Minha redenção
31 Mais que amigo... Mais que irmão.
Notas iniciais
Eles entraram no carro e seguiram para casa. Sebastian ainda se sentindo perturbado por todas as surpresas desta noite e Ciel sorrindo feliz por ter reencontrado o amigo de seu pai.
– A última vez que eu vi o tio Diederich foi quando eu fiz 12 anos. Ele veio passar o Natal conosco e se despedir, ele ia voltar para a Alemanha por algum tempo.
– Hum... e o que é aquilo de Kleine?
– Ah, ele me chama assim desde que eu me lembro... é algo como meu pequeno, eu acho.
– Hunf!
– Não está com ciúmes do tio Diederich, não é? – Ciel perguntou franzindo o cenho – ele é quase como um pai pra mim.
– Era o que eu deveria ser... – Sebastian suspirou fazendo uma curva.
Ciel abriu a boca estarrecido. Seu tio se comparava a Diederich dessa forma? Bem, dois podiam jogar aquele jogo!
– Acho que prefiro falar daquele ruivo. De onde vocês se conhecem? – o menino perguntou cruzando os braços.
– Hã? Oh... eu o conheço dos tempos da faculdade e nunca mais o vi até hoje. – Sebastian respondeu um tanto nervoso.
O mais velho estranhou o silêncio e olhou para seu amado sobrinho e este o encarava com os olhos semicerrados e a boca torcida de quem flagrou uma mentira.
– Bem... ele sabia o meu nome e disse que ouviu falar muito de mim... tenho certeza de que eu nem havia nascido quando você estava na faculdade!
Sebastian gaguejou. Ciel não era um garoto fácil de enganar. Sua mente tentou pensar em algo para dizer e então eles se aproximaram de casa e o mais velho viu o carro da mãe de Alois diante da casa.
– Olhe, Ciel, Alois e a sra. Hanna já chegaram.
O tio ficou aliviado ao ver Ciel olhar para fora e concordar com a cabeça. Pelo menos por hora ele conseguira se livrar do interrogatório.
Sebastian entrou em sua casa, Ciel ao seu lado. Alois e Hannah os esperavam sentados no amplo sofá. A sra. Coburgo os recebera e acomodara até a chegada deles.
– Precisamos conversar. -Alois de levantou e disse sério, puxando Ciel pela mão escada acima.
– Desculpe por isso... — Hannah falou a Sebastian, desculpando-se pelo comportamento tempestuoso do filho. -Alois ama muito o Ciel. Ele se preocupa demais e insistiu para que viéssemos aqui. Mas não sei sobre o que ele queria conversar.
Sebastian indicou para que fossem para a sala de estar. Ele gostaria de beber algo. Enquanto lá em cima, no andar superior, seu pequeno menino sofreria um interrogatório e a culpa era sua. A sra. Coburgo perguntou se eles desejava alguma coisa e Sebastian disse à idosa que ela poderia se recolher e descansar. Com um agradecimento a governanta se retirou.
– Eu também fiquei preocupada. Queria saber se você se sentia melhor.
Hannah se sentou no sofá e Sebastian lhe ofereceu algo para beber.
–Tudo bem... — Ele disse fraco, não estava com vontade de muita coisa. A noite precisava acabar, não aguentava mais pessoas se intrometendo na sua vida.
Alois puxou Ciel até o andar de cima e foram para o quarto do adolescente. Sky os seguiu em silêncio, como se desejasse ver o que estava acontecendo. Após entrarem, Ciel se sentou em sua cama e Alois na cadeira em frente ao micro.
– O que aconteceu, Alois? Deve ser algo grave para você não esperar até amanhã.
– E é. Ciel, eu estou preocupado com você. – o loiro respondeu sem hesitar.
Ciel sentiu seu coração acelerar.
– Eu estou bem. Não há nenhum motivo para você se preocupar. — o menino de olhos bicolores tentou sorrir. Mas ele sabia que o pior ainda estava por vir. Alois não seria convencido apenas por aquilo.
E mentir para seu grande amigo era muito doloroso.
– Eu quero falar sobre o seu tio. Ciel, tome cuidado. Eu o tenho observado e... bem... – Alois não sabia bem como explicar o que ele vira – ele não olha para você como um tio deveria.
O jovem de cabelos escuros suspirou longamente, não seria uma conversa fácil e na verdade ele nem se sentia pronto para ela.
– Ele me olha com amor. – ele respondeu num sussurro.
– Sim, mas não o tipo de amor que você pensa, Ciel! E esse ciúme doentio! Eu estou com receio por você.
– Não precisa temer por mim. Eu sei que ele precisa trabalhar isso e ele vai. Então não se preocupe assim.
Alois franziu a testa e passou a mão pelos fios dourados afastando-os da fronte.
– Ciel... eu acho que ele... ele está interessado por você. Como homem, entende?
Ciel sorriu tristemente. Seu amigo sempre fora desinibido e sem papas na língua e agora estava ali todo preocupado, e tentando dizer seus receios de forma delicada. Alois sempre foi o amigo mais querido, o irmão que ele não tivera. Ele sentia uma vontade imensa de se abrir, de contar tudo. O fato de ter de esconder esse relacionamento dele o fazia se sentir falso.
Mas o temor de não saber qual seria a reação de Alois, de ser separado de seu tio, de ver este ser preso e olhado pela sociedade como se fosse alguém sujo como o prof. Faustus... tudo isso fazia seus lábios se apertarem e nenhuma palavra sair.
– Eu acho que você não deve ficar aqui com ele. Eu e a mamãe podemos te ajudar. Você pode ficar lá em casa.
– Alois...
– Eu ainda não falei com ela porque ela gosta muito do seu tio mas tenho certeza de que quando eu contar...
– Alois! Por favor! Não conte nada! — Ciel quase gritou e o loiro o olhou espantado.
Ciel reuniu toda a sua coragem e decidiu que ia dar um basta nas mentiras. Sentiu seu corpo tremer e o coração batia tão forte em seu peito que chegava a doer.
– Eu sei como ele me olha. Eu preciso contar uma coisa para você. Me prometa que vai me ouvir até o fim antes de julgar, está bem?
O jovem de cabelos dourados arregalou os olhos e se sentiu aflito. Ele podia ver o medo nos olhos de seu grande amigo e neste momento percebeu que a história que ele ia ouvir mudaria tudo.
– O tio Sebastian me ama... não como seu sobrinho... você está certo.
– Meu Deus, Ciel! Aquele canalha! Você vai embora comigo agora mesmo! — Alois disse se levantando e indo em direção à porta. Mas estacou quando o jovem moreno o agarrou, impedindo-o de avançar.
E em seguida ele ouviu.
– Alois, eu também o amo!
O que ele disse?! O menino de olhos claros parou e voltou-se para o outro. Ele ia perguntar o que Ciel dissera mas a expressão nos olhos do jovem e as lágrimas que ameaçavam rolar, o rosto vermelho e aflito já confirmavam que ele não ouvira errado.
Eles ficaram ali apenas se olhando por algum tempo, e pequeninas lágrimas desceram pelo rosto delicado de Ciel. Por fim Alois pousou as mãos nos ombros do amigo e sussurrou.
– Ciel... Ciel, espera... como...? Olha...
Ele não sabia o que dizer.
– Eu o amo, Alois... não como meu tio... – a voz de Ciel estava cheia de angústia – eu o amo como jamais sonhei amar alguém. E ele também me ama. Por favor, não conte a ninguém.
– Ciel... não pode ser... eu acho que você está confuso... ele está te manipulando.
– Não, ele não está...
– Ciel... você sofreu abuso por parte daquele monstro do Faustus, talvez você esteja apenas carente... e seu tio está se aproveitando...
– Pare, Alois! O que eu sinto... o que nós sentimos começou muito antes daquele dia. Pare de dizer que ele está se aproveitando de mim.
– Mas ele está!!
– Alois... eu vou te contar tudo... eu devia ter contado antes mas eu... eu não podia! Eu tinha medo! E eu ainda tenho medo. Por favor, apenas me escute até o fim e depois eu escutarei o que você tem a dizer também.
Alois engoliu em seco. Ver Ciel naquele estado mexia com ele. Ele se aproximou e estreitou o amigo nos braços.
– Eu vou ouvir, mas não prometo que não farei nada a respeito.
Ciel o abraçou também e apenas concordou com a cabeça. Ambos se sentaram na cama. Alois segurava a mão do amigo e notava como esta tremia. O menino olhava para o próprio colo, os macios cabelos daquela cor escura e única, caindo sobre os olhos.
– Eu não sei bem como tudo começou... — ele principiou – quando vim morar com ele éramos praticamente dois estranhos. Eu me sentia tão só e infeliz apesar de tentar não demonstrar. Tivemos alguns momentos difíceis mas aos poucos nos entendemos.
Alois nada disse, aguardou o relato de Ciel tentando não formular julgamentos antes de ouvir tudo.
– Estávamos bem e eu aos poucos me sentia mais uma vez em uma família. Tio Sebastian se esforçava para que eu me sentisse assim. Mas em algum momento ele começou a gostar de mim... não como deveria ser mas... desse outro modo.
– Como ele pôde? – Alois franziu a testa. Seu lado protetor com Ciel se revoltando.
– Você acha que ele não sofreu? — Ciel levantou os olhos e o encarou muito sério – ele sofreu mais do que você imagina. Ele se recriminou e se julgou um monstro. E tentou me proteger se afastando de mim.
– Ciel...
– E foi quando eu percebi que eu sentia alguma coisa. Porque ele se afastar de mim me machucou muito... Você deve se lembrar. Eu vivia aéreo nas aulas e você julgava que eu estivesse apaixonado. Acho que estava começando...
– Ciel, ele é igual ao Faustus...
– Não! Ele não é! – Ciel respondeu brusco e Alois notou a emoção em sua voz: frustração e desespero – Eu posso dizer. Fui eu quem conheceu o lado oculto dos dois! Eles são totalmente diferentes!
O loiro se calou.
– O professor sempre me perseguiu. Ele sentia prazer com o meu desconforto, me tocava contra a minha vontade, me seguia e eu o temia. Porque eu via uma coisa em seus olhos. Eu via um predador.
Uma pausa e as lágrimas rolaram de novo pelo belo rosto.
– Mas os olhos de meu tio não... ele me olhava com amor e tristeza. Ele saía cedo e voltava tarde, me evitava. Ele fazia isso por mim! Mas me feria e quanto mais ele se afastava mais eu o procurava.
Ciel levou uma mão ao rosto e limpou as lágrimas que teimavam em cair.
– Ele ia me mandar embora. Para um colégio interno na Escócia...
– Ele o quê?! – Alois se assustou. Ele nunca soubera disso.
– Por isso eu digo que ele é diferente. Mas eu descobri tudo e fiquei desesperado. Ele me mandaria para muito longe e eu viveria só onde eu não conheceria ninguém. E o confrontei.
– E depois...?
– Ele me confessou chorando o motivo de querer me mandar embora. Ele me amava e tinha medo de me machucar. Foi doloroso. Eu não entendia o que eu sentia por ele mas a idéia de perdê-lo me apavorava. E foi quando... eu o beijei pela primeira vez...
Ciel aguardou a reação de seu amigo. Alois o olhava com olhos imensos, chocado.
– Ele desistiu de me mandar para a Escócia... naquela época eu sofri os dois ataques do professor e fiquei tão... perdido, assustado, desesperado... E ele me salvou e depois foi ele quem me reergueu. Ele cuidou de mim, me apoiou, suportou minhas crises e se ele não estivesse comigo eu não sei o que teria sido de mim...
– Ciel... eu sinto tanto...
Ciel sorriu tristemente e sussurrou.
– E foi quando eu entendi o que eu sentia por ele... era igual ao que ele sentia por mim.
–Está tudo bem? -Hannah perguntou se aproximando de Sebastian assim que ele se sentou no mesmo sofá. -Você está com uma expressão tão preocupada. Tem algo lhe incomodando?
A mão da mulher tocou o rosto de Sebastian e o homem piscou confuso. O que estava acontecendo ali?
– Eu... Eu estou bem... Mesmo. – ele disse. A mão foi de encontro à da bela mulher, não queria ser grosso, mas não queria deixar as coisas irem por aquele caminho.
–Sra. Hannah...? – ele disse, afastando a mão da mulher de seu rosto.
– Sebastian... — ela sussurrou se aproximando. — Eu estou tentando não pensar em você... Mas... Você entende? Você mexeu comigo. De uma forma que ninguém mexia há muito tempo.
Sebastian tinha a respiração irregular, os olhos arregalados, a boca entreaberta. Olhou com um movimento rápido dos olhos tudo a sua volta. O piano de cauda, os móveis, a tevê... E a mãe de Alois se aproximando, como se tentando beijá-lo. A blusa decotada deixando à mostra o quanto o colo da jovem senhora era belo. Os lábios rubros pelo batom, os cílios maquiados, os olhos fechados... A pele morena e suave com aquele cheiro bom.
Nada daquilo atraía Sebastian.
E não era só porque ele nunca gostou de mulheres. Era porque aquele que lhe acendia era o menino de olhos bicolores no andar de cima.
–Hannah... — Ele afastou a mulher pelos ombros da forma mais delicada que conseguia. — Eu...
A mulher abriu os olhos confusa. Sabia o quanto era bela, não entendia muito bem como podia ser recusada assim.
– Desculpe... — Sebastian falou assim que a mulher se recompôs sentando-se novamente ao seu lado de modo comportado. — Eu... Eu sou gay...
– Ah...! — Hannah pareceu entender e até sorriu, mesmo que ainda tivesse as bochechas vermelhas de vergonha. — Eu que peço desculpas. Estou envergonhada. — disse por fim, as mãos no colo e o olhar para baixo.
– Não fique. Você é uma bela mulher. Se eu não fosse tão... — apertou os olhos encostando a cabeça no recosto do sofá.
– Gay...? — Hannah perguntou soltando uma risadinha.
Sebastian a olhou com os olhos arregalados e acabou por rir.
– Não... — começou a se explicar. -Apaixonado!
– Oh... Você é um homem incrível, Sebastian. — a mulher disse se levantando. — Sortudo é aquele que tem em seu coração um lugar cativo.
Sebastian sorriu. Era a primeira vez que alguém lhe dizia que seu amado era sortudo por ser amado por ele.
– Obrigado. Tenho certeza de que há um homem maravilhoso lhe esperando.
– Ah! Eu espero que sim. É triste, os melhores já estão com alguém ou... -sorriu para Sebastian. — São gays.
Ambos novamente riram.
– Por favor, chame Alois. Está tarde, não vamos mais os incomodar.
– Nada disso. Incômodo nenhum. — mas o homem já se levantava do sofá – eu vou ver se eles já terminaram a conversa.
Ele subiu as escadas e não viu a tristeza que surgiu no semblante da mulher.
Sebastian seguiu até o quarto de Ciel e ia bater na porta mas ouviu eles conversando. A curiosidade superou a discrição e ele ficou o mais silencioso possível para acompanhar a conversa.
– Eu queria te contar tudo. Nunca foi minha intenção mentir... mas eu tinha muito medo. Porque o que eu e ele sentimos um pelo outro não é e nem nunca será aceito.
Sebastian sentiu como se uma garra fria e metálica lhe perfurasse o coração. Ciel havia contado tudo para o loirinho irritante!! Uma sensação de medo atravessando o seu ser.
Se o garoto resolvesse contar, ele seria olhado e apontado como um monstro. Alguém que se aproveitou de um menino que deveria guardar. Provavelmente seria preso!
Mas naquele momento não era isso o que apavorava Sebastian e sim a perspectiva de ser separado de Ciel! De nunca mais lhe ser dada a chance de vê-lo, de não mais tocá-lo, de beijar os lábios suaves ou perder-se na imensidão azul e violeta de seus olhos.
Ele ficou ali parado, simplesmente, sem conseguir se mover. Demorou um pouco para que ele conseguisse notar que a conversa continuava. Silenciosamente ele aproximou o ouvido da porta e prestou atenção.
– Ciel... eu não sei o que dizer...
– Então não diga nada. Guarde o nosso segredo.
–Eu só acho que você pode estar passando por um momento de grande confusão...
– Não existe confusão. Eu o amo. – Ciel falou cheio de sinceridade.
Alois e Ciel se conheciam desde pequenos, eram mais que amigos. Eles tinham aquele tipo raro de amizade e cumplicidade onde um confia e apoia o outro sem pressionar para que o amigo se anule para corresponder às suas expectativas. Tão diferentes mas ao mesmo tempo absolutamente iguais. Alois sabia que Ciel não era uma pessoa de falsas palavras. Se ele dizia que amava o tio ele realmente queria significar isso.
– Eu acredito... em você... Eu só me preocupo com você. Com o que pode vir a acontecer com vocês.
– Me ajude, então. Me ajude a nos manter seguros.
– Não posso prometer total apoio... – ele respondeu ainda tentando digerir essa nova idéia — Mas posso prometer segredo e um ombro amigo quando e se você precisar.
Ciel sorriu amplamente e era possível ver o alívio e a alegria nos belos olhos.
– Obrigado! Por me ouvir e confiar em mim.
– Confio em você. Não confio é nele! Mas sei que você não é nenhum tolo então vou dar a ele um voto de confiança. Mas só por você, que fique bem claro!
Ciel riu e Alois também e momentos depois eles se abraçavam cheios de carinho. O menino de cabelos escuros repousava a testa no ombro do amigo e este o estreitava com os olhos fechados. Ciel amava Alois e sentia um peso sair de seus ombros. Não exigiria que o loiro os aceitasse, sabia que não tinha esse direito. No entanto, a promessa de segredo já lhe era suficiente. E as lágrimas desceram molhando o tecido da blusa clara do outro jovem. De alívio e agradecimento.
Sebastian ouvira tudo e se sentiu aliviado também ainda que ele ainda não confiasse totalmente na palavra daquele garoto provocador e irritante. Ainda assim ele admitiu para si mesmo que a amizade dos dois era algo realmente único. Sem pensar ele abriu a porta do quarto sem bater e viu ambos os meninos sentados sobre a cama, abraçados e sussurrando palavras de conforto.
Ciel se assustou ao vê-lo e imediatamente se afastou de Alois, pondo uma pequena distância entre eles, pálido de medo pela reação do tio e Sebastian se sentiu culpado porque era seu comportamento extremamente ciumento que fazia sua amada criança se assustar assim.
Alois o olhou de cara feia mas não disse nada, apenas estendeu a mão e pegou a de Ciel, entrelaçou seus dedos aos dele e disse.
– E aí? Vai querer me bater?
– Não. – Sebastian respondeu num tom calmo, controlando sua possessividade — eu ouvi tudo. Sei o que está fazendo por nós. Obrigado.
Alois franziu as sobrancelhas, não acreditando que quem dizia aquilo era o mesmo homem que ele via quase bufar de raiva toda vez que ele abraçava Ciel. Já este sorriu para seu tio, encantado.
Ele havia prometido que aprenderia a se controlar e realmente o estava fazendo.
– Sua mãe pediu que eu viesse lhe chamar.
– Sim, eu já vou. – o loiro voltou-se para Ciel e sussurrou em seu ouvido – se ele fizer qualquer coisa de ruim não hesite em me contar... por favor. Fico preocupado.
Ciel o abraçou num ímpeto.
– Não existem mais segredos entre nós. Estou tão aliviado.
Alois sorriu, retribuiu o abraço e beijou o amigo no rosto, em seguida foi até a porta e falou baixo ao passar pelo homem mais velho:
– Cuide bem dele... Eu sei onde você mora.
– Eu cuidarei. Se eu algum dia o magoar é pra você quebrar a minha cara está bem?
– Heh... pode ter certeza.
Eles desceram juntos as escadas e Hannah já se havia recomposto. Depois de entrar no carro Alois ainda olhou para a casa. Sebastian e Ciel estavam na porta. O braço do mais velho nos ombros do mais jovem num gesto protetor. A mão de Ciel repousava sobre a do tio e ambos sorriam. Ainda que não conseguisse aceitar totalmente o jovem não pode deixar de pensar o quanto eles eram belos juntos. Havia um quê de poético e trágico neles, como duas figuras saídas de um romance de época.
Talvez a beleza residisse não apenas nos lindos rostos, quase irreais de tão belos, mas na fragilidade de sua felicidade.
Como o mais raro cristal, perfeito e único. Capaz de encantar até a alma mais insensível.
E também no fato de que ao menor toque descuidado essa beleza se estilhaçaria, não restando nada mais que cacos e lágrimas amargas.
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