Minha redenção
32 Sonhos de um predador.
Notas iniciais
Preso em um gaiola estou eu.
Enquanto meu pássaro bicolor bate lá fora,
livremente as suas asas.
Asas em um tom único.
Que me fascinam.
Me fazem sonhar.
Me fazem querer ao seu lado voar.
E uma a uma suas delicadas penas arrancar.
Chibi Lord~
Eu estava deitado em minha cama, olhando para o teto de minha cela. Dentro em pouco soaria o sinal para as tarefas diárias e todos os prisioneiros seriam levados para seus afazeres cotidianos.
Eu era um destes prisioneiros.
Eu ri. Ri de mim mesmo.
Eu fora um idiota. Um escravo de minhas paixões e necessidades e por isso agora eu estava ali. Terminaria meus dias ali.
Na ânsia de fechar minhas mãos sobre meu pássaro bicolor eu apressara a minha caçada e cometera os erros mais imbecis. De professor efetivo de uma renomada escola particular para rapazes eu me tornara do dia para a noite em escória, recebendo cusparadas ao rosto.
Como eu pudera fazer isto? Tantos anos exercendo silenciosamente o meu controle sobre meus passarinhos e, de repente, por um exemplar mais raro eu me pusera a perder.
Olhei para a parede fria, pintada de uma cor neutra e desbotada.
Meu pássaro bicolor...
Sua imagem queima em minha mente mesmo após tudo o que aconteceu.
Nunca antes eu quis tanto possuir algo ou alguém.
O menino com rosto de anjo.
Os olhos de cores diferentes.
Ah! Imagem de adoração enfeitada de safira e ametista. Mas para mim não bastava adorá-lo, precisava tocá-lo, precisava saborear a doçura deste fruto de pecado.
Meus olhos se fecharam, a lembrança daquele momento ainda impressa em minhas recordações e fantasias. A pele clara e mais macia do que eu supunha sendo marcada por mim. A boca sob minha mão, os lábios suaves comprimidos pela minha palma, os sons abafados, o brilho de desespero nos olhos tão lindos. O corpo menor e frágil, lutando impotente contra a minha força, retorcendo-se sob o meu toque. O sabor dele, da pele dele, me fazendo lamber os lábios só de me lembrar. Levei até a minha boca a mão que o calara e lambi a palma bem onde um dia seus lábios estiveram. Mas não havia lá nenhum resquício da doçura dele.
Passei a mão por meu rosto, retirando os meus óculos. Meu nariz levemente torto para a direita.
Fora quebrado por aquele homem.
Passei a língua pelos meus dentes, me demorando no pequeno espaço vazio que agora havia no lado esquerdo. Eu perdera dois.
Eu perdera meu emprego.
Eu perdera minha vida.
Eu perdera meu Ciel.
Por causa daquele maldito!
Mas eu não deixaria isso ficar assim. Não, de maneira alguma. Cada dia que eu vivia ali eu fortalecia a minha idéia de sair e me vingar. De pegar de volta o que me pertencia.
A minha delicada obra de arte, o menino por quem eu perdera tudo.
Soa o sinal. Me levanto e me posto diante da porta.
Os carcereiros vem para nos levar.
– Depressa, Faustus. Não vou tolerar atrasos.
– Bom dia pra você também, Sr. Smithers. — ironizei.
Segui juntamente com os demais. Ninguém podia ficar ocioso aqui na penitenciária Kelvin. Todos tinham de ser úteis de alguma forma.
Observei os meus companheiros. Assassinos, estupradores, pedófilos... Kelvin era realmente um lugar para crimes bem específicos. Apenas o pior vinha para cá. E ninguém saia daqui.
Mas eu pretendia mudar isso.
Após realizar as tarefas maçantes de limpeza dos recintos nós podíamos tomar um pouco de sol no pátio principal. Era primavera agora e por isso havíamos recebido este privilégio hoje.
Sentei-me a um canto e fechei meus olhos. Me perdi nas lembranças daquele que eu não pude possuir. Momentos depois eu ouvi uma voz afetada interrompendo meus devaneios repletos de luxúria.
Ele era um homem ainda jovem, cabelos longos e louro-platinados, um rosto bonito e uma atitude desagradável. Do tipo que encantaria mulheres tolas, ou seja, a maioria delas. Seu nome era Aleister mas todos o chamavam de Druitt.
– Há rumores de que essa sua cara feia seja resultado de um protetor enfurecido. – Ele disse me olhando com um sorriso de deboche.
– Os rumores estão corretos. – respondi, não havia porque mentir.
– Quem? O pai? – ele perguntou sorrindo e sentou-se próximo a mim.
– O tio. – respondi seco.
Ele riu como se minha história fosse a melhor das piadas
– Estúpido! Se deixou ser pego, ficou cego de sede...? – ele passou a mão pelos cabelos longos.
–Você também está aqui, não está? – Respondi mal humorado, ajeitando meus óculos.
– Estou. Mas meu rosto continua belo. E minha pequena não foi depor contra mim. – ele riu baixinho – E eu aproveitei até o último suspiro de inocência dela.
– Então, você a matou?
– Você não espera mesmo que eu fale sobre isso, não é?
Eu ri. Era até um pouco divertido ter alguém como eu para conversar.
– Eu nem ao menos pude sentir o gosto do meu anjo.
– Pobre homem. – ele sacudiu a cabeça com pesar — morrerá aqui sem ter nem uma doce lembrança para lhe aquecer nas noites frias.
– Ah, mas eu desejo mais do que meras lembranças – respondi lambendo os lábios – eu ainda terei o prazer que me foi roubado.
– Louco sonhador... – Duitt riu – ninguém sai daqui.
– Eu não sou como vocês. – era minha vez de rir com zombaria – Ainda vai ouvir falar de mim, meu caro.
Após mais alguns minutos de conversa eu me enchi dele. Ele apenas sabia falar de si mesmo e de seus dotes de sedutor, me lembrava uma bela flor carnívora que com seu aroma e beleza atrai as moscas para serem digeridas lentamente em seu interior. Ele quis saber mais sobre o menino que causara a minha queda e eu vi seus olhos faiscarem de interesse quando eu descrevi o meu pássaro bicolor. Decidi que a conversa terminava ali. Ninguém mais além de mim tocaria ou possuiria Ciel e o simples fato de ver que ele o cobiçaria já me dava ganas de sufocá-lo com o travesseiro à noite.
Nosso horário de sol terminou e fomos encaminhados ao refeitório. Na fila aguardei minha vez para pegar a refeição insossa. Sentei-me para comer e minha mente vagueou mais uma vez para a última ocasião em que eu vira Ciel.
O som do martelo de madeira batendo na pequena base foi a última coisa que minha mente registrou naquele dia. Meus pulsos algemados assim como meus pés. O advogado que me defendia relia uma última vez sua linha programada de defesa.
Meu julgamento.
Um doce e delicado pássaro bicolor entrou ao lado de uma trupe de energúmenos. E junto dele o homem que deformou meu rosto.
Meu pequeno querubim não me via, estava de costas para mim. Certamente para que não precisasse ver a minha monstruosidade.
Eu sorri... Pois tinha certeza que aquele belo menino nunca me esqueceria.
Estávamos então ligados pela eternidade pois eu também nunca o esqueceria.
Os fatos que se desenrolaram não me interessavam, o julgamento que tratava de decidir o rumo de minha vida era só um simples detalhe daquela tarde especialmente quente.
O que realmente importava era Ciel ali, tão próximo que eu podia farejar seu aroma vindo até minhas narinas. Tão doce, murmurando os acontecimentos de nossa tarde juntos no parque. Eu não precisava ver seu perfeito rosto para saber que lágrimas escorriam pela face de anjo.
Eu desejava tocá-lo. Eu o queria. Se pudesse eu o tomaria. Ali mesmo, na frente de todos.
Na frente do tio, que choraria implorando para que eu parasse, enquanto me enterrava em seu pequenino sobrinho. Fazendo o meu pássaro gritar meu nome, suplicando por piedade.
Eu queria mais do que qualquer outra coisa aquela criança. Eu o queria para mim. Eu queria que ele soluçasse e tremesse. Tremendo de medo a cada toque brusco que minhas mãos realizassem.
Eu queria que ele me sentisse por inteiro.
Me remexi e gemi, excitado pelo simples pensamento e meu advogado me olhou com repulsa.
O tio olhava Ciel atentamente, ao lado do advogado deles. Um homem de óculos com uma postura firme e decidida e um terno muito mais caro que o que o meu usava. Meu advogado era do estado, minha defesa era de praxe, eu não tinha chances.
Dos membros do júri vieram sussurros de consternação e piedade para com o garoto. Balançavam a cabeça e me olhavam como se eu fosse uma fera horrenda saída de algum inferno.
Ninguém nesse mundo me entenderia. Ninguém nessa sala poderia entender o que se passa em minha mente e em meu coração.
“Ninguém nesse mundo vai te querer tanto quanto eu te quero, Ciel Phantomhive!”
Terminado o depoimento o menino pôde se retirar do recinto. Ele não precisaria sofrer mais assistindo a todo o processo. Permaneceu apenas o tio.
Meus olhos seguiram a sua pequena figura, vestida em um terno escuro, delicada e bela. Em momento algum ele olhou para mim e eu me ressenti de não ver os olhos que tanto me fascinavam. Era um ato de proteção e piedade não obrigar a jovem vítima a olhar ou ficar na mesma sala que o seu agressor.
Depois que ele foi para a pequena antessala eu notei que o tio dele me observava. Os olhos dele pareciam queimar de raiva, com certeza ele notara meu olhar cobiçoso sobre seu sobrinho. Eu sorri e estalei a língua para ele como se dissesse-lhe “Ele é delicioso...”. Vi ele ranger os dentes e se mover em minha direção mais foi contido pela mão firme de seu advogado que lhe sussurrou algo ao ouvido. Seja o que for fez o homem se conter mas ele me olhou uma última vez como se quisesse me matar e então virou-se para o juiz.
Que coincidência... eu também desejava matá-lo.
Foram apresentadas também as fotos do exame de corpo de delito que evidenciavam a violência sofrida pela jovem vítima. Murmúrios mais uma vez tomaram conta do recinto. Eu me mantive impassível como me recomendara o meu advogado mas cada uma das imagens me trazia de volta aquela tarde no parque. Mais e mais eu me ressentia do que eu perdera.
Ao final de um intervalo bem curto de deliberação o júri apresentou o seu parecer.
Culpado.
Não havia surpresa alguma, eu já esperava por isso. Eu não era nenhum idiota. Não haveria como escapar. O juiz, então decidiu a minha sentença. Prisão perpétua, por rapto, tentativa de estupro e de homicídio.
No momento em que eu era conduzido para fora pelos guardas eu vi a porta da antessala se abrir e meu pequeno pássaro surgir. E eu pude ver o seu lindo rosto. Ele não olhou para mim mas apenas para o seu tio. Correu para os braços dele e eles se abraçaram. O maldito homem acariciando seus cabelos enquanto lhe sussurrava. E eu me enchi de inveja e amargor.
Fui puxado para fora e foi a última vez que eu o vira.
Nos braços de outro homem.
– Acorda, Faustus!! Quanto tempo vai ficar aí sentado?
A voz rude de um dos guardas me trouxe de volta à minha realidade. Levantei-me e fui entregar a minha bandeja.
– Pra aprender a não ficar sonhando ao invés de trabalhar vou pedir ao supervisor para que você fique com o último turno de trabalho da noite, heheheh. – o homem riu.
Segui com os outros detentos de volta para a minha cela. O útimo turno se não me engano, era a limpeza final das cozinhas e de todo o refeitório. Um trabalho maçante e cansativo. Ora, mas talvez eu pudesse fazer esse castigo se tornar algo a meu favor.
Naquela mesma noite, após o jantar, eu e mais alguns infelizes ficamos encarregados da limpeza destes ambientes. Eu me ofereci prontamente para limpar a cozinha e os grandes fogões. Ninguém mais quis fazer esse trabalho, como eu já supunha. Sorri para mim mesmo.
Tudo estava se desenrolando como eu desejava.
Adentrei a imensa cozinha e comecei a ingrata tarefa. Enquanto eu limpava o encarregado de me vigiar se sentou a um canto afastado e ficou em silêncio.
Eu meticulosamente explorava o antigo fogão industrial com a desculpa de estar limpando. E então encontrei o que eu buscava. A conexão com o duto de gás encanado. Bastaria deixar frouxo e o gás escaparia, ninguém notaria pois as cozinhas estariam vazias durante toda a noite. E quando um desavisado acionasse um simples interruptor pela manhã...
Minha boca se abriu em um sorriso imenso. Eu já sabia como eu iria sair deste limbo.
Apenas aguardaria o momento certo. Planejaria o dia e o que fazer depois. E mais uma vez eu estaria livre para voar.
E como uma ave de rapina, caçar o meu pequenino e delicado pássaro bicolor.
Fale com o autor