Notas iniciais
Amores! Me desculpem novamente a demora imensa, esses bloqueios, juntamente com a preguiça, andam me deixando impossibilitada. Quarta que passou eu estava disposta a acabar esse capítulo, já havia escrito o restante dele quase inteiro, quando eu burramente apaguei-o inteiro dos rascunhos do g-mail (que é onde eu escrevo). Ele tinha ficado muito bonito (pelo menos para mim) e aconteceu isso. Fiquei put* de raiva e fiquei até as 4 da manhã escrevendo para recuperar o tempo perdido. Tentei que ficasse o mais parecido possível, e creio que ficou bom. Espero que vocês gostem, dei duro nele para vocês hein! Acabei agorinha, então me perdoem qualquer erro ;D Boa leitura!

Maya e eu ficamos a noite toda conversando, falando sobre inúmeras coisas: sobre os tempos de faculdade de cada uma, tais quais eu festava e só saia quando o dia raiava, falamos sobre trivialidades, e também sobre nós, como nos conhecemos e como tudo começou

"Era um dia como frio de outono, eu havia acordado cedo, tinha um grande projeto para apresentar e estava ansiosíssima. Me levantei e diferente dos outros dias não estava preguiçosa para ter de entrar debaixo da ducha com o frio que estava. Então fui rapidamente para o banheiro e deixei a água quente aumentar a temperatura de meu corpo, e relaxar meus músculos tensos.

Ao acabar meu banho demorado, fui a procura de uma roupa elegante e quente. Me vesti e satisfeita com o que via, desci as escadas e tomei meu café. Era cedo ainda, mas estando adiantada eu podia me preparar melhor. Peguei minha bolsa, as pastas e o pen-drive onde meu arquivo de apresentação estava armazenado, e também a chave do carro e me dirigi para fora de casa.

O vento gelado que bateu em meu rosto quase me fez querer voltar para dentro, mas eu estava tão otimista comigo mesma que segui feliz para dentro do carro. Liguei o motor e pus o automóvel em movimento, logo seguindo em direção ao prédio. Fui o caminho todo repassando tudo em minha cabeça, cada detalhe importante.

Vinte minutos depois lá estava eu, em frente ao edifício "Building Between Air". Era um prédio enorme, projetado totalmente por mim. Cinqüenta andares formavam sua estrutura, o formato de onda deitadas, deixavam-o com um ar de moderno e ao mesmo tempo elegante demais. Sua sacadas eram espaçosas, envoltas por paredes de vidro, e onde não havia vidro o metal polido estava presente, fazendo com que as cores sérias, cinza e prata tomassem conta, mostrando a exuberância do local.

Eu estava ali para apresentar meus planos de decoração, pois o restante do prédio já estava totalmente pronto e a única coisa que faltava era preencher os andares com móveis, objetos, lustres, tudo o que fosse necessário para deixar o lugar em sua glória total.

Desci do carro e novamente o vento gelado bateu em meu rosto, mas agora algo a mais, uma intuição talvez, me dizia que algo novo iria me acontecer, algo que iria me tirar da rotina, mas não dei importância, pois não era sempre que minhas intuições davam certo.

Andei até a entrada do prédio e dei de cara com um segurança, um homem alto e bastante musculoso, que felizmente já me conhecia e sem pergunta alguma liberou minha entrada. Fui até o elevador e esperei que ele subisse até o décimo quinto andar, lá seria a reunião.

Ao chegar no andar observei todo o local. A sala de paredes de vidro era grande, dentro dela havia uma mesa bastante comprida toda envolta por cadeiras giratórias de acentos e encostos de couro preto com armação cromada, um telão ligado a um notebook ficava em frente a grande mesa, e lá seria onde eu encontraria os diretores e patrocinadores do edifício.

Fui até o notebook e pluguei meu pen-drive nele, abrindo meu arquivo de apresentação. Ainda eram oito e meia da manhã, e a reunião seria apenas as nove, então resolvi continuar treinando. Eu sabia que conseguiria impressioná-los, mas o frio no meu estômago ainda sim me deixava um pouco nervosa e apreensiva, contudo eu gostava daquilo, pois era uma sensação ótima receber a surpresa que você se saiu bem, e eu sempre conseguia, mas sempre era um desafio novo.

Abri minhas pastas sobre a mesa e fiquei revisando tudo até perceber que havia chegado a hora e as pessoas começavam a aparecer. Todos muito bem vestidos e elegantes, entravam sorridentes me cumprimentando com um aceno de longe.

A reunião seria composta por doze pessoas, e quando contei que todos já estavam presentes comecei

– Bom dia, senhoras e senhores. Sou Emily Fields e gostaria de lhes apresentar minha proposta para a finalização do projeto — minha voz era firme e bem colocada, e era exatamente assim que devia ser

Todos me olharam e assentiram. Era minha deixa. Me virei para o telão e respirei fundo, para logo começar a falar

– Bom, aqui como vo... — fui interrompida pelo ressoar da porta ao ser aberta.

Tomei ar e me virei, pronta para matar com o olhar quem quer que tivesse me interrompido. Só que quando avistei a imagem daquela mulher a minha frente, não tive reação, ao não ser sentir meu coração acelerar. Ela era linda. A pele morena, os cabelos compridos ondulados do meio para baixo, eram perfeitos, e seus olhos eram ainda mais bonitos, de um preto misterioso e sensual.

– Entre Srta Germain — Srº Galot se pronunciou sorrindo para ela — Sente-se — indicou ele e ela entrou ocupando um lugar mais afastado dos demais

Ela me olhou, gesticulando um "Desculpe" com os lábios carnudos, e eu apenas sorri e assenti. Assim continuei minha apresentação, sempre observando a morena, que em qualquer momento que eu a olhasse estava também me observando, ela com um olhar e sorriso maliciosos estampados na face. E todas as vezes meu estômago gelava.

Depois de quase duas horas falando sobre minhas propostas e idéias, eu finalmente havia acabado. Todos os doze componentes se entreolharam, me deixando ainda mais apreensiva e nervosa, esperando a opinião deles. Eles acenaram uns para os outros e começaram a aplaudir. Eu tinha me saído muito bem, e em nenhum momento, nenhum deles havia sequer contrariado qualquer coisa dentro dos planos, o que dizia que eles tinham amado completamente tudo.

Um a um foram se levantando e vindo até a mim, todos me cumprimentando com apertos de mão, e sorrisos largos de agradecimento, dizendo que eu havia me saído perfeita, e que tudo tinha ficado dentro do gosto deles. Era verdade aquele meu pensamento: nós podemos até saber que nos esforçamos o bastante e que tudo dará certo, mas o frio na barriga pela espera de uma resposta positiva, e finalmente a confirmação de que o que você fez foi bom, te traz uma alegria grandiosa.

A morena continuava afastada, esperando todos os outros virem até mim. Eu tentava ao máximo disfarçar, mas desde que ela chegou eu não parava de olhá-la. Observava-a de canto de olho, sentindo meu coração disparar toda vez que o fazia.

O último a vir ate a mim foi o Srº. Galot, que agradeceu e me parabenizou imensamente pelo trabalho bem feito. Quando ele se afastou a Srta. Germain começou a andar até a mim, com aquele mesmo sorriso de segundas intenções instalado nos lábios.

Quando ela chegou a minha frente estendeu a mão, mas eu estava paralisada, e demorei alguns segundos para me por no lugar. Peguei a mão dela e senti-a aperta-la docemente.

– Parabéns pela apresentação, foi tudo, realmente perfeito — parabenizou-me ela

– Ah, obrigada — agradeci um pouco tímida

– É um prazer lhe conhecer srta. Fields, venho acompanhando seu trabalho a um tempo e posso te dizer que é uma honra estar aqui

Ela estava me desconcertando facilmente com aquele sorriso, me deixando excitada com tanta beleza

– Obrigada novamente, Srta? — eu ainda não sabia seu nome

– Maya. Maya St Germain — apresentou-se

– Então, Maya o que lhe traz aqui? — afinal eu não sabia oque ela queria, ela não fazia parte da comissão do prédio

– Bom, vamos direto ao ponto. Eu sou uma admiradora do seu trabalho e eu gostaria de tirar algumas fotos dos seus projetos para a revista onde eu estou trabalhando — ela foi direta e com aquele sorriso não tinha como eu negar

– Tudo bem — permiti, sorrindo largamente para ela

– Nós poderíamos começar hoje mesmo por aqui se não for incomodo

– Tudo bem. Vamos começar lá de baixo então — propus gentilmente e ela apenas assentiu e a acompanhei até o elevador

Descemos até o piso e foi por onde ela começou a sessão. Tirava fotos de todos os cantos, sempre entre um intervalo e outro voltando a atenção para mim e mostrando a fileira de dentes brancos lindamente. E eu me deleitava com aquela visão. Ela tinha mesmo mexido comigo. Talvez fosse essa a intuição de mais cedo. Algo que fosse me tirar da rotina e me mudar.

O prédio era grande, então apenas dez dos cinquenta andares, os mais importantes, seriam fotografados. Já no terceiro, em meio a uma conversa profissional ela começou a dar suas indiretas

– É compreensível — falou ela, do nada, me deixando confusa

– O que é compreensível? — sorri equivocada, arqueando uma das sobrancelhas

– A beleza daqui, assim como todos seus outros projetos. A responsável é linda, e de tão bom gosto, que seu trabalho só poderia ser magnífico — afirmou, erguendo uma das sobrancelhas, com aquele mesmo olhar malicioso

Naquele momento me senti totalmente sem jeito. Ela estava jogando muito bem. Não a respondi. Ela provavelmente percebeu que eu não tinha resposta então continuou a tirar fotos e falar sobre outras amenidades. Depois de cinco andares já fotografados, olhei o relógio em meu pulso. Já estava na hora do almoço, e meu estômago começava a reclamar.

– Maya, já está tarde, você quer ir almoçar? — perguntei inocentemente

– Olhe! Um convite de Emily Fields? Não há como recusar, não é — ela estava mesmo a se jogar para cima de mim

– Então vamos — eu estava tentando não dar brechas, apesar de ser o que eu mais queria.

Além do mais ela já tinha me atingido. Descemos pelo elevador, e fomos até o restaurante do outro lado da rua. Era um lugar luxuoso, todo refinado e caro, mas eu não precisava me preocupar com isso exatamente. Nos acomodamos em uma mesa para dois e fizemos nossos pedidos. Enquanto esperávamos pedimos vinho para tomar. Logo ela começou um diálogo, agora fugindo um pouco das perguntas formais de trabalho e abrindo mais espaço para perguntas pessoais.

– Então, Emily... Você namora? — resolveu perguntar sem acanhamentos

– Não, o trabalho ocupa muito meu tempo, então é um pouco difícil — respondi sorridente, dando de ombros

Eu não estava me incomodando com as perguntas. Ela era ousada e sem medos, o que fazia com que minha líbido se agudasse a cada atrevimento que lhe saia daqueles lábios tão desejáveis

– Bom, o cara que namorar com você sera um belo sortudo — disse, dando uma piscadela, tendo nos olhos um brilho misterioso e intenso. Logo em seguida tomou um gole do líquido vinho escuro de sua taça.

– Não será bem um sortuDO — enfatizei a ultima sílaba, ela me olhou tentando entender o porque de eu tê-lo feito, então continuei — Eu mantenho relação com outro tipo de pessoas, se é que você me entende

Eu não tinha vergonha de falar que era lésbica com todas as letras, mas se tratando de um almoço que deveria ser profissional eu resolvi falar de outra forma, mesmo tendo quase total certeza de que ela já sabia a minha opção sexual, desde que entrou pela porta da sala de reuniões

– Ah sim. Uau. Que notícia... — fez uma pequena pausa como se procurasse a melhor palavra — ...interessante, para mim — tomou novamente um pouco de seu líquido e voltou-se para mim imediatamente — E se eu te disser que tenho a mesma linha de relacionamentos que você. Você acharia interessante, Srta Fields?

Abri e fechei a boca duas vezes, eu estava embaraçada demais para lhe responder aquilo, mas meu coração havia se acelerado e meus pelos se arrepiado por todo corpo, eu queria lhe responder sim no mesmo instante, mas não conseguia, minha timidez, quase nunca presente, tinha se aflorado naquele instante. Fui salva pelo garçom que chegou com nossos pedidos e colou-os sobre a mesa. Fingi que tinha esquecido sua pergunta e virei minha atenção para o prato a minha frente.

Comemos ainda conversando, enquanto ela me fazia perguntas sempre pessoais. Assim que acabamos voltamos para o prédio, para continuar a sessão de fotos. Ficamos mais algumas horas explorando os cantos dos andares, nunca parando de conversar, ela sempre tinha algum assunto para interagir. O ultimo local era o telhado, que para mim era o mais bonito de todos. Subimos até lá e ela ficou boquiaberta com o que viu.

O telhado era grande, metade dele era coberto por uma cúpula de vidro gigantesca, envolvendo um espaço para as festas que eles fossem celebrar. No espaço coberto continha uma grande piscina, mesas de madeira escura com bancos do mesmo material, espalhadas pelo local, um bar encostado em uma das paredes, repleto de bebidas, das mais caras, e de todos os tipos: vinhos tintos e brancos, whisky, champagnes, cervejas, vodka, rum, gin, tequilas e muitos outros, tudo sobre prateleiras de madeira escura envernizadas e chiques. O bar era envolto por um balcão com pedra de granito preto, com bancos altos sem encosto, de alumínio espalhados ao seu redor. Todos os detalhes ali eram muito bonitos, tinha sido um dos únicos locais que foi pedido para a decoração ser planejada antes, e assim ali tudo já estava pronto. Do lado da cúpula, a outra metade do telhado, era uma plataforma para pouso de helicópteros.

Quando ela terminou, me olhou sorridente, e uma ideia me veio. Não haveria problema em pegar uma garrafa de champagne dentre centenas de bebidas ali, o dia tinha sido longo, e eu merecia uma comemoração, assim como Maya que tinha passado o dia todo trabalhando também. Escolhi uma garrafa que me agradou, procurei as taças e as coloquei sobre o balcão. Com jeitinho consegui abrir a garrafa, e despejei a bebida borbulhante em nossas taças finas. Sentei-me em um dos banquinhos em frente ao balcão e fui acompanhada por Maya que sentou ao meu lado.

Ambas felizes, ainda conversávamos sobre tudo, rindo a todo instante.

– Espero que suas fotos tenham ficado boas — apoiei, sorrindo para ela, sendo sincera

– Eu sou uma boa fotógrafa, Emily, e o local é lindo, não há como as fotos ficarem feias — explicou calmamente

De repente inclinou o corpo para frente — até aquele momento eu não havia reparado naquela proximidade toda — e pousou uma das mãos sobre minha coxa, pressionando os dedos no local. Minha respiração acelerou.

– Você é uma mulher linda, Emily, será que eu poderia tirar algumas fotos sua? — sua expressão pidona me encantou novamente

Apenas assenti, sem dizer uma só palavras, esperando as minhas palpitações se acalmarem e continuamos a conversar. Vez ou outra ela tirava uma foto de mim sem avisar, provavelmente para que eu saísse de forma espontânea, e sempre que ela me clicava, ela sorria satisfeita. Tomamos duas taças do champagne cada uma, e resolvemos que era hora de ir.

Entramos no elevador. Eram cinquenta andares para descer, o que levaria alguns minutos. Eu estava cansada, sentindo meus pés doloridos por ter ficado o dia todo de pé, sustentada pelos saltos finos das minhas ankie boots. Então antes mesmo da porta se fechar tirei meus sapatos, e escorei minhas costas na parede de trás do cubículo. Maya estava à minha frente, olhando diretamente nos meus olhos, inexpressiva. Meu sangue ferveu, e começou a correr mais rapidamente pelas minhas veias.

Por um segundo olhei para o marcador digital. Estávamos no quadragésimo quinto andar. Esse foi o segundo que eu tive, até ela andar em minha direção, colar nossos corpos, pousar suas mãos sobre minha cintura, e me beijar, me prensando na parede do elevador. Parece que pelo dia todo nós tínhamos ansiado por aquilo. Meu corpo estava quente, eu tinha perdido a noção de tudo, estava totalmente entregue àquele beijo, meu cérebro tinha focado totalmente naquilo, nem suas mãos eu me lembro por onde passaram.

Só fui me dar conta de tudo quando acabei percebendo que a porta do elevador estava aberta, e avistei um segurança na entrada, que nos olhava e virou a atenção no instante que viu que eu o encarava. E foi assim que tudo começou, que todo o sentimento apareceu, e que nós começamos um relacionamento"

Fomos dormir já de madrugada, mas mesmo assim acordamos cedo, como se tivéssemos dormido a noite toda. Estávamos matando a saudade, entre beijos devoradores, sem nos importar com quem quer que passasse por ali, quando fomos interrompidas por um barulho do lado da porta. Levantamos, ligeiramente assustadas, e avistei aquela mulher ao lado da porta. Era Spencer que estava ali, vestida em seu jaleco branco, com os cabelos jogados para trás, que voltavam agora a escorrer, de uma forma incomparavelmente linda.

Eu e Maya esperávamos sorridentes ela se virar para nós enquanto ela olhava alguns segundos para o celular em sua mão, provavelmente respondendo alguma mensagem ou qualquer coisa do tipo. E quando ela levantou a cabeça, cambaleou no próprio eixo. Rapidamente impulsionei meu corpo para frente, ficando subitamente preocupada. Eu queria correr para ajudá-la mas não podia, eu não tinha total coordenação de minhas pernas. Então Maya se levantou e foi até Spencer, segurando-a para que não caísse.

– Você está bem? — perguntei de longe, ardendo em inquietude

– Estou. Foi só uma queda de pressão — informou ela, sorrindo fraco, mas sem ao menos me olhar ou levantar a cebeça

– Tem certeza? — Maya quis se certificar

– Tenho. Não foi nada de mais. — novamente ela sorriu cansadamente, olhando para o chão e para as paredes, sem manter contato visual conosco e se firmou sem a ajuda de Maya

– Spencer, você tomou café da manhã? — eu ainda não estava convencida que aquilo não era nada

– Sim, eu comi. Está tudo bem, é só o excesso de trabalho — afirmou ela

Ficamos, as três, em alguns longos segundos de um silêncio agonizante. Maya me olhando confusa, e eu retribuía o olhar sem ter resposta. Já Spencer estava parada aparentemente incomodada, fixando o chão, sem se mexer

– Bom, meninas, acho que já vou indo — informou, fingindo me olhar e fixando qualquer ponto por cima do meu ombro — Só vim ver se você estava bem, Emily — explicou — Parece que está até bem demais — falou baixinho depois de desviar o olha para longe mais uma vez, dando um sorriso sínico — É isso, já vou — apressou-se

E assim que ela se virou, tive um impulso involuntário e só percebi depois de que minha voz saiu

– Spencer! — chamei-a quase que num grito e ela se virou para mim

– Sim?

– Você poderia dar uma olhada na minha perna? É que ela está doendo onde foi posto o pino — menti descaradamente, sem nem ao menos me importar com a presença de minha namorada

Nada me doía nada, mas por alguma razão eu queria que ela continuasse ali perto de mim, e aquela foi a única forma que me apareceu primeiro, de convence-la

– Posso — respondeu, ela, vindo logo em seguida em minha direção

Ela se sentou do meu lado na cama e descobriu minhas pernas que estavam tapadas pelos lençóis brancos. Maya estava parada de pé ao lado da cama, observando o trabalho de Spencer. Ela então começou a massagear minha perna, aparentemente a procura da origem da minha dor. Seus dedos eram extremamente gélidos e delicados e o toque deles sobre minha pele começou a me enviar arrepios pelo corpo, talvez ou obviamente por conta da sua baixa temperatura.

– Maya, você não quer ir tomar café? Nós acordamos cedo e você deve estar com fome. E depois, não queremos que a pressão de mais ninguém aqui caia, não é? — fui o mais convincente possível

– Eu vou, amor. Estou mesmo morrendo de fome — informou, ela. E antes de sair me lançou um beijo no ar e piscou, logo em seguida se virando e saindo do quarto

Agora nós estávamos sozinhas e eu precisava saber o que estava acontecendo com ela

– O que há com você Spencer? — perguntei desconfiada, sem rodeios

– O que? Não há nada, eu já disse — afirmou ela, tentando soar o mais verdadeira possível

Falhou!

Eu sabia que tinha alguma coisa acontecendo ali, ela parecia não saber mentir muito bem, seu jeito de agir, não me olhar nos olhos e ficar sorrindo forçadamente a todo momento a denunciavam.

– Ora,Spencer, faça outra pessoa de idiota, não eu! — exclamei aborrecida — O que é? Você pode me dizer o que está acontecendo de verdade? Se você é aquele tipo nojento de pessoa preconceituosa? Pois só foi você entrar aqui e nos ver juntas, que você começou a agir assim, diferente, de uma maneira estranha. Do momento em que você passou por aquela porta até agora, você não me olhou diretamente nos olhos uma só vez — eu já estava nervosa, irritada, falando alto, tornando aquilo numa briga, tal qual só eu mesma brigava

Eu sei que eu estava sendo ridícula, e que talvez ela só estivesse mal mesmo, pelo fato de sua pressão ter caído momentos atrás, e que unicamente fosse essa a razão de sua estranheza. Mas eu não estava conseguindo me controlar e tudo estava apenas saindo pela minha boca. Eu nunca havia me preocupado com a opinião dos outros em saber que eu era lésbica, se me tratassem bem, ótimo, do contrário, foda-se quem quer que fosse. Mas com ela eu estava dando importância demais, eu só não sabia o porque.

– Não é nada disso — pela primeira vez no dia ela conseguiu me olhar firme — Eu já sabia de vocês, e eu respeito muito o que vocês tem, mas isso não quer dizer que eu precise aceitar — ela falava calmamente, cabisbaixa — Mas o ponto não é esse. Eu acho que você merece coisa melhor que a Maya, Emily.

Fiquei chocada. O que ela sabia sobre nós para estar falando uma coisa daquelas? Ela não tinha o direito de sequer ousar rebaixar minha namorada daquela forma.

– Você nem nos conhece direito, ou melhor, não nos conhece em nada. Você não sabe como nós nos relacionamos. Para a sua informação Maya é uma pessoa muito boa para mim — meu sangue estava fervendo de nervoso e a audácia dela só piorava tudo

– Você sabe, por acaso, quantas ela veio te visitar? — olhou-me incrédula, numa risada caçoante

– E no que isso importa? — perguntei sem entender onde ela queria chegar com tudo aquilo

– No que isso importa? — fitou-me descrente e deu um sorriso sínico — Pelo amor de Deus, Emily! Se ela veio quatro ou cinco dias aqui foi muito, para passar uma ou duas no máximo te vendo. Acho que quem se importa tem pelo menos a decência de querer informações do outro. Ela nem se quer ligou aqui para saber como você estava. — ela estava irritada e cansada — A Hanna veio aqui todos os santos dias — virou sua atenção novamente para fora, de perfil pude enxergar uma expressão triste em seu rosto — E eu me mudei pra cá — disse baixinho como que para si mesma

Realmente, quando alguém se importa com um segundo, ele fica preocupado, angustiado, querendo a todo instante ter informações. Eu estava em coma, quase tinha perdido minha vida, e o mínimo de consideração eu merecia ter de alguém que estava namorando. Se fosse eu no lugar dela, não teria saído do seu lado um segundo sequer. Mas esse era um assunto que eu teria que resolver depois, com Maya e com calma.

– Sabe, Spencer... eu não acho que você tenha se preocupado comigo de verdade, só acho que você estava temendo pela sua própria imagem, em ter a chance de ter que levar pelo resto da sua vida a morte de alguém nas costas, de ter que carregar a culpa de ter me atropelado e ter a chance de eu morrer. Você nunca se preocupou de verdade comigo, era só você, só a sua imagem, seu nome, nada mais que isso — revelei minha opinião num fôlego só, sem medir palavras nem consequências

– É, Emily, você não me conhece mesmo — ela estava indignada com minhas palavras, seu olhos arregalados, descrentes — Você acha mesmo que eu estive tão preocupada com minha imagem? — suspirou cansada, mas logo continuou, agora com a voz mais calma — Quer saber? — fez uma pausa e suspirou novamente — Há alguns anos houve uma paciente minha, uma criança, uma menina linda, inocente, no começo da vida. Ela estava com tumores espalhados por todo o cérebro e precisava de uma cirurgia. Até seria uma operação simples, se não fosse por alguns abcessos que estavam mais profundos. Eles tornariam a cirurgia um tanto quanto, mais complicada. Se a garotinha ficasse sem fazer a cirurgia ela morreria logo, pois ela não suportava as quimioterapias e assim os cânceres só iriam aumentar. Se eu fizesse a cirurgia e errasse em algum momento na retirada dos que estavam mais profundos, ela morreria na mesa. Era uma situação delicada demais, mas eu resolvi correr o risco. Entrei naquela sala confiante e me pus a fazer meu trabalho. Depois de duas horas eu havia tirado mais de setenta por cento dos tumores, e já estava certa de que não haveriam problemas dali em diante. Foi meu erro achar uma coisa daquelas. Eu estava fazendo a retirada do tumor mais profundo de todos os outros, quando eu errei, e a garotinha teve morte cerebral. Mas eu não me senti culpada em segundo algum. Eu sabia que haviam riscos e que aquilo podia acontecer, pois a vida de um médico é assim: um dia nós conseguimos salvar vidas, no outro não. Nós não somos Deuses, não somos milagrosos e a morte é a única certeza que podemos levar como verdade, nós só tentamos adiar ao máximo essa evidência. Você acha mesmo que se eu ligasse o mínimo que fosse para minha imagem, eu tinha sequer entrado naquela sala e arriscado tudo? — eu a olhava inexpressiva, não tinha coragem tentar faze-la parar de falar

– O dia que eu te atropelei, Emily, eu fiquei devastada. Foi tudo muito rápido. Você caiu na pista na frente do meu carro, e eu não consegui frear. A pista estava derrapando e eu perdi o controle do volante. Eu não estava bêbada, não estava correndo, e nem falando ao celular. Foi um acidente, e todos me diziam isso, que eu não tinha que me sentir culpada, que eu não havia sido culpada, mas alguma coisa dentro de mim ficava me dizendo o contrário e não me deixava acreditar em todos, mesmo sabendo lá no fundo que o que eles falavam era verdade. Quando eu te acertei fiquei desesperada, te ver caída quase sem vida, perdendo tanto sangue... eu fiquei louca de medo de ter que ver você morrer nos meus braços. Seu rosto era tão lindo. Eu queria poder vê-lo novamente, sorrindo, ver o brilho de seus olhos, ouvir sua voz... E isso era tudo que eu conseguia pensar. Passei um mês inteiro aqui dentro desse quarto, saindo unicamente e estritamente apenas para o necessário, e mesmo assim quando eu saia, ficava inquieta para voltar logo. Eu fiquei tão preocupada com você, você não imagina o tanto, nem de longe. Fui eu a primeira pessoa a te ver acordada, e foi a coisa mais linda que já ouvi na minha vida toda quando você disse suas primeiras palavras. Fiquei tão feliz que eu não posso por em palavras exatamente como me senti ao te ver sorrir pela primeira vez na minha vida, ver seus olhos cansados, brilhando sem saber de nada. — seu tom havia se amenizado e seus olhos estavam se enchendo de lágrimas — Eu nunca me senti assim por ninguém, Emily, nem por aquela menininha, a qual fui EU que errei.

Eu estava me sentindo culpada por tê-la acusado tão malvadamente. Estava também emocionada, com tudo que ela havia me dito. Ela era uma pessoa boa e eu estava sendo uma completa idiota. Me arrastei e me ajeitei na cama, ficando perto dela, e a abracei.

– Me desculpe — pedi baixinho, apertando-a ainda mais contra mim, beijando seu pescoço ternamente

– Então não venha me dizer que eu não me preocupei, pois foi isso, e exatamente que eu fiz esse tempo todo — seu braços, antes soltos, rodearam minha cintura, me apertando contra seu corpo esguio.

Pude senti-la afundar o rosto em meu pescoço, aspirando fortemente meu cheiro de hospital. Meus pelos se arrepiaram e meu coração acelerou.

– Me desculpe, me desculpe. Eu nunca mais falarei isso, eu prometo. Eu sou uma idiota. Me desculpe, Spencer — implorei chorosa, ainda lhe abraçando

– Pedindo assim... e já que você está prometendo mesmo... tudo bem — me apertou forte mais uma vez, e fomos nos soltando

Paramos frente a frente, olhando uma nos olhos da outra. Seu rosto estava vermelho e os olhos encharcados, derramando algumas lágrimas não contidas. Soltei uma mão de seu corpo e a direcionei até seu rosto, limpando com o polegar uma gota que ainda escorria, grossa, sobre sua pele, pousando meus outros dedos na sua bochecha quente.

Não havia dúvidas, ela era linda, sem tirar nem por detalhe algum. Aquelas orbes agora num tom de âmbar, eram exuberantes, a boca avermelhada naturalmente, e uma pele tão branca e macia que até parecia algodão. Seu olhar estava fixo no meu, e era um olhar tão carregado de emoções que eu não conhecia, que tinha medo de continuar fixando-os e acabar me perdendo. Mas eu não conseguia desviar, e alternava a atenção entre aquele vermelho aprazível e aqueles âmbares nebulosos. Um imã parecia me puxar e era tão forte que eu não tinha forçar para impedir, e ela não se mexia nem um milímetro sequer.

– Atrapalho alguma coisa? — assustei-me intensamente ao ouvir aquela voz

Me voltei para a origem do som, com os olhos arregalados, e dei de cara com Maya de pé escorada no batente da porta, com as pernas cruzadas, segurando um copo de café ou coisa assim, nas mãos. Meu coração falhou algumas batidas, antes de eu me recompor, balançando a cabeça.

– Claro que não, meu amor. A Spencer só estava me contando como meu acidente aconteceu, e ela acabou se emocionando — menti e sorri, fingindo uma calma, que não me existia naquele momento

– Entendi — ela se moveu da porta e se aproximou de nós

Spencer não tinha se pronunciado, continuava paralisada de frente para mim, até que se pronunciou

– Não há nada demais com sua perna, é até normal. Depois peço para o Drº Wren verificar — falou sorrindo e se levantou rapidamente — Agora eu estou mesmo indo. Tchau, Emily. — se despediu de mim — Maya — virou-se para minha namorada e acenou com a cabeça, recebendo outro de volta, e assim se dirigiu rapidamente para fora do quarto.

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Notas finais
Espero que tenham gostado. COMENTEM, pelo amor de Deus. E recomendem *----* Beijos e até o próximo ;D.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.