Minhas Palavras
2 Capítulo 2 - Remédios
Notas iniciais
Ele estava bem aqui do meu lado.
Eu lembro, lembro de tê-lo visto três segundos atrás.
Mas quando ele sumiu, cada segundo agonizou e durou eternamente.
Eu ainda estava parada naquela rua. Olhei para a pulseira que pendia em meu pulso, lembrando-me ainda mais dele. Ou de como todos os meus pensamentos pulsavam e clamavam seu nome.
Sentia falta de sentir sua verdade, de senti-lo ao meu lado. Poder tocá-lo. Estiquei a mão tentando usufruir dos últimos resquícios de universo, mas nada dele sobrara. Sua essência não mais estava ao meu lado.
Naquele momento, eu fora invadida por uma sensação familiar.
Como a sensação tão forte de perder um membro, de se sentir que um órgão seu não estava mais dentro de si.
Sufoquei. Meu coração despedaçou, sangrou e foi dilacerado.
Estava descalça mas não senti o chão sob meus pés. Estava escuro, mas pela primeira vez a escuridão não me incomodou.
Porque eu era como ela. Solitária, onipresente e recheada de nada. De algo infindável que pode ser o vazio ou o infinito. Mas que ainda não fui capaz de descobrir. Naquele momento, eu nunca pude me sentir tão unida, tão fundida com aquela que causava desespero.
Corri até minha casa e abri meu armário. Ali existiam vários remédios, havia diversos potes com diversos nomes e cores. Existiam comprimidos e remédios líquidos.
Eu procurei, mas não encontrei o que precisava.
Segui a passos largos até a farmácia da minha vizinhança, na esperança de que eles tivessem a solução.
— Eu gostaria de um remédio.
— Qual deles?
— O da saudade. Ele existe, não existe?
— Nós não temos esse tipo de remédio por aqui, meu bem. Mas se quiser algum outro para uma dor que seja real, estaremos a sua disposição.
Me virei, e segui correndo até minha casa sentindo meu rosto ficar gelado e molhado, lágrimas escorriam e me banhavam.
Como ela pôde dizer que o que sinto não é real?
Tornei a procurar dentro de meus armários, todas as gavetas e todo o lugar onde pudesse caber qualquer coisa. Meu coração se comprimia, mais e mais. E eu podia sentir sangue sujando minhas roupas e meu cabelo molhando em carmesim.
Atrás de mim, eu senti. Como uma névoa que brinca com os nossos sentidos eu enxerguei alguém.
— Está perdendo seu tempo, pequena dama. Não existe o remédio que deseja com tanto ardor.
Meus joelhos cederam e eu me ajoelhei. Minhas mãos agora estavam sujas, sujas com o meu próprio sangue. Pude sentir algo morrendo em meu peito e um choro interno maior do que qualquer um que eu já sentira.
A pulseira amarela brilhava em meu braço, agora também brilhando em escarlate. Ainda conseguia ler as palavras "viva forte" me atingindo com intensidade. Poderia sentir a tentativa delas de consertar o que estava quebrado dentro de mim, junto com meu coração que parara de bater. Mas de nada adiantou. Assim como o sopro de alguém tentando suavizar a dor de um machucado.
Ele virou-se e continuou a andar, com um cachimbo entre os dentes e um terno bege. Parecia novo, mas velho de um modo real.
— E para perda? Existe remédio para a perda?
Olhou para mim, e um sorriso acendeu e luziu intensamente em seu rosto.
— Não, querida. Não existe remédio para a perda. Ela pode ser compensada com o ganho, mas também pode nunca ser curada. Apenas esteja preparada.
Segundos depois ele sumira. Como se nunca antes tivesse existido ou nunca antes tivesse dito palavras tão reais naquele cômodo.
Deitei, e aos poucos meus olhos foram fechando.
A medicina nunca me decepcionou tanto.
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