trêmulo. – Eu tenho uma pergunta.


– E qual seria?


– O que nós somos? – Voltou a olhar para frente, sem um foco especifico.


– Bom, eu sou um informante, já você é um mistério.


– Não é isso. – Ficou emburrada, virando-se para Izaya, mas sentiu seu coração dar um pulo ao perceber que o rosto do informante estava muito próximo do seu.


– Você quer saber que tipo de relação temos, não é? – Olhou nos olhos de Mai.


– É... – Encolheu-se um pouco.


– Essa é uma boa pergunta, Mai-chan. Eu também nunca havia parado para pensar nisso. Me diz você, o que gostaria que fossemos? – Provocou.


– E-eu... – Sua voz foi morrendo na medida em que o rapaz aproximava os próprios lábios dos dela.


Não foi o toque tão profundo como o beijo que tiveram no escritório, mas não deixou de ser bom. Mai sentiu seu rosto ficar escarlate e seu coração bater mais rápido, Izaya parecia ter prazer em coloca-la em momentos embaraçoso. Porém não podia negar que aquela era uma sensação muito agradável, apesar de sentir uma pontada de desespero.


– Hm ~, Mai-chan, você é tão desajeitada. – Izaya comentou lambendo os próprios lábios, ao se afastar.


– Ah! – Desceu da cadeira. – Você vive dizendo e fazendo coisas estranhas. – Olhou em volta para saber se alguém os observava, para seu alívio, não.


– Você me diverte tanto. ~ – Também desceu da cadeira, dando uma última olhada no celular, antes de guarda-lo de volta no bolso do casaco. – Preciso voltar para o meu escritório, ainda vai ficar por aí?


– Não vou voltar com você.


– Então espere lá fora, enquanto eu pago a conta.


– Mas...! – O rapaz já tinha se afastado. – No fim, você não respondeu a minha pergunta, e nem ouviu o que eu ia dizer...


Voltando ao escritório, Izaya logo retirou seu casaco, largando-o em cima do sofá, e se dirigiu para o computador. Enquanto o rapaz ria digitando sabe-se lá o que, Mai resolveu dar atenção às suas atividades escolares. Tentava entender a história do Japão, quando por um instante, perdeu o foco e desviou o olhar para as grandes estantes que cobriam quase completamente uma das paredes do escritório.

Pensando agora, nunca teve a curiosidade de saber sobre o que falavam aqueles livros – mesmo gostando de ler. Talvez tivessem coisas interessantes e surpreendentes que nunca teve a chance de ver. Terminou sua atividade e desceu da bancada, seguindo para uma das estantes.


– Izaya. – Chamou. – Posso pegar um desses livros?


– Fiquei à vontade. – Respondeu sem se distrair do computador.


Com o consentimento do dono, a garota começou a caminhar pela extensão de livros enfileirados, lendo cada título. A maioria pareciam complicados, mas achou um que lhe pareceu atraente; tinha o nome de “Grandes Cidades”.

Tirou o pesado livro da estante e se sentou por ali mesmo, com as costas apoiadas na madeira. Abriu o livro com visível entusiasmo e começou a se aventurar nas letras e figuras.



Izaya se deixou relaxar na cadeira, satisfeito com o curso que os acontecimentos estavam tomando. Logo as três peças principais de seu jogo iriam ficar cara-a-cara e o conflito principal começaria.

Olhou para a janela atrás de si, estava chovendo. Odiava chuvas, nunca tinha nada para fazer, e seria assim até o final daquele mês. Rodou em sua cadeira, deixando-a virada na direção do sofá, mas não viu Mai ali. Foi achar a garota sentada no chão perto de uma das estantes com um livro no colo. Sorriu, se levantando da cadeira e aproximando dela.


– Achou algum livro interessante, Mai-chan? – Perguntou, parando ao lado dela.


– Ahn? – Levantou a cabeça um pouco perdida.


– Está gostando? – Com a ponta dos dedos levantou um pouco a capa do livro para ler o título. – Grandes cidades, é?


– É incrível, Izaya! Há tantas cidades tão lindas.


– Sim, sim. E qual você mais gostou? – Se abaixou até ela.


– Hn... Das que eu li até agora, gostei mais de uma chamada Veneza. – Voltou nas páginas para chegar à que se referia. – Imagina uma cidade cortada por rios? Deve ser muito divertido. E o que são essas coisinhas flutuando na água?


– São gondolas. – Respondeu.


– Gon... O que?


– Gondolas, são como barcos, só que bem finos; parecem uma meia-lua.


– E por serem tão finos, não deveriam afundar?


– Você faz perguntas iguais às de uma criança.


– Eu conheço menos coisas que uma criança. – Contrapôs. – E minhas perguntas são perfeitamente normais. – Fechou o livro.


– É claro que são. – Revirou os olhos, se levantando junto de Mai.


– Você tem outros livros assim? – Perguntou.


– Vários e de todos os tipos. Se lê-los for diminuir a quantidade de perguntas estranhas que você faz, pode pegar todos. ~


Mai soltou uma bufada mal-humorada, voltando a guardar o objeto em seu respectivo lugar. Izaya se afastou do local e seguiu para a pequena cozinha, tirando um pequeno pacote de sushi da geladeira.


– Quer comer sushi comigo, Mai-chan? – Perguntou.


A garota tirou os olhos da estante e mirou-os no pacote nas mãos de Izaya. Por um momento o informante pode perceber um filete de pânico passando pelos olhos azuis da menina.


– Mai?


– Eu... Eu não estou com fome.


– Sério? – Percebendo que tal reação não tinha um motivo aparente, resolveu insistir. – Eu sei que você não é humana, mas ao contrario da Celty, você já provou antes que precisar se alimentar. Por acaso... – Sorriu maldosamente. – ... Há algo de errado com você?


Mai retraiu no lugar e apertou os punhos, nervosa e fazendo o sorriso do outro aumentar ainda mais.


– Eu simplesmente não estou com fome! – Exclamou, dando as costas para o informante e subindo as escadas apressadamente.


– Hm ~, quantos segredos, ein, Mai-chan? – Riu com deleite.



– Vai ficar o dia todo olhando para a janela? Caso não saiba, hoje é feriado, tem o dia inteiro livre. – Izaya explicou, sentado em sua cadeira, com Mai em pé atrás olhando pelos janelões.


– E o que eu devo fazer? Você não me deixa ir me encontrar com a Anri, Mikado ou Masaomi.


– É claro que não, você pode acabar estragando meus planos, novamente. – Inclinou-se, forçando a cadeira para trás. – Falando em planos mal sucedidos, o que aconteceu com aquele lobo? Depois que o convenceu a salvar o Kyosuke-kun, nunca mais o vi. E como conseguiu fazer aquilo?


– Você faz tantas perguntas quanto eu. – Reclamou. – Depois de tudo aquilo, o Lobo foi embora. Já que não conseguiu completar sua missão, agora ele fica vagando por ai, apenas como uma sombra do que ele um dia foi. A vingança nunca é um objeto pleno, é uma causa completamente perdida, com um preço alto a pagar.


– Falando assim, você até parece uma pessoa séria. – Riu. – Mas você entende bem desse assunto de mitos, não é?


– Bastante, e foi por entender tanto que consegui convence-lo. Eu exerço uma estranha influência sobre coisas do tipo.


– Resolvido seu problema, saia e vá atrás de alguma coisa estranha e se divirta com ela.


– Não seja chato... Acabei de resolver que vou passar o feriado com você. – Sorriu.


– Que sorte a minha, não? – Falou irônico. – Mas estou muito ocupado hoje.


– Não tem problema, farei companhia a você! – Virou-se para Izaya. – E o que você está fazendo? – Olhou para a tela do computador.


– Eu estava conversando em um chat, mas todos saíram.


– Chat... – Repetiu pensativa. – São aqueles sites em que as pessoas mandam mensagens umas pras outras? Tipo os Dollars?


– Isso mesmo.


– E você conhece essas pessoas?


– Todos eles, e você também. – Levou a mão ao mouse, arrastando a pagina de conversas, para que mostrasse mensagens mais antigas. – O azul é o Mikado-kun, o cinza a Celty e o vermelho a Anri-chan.


– Então você é o laranja. – Aproximou o rosto da tela. – Mas é um ícone feminino.


– Eu sei. – Respondeu, recebendo de Mai um olhar incrédulo.


– Isso não é normal. – Se afastou da mesa e foi se sentar no sofá. — Ei, vamos assistir a um filme? As meninas da minha sala vivem falando disso e de ir ao cinema, mas dá pra assistir filmes em casa, não é?


– Certo... – Suspirou em desistência, já sabendo que a garota não iria parar de insistir enquanto não fizessem algo. – Mas eu não tenho nenhum filme aqui, vamos ter que achar algum passando na T.V. – Sentou-se no sofá. – Você nem deve saber o que é um filme, me dê o controle que eu procuro.


– Não, eu vou achar algo sozinha.


– Me dá o controle, Mai. – Se aproximou para pegar o objeto.


– Não. – Estendeu o braço para o alto.


Percebendo que tentar pegar diretamente o controle só daria mais trabalho, Izaya resolveu simplesmente segurar Mai, agarrando-a por debaixo dos ombros. Entretanto, ao fazer isso, a colegial soltou um riso estranho e se levantou bruscamente do sofá, deixando até o controle cair no chão.


– O-o que foi isso? – Ela o olhou com uma expressão de pânico com incredulidade.


– O que foi o que? – Olhou confuso.


– Isso. – Ela balançou os braços. – Você me tocou e eu senti algo estranho que me vez rir.


– Aah ~ Isso são cócegas. Dispensando a parte biológica por trás disso, essa “sensação estranha” e a vontade de rir acontecem quando você é tocado por outras pessoas em determinadas partes do corpo. É algo perfeitamente normal, não precisa fazer essa cara. – Percebendo que ela continuava com a mesma expressão, levantou-se do sofá e se aproximou dela com um ar malicioso. – Levando em conta que ninguém nunca te tocou antes, é até aceitável que fique assim. – Acariciou a face esquerda da menina. – Eu chego até a ficar interessado em saber como reagiria se eu te tocasse de outras formas.


– ... – Mai ficou olhando para o outro, demorou um pouco até que entendesse o sentido das palavras. E feito isso, corou furiosamente. – Você é um pedófilo tarado! – Empurrou o homem, correndo para fora da área do sofá.


– Pedófilo tarado? – Riu alto. – Talvez eu realmente seja, Mai-chan, mas tenho certeza que você apreciaria muito se me deixasse provar isso. – Piscou para ela.


A única resposta que Izaya teve por parte de Mai foram os sons de seus passos rápidos subindo as escadas e o da porta batendo.



Depois da tentativa falha de verem um filme juntos, Izaya voltou a se concentrar em seu trabalho. Os minutos e horas foram se passando, o horário do almoço se aproximava, mas a garota continuava trancada em seu quarto. Pensando que poderia haver algo de errado com ela – pois não havia comido desde o dia anterior-, ele subiu para o segundo andar e bateu á sua porta.


– Quanto tempo pretende ficar ai? – Perguntou, recebendo um “não entre” como resposta. – Eu não vou fazer nada com você. – Avisou, colocando a mão na maçaneta, mas antes que conseguisse abrir uma greta, ouviu os passos apressados de Mai se aproximando e a porta sendo empurrada de volta.


– Eu estou bem! – Ele ouviu do outro lado.


– Abre a porta. – Exigiu, achando aquilo tudo muito estranho.


Izaya soltou a porta, que foi se abrindo lentamente, mas não completamente, apenas o suficiente para mostrar a garota. Mai olhava para o chão com uma expressão de culpa, muito semelhante à de uma criança que fez algo de errado e estava indo pedir desculpas. Curioso, o moreno a observou e pode notar que ela não estava com as mesmas roupas. Ao contrário da blusa preta com rendas brancas, a menina estava vestindo uma blusa vermelha bem larga e uma espécie de jaqueta preta por cima. Ela estava usando o seu antigo uniforme do Raira.


– Onde arranjou isso? – Mesmo a garota oferecendo um pouco de resistência, o informante abriu a porta e adentrou no quarto, vendo em cima da cama sua calça de uniforme preta – provavelmente ela tentou coloca-la, mas obviamente não coube – e a porta do armário aberta. – Você ficou mexendo nas minhas coisas?


– Desculpa... É que não tinha nada para fazer, então comecei a mexer nas coisas dentro do armário e acabei achando seu antigo uniforme do Raira. – Ela parecia realmente se sentir culpada.


– Espera, como você sabia que esse era o meu uniforme? O modelo dele é completamente diferente dos comuns. – Fazendo tal observação, conseguiu notar que por uma fração de segundo o olhar de Mai passou dele para o armário e voltou. – Você está escondendo algo. – Desconfiado, deu as costas para ela e seguiu para o grande móvel de madeira branca.


– Não tem nada aí! – Mai tentou chegar antes do outro, mas não teve sucesso.


– É claro que tem, Mai-chan, se não, você não estaria assim. – Passou os olhos pelas roupas ali penduradas, parando no uniforme azul do Raira. Tateou os bolsos do blazer, sentindo algo mais rígido, porém fino. – O que será isso? – Fingiu demasiada surpresa, tirando o misterioso objeto do bolso.


– Não é o que parece! – Balançou os braços freneticamente, envergonhada.


– Onde arrumou isso? – Surpreendendo a garota, o tom de Izaya não era debochado, transparecia até um pouco de surpresa.


– Foi... Foi o Shinra quem me deu.


– Ah, o Shinra sempre teve a mania de ficar tirando fotos, principalmente durante o terceiro ano. – Comentou, sentando na cama com a foto ainda em mão. Seu olhar saiu da imagem e passou para Mai. – E olha só, você até que combinou com o meu uniforme, Mai-chan.


A colegial olhou para si mesma e depois se virou para o armário, mirando outro conjunto daqueles guardado em seu fundo.


– Ei, Izaya. – Correu até o móvel e pegou outra jaqueta e blusa vermelha, entregando-os para o rapaz. – Vista-os! – Pediu.


– Acho que eles não servirão mais em mim. – Negou, achando a ideia muito boba.


– Por favor. – Balançou as peças de roupa em frente aos olhos do outro.


– Certo... – Um pouco a contra gosto, pegou as roupas das mãos da garota e a calça jogada em cima da cama, em seguida se dirigindo para o banheiro da suíte.


Para a surpresa de Izaya, o uniforme coube, talvez não perfeitamente, mas coube. Ajustou a jaqueta no corpo e abriu a porta, percebendo que enquanto se trocava, Mai também havia colocado o próprio uniforme.


– Ah... – Ela olhou para os lados, sem graça. – Você ficou bem nesse uniforme, Izaya.


– Não diga isso, ficarei sem graça. ~


– Você é quem está me deixando sem graça. – Seu rosto pareceu ficar um pouco mais rubro. – Mas você ficou realmente bonito nesse uniforme.


– Você também fica bem no seu, Mai-chan. – Retribuiu o elogio.


– O-obrigada... – Ela olhou para o chão, mas depois balançou a cabeça para espantar a vergonha. – Vem aqui. – Pegou o braço dele e o arrastou para frente de um espelho de corpo inteiro que adornava uma das paredes do quarto. Em frente ao aparato, ela se agarrou melhor ao braço do rapaz – como uma garota se agarrando ao braço do namorado – e encostou a cabeça em seu ombro. Sorriu ao olhar seu reflexo. – Parecemos dois colegiais.


– Você é uma colegial.


– Não, não sou. – Respondeu, voltando a pegar a foto de Izaya. – Podemos ter uma dessas?


– Não desse jeito, mas podemos tirar pelo celular.


– Sério? – Tirou o próprio celular do bolso. – Como?


– Me dá aqui. – Pegou o aparelho das mãos de Mai e o virou, para que a câmera ficasse apontada para os dois. – Olhe para aquele buraco.


– Certo. – Sorriu, mas ao olhar pelo conto do olho para o rapaz, percebeu que ele não fazia o mesmo. – Sorria, Izaya!


– Ahn? – Olhou para ela incrédulo. – Não vou sorrir.


– Não seja chato. Sorria! – Ela se agarrou mais ao seu braço. – Vamos!


– ... – Estreitou os olhos. Que situação ridícula era aquela, pensou. Pareciam um casal de adolescentes bobos e sem nada mais para fazer.


– Olha. – Mai começou a rir. – Você está vermelho!


– Para de fazer essas coisas idiotas! – Irritado, apertou o tecla para tirar foto.



– Ficou bonita. – A garota comentou, olhando a imagem em seu celular depois que Izaya tirou a foto e lhe devolveu o aparelho.


– Não mostre essa foto para ninguém. – Ordenou, sentando na beirada da cama.


– Não vou. Enquanto eu puder, vou guarda-la com carinho. – Sorriu para a imagem, mas Izaya pode notar que era um sorriso melancólico. – Às vezes eu fico imaginando como seria se tivéssemos nos conhecido no colegial. Você já pensou nisso, Izaya? – Ela se virou para ele.


– Às vezes eu penso.


– E como você acha que as coisas teriam sido? – Ela se aproximou do informante, ficando de frente para ele.


– Talvez... – Ele colocou as mãos na cintura da garota, fazendo-a se inclinar e colocar as mãos em seu ombro. – ... Bem mais fáceis.


Izaya deixou seu corpo tombar lentamente sobre a cama macia, levando Mai consigo. Seus rostos estavam próximos, mas eles apenas se olhavam nos olhos. Por um momento, pensou nas palavras que havia dito. Imaginou como teria sido se tivesse conhecido Mai na época em que estudou no Raira, quando seus sentimentos eram menos distorcidos e ainda havia um resquício de inocência em seu interior.


Teria sido interessante, concluiu. Provavelmente, em seu primeiro ano, enquanto estivesse andando pelos corredores e visse o jeito estranho como ela se comportava, teria tentado testa-la de alguma forma. Entretanto não teria dado certo – como nunca dá – e a acharia irritante por isso, se afastando completamente dela. Porém Mai, com seu jeito confuso de pensar, começaria a segui-lo pela escola para tentar fazer amizade. Por fim, cederia pelo cansaço, deixando que ela ficasse por perto, mesmo não a considerando como amiga. No segundo ano, ela já teria se apaixonado por ele. O clima entre os dois teria ficado um pouco estranho – como é agora -, mas ele logo iria se acostumar e até se aproveitar disso. Entretanto, por mais estranho que parecesse, no terceiro ano acabaria compartilhando o mesmo sentimento de afeição. Talvez, na formatura, quem sabe, teria se declarado à ela.

E depois disso? Como será que estariam agora?


– Izaya. – Mai interrompeu seu raciocínio. – Izaya, eu...


Ela não terminou a frase.


A mão do informante saiu da cintura da garota e se arrastou pelas suas costas até chegar ao seu rosto. Suas respirações se misturavam, ele podia sentir o corpo de Mai pressionado contra o seu, sentia até suas pernas se tocando, fazendo seu corpo se aquecer. Puxou de leve o rosto da garota, para que se aproximasse ainda mais do seu. Infelizmente o movimento foi interrompido pelo toque do celular de Izaya, que assustou os dois.

Soltando um murmúrio irritado, o informante estendeu a mão para pegar o aparelho jogado ao lado deles em cima da cama, ao mesmo tempo em que Mai se levantava – tentou segura-la para que se mantivesse na mesma posição, mas ela foi mais rápida que suas mãos.


Atendeu ao telefonema, sentando-se na cama ao lado de Mai que foi para a beirada.


– Você já pode tirar o uniforme. – Ela avisou, assim que Izaya finalizou a ligação.


– Eu sei. – Respondeu. Mesmo que ela tentasse não olhar para ele, sabia que seu rosto estava completamente rubro.


– E desculpe ter mexido nas suas coisas, não vou fazer mais.


– Não tem problema. – Saiu da cama. – Desde que você devolva tudo para o lugar novamente.


Nenhum dos dois quis mais falar, Izaya simplesmente foi embora do quarto e Mai continuou ali sentada.


Fim do capítulo 24.


Notas finais
O que acharam?
Digam tudo! Mandem reviews e recomendações ~
Ah, a Mai realmente gostou do Izaya vestido com o uniforme do Raira. xD
Bom, quanto ao hentai... A aceitação foi de 100%. Então, a fic terá hentai, sim. Confesso que eu fiquei feliz com a ideia de escrever isso dos dois.
E para deixar um pouco de suspense, já irei mudar a classificação, para que vocês não saibam quando será. Não se assustem, ok?
E, bom, como escrevo Miracle no caderno para depois passar pro computador... O primeiro hentai já está pronto. Foi a primeira vez que escrevi um.
E falando de outras coisas sobre a fic, já defini quantos capítulos terá. Não passará dos 30. Apensar de que, pretendo fazer umas outras coisinhas relacionadas, coisas as quais só falarei sobre no capítulo final.
Estou sem tempo, meus caros leitores. Sinto em dizer que só poderei responder aos reviwes depois do final de semana. Me desculpe mesmo.
Mas saibam que adoro vocês ~
[Aviso rápido: a cena da foto está semelhante á de outra fic, mas é só mera coincidência, ok?]