Notas iniciais
Olá minha gente bonita! Sei que vocês devem estar morrendo de raiva de mim por ter desaparecido, e quero pedir desculpas por isso. Não está sendo fácil para mim escreve, já que estou tendo bloqueios chatos, e não consigo aflorar minha imaginação tão rapidamente. Estou sempre escrevendo aos poucos, e estou eu aqui com mais um capítulo. Fiquem todos tranquilos, eu não abandonarei a fic, e espero que vocês continuem gostando. Vocês bem que poderiam me dar uma recomendaçãozinha não é? hehe Ficaria muito feliz. Mas chega de falar e vamos ao que interessa. Espero que gostem. Não esqueçam de comentar, isso é muito importante para mim. Digam o que estão achando, por favor! Agora, boa leitura!!!

O caminho não era longo, mas se fez agonizante a falta de palavras. Ela estava paralisada, muda, fixando o olhar em nada, apenas para a frente, olhos esbugalhados, parecia uma psicopata, uma louca, com medo. Seu estado de choque foi uma surpresa para mim que nunca a tinha visto daquela forma. Eu queria tanto lhe ajudar, mas como? Sendo que eu não sabia nem ao menos o que a afligia. Chegamos em casa, mas ela não saiu do carro, então, desci e fui abrir sua porta, e guie-ia para dentro. Seus músculos estavam retesados, sua mão fria como gelo. Levei-a direto para seu quarto, sem perguntar nada. Deitei-a na cama, tirei seus sapatos e me ajeitei também, ficando sentada, encostada na cabeceira.

Sem nenhuma hesitação, no mesmo segundo que acabei de me arrumar na cama, ela veio e deitou sua cabeça nas minhas coxas, abraçando-as, em busca de apoio, e pôs-se a chorar. Me inclinei, e triste com o que via, acariciei seus cabelos e costas. Seus soluços apenas aumentavam, e ela pressionava cada vez mais o rosto em minhas coxas, tentando abafar o barulho que lhe rasgava a garganta. Nunca havia a visto tão fraca, tão destruída daquela forma. Seu estado era lastimável, e eu precisava saber o que estava acontecendo

– Ei — chamei-a baixinho, mas ela não cessou o choro — Aria, está tudo bem, eu estou aqui com você

Depois de dito, levaram ainda alguns poucos minutos para seu choro perder intensidade, e por fim seu rosto se levantar e eu poder vê-lo, olhos inchados, vermelhos, molhados.

– Me diz o que está acontecendo Aria, eu quero te ajudar

– Spencer... eu... — sua voz falhava, o que quer que fosse, era difícil para ela dizer em voz alta

– Confie em mim, você sabe que pode — olhei no fundo dos olhos dela, segurando seu rosto entre minhas mãos, dando total apoio para que ela revelasse seu problema

Ela foi se levantando e se sentou do meu lado

– Eu sei que posso Spencer. Eu só não posso confiar mais em mim mesma

Uma confusão ainda maior tomou minha cabeça. Como assim não podia confiar nela mesma?

– Eu não... estou entendendo, Aria. Por favor, deixa eu ajudar você

– Desculpa, eu não posso fazer isso, ninguém pode me ajudar, só fica aqui comigo — suas mãos seguravam as minhas, agora já quente e mais firmes

– Por favor, Aria — fiz minha melhor cara de pidona

– Só direi uma coisa — acenei para ela continuar — Tem alguém mexendo comigo, e não é o Ezra

A olhei boquiaberta, não falei nada e somente a senti me abraçar. Retribui o abraço, o mais forte que pude e deixei ela viver seu momento sem mais perguntas. Depois de algum tempo ela acabou se deitando e eu fiz o mesmo. Deslizei meu tronco pela cama até deita-lo completamente no plano do colchão, e me rendi ao cansaço.

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Seu calor aqueceu minha alma, e meu corpo se retesou, a mulher da minha vida estava comigo. Abracei-a o mais forte que pude, e senti também seus braços me apertando contra si.

– Senti tanto a sua falta, do seu calor, do teu beijo, do teu amor — sua voz chorosa e doce me derrubou de cima do penhasco

– Eu estou aqui — soltei meus braços, e me afastei, ficando cara a cara com ela, perto o bastante — Eu estou aqui

E a beijei. Um beijo doce e sofredor, de uma lastimável falta sentida. Segurei seu rosto entre minhas mãos, e deixei a falta que sentia, agir. Invadi sua boca com minha língua, sem vergonha nenhuma de quem quer que estivesse ao nosso redor num quarto de hospital. Só a larguei quando meus pulmões pediram por ar, o que não demorou muito, lembrando que eu ainda estava meio caída pelo, até horas atrás, coma. Sorri quando abri os olhos e a enxerguei também sorrindo.

– Eu te amo — velha confissão, mas que a cada vez se torna mais cheia de novas emoções

– Eu te amo — retruquei sem dúvidas

– Own... que lindo momento gente, assim vou chorar — a voz de Hanna ecoou nos meus ouvidos

– Junte-se à mim — Maya propôs

Seus olhos estavam brilhosos, derramando lágrimas longas e pesadas.

– Eu também senti saudade — revelei o que meus olhos diziam por conta própria

Recebi mais um abraço apertado, sentindo ela afundar seu rosto em meu pescoço.

– Como você está? — Maya tinha a voz doce e macia

– Estou bem agora que você está aqui amor. — sorri, tão confortavelmente, sentindo a felicidade me invadir por vê-la ali junto à mim

– Eu estou tão feliz que você tenha voltado meu amor — seu olhos reluziam de alegria e meu coração palpitava mais forte com tal reação

– Eu quero sair logo daqui — revirei os olhos. Sempre fui uma pessoa agitada, animada e ficar impossibilitada numa cama me dava náuseas

– Calma, pimentinha, você tem que se recuperar direito pra poder sair daqui — Hanna parecia uma mãe explicando ao seu filho de cinco anos de idade que não pode fazer bagunça

– A sim, tia Hanna, você me trás um doce se eu te obedecer? — fiz uma cara de criança sapeca e recebi um revirar de olhos cansado

– Cale a boca Emily — Hanna ainda estava para baixo, era mais do que perceptível

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Eu estava me devastando, cansada de estar sofrendo por uma coisa que nem mesmo deveria existir, de sofrer por um sentimento que eu sabia que não podia estar sentindo. Queria ter a força necessária para ser ignorante o bastante com meu coração e conseguir deixar toda aquela melancolia que me invadia, de lado. As palavras haviam saído com tão pura naturalidade, sem que eu me desse conta delas, e só depois de ditas foi que eu vi o que elas realmente significavam, a baderna que elas causariam. Em tão pouco tempo, tanta coisa tinha mudado, e apenas agora eu havia percebido.

Meu relacionamento com Mike eu tentava levar adiante, fingindo uma felicidade que antigamente eu realmente tinha. Me forçando a tentar esquecer o que os abalos sísmicos que tomavam meu corpo, mente e coração viviam á me lembrar. Perguntas me circundavam: "Por que ela? Por que eu? Como faço para isso parar?", mas a que mais me martelava a cabeça: "Oque será que ela sente de verdade por mim?". Essa tal pergunta era a que mais me fazia perder noites de sono, era aquela que eu nem ao menos me devia fazer, mas ela aparecia como uma luz na escuridão, clara e gritante.

Eu não estava pronta para sequer ser questionada, eu queria um pouco de paz para minha cabeça cansada, mas Emily me conhecia muito bem. Seria realmente estranho se ela não me perguntasse nada, mas como uma boa amiga, ela me entendia e sabia quando era o momento certo para insistir por uma resposta clara. Emily amava Maya, e eu achava lindo o jeito que elas se amavam, até mesmo as invejava. Achava. Há algum tempo tudo parecia mudado, elas pareciam se distanciar minusculamente a cada dia, que acho que nem elas mesmas percebiam. E depois do acidente, tudo parecia estar ainda mais claro para mim.

Maya havia se distanciado tanto, visitado tão poucas vezes Emily, e ainda por cima, quase que se desfeito da informação que eu lhe passara da recuperação de Emily. Não capturei um pingo que fosse de entusiasmo em sua voz pelo telefone. Mas certamente eu estava errada, e minha mudança súbita de opinião se deu ao ver seu olhar encontrando Emily acordada. Parecia uma bolha que ás rodeava, uma bolha de estrelas e corações, do jeito mais clichê que se pudesse imaginar. Ver tudo aquilo até me fez esquecer um pouco, mas como uma boa idiota, eu sempre desviava a minha atenção para o nada e me pegava pensando NELA. Uma certa baixinha de olhos esverdeados.

Algum pecado muito grave eu devia ter cometido, para estar numa situação dessas. Se não foi nessa vida que eu matei ou roubei, então foi na passada que eu o fiz, torturei e esquartejei alguém, e só agora essa força se voltou contra mim. Não havia outra explicação sã que fizesse sentido.

– Amor, eu vou passar a noite aqui com você

– Tudo bem meu amor, acho que não terá problema. E eu ficarei muito feliz, aliás, eu já estou. Só de te ter aqui comigo, tudo parece melhor — um sorriso de canto a canto tomou o rosto de Emily

– Eu também Em' — e Maya a acompanhou na felicidade instantaneamente

– Acho que, então, eu vou para casa Em's. Estou precisando descansar um pouco, e agora você tem uma companhia ainda melhor que eu — informei num tom cansado mas feliz

– Hanna, tem certeza de que você ficará bem, sozinha? — as feições no rosto de Emily eram de pura preocupação

– É claro que eu vou Em's, fique tranquila. Eu estou viva até hoje não estou? Passei algumas noites sozinhas enquanto você não estava... por aqui — tranquilizei-a

– Algumas noites? — perguntou ela, naturalmente

– É. Bem... nos primeiros dias Mike ficou comigo, e, é... depois... — uma tosse falsa escapou da minha garganta — Depois a Aria veio me fazer companhia — desviei meus olhos dela por alguns poucos segundos e tentei disfarçar qualquer tipo de reação ao falar de Aria, mas o simples fato de desviar meu olhar, com certeza, me denunciou um bocado

Quando voltei a encará-la, encontrei uma Emily toda desconfiada, me olhando com as pálpebras semi-cerradas e até um certo resquício de malícia na curva de seus lábios sorridentes

– Hum — grunhiu com dentes cerrados — Parece que você e sua "cunhada", andaram se conhecendo melhor não é? — a pergunta soou quase totalmente como retórica, e inteiramente sarcástica

– Um pouco — apressei minha voz e rápida como o "papa-léguas" mudei o foco da conversa — Então é isso meninas, eu acho que já vou indo — uma retirada nada maestral

Me virei de costas para as duas e tratei de pegar minha coisas que se encontravam numa mesinha perto da cama. Pendurei minha bolsa no braço, encaixei meu óculos escuros na gola da minha camisa, e peguei meu celular. Antes de me virar novamente para elas, acendi a tela do meu smartphone e chequei a caixa de mensagens. Haviam dois ou três recados do Mike, mas nenhum sequer de Aria, o que já não me era nada surpreendente, visto que ela sempre me evitava, e ainda mais o faria, depois da minha "bela" declaração. Eu sabia que ela não me mandaria nada, mas alguma parte do meu cérebro tolo, iludido, teimava em me dizer o contrário e era isso que muitas vezes me fazia olhar para a tela do celular, esperançosa.

Me voltei para as duas

– Vou indo, uma ótima noite para vocês, e até amanhã

– Não sairei daqui — Emily sorriu e mostrou a língua

Fiz uma careta para ela e revirei os olhos

– Cuide dela, Maya

– Fique tranquila — o tom de Maya soou reconfortante

Pisquei para as duas e me direcionei à saída do quarto. Quando saí do hspital encontrei a noite presente, o céu escuro cheio de pontos de luz, e uma lua crescente perfeita. Tudo estaria completamente perfeito se não fosse minha tristeza. Mas eu não podia deixar mais isso ruir pelo meu fracasso, eu não podia parar de sentir a beleza do mundo à minha volta por causa de uma fase ruim. Eu tinha que superar.

Fui em direção à meu carro e segui meu caminho para casa. Liguei o rádio e coloquei na primeira estação que encontrei. Aquele som animado, uma melodia dançante sensual, uma letra totalmente inapropriada para minha cabeça à mil

Us girls we are so magical
Soft skin, red lips, so kissable
Hard to resist so touchable
Too good to deny it
Ain't no big deal, it's innocent

I kissed a girl and I liked it
The taste of her cherry chapstick
I kissed a girl just to try
I hope my boyfriend don't mind it

It felt so wrong, it felt so right
Don't mean I'm in love tonight
I kissed a girl and I liked it
I liked it

Nós garotas somos tão mágicas
Pele macia, lábios vermelhos, tão bom de beijar
Difícil de resistir, tão gostosos de tocar
Bom demais para ser negado
Não é grande coisa, é inocente

Eu beijei uma garota e gostei disso
Do gosto do brilho labial de cereja dela
Eu beijei uma garota só para experimentar
Espero que meu namorado não se importe

Pareceu tão errado, pareceu tão certo
Não significa que estou apaixonada essa noite
Eu beijei uma garota e gostei disso
Eu gostei disso

(https://www.youtube.com/watch?v=tAp9BKosZXs&feature=kp)

As cenas me passavam pela cabeça em câmera lenta, tudo condizia com ela, os lábios vermelhos da primeira vez que a vi, tão bonitos e chamativos, o seu toque perfeito pela pele de algodão, e sim, uma boca irresistível que fazia com que a negação se tornasse fora de questão. Haviam apenas algumas diferenças, a primeira é que não era necessário cogitar a importância que meu namorado daria, pois eu sabia que seria o fim se ele soubesse. E eu estava apaixonada, essa era a segunda das diferenças, a pior ou a melhor, eu não sabia dizer.

A música terminou mas as lembranças não paravam de me surgir. Segui o caminho de casa com músicas agitadas invadindo meus ouvidos. Ao entrar pela porta da frente me deparei com uma sala vazia, e um sofá de lembranças, que novamente tomaram minha atenção. Balancei a cabeça rapidamente espantando as memórias. Segui para meu quarto e fui para meu banheiro, e sem pensar duas vezes arranquei minhas roupas e me pus debaixo da água quente. Fique um bom tempo por lá. Ao acabar, me vesti com a roupa mais larga e confortável que tinha, e fui para a cozinha. Fiz um sanduíche e um suco, e me alimentei. Estava quase morta de fome.

Só quando acabei de comer que fui me lembrar que Mike havia deixado mensagens para mim. Subi as escadas, preguiçosa, e peguei meu celular que havia jogado na cama de qualquer jeito. Mike tinha mandado duas mensagens, uma me dando bom dia, e a outra perguntando se eu estava bem, pois não havia respondido. Mesmo não estando entusiasmada resolvi ligar para ele pois o namoro continuava e eu estava me decidindo em me esforçar ao máximo para recuperar o meu amor por Mike. Depois de chamar três vezes ele atendeu

– Oi amor! — a voz grossa e terna de Mike invadiu minha audição

– Oi, desculpa não ter respondido, Mi, mas tenho uma novidade — implorei à mim mesma uma animação inexistente e ao menos um pouco dela consegui

– Conte então amor — ele estava bem mais animado que eu sem dúvida alguma

– A Em, Mike, ela acordou — as lágrimas invadiram meus olhos, ainda parecia que tudo era um sonho

–Amor, que coisa boa. E ela está bem? — sua voz de felicidade era verídica

– Sim, ela está ótima para quem acabou de acordar, mas terá que ficar mais alguns dias no hospital

– O que importa é que ela acordou e está bem, meu amor

– Com certeza, e eu estou muito feliz com isso

– Eu também estou feliz, por ela e por você. Mas Han, eu queria falar uma outra coisa com você agora

– Agora você me deixou curiosa

– Sabe, amor, eu estava pensando, acho que nós devíamos dar um passo no nosso relacionamento. Nós não queríamos envolver nossas famílias no nosso namoro, mas faz algum tempo que já estamos juntos e agora que a Aria já sabe, eu queria te apresentar para minha família.

Meu corpo se retesou e rapidamente comecei a suar frio. Conhecer a família dele seria realmente um passo grande e também perigoso. Conhece-los seria firmar ainda mais a nossa união, e com isso eu também teria que conviver com Aria, pois ele certamente a quereria no encontro, e eu teria que lidar com a presença mais audaciosa de todas. Por alguns longos segundos fiquei muda, sem ter ideia do que responder, e em razão disso ele me chamou

– E então?

– É... Acho que... Acho que sim — já que eu queria recomeçar teria que ser por ai

– Que bom que você concorda, meu amor. Não fique preocupada, eles vão amar você, mas não tanto quanto eu, claro. — seu entusiamo havia ido às alturas, sua voz denunciava — No fim de semana então, nós vamos para a casa dos meus pais. Vamos fazer alguma coisa bem família pra você se sentir bem, então terá bastante gente e você não será o foco das atenções, não vão ficar te enchendo de perguntas. Nós pegamos o avião para orlando na sexta de manhã, e passamos o fim de semana lá

– Eu só tenho que falar com meu patrão e ver se Emily vai ficar bem.

– OK, amor, mas vai dar tudo certo

– Vai sim, Mi. — os detalhes chamaram a pergunta — A... Aria vai?

– Com certeza, ela não dispensa essas raras reuniões de família, e se ela sequer querer cogitar ir, eu levo ela amarrada mesmo contra a vontade — ele ria-se todo, e eu fingia achar graça

– A sim — era melhor cortar logo o assunto Aria — Mi, eu acho que vou indo dormir, tive um dia cheio de emoções hoje — e quantas emoções foram! — Estou um pouco exausta, e amanhã o dia também será longo

– Tudo bem então, amor, já ganhei a noite em ter noticias boas da Emily, e saber que logo logo minha família a conhecerá

– Também estou feliz

– Agora pode ir dormir, amor, amanhã nos falamos mais. Boa noite, te amo, amor.

– Boa noite, meu lindo, até amanhã

Assim encerrei a chamada, e me mais uma vez me dei conta de que eu não conseguia lhe dizer "Eu te amo", essa era a segunda vez que ele me confirmava seus sentimentos e eu não conseguia retribuir as palavras. Mas eu estava realmente acabada e dormir era realmente meu plano, então me joguei na cama, me cobri e me encolhi junto aos lençóis. E como o cansaço era evidente, não tardei a pegar no sono, profundamente.

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Algo me fez sentir tanto medo naquela declaração abrupta. Meu coração se apertou dentro do peito, e nada me veio à mente para poder dizer. Como era típico da minha parte, eu fugi. Fugi desnorteada, confusa, boquiaberta. Estava sem rumo, e eu precisava de alguma paz. Ir embora com Spencer foi certamente a melhor coisa, já que eu não estava em totais condições para guiar o carro. Resolvi que contar tudo, também, não era a melhor opção. Afinal quando nós estamos tentando fugir de algo, é melhor não dizer nada em voz alta. Tudo que você receia sairá e te fará querer mais ainda aquilo de que tanto corre. Pois a voz é convincente e ruma sua alma para qualquer caminho. Toda revelação feita traz com mais clareza tudo aquilo que estava no obscuro da mente.

Só acordei no outro dia. Minhas pálpebras estavam inchadas, eu sentia. Minha cabeça doía, como se eu tivesse passado a noite toda enchendo a cara e agora a ressaca se manifestava. Encolhida de um lado da minha cama, comecei a me espreguiçar, tentando relaxar meus músculos tensos. Foi então que me deparei com um corpo deitado ao meu lado. Por um segundo ou dois, me assustei, só que logo me preencheu a mente que Spencer havia ficado comigo, então provavelmente caiu no sono sem ao menos perceber. Ela indubitavelmente estava cansada. Depois de tanto tempo naquele hospital ela devia estar completamente ruim, precisando de férias para se aliviar. O sol não me deixou dormir mais, nem minha mente.

Ainda em recusa pelo meu corpo, me forcei a levantar. Me movi sem fazer barulhos, e fui para o banheiro. Meu corpo cansado e sujo, pedia um banho rapidamente, e assim eu o fiz. Entrei debaixo da água quente, sentindo o jato forte bater nos meus ombros tensos. Fiquei ali por um bom tempo, em seguida sai e enrolei meus cabelos numa toalha e meu corpo em outra. Sai, ainda quieta esperando encontrar minha amiga dormindo, mas ao passar pela porta me deparei com ela ainda deitada mas me olhando com um sorriso de lado, piedoso.

– Está melhor? — sua voz estava rouca devido ao cansaço

– Nunca estive melhor — sorri falsamente, denunciando minha óbvia ironia

– Aria! — repreendeu-me

– Estou melhor Spenc'. Fique tranquila, tudo vai se resolver — sorri de lado

– Quer me contar o que está acontecendo com você? — ela era insistente, mas era tudo para poder me proteger

– Spencer... Não. Eu já disse, eu estou bem — suspirei cansada

– Não, Aria, você não está, e eu sei disse porque te conheço há tempo o suficiente, aliás te conheço a vida toda, praticamente

– Por favor, Spencer, me deixe em paz — já estava começando a ficar irritada

Esfreguei meus rosto com as mãos, cansada de tudo aquilo.

– Tudo bem, então. Não quero brigar com você de novo — foi ai que me lembrei de como tinha sido rude com ela no dia anterior

– A! Me desculpe por ontem, Spencer, eu não estava no meu melhor momento, sabe, algumas coisas aconteceram e eu estava confusa — soltei o ar que estava prendendo nos pulmões

– Fique sossegada, sei que não foi de propósito ter me tratado daquela maneira. Todos nós temos o direito de explodir às vezes

– É, mas eu fui longe demais. Você é a melhor pessoa que eu já conheci em toda minha vida. Olhe! Mesmo depois de tê-la tratado mal, você veio até aqui para me ajudar — eu era grata por ter ela em minha vida

– E eu faço isso porque amo você, amiga, e faço tudo que você precisar para lhe ajudar — seu sorriso era terno

– Obrigada, Spenc'. Eu também te amo

Fui até ela que agora estava sentada na beirada da cama e me sentando do seu lado a abracei apertado, e ela retribui da mesma forma. As lágrimas já tomavam meus olhos, e quando me afastei pude ver os dela um pouco vermelhos e molhados.

– Acho bom você pôr uma roupa, se não vai se atrasar para o trabalho — e ela riu, enxugando as lágrimas contidas

– Ok. E vai você tomar um banho também, está precisando — me levantei rindo e fui procurar minhas roupas

– Já estou indo. Prepare o café, por favor — e foi seu pedido antes de passar pela porta e ir para seu quarto

Enquanto ela tomava banho fui me vestir e assim que acabei desci as escadas e fui para a cozinha. Preparei um café bem quente e waffle com geléia de morango. Logo ela desceu, e tomamos café juntas, para logo em seguida seguirmos em direção ao hospital.

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Tudo entre eu e Aria tinha se resolvido. Amigas como nós brigávamos, mas sempre nos reconciliávamos no dia seguinte. Ela ainda se recusava a me contar o que lhe acontecia, e resolvi não insistir e deixá-la se acalmar por um tempo. Chegando no hospital, fui direto para minha sala, primeiro iria resolver algumas papeladas que já começavam a se acumular sobre minha mesa, depois iria ver Emily com mais calma. Ela devia estar com Hanna e isso me deixava menos preocupada, e além do mais era muito cedo e ela devia estar dormindo.

Fiquei em torno de quarenta minutos na minha sala, e mesmo sem ter acabado de revisar tudo, resolvi sair para ver Emily, pois os documentos principais já estavam em ordem. Era algo estranho, mas eu estava ansiosa, com o estômago borbulhando pensando que estava na hora de vê-la. Não sei a razão, mas eu poderia dizer, do jeito mais esquisito, que tinham borboletas no meu estômago. E foi tirando essa ideia da cabeça que fui para aquele quarto.

Passando em frente vidros me olhei e dei uma arrumada no cabelo, jogando-o para trás de um jeito, até mesmo, sexy. Logo continuei, e chegando ao meu destino pude ouvir uma voz diferente. Não era a de Hanna, mas me era conhecida, eu só não me lembrava a quem pertencia. De repente a voz parou, e quando adentrei o quarto levei um choque. Instantaneamente soei frio, e uma tristeza me surgiu e me abateu. Mas por que diabos aquilo estava acontecendo comigo? Eu já tinha entendido que aquilo era algo normal, mas por que estava me sentindo mal vendo acontecer?

Fiquei paralisada, sem saber o que fazer, o que dizer. Senti meu estômago embrulhar, mas agora era de uma forma ruim. As lágrimas me vieram aos olhos, me deixando, de repente, numa melancolia horrível.

Era um beijo profundo, de casal apaixonado. Emily sentada, encostada na cabeceira da cama, suas mãos na nuca dela. Era Maya que estava ali, apoiando-se na cama com as mãos sobre o travesseiro da outra, a beijando intensamente. Calada e paralisada, elas nem perceberam minha presença. Eu podia ver suas línguas se tocando, adentrando a boca uma da outra. Senti repulsa, mas não era por serem duas mulheres ali.

Fui tirada dos meus pensamentos pelo apito do meu celular. Abaixei minha cabeça bruscamente e peguei o aparelho do bolso do jaleco branco, e vi que era uma mensagem de Wren: "Vou me atrasar um pouco para chegar ao hospital, tive alguns imprevistos pessoais, me desculpe. — Drº Wren". "Tudo bem, fique tranquilo Drº. — Drª Spencer". Quando acabei de digitar não queria erguer a cabeça, não queria olhá-las. Mas não havia o que fazer, a única opção era levantar meus olhos e encarar os fatos. Foi o que fiz, ergui a cabeça e não encontrei minha visão preferida. As duas estavam paradas olhando para mim, de mãos dadas, sorrindo como idiotas. E assim minha pressão subiu rapidamente de tanta raiva, e tudo rodou por um instante.

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Notas finais
Espero que tenham gostado. COMENTEM. Beijos, até o próximo ;D