Minhas Palavras
3 Capítulo 3 - Caminhos
Notas iniciais
Eu chegara até ali com um cavalo, meu amigo. Desci dele e vislumbrei uma floresta com uma infinidade de encantos. As árvores me oprimiam de um modo bom, como nunca antes, mãe-natureza parecia me abraçar e me oferecer conforto. Estiquei minhas mãos e peguei-o, sem hesitar.
Desci do cavalo. Quando olhei em seus olhos vi carinho, determinação e força. Peguei-os e guardei numa caixinha dentro de mim. Agradeci-o, e pude sentir quando meu olhar mudou, no reflexo daqueles olhos negros e grandes eu tive certeza. E outra ainda maior da minha força.
Dois caminhos se debruçavam em minha frente.
O esquerdo era asfaltado, sinalizado e havia algum tipo de fumaça vindo do final dele. Mesmo eu não podendo enxergar seu fim.
O direito era extremamente parecido com o outro. Mas suas folhas não estavam sujas e empoeiradas como o outro caminho e o chão era feito de terra batida e um pouco de grama nos cantos. Existiam flores, enquanto no primeiro só existiam os cadáveres delas.
Um gato estava detado de forma relaxada sobre uma placa média que dizia:
"Escolha com cuidado.
As escolhas podem decidir seu final, mas também podem decidir quem será depois disso."
Nunca achei que tantas palavras coubessem naquela não tão grande e um pouco velha placa de madeira.
Haviam mais duas.
Uma estava ao lado do caminho esquerdo, era um seta. Mas aquele caminho não tinha nome, ele fora apagado da superfície de madeira. Percebi a outra placa, e nela a situação era a mesma: apenas resquícios de tinta branca. Nada que desse para definir uma letra sequer.
— Olá, pequena viajante. — o gato sorriu, e eu senti algo perverso exalando daquele sorriso. Me retraí, meu coração palpitou de asco e eu dei um passo para trás. — O quê procura?
— Desejo seguir por um desses caminhos.
— Somente? — o sorriso dele se alargou. E eu inevitavelmente percebi que aquele gato era recheado de humanidade. — Se quiser jogar esse jogo, saiba que nele há regras.
— E quais seriam estas?
O gato se levantou e se espreguiçou, se esticando e levantando o rabo felpudo que se enrolava ao final. Aquele gato além de humano parecia com uma cobra. Pude perceber que ele ansiava por uma presa. Asfixiá-la com a própria podridão.
— Uma vez que você segue por um desse caminhos, não há volta. Assim como uma pessoa cujo a morte alcançou, jamais existirá segunda chance. — seus olhos eram gélidos, mas divertidos. — O caminho é permanente, mas não é tão solitário. No início é, pois você começa sem nada nem ninguém. Somente consigo. Mas ao longo do caminho sempre existirão pessoas para lhe fazerem companhia. Boas ou ruins. Isso também é uma escolha sua. Mas é obrigatória a presença de um escolhido até o final do percurso, ao menos. Nesse jogo, você pode ser influenciada e pode influenciar. E é claro, se retorcer em dor e remorço por ter escolhido errado. A terceira e última regra é a de que tudo daqui pra frente é novo. E as escolhas lá tomadas poderão ter a ver com o que você é agora, poderão mudá-lo ou defini-lo ainda mais. Por isso, uma vez que se escolhe um dos caminhos, ele automaticamente define quem você é.
O canto de pássaros era ouvido e o sol acenou lá de cima, grandioso.
— Se quiser, posso lhe dar uma dica.
Seus olhos eram maliciosos naquela hora. E então percebi, que ele parecia um mistura de uma cobra com um humano, mas que não tinha virtudes.
— Diga-a. Ouvirei qualquer palpite que me ajude a realizar a melhor escolha.
— Uma das regras é a de que a escolha parte de você, e por isso não posso me intrometer. Mas a minha dica pode ajudar você a escolher. Vê o caminho esquerdo? Reconhece algo de familiar, não é?
— Sim.
— A humanidade existe nele. Portanto, sua origem lá habita. Me parece uma boa escolha. O caminho direito parece um tanto monótono e vazio, não lhe parece?
Eu fiquei em silêncio.
Sabia qual era o caminho que ele queria que eu seguisse. Aquilo para mim já era o bastante.
Então sorri, e andei até o caminho esquerdo.
— Adeus. — eu disse.
E não olhei para trás. Mas sabia que o gato perverso ficara aturdido.
Eu não escolheria a minha origem.
Eu escolheria algo bem melhor que isso.
Porque escolhi o caminho esquerdo?
Nele não havia humanidade. Nele não havia sujeira nem perversidade.
Nele, eu não sentiria nojo da minha própria espécie e nem descobriria mais podres da humanidade imunda que eles conhecem. E nem daria à eles a minha. Onde pisariam e a arremessariam à esmo em qualquer lugar.
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