Minha redenção
19 Um anjo com sabor de pecado.
Notas iniciais
"Na boca pura, saliva com gosto de salvação.
O demônio se esbalda.
Manchando a inocência com a sua depravação.
A noite turbulenta traz benefícios.
O ser das trevas se aproveita, tirando para si o gosto angelical.
Misturando redenção com escuridão."
~ Chibi Lord
Sebastian
Fui arrancado do mundo dos sonhos por gritos dolorosos no quarto ao lado. Me levantei ainda cambaleante pelo recente despertar e corri para o outro cômodo. A porta permanecia aberta, Ciel não permitia que nenhuma das portas fossem fechadas, nem a de meu quarto nem a do dele. Entrei e encontrei um retrato agoniante, meu menino aos prantos na cama, os olhos chorosos, em pânico. Sentei-me junto dele tentando acalmá-lo, segurei seus braços que se debatiam. Ele oscilava entre realidade e lembranças dolorosas de um passado nem tão distante. Julgando real mais um pesadelo.
–Está tudo bem, eu estou aqui com você. -sussurrei próximo ao seu ouvido.
–Tio, por favor! Não deixa ele me machucar! Por favor, não me deixe sozinho. — se agarrou a mim, as lágrimas molhando minha camisa.
–Eu nunca vou te deixar só e ninguém nunca mais lhe fará mal. – eu disse e o abracei.
Com o menino em meu colo eu me dirigi de volta ao meu quarto. Não era todas as noites que essas crises aconteciam, mas eram noites o bastante para já termos criado uma rotina. A cama de Ciel era pequena para todos nós e eu não deixaria nunca mais meu menino sozinho. Em minha cama Ciel deitava-se no meio, eu em um dos lados e Sky no outro. O cão, assim como eu, parecia saber que o seu pequeno dono, naqueles momentos, precisava estar com aqueles que lhe transmitissem segurança.
Eu afastei os fios macios da fronte recoberta de suor e a beijei e estreitei-o em meus braços.
Ele suspirou e piscou algumas vezes, como se afastando as lembranças daquele ser desprezível que eu falhara em matar.
– Ele... ele me caçava... ele invadia a nossa casa... e me pegava... Eu não podia fugir dele... e ele... ele... — ele gemeu, as lágrimas descendo por seu rosto tão belo.
– Shhhh... meu querido... meu amor... foi só um sonho ruim... ele não está aqui. Ele nunca mais vai te tocar. Eu não vou permitir. — eu sussurrei baixinho enquanto acariciava seus cabelos.
Era uma promessa. Nunca mais eu deixaria que aquele monstro ou qualquer outro ferisse o meu menino. Eu mesmo, inclusive. O ataque que meu sobrinho sofrera e ver como ele estava agora causaram grande impacto em mim. Meu desejo de protegê-lo estava superando o meu desejo de tomá-lo e o monstro em mim parecia adormecido, pelo menos por enquanto.
Ciel chorava e disse com a voz embargada pela dor.
– No sonho... enquanto ele... me machucava... você chegava... mas ele... ele machucava você! Ele matava você! E eu... eu... — ele me apertava e afundava o rosto no meu peito — Eu não quero que isso aconteça! Que ele nos separe! Que ele tire você de mim e me leve com ele!
Ciel tremia, a respiração entrecortada pelos soluços.
–Acalme-se... — deixei um beijo na testa, meus braços o apertando mais contra meu corpo. — Isso não irá acontecer, Ciel. Não irá, eu lhe prometo. Sorri triste para cão, Sky choramingava baixinho, os olhos atentos a nós. Sensível ao sofrimento de seu pequeno dono.
–Você acredita em mim, não acredita, Ciel? -perguntei.
–Sim. — recebi um sussurro baixo como resposta.
–Então acredite quando eu lhe digo que nada e nem ninguém nesse mundo lhe fará mal.
As mãos se apertaram em minha camisa, o rosto choroso me encarou, os lábios finos e delicados tremiam, as sobrancelhas franzidas e avermelhadas pelo choro.
– Eu acredito, tio Sebastian... — a distância entre nós se desfazendo, Ciel me beijou. Apenas um toque suave entre nossos lábios que não tinha nenhuma outra conotação além de carinhoso. Nenhuma malícia. O toque se findou e Ciel enterrou a cabeça em meu peito e, depois de algum tempo, eu pude sentir a respiração calma de quem dorme.
Beijei seus cabelos e o afaguei. E apesar de ser me doloroso ver o quanto ele sofrera e ainda estava sofrendo uma parte de mim, egoísta, se sentia feliz de ver que o aterrorizava a idéia de me perder, da mesma forma que eu me aterrorizara de perdê-lo. De ver que ele encontrava conforto e consolo em meus braços e, sem que ele próprio tivesse consciência disso, sua presença tão amada ali comigo também me confortava e consolava. Era uma coisa que eu nunca antes desfrutara.
Meus braços estiveram vazios por toda a minha vida.
Até ele chegar.
Eu não deixaria ninguém mais o ferir, ninguém mais o levar de mim. Eu não permitiria que ele me deixasse. Nem mesmo se ele um dia o quisesse... eu percebia agora.
Porque ele era meu e eu era egoísta.
E eu não sabia mais viver sem ele.
E eu queria que ele não soubesse viver sem mim.
– Eu quero ficar para sempre com você... — Como se lesse meus pensamentos Ciel sussurrou em meio ao sono. Sorri enternecido.
Adormeci abraçado a ele, aceitando aquelas palavras ditas enquanto ele nem estava consciente como uma promessa dele para mim.
Ciel
O despertador tocou e eu furtivamente o desliguei. Eu não iria para a aula naquele dia e não desejava que meu tio fosse trabalhar. Fiquei encarando o rosto do homem adormecido ao meu lado, belo, sereno e calmo. Suspirei acariciando seu rosto. Apesar de tudo eu me sentia um pouco feliz, afinal meu tio agora não mais fugia de mim e isso já era motivo para a minha alegria. Me descobri pois estar entre meu tio e Sky estava me dando calor. O cão acordou e lambeu meu rosto me fazendo sorrir em agradecimento. Me permiti ficar entre os dois pelo tempo que consegui, mas a vontade de ir ao banheiro me venceu e me fez levantar para ir. Mesmo sendo aquele o banheiro particular de meu tio agora eu tinha uma escova de dentes ali. Escovei os meus dentes, lavei meu rosto e, o mais silencioso que pude, saí do quarto. De modo algum queria acordar tio Sebastian. Sky veio comigo. Desci as escadas e fui à cozinha. Encontrei a Senhora Vitória que me deu bom dia e perguntou se tio Sebastian não iria para o trabalho.
Eu menti. Disse que ele se sentia indisposto e pedi para que ela colocasse o nosso café da manhã em uma bandeja. Que eu desejava levar isto para ele e o acompanhá-lo tomando o café na cama. Ela arrumou a bandeja mas não deixou que eu a levasse. Subiu as escadas levando-a ela própria e me acompanhando e só depois de abrir a porta e deixar o objeto de prata sobre uma mesinha se retirou levando consigo Sky que também merecia seu café da manhã.
Abri as pesadas cortinas deixando que o sol entrasse pela janela. Este alcançou em cheio os olhos do homem na cama. Tio Sebastian acordou, primeiro olhou para o meu lugar vazio ao seu lado na cama e depois para mim, sorrindo abertamente ao me ver segurando a pesada bandeja.
– Bom dia, meu pequeno. – ele disse com a voz ainda meio rouca e um sorriso se abriu em meu rosto.
– Bom dia. — deixei a bandeja sobre as suas pernas quando ele se sentou na cama apoiado na cabeceira. Fiz a volta e me sentei aonde antes eu dormira.
– Como você está hoje? — perguntou acariciando meus cabelos.
– Melhor. – respondi timidamente.
Ele me sorriu e depois olhou para o relógio constatando já estar em demasia atrasado. Me olhou com uma expressão falsa de repreensão.
–Sabes bem que preciso ir trabalhar. — disse já levando a torrada com geléia à minha boca. — Por mais que a minha maior vontade seja ficar aqui com você.
–Só hoje, por favor. — falei de boca cheia depois de morder um pedaço do alimento e fazendo-o rir.
– Eu tenho uma reunião importante hoje. Não posso me ausentar. — ele retrucou e eu me calei. Eu sabia que estava sendo infantil e que não poderia insistir naquilo. Mas mesmo assim eu tentara.
– Bem, a reunião é no começo da tarde. Acho que posso ficar com você agora pela manhã. — Ele disse após estalar a língua — Então não faça essa carinha.
Sorri amplamente. Me ajeitei sobre a cama e continuei a comer a torrada. Tio Sebastian serviu — se de uma xícara de café e olhava fixamente para algo. Segui o seu olhar e percebi que ele observava minhas pernas. Eu usava uma bermuda um tanto curta para dormir e ainda estava com ela. Seus olhos estavam nas minhas coxas. Numa reação quase inconsciente eu desci minha mão para elas como se para protegê — las daquele olhar e senti meu rosto esquentar.
– Oh... desculpe... — Tio Sebastian se apressou a dizer, virando o rosto para o lado, constrangido, e eu também não sabia que dizer. Não fora minha intenção deixá — lo sem graça. Eu apenas...
Terminamos de comer em silêncio. Ambos imersos em pensamentos.
Então ele se levantou e foi colocar a bandeja sobre a cômoda. Ficou ali parado, as costas voltadas para mim.
– Eu... sou sujo como aquele maldito...
– O quê?! — eu respondi sem entender a que ele estava se referindo.
– Eu não consigo evitar... eu te olho dessa forma. Depois de tudo o que você já sofreu...Como pode não me odiar? Você ainda vai me odiar...
Ele pousou as mãos no móvel e curvou as costas abaixando a cabeça. Ele falara tão baixo que eu mal pude ouví -lo mas suas palavras me feriram profundamente.
Me feria ele falar de si mesmo, aquele que eu tanto amava, comparando — se ao homem que eu mais odiava.
– Pare! — eu falei, furioso com tudo aquilo — Pare de dizer essas coisas.
Ele permaneceu em silêncio e eu não pude mais suportar.
Desci da cama, corri para ele e o abracei por trás, escondendo meu rosto em suas costas. Ele reagiu com surpresa, não esperava aquele meu gesto.
– Ciel?
– Eu jamais irei odiá-lo! A cada dia que passa mais eu entendo o que eu sinto. Eu amo você... Cada vez que você fala dessa maneira é como se cravasse facas em meu coração... Por favor, não fale assim de si mesmo.
– Ciel...
Ele se virou e nós nos abraçamos.
– Eu não quero te machucar... mas basta você estar comigo... eu sentir este seu cheiro bom... eu tenho medo de mim mesmo e do que possa vir a lhe fazer. — sua voz era triste.
Eu não queria mais ouvir sobre aquilo. Ele não era e nem jamais seria como o prof. Faustus. Aquele me enchia de temor, de nojo. A simples lembrança daquele monstro me trazia calafrios. Mas meu tio não. Ele era diferente. Eu me sentia amado por ele, ele me trazia sensações boas e eu me sentia seguro.
E mais que isso, eu queria estar com ele.
Era diferente de estar com meu pai.
Quando ele estava comigo eu sentia uma onda de felicidade tão imensa e quando ele me evitava meu peito doía como se me fosse tirado algo sem o qual eu não sabia viver.
– Eu... eu também me sinto... diferente... Quando ficamos juntos assim... mas eu... gosto de ficar com você... deste jeito... — sussurrei escolhendo as minhas palavras.
Eu queria conseguir me expressar para ele. Fazê-lo me entender.
Ele se afastou um pouco e me olhou. Nossos olhos se encontraram. Ficamos ali, olhando um para o outro sem nada mais dizer. Eu me perdendo naqueles olhos castanho avermelhados, brilhantes. E então os olhos dele desceram para os meus lábios. Minha respiração começou a se acelerar assim como o meu coração. Ele se inclinou para a frente. Meu rosto queimava. Seguindo o exemplo dele eu também olhei para os seus lábios. Ali, a poucos centímetros dos meus. Quando ergui o olhar novamente ele me observava atento. Sem pensar mais eu fechei os meus olhos e levantei levemente o queixo.
Eu ofereci a ele a minha boca.
E um segundo depois ele a tomou, carinhoso.
Sua boca era quente, suave, macia. Nós nos beijamos assim a principio, meu coração batendo tão acelerado. Foi então que senti a língua dele, forçar de leve, como se tentasse entrar em minha boca. Surpreso, abri meus olhos e me deparei com os dele, fechados, entregues. Tão lindo me pareceu que esqueci meus receios e meus lábios se abriram enquanto meus olhos voltavam a se fechar.
Oh, como descrever aquela sensação? A língua dele adentrou-me a boca e tocou a minha. Nossas salivas finalmente se fundindo num novo sabor que me embriagou de imediato. Eu nunca sentira algo igual. Ele explorava minha boca, tocando e acariciando. Senti seus braços me envolverem. Sua mão segurou minha nuca e me puxou para mais perto e eu me vi inclinando um pouco a cabeça para o lado. Facilitando o acesso dele, de sua boca ansiosa. Minha mente vagueou. Eu não pensava em nada, apenas sentia. Meu corpo todo parecia estar quente, arrepios desciam pela minha espinha. Minhas mãos procuraram os cabelos negros de meu tio e quando dei por mim eu correspondia, ávida e desajeitadamente, àquele beijo. A mão dele que estava em minha cintura deslizou devagar para baixo e um som vergonhoso deixou minha garganta quando ela alcançou minhas nádegas e as apertou levemente. Minhas pernas fraquejavam e era como cair lentamente num estado que eu nunca antes havia conhecido.
E então Sky entrou latindo no quarto de meu tio e pudemos ouvir os passos duros da senhora Coburgo se aproximando. Nos separamos bruscamente. Meu tio olhou para mim com o rosto afogueado, lambeu os lábios e correu para o banheiro me deixando sozinho e ainda arfante. Momentos depois nossa velha governanta entrou no quarto.
– Eu vim buscar a bandeja. Oh, meu Deus, Ciel! Você está bem? Está com o rosto todo vermelho! Está com febre?
Ela se aproximou para tocar-me a testa mas eu me afastei rapidamente evitando seu toque. Tive medo como se ao me tocar ela pudesse descobrir o que eu e meu tio havíamos feito há poucos momentos atrás.
– N-Não, eu estou bem. — Eu ri nervoso — Eu tive outro daqueles pesadelos à noite passada. Eu estava me lembrando dele e acabo ficando alterado.
Eu cobri meu rosto com as mãos e massageei as têmporas tentando fazer passar a avalanche de sensações que ainda me perturbavam.
– Ciel, meu bem, eu entendo. Não se preocupe. Aquele monstro vai para a cadeia. Ele nunca mais vai tocar em você. Seu tio não vai deixar! E a velha Vitória aqui também não! Se alguém tentar fazer mal a você eu mesma vou partí -lo em dois!
E ela fez um gesto engraçado como se esbofeteasse um fantasma e eu acabei rindo, aliviado por ela nada ter percebido.
Mas realmente passara bem perto.
Sebastian
Entrei no banheiro, meu coração a mil, minha respiração descompassada e minhas calças apertadas. Ainda assim agradeci aos deuses pela interrupção. Quem sabe quanto tempo eu conseguiria me segurar?
A pele sedosa ainda parecia exercer sua quentura e maciez em minhas mãos. O gosto delicioso daquela boca pequena e inabilidosa, roçando a língua, sem saber direito como, contra a minha...
"Ele nunca mais vai tocar em você. Seu tio não vai deixar". Ouvi nossa governanta dizer.
Ah, tão certa e tão errada.
Sim, aquele monstro nunca mais botaria as mãos imundas em meu anjo. Mas e este monstro aqui?
Mas cedo ou mais tarde eu perderia o controle naquele beijo. A ereção, dura entre minhas pernas, deixava claro esse fato e eu agora me sentia desesperado por tal constatação.
Ciel confiava em mim, se entregava com a docilidade de um anjo a meus braços e eu o queria corromper de um modo impuro e sujo.
Não mais me negaria o que desejava, mas devo aprender a me segurar, devo aprender a me controlar. Devo esperar meu menino estar sem traumas por causa daquele verme, esperar ele crescer.
O duro é que seria difícil tentar manter uma distância segura agora que minha criança tinha o conhecimento do quanto ele podia me dominar.
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