Minha redenção
12 Nos braços do anjo chora o demônio
Notas iniciais
A luz solar atravessava uma brecha deixada desprotegida pela pesada cortina, alcançando em cheio os olhos de Sebastian, as lágrimas já secas. Acordou, a cabeça doendo devido à bebida, aquele gosto ruim na boca... E as lembranças da noite passada tão vívidas em sua memória que o faziam querer morrer. Sebastian se sentou no sofá, a garrafa de vodka abandonada ao lado do estofado. Chutou a mesma, levantando meio cambaleante, precisava de um banho, não que fazer sua higiene fosse fazê-lo se sentir mais limpo. Mas apesar de tudo, apesar de saber agora que seu irmão estava certo e de que, sim, ele era capaz de machucar Ciel, Sebastian tinha em mente que se algo acontecesse com ele, aí sim seu pequeno sobrinho estaria sozinho no mundo. Então respirou profundamente e suprimiu sua vontade de se atirar na frente de um carro, por Ciel. Porque ele deveria lutar contra si mesmo para garantir ao seu pequeno um futuro. Abriu titubeante a porta de seu quarto, temendo ver lá um retrato de seu erro, mas Ciel já não mais estava em sua cama. Essa se encontrava vazia, um revirado de cobertas que o assustavam, tocou o lençol no lado onde o pequeno dormira, estava frio. Estava frio e vazio como Sebastian por dentro. Jurou que protegeria Ciel... Jurou e não cumpriu. Havia marcas nos lençóis, marcas estas que um homem adulto sabe bem do que são e Sebastian refletiu que não deveria mais pensar sobre o assunto. O melhor para seu sobrinho era mesmo ser matriculado em um internato a milhas de distância, onde Sebastian e suas garras monstruosas não o pudessem alcançar.
Sebastian estava tão mergulhado em seu inferno pessoal que não ouviu o som do chuveiro no banheiro da suíte. O ambiente estava tomado pelo vapor, a criança já havia lavado de seu corpo as evidências da falta de controle de seu querido tio, no entanto ele não desligara a água. Se deixou ficar ali, olhando para o chão, o líquido quente caindo sobre si. A água escorria pelo rosto formoso e gotejava pelo queixo pequeno. Ciel estava confuso, perdido. O menino fechou os olhos e relembrou todos os acontecimentos da noite passada... Como se sentira sozinho e assustado devido à tempestade, que o relembrava a noite do acidente... a noite em que perdera seus pais, e como procurara abrigo no leito daquele que tanto amava e confiava. O cheiro tão gostoso do tio Sebastian acalmando — o e fazendo-o adormecer... e como acordou ao sentir o tio puxá — lo para mais perto de si. Sua respiração se acelerando ao recordar a mão quente e macia erguendo sua camisa devagar e os dedos hábeis tocando sua pele, acariciando e beliscando seu pequeno mamilo. Cobriu o rosto com as mãos quando ouviu, na lembrança, o som que escapara de seus lábios ao sentir aqueles dedos beliscarem — no ali e da sensação que ele teve... "Não..." — Ciel pensou com o rosto ardendo — " Não... isso é errado... ele é meu tio... ele não poderia..." — mas a lembrança de sentir seu short ser abaixado, enquanto ele era apertado ainda mais tomou sua mente. A voz do tio Sebastian gemendo seu nome, enquanto beijava seu ombro... a mão que o acariciava aumentando o ritmo, o hálito quente aquecendo sua nuca... Ciel gemeu e quando ouviu — se fazer isso abriu os olhos e desligou a água. Ficou ali, assustado e confuso. Sentiu -se quente e dolorido e desceu a mãozinha à própria intimidade e mordeu o lábio inferior ao perceber que ela estava dura, exatamente como ele havia ficado na noite anterior ao receber as carícias de Sebastian. Soluçou e sentiu as lágrimas se formarem nos olhos descombinantes e descerem pelas faces, se misturando à água que escorria de seus cabelos.
Sebastian foi até o banheiro de seu quarto, decidido a tomar um banho para começar o dia. Abriu a porta e se surpreendeu! O menino estava lá! Ele nem ao menos teve forças para impedir suas mãos de abrirem a porta do box. Havia descoberto de um modo doloroso que, quando se tratava de Ciel, ele simplesmente não conseguia se segurar. Dentro do box de seu banheiro, molhado, com a branca pele rosada pelo calor da água, estava Ciel. As maçãs do rosto extremamente vermelhas. O garoto arregalou os olhos, chocado, envergonhado e temeroso, usando as mãos pequeninas para cobrir a intimidade púbere. Sebastian arfou, a mão que abrira a porta do box se movendo em direção ao pequeno. Ele queria, precisava tanto tocar.
Mas aqueles imensos olhos bicolores, transmitiam o medo do pequeno e Sebastian se viu neles. Estava lá, refletida, sua imagem predatória. E então ele recuou, a mão indo para a sua cabeça onde o maior alisou com brusquidão os cabelos.
– Me perdoe... me perdoe... Me perdoe, Ciel...! — Sebastian soluçou, as lágrimas principiaram a correr por aquele belo rosto, contorcido pela culpa — eu... eu sou um monstro... me perdoa, por favor...
Ciel, ainda cobrindo sua intimidade com as mãozinhas, arregalou seus olhos quase chocado. Ele jamais vira seu pai chorar, ele jamais imaginara ver um adulto chorar assim. E enquanto o som da dor do homem ecoava pelo cômodo, antes sequer que pudesse perceber, as pequenas mãos se estenderam na direção de Sebastian, completamente esquecidas de protegerem o pequeno corpo e os pés se moveram vencendo a pequena distância que havia entre eles. Ciel se lançou sobre seu tio, envolvendo -o nos braços, afagando — o para consolá — lo.
– Tio... tio Sebastian! Está tudo bem...! Você não me machucou...! Por favor, não chore...
Sebastian observou seu pequeno anjo, aquele que deveria ter medo da criatura imunda que ele era, ali abraçando -o e tentando consolá — lo apesar de tudo o que ele fizera. Seus braços envolveram, trêmulos, o corpinho molhado, nu e vulnerável de seu sobrinho. Seu menino... seu pequeno... Ciel esquecera seu próprio medo, vergonha e tudo mais por que tudo parecera não ser nada em comparação à dor de seu amado tio. Abraçados, eles se ajoelharam no piso frio do banheiro.
– Ciel...! Ciel! Me perdoa... oh, meu Deus, me perdoa... Eu não quero te machucar, eu não queria, mas eu... Ciel, me perdoe, eu te amo, te amo tanto... tanto. — Sebastian quase gritava enquanto Ciel lhe afagava os cabelos e sussurrava com a vozinha trêmula.
– Shhh... Já passou... acabou... não chore mais... Por favor, não chore mais, tio... — Ciel sussurrava entre soluços, as próprias lágrimas se misturando às de seu tio.
Mas Sebastian sabia que não havia acabado. Não, não ainda... E ali ficaram por longos momentos. Enquanto a mente de Sebastian registrava a ironia cruel daquela cena: a vítima amparava seu algoz, o anjo inocente aninhava nos braços o demônio imundo.
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