Minha redenção
24 A estação das folhas que caem.
Notas iniciais
Quero lhe ter pela eternidade.
E além.
Quero que queiras apenas a mim.
E mais.
Quero protegê-lo.
Quero amá-lo
Quero que me ames como a ti eu amo.
Me venere, como a ti eu venero.
Me adore.
Como a ti eu adoro.
~ Chibi Lord
Setembro
Após aquele acontecimento ambos começaram a lidar melhor com a nova realidade do relacionamento deles.
Sebastian tentava não se entregar a acusações feitas no passado e assim seguir de cabeça erguida para o futuro e Ciel tentava agir naturalmente perto daquele homem que só por estar ao seu lado deixava suas bochechas coradas. Ambos saboreando delicadamente essa vida repleta de doçura.
Ciel queria se mostrar adulto, mas Sebastian bem sabia que aquela não era a verdade, então ele deu ao menino alguns dias, sem toques mais ousados, sem ações mais exacerbadas que pudessem assustar à criança. Apenas os carinhos e beijos suaves que eles sempre trocavam.
Ambos estavam aprendendo como poderiam levar adiante aquele relacionamento, como podiam lidar melhor com aquela situação.
Uma vida tão nova e tão complicada. Eles eram tio e sobrinho mas, escondidos nos cantos escuros dos corredores da casa ou aos domingos entediantes em que ficavam deitados a tarde inteira na cama, trocavam beijos, caricias e juras de amor, como apaixonados, amantes, namorados.
Para Sebastian era novo ter alguém assim tão entregue a si. E não apenas isso, mas também o poder se entregar abertamente ao sentimento que o possuía.
Para Ciel, qualquer das situações que vivesse ao lado do mais velho eram novas. Ele era tão jovem, mal entrara na adolescência. Mas ele se sentia feliz e orgulhoso de amar e ser amado.
E toda essa mistura de sensações, sentimentos e novas experiências só tornavam as coisas ainda mais perfeitas.
Terminou o verão e veio o outono. Em setembro fez-se um ano da morte de Vincent e Rachel. Ao irem mais uma vez depositar rosas brancas na morada final de seus pais Ciel notou que a lápide de Rachel era nova e nela agora se lia: “ Rachel Phantomhive, querida esposa , mãe e amiga. Espalhou sua luz sobre o mundo e seu amor perdura eternamente.”
Ciel sentiu-se comovido pelas belas palavras.
– Você mandou fazer? – ele perguntou timidamente, a mãozinha apertando a do tio.
– Sim. Ela merecia muito mais mas eu não soube por em palavras.
– Obrigado... – Ciel murmurou sorrindo e uma pequena lágrima rolou por seu rosto.
– Não tem de agradecer, Ciel... – Sebastian colheu a lágrima com o dorso da mão, acariciando a face do menino — eu é quem preciso agradecer a ela e a você.
E num ato de imprudência, apesar de não ter ninguém por perto, Sebastian se abaixou e o beijou rapidamente. Ciel corou até as orelhas e olhou de um lado para outro assustado. Vendo que ninguém testemunhara o ato ele voltou a sorrir.
– Acho que eu gostaria de mais um... mas desta vez em casa.
Outubro
Epping Forest
Sebastian
– Olha!
Eu apontei, me curvando para que minha boca pudesse sussurrar bem próximo ao ouvido de meu sobrinho. Indiquei com o indicador direito para um pequeno pássaro de coloração exótica, verde, amarelo e azul.
–É um Blue Tit. — falei empolgado ao garoto enquanto nos embrenhávamos mais dentro da mata. — É da família Paridae.
– Não sabia que gostava de pássaros. — Ciel falou ao segurar a barra de minha blusa enquanto eu avançava na sua frente com a câmera fotográfica. Queria eu poder fotografar a pequenina ave.
– É um hobbie. Gosto de observar nos tempos vagos.
– Que coisa chata. — ele resmungou nem um pouco constrangido por achar meu passatempo entediante. Eu olhei para trás por cima do ombro, sorri largo para o pequeno e recebi em troca aquele sorriso alegre que me aquecia o coração.
E ao olhar de volta para frente uma raiz retorcida de árvore se materializou em meu caminho, me fazendo vergonhosamente cair no chão e torcer o tornozelo.
....
– Me perdoe por estragar nosso final de semana. – eu disse cabisbaixo.
Eu havia torcido o tornozelo na queda. Não era nada grave, apesar de doer bastante, teria de descansar e na segunda eu já estaria bem o suficiente para voltar dirigindo para casa. Estavamos de volta ao chalé e meu menino cuidava de mim.
–Você não estragou nada. — Ciel respondeu colocando uma bolsa de gelo sobre meu tornozelo.
O que mais me machucava era o fato de eu ser um maldito azarado. Seria um final de semana prolongado, Ciel não teve aula na sexta e nem teria na segunda então resolvermos fazer uma viagem a dois, ou melhor a três, já que Sky nos acompanhava.
Viemos para um chalé de minha propriedade próximo a Epping Forest. Eu gostava de vir aqui apesar de fazer muito tempo desde a última vez que viera. Ficar observando os pássaros e o quanto eles pareciam livres em seu voo me relaxava.
Sem preocupações, sem medos, sem culpas.
Pensara o quanto seria perfeito vir pra cá com Ciel, levá-lo para fazer trilhas e apresentar a ele a natureza que não se via na cidade. A última vez em que eu havia estado ali com alguém, ao invés de sozinho, fora muitos anos antes.
Antes mesmo de Ciel nascer.
Quando Vincent me contou, sob o céu estrelado de uma noite de verão, que pediria Rachel em casamento.
Tanta coisa mudara... eu queria transformar aquele lugar, de um recanto dedicado aos meus dias tristes e solitários, em um paraíso particular para mim e meu pequeno anjo.
Mas agora eu estava acamado.
Após a queda, percebi que não conseguiria caminhar sozinho. O meu menino bem que tentou me ajudar mas ele não conseguiu me ajudar a caminhar de volta até o chalé e ainda levar nossas mochilas. Ele saiu em busca de auxílio e meu coração ficou apertado.
Meu pequeno só! Procurando por alguém que pudesse vir ao meu resgate. Eu não me importaria de ficar ali, sentado, encostado em uma árvore com aranhas em minha volta se meu menino ficasse seguro ao meu lado.
Mas Ciel foi irredutível, claro ele estava certo... não poderíamos passar a noite ali.
Ele foi atrás de alguém e, exatamente uma hora e trinta e sete minutos depois, ele voltou com um garoto.
Ele se chamava Ronald, devia ter uns 18 anos e disse estar com os pais em outro dos chalés que haviam por aquelas redondezas. Estava procurando por iscas para poder pescar com o pai.
Minha expressão, que era de pura repreensão pelo garoto, se diluiu. Claro que eu preferiria que Ciel voltasse em companhia de uma freira. Mas o garoto serviria e parecia ser de boa índole.
Ele ajudou Ciel a me manter de pé enquanto eu voltava para a cabana pulando em um pé só. Perguntou ainda se não queríamos que ele pedisse para o pai me levar no hospital mais próximo. Mas eu recusei na mesma hora. Não queria mais ninguém se intrometendo no meu final de semana. Agradeci bastante e o despachei. E agora estávamos eu e Ciel sozinhos na casa.
Bem... exceto por Sky.
–Tem certeza de que não quer ir ao hospital? E se o seu tornozelo não estiver bom para você dirigir na segunda, como vamos ir embora?
Ciel perguntou ao se levantar da beiradinha da cama e colocar uma almofada abaixo do meu pé.
–Eu vou estar bem. — sorri com o ato de carinho da minha criança. -Tenho o melhor dos enfermeiros só para mim. – eu disse com um mínimo sorrisinho malicioso que Ciel captou na hora. Ele riu e me jogou outra das almofadas que tinha trazido do sofá para por meu pé a descansar.
–Vou preparar o jantar. — ele disse e saiu do quarto.
Sky, que até então permanecia deitado ao lado da minha cama, se levantou e o seguiu. Eu ainda o chamei, mas o cão não me deu a mínima importância. Seguiu Ciel pelo corredor, feliz, abanando a cauda. Eu o entendia perfeitamente. Afinal eu também seguiria meu Ciel, não importa quem me chamasse. Eu o seguiria cegamente.
Ciel voltou algum tempo depois com uma bandeja nos braços e uma carinha enfezada.
– O que foi? — perguntei me sentando melhor para receber a bandeja em meu colo.
–Você só comprou comida congelada e sopas prontas! Eu sou uma criança em fase de crescimento, deveria me alimentar de forma mais saudável, sabia?
Ele falou e se sentou ao meu lado, sorrindo como se toda aquela pose emburrada fosse apenas armação.
–Você sabe que eu sou péssimo na cozinha. — respondi em minha defesa.
Admirei a sopa que meu pequeno havia feito.
Tomei uma colherada generosa, o cheiro era agradável e o gosto muito melhor do que esperava. Nunca imaginaria ao ver aquela embalagem de sopa pronta de ervilha.
– Eu coloquei bacon e alguns ingredientes para dar um gosto à mais nessa sopa sem graça. – ele falou pegando a tigela que lhe pertencia.
– Bem se vê. Está deliciosa! Digna de um grande Chef.
Ele riu da minha mania de o idolatrar.
– Mamãe me ensinou a cozinhar alguma coisa... – ele sorriu levando uma colher à boca.
Eu tinha tanto a agradecer Rachel. Sky subiu na cama, abaixou a cabeça e rastejou para perto de Ciel com as patinhas escavando o cobertor. Eu ralharia com o cão para sair de cima da cama, ainda mais enquanto comíamos, mas eu não tinha moral nenhuma com aqueles dois. Ciel falava com o cão, dizendo o quanto ele era bonito e obediente enquanto dava um pedaço de seu pão a ele.
Terminamos o nosso jantar e Ciel foi deixar a bandeja na cozinha. Ele se demorou por lá alguns minutos. Voltou, fechou a porta e se embrenhou debaixo das cobertas. Sky deitou novamente ao lado da cama.
– O que você está assistindo? – perguntou, aninhando-se em meu peito e eu o abracei beijando sua testa.
–Não sei, não estava prestando atenção.
–Porque é um filme ruim? – ele perguntou, fazendo manha, roçando o narizinho gelado no meu pescoço me arrepiando da cabeça aos pés.
–Não. Eu estava era ansioso para a sua volta. — confidenciei.
Ele riu, intrometendo os dedinhos por baixo da minha camisa, tocando de forma tímida meu abdômen.
–Estou com frio. — Ele reclamou, os pezinhos se encostando nas minhas pernas, procurando se aquecer com o meu calor. -Tio me esquenta, por favor? – ele pediu, sussurrando próximo ao meu ouvido e eu engoli em seco. Ah! maldito pé machucado! Eu mal podia me mover sem sentir dor. Bem quando o que eu mais queria era me mover sobre ele.
Eu o abracei para aquecê-lo. Ficamos em silêncio e em poucos minutos percebi o corpo de meu sobrinho relaxar.
– Ciel?
Ele já havia adormecido. Fiquei surpreso por ele ter dormido tão rápido mas então pensei que ele devia estar mesmo muito cansado.
Eu o havia feito caminhar na trilha comigo por mais de uma hora. Me machuquei e ele tentou me sustentar para nos trazer de volta. Ele ficara tão preocupado que correu toda a trilha do volta em busca de ajuda e mesmo depois de, juntamente com o jovem Ronald, me trazer de volta ainda cuidara de mim e cozinhara para nós.
Acariciei levemente a face adormecida, apreciando doce a visão de seu rosto.
– Seus cílios são tão longos... — sussurrei baixinho — eu já te disse o quanto eu acho isso lindo?
Como resposta Ciel suspirou em seus sonhos. Beijei suavemente a fronte de meu anjo e desliguei a TV. Acomodei-me junto a ele, puxando o pesado edredom até nossos pescoços. As noites de outono eram muito frias mas ali estava realmente quente e aconchegante.
Na verdade, eu talvez possa me considerar um homem de sorte.
– Boa noite, Ciel....
Dezembro
Naquele dia Sebastian acordou primeiro mas não se levantou. Apenas virou-se para o lado e ficou sorrindo igual ao um bobo apaixonado. Isso porque na realidade ele se tratava realmente de um bobo apaixonado.
Ciel ressonava baixinho ao seu lado, o rosto adormecido, a face angelical apoiada delicadamente no travesseiro, as frágeis mãos agarrando a sua blusa.
Ele tivera outro pesadelo à noite passada e por isso estava ali.
Ainda que Sebastian não gostasse de ver Ciel assustado daquela forma ele não podia negar que era doce acordar e ver o pequeno ao seu lado. Beijou o topo da cabeça dele, agradecendo aos céus por sua sorte. Ele, que sempre se julgara um infortunado, agora tinha a bênção de ter aquele anjo para si.
Não pôde mais se conter diante da felicidade que lhe assolava o peito. Abraçou forte o corpinho miúdo fazendo com que o menino murmurasse em desagrado.
– Hmn... tio... tá me esmagando...
– Acorde, preguiçoso. – o homem disse, trazendo para cima do seu o corpo a criança sonolenta. Ciel suspirou, as pernas uma de cada lado dos quadris de Sebastian, as mãos procurando os braços fortes.
– Quero dormir... — a voz embolada pelo sono, o rostinho oculto no peito do tio.
– Ah, meu pequeno, se continuar a dormir não poderei lhe dar seu presente. — ele falou, atiçando a curiosidade latente do jovem.
Era quatorze de dezembro mais uma vez e a amada criança de Sebastian completava seus quatorze anos.
– O que é? — perguntou o menor elevando a cabeça. Sebastian beijou docemente os lábios fofinhos.
– Feliz aniversário, meu amor. — sussurrou com as bocas coladas. –Venha, vou lhe mostrar.
Sebastian ergueu-se e ajudou a Ciel a se sentar na cama. Levantou-se apressado, ansioso por mostrar a surpresa e puxou o sobrinho, segurando-o delicadamente pela mão.
O menino, ainda a contra gosto, levantou-se coçando os olhinhos com os punhos fechados e se demorando, pelo sono, para por os chinelos. Sebastian sorria largamente, amando cada pequeno instante em que era bombardeado pela fofura de seu pequeno.
– Onde está? — perguntou Ciel, ainda sonolento, já na metade do corredor.
– No meu escritório. — Sebastian respondeu indo logo mais a frente.
– Ah, eu não quero caminhar... – o sobrinho fez manha no meio do caminho levantando os braços e pedindo por um colo.
Como resistir a isso? O mais velho o pegou em seus braços. E Ciel rodeou sua cintura com as pernas.
– Não acha que já está velho demais para colo? – Sebastian sussurrou no ouvido do pequeno, ao abraçá-lo. Fazendo com que a cabeça dele se apoiasse em seu ombro.
– Não.
Ciel respondeu simples e convicto e Sebastian só pôde rir da situação. Afinal, não o desagradava nem um pouco o fato de sentir as coxas macias em volta de si.
Chegaram ao escritório e o tio colocou o sobrinho em sua cadeira giratória. Pediu para que este fechasse os olhos e o menino prontamente obedeceu. Tanto mistério acabou por despertar, não apenas o adolescente, mas também sua curiosidade.
– Nossa, precisa de tudo isso? — ele riu verdadeiramente interessado — Deve ser algo muito especial!
– E é! Pode abrir agora! – Sebastian falou animado.
Ciel abriu os olhos e à sua frente, em cima da mesa, havia um grande embrulho com um enorme laço vermelho.
– Abra. — Sebastian disse, ansioso.
O menino o abriu com um sorriso nos lábios que se desfez ao ver o que era. Era um vídeo game.
– É o vídeo game mais novo do mercado. É de última geração. — o maior falou, notando a falta de empolgação do menino. — Você não gostou?
– Eu gostei sim! – Ciel respondeu rápido mas sem muita verdade. –Obrigado, tio, eu o adorei.
– Certo... — respondeu o mais velho.
Sebastian coçou o queixo pensativo. Se ajoelhou à frente do menino e abriu a última gaveta da escrivaninha.
– Eu estava guardando este para lhe dar no natal – ponderou – mas acho que vou dar hoje.
Em suas mãos uma caixinha, aveludada, em preto.
Ciel a olhou e Sebastian viu o brilho da curiosidade em seus olhos.
– Você deve saber que os Phantomhives tem a tradição de presentear seus filhos mais velhos com um anel com o brasão da família.
Sebastian abriu a caixinha e lá dentro havia um anel antigo. Brilhava de tão polido. Belíssimo, feito talvez de ouro branco. Reluzia, e nele engastado havia uma linda pedra azul, finamente trabalhada. Uma safira.
Ciel, fascinado, quis pegar o anel e fez um bico que o tio julgou adorável quando este afastou a caixinha de suas mãos.
– No entanto, o jovem Phantomhive só a recebe quando completa a maioridade. Nunca antes disso.
– Bom, então por que... – Ciel ia dizendo mas foi suavemente silenciado por um dedo sobre seus lábios.
– Mas... – Sebastian retirou o anel de dentro da caixinha e o colocou no polegar de Ciel, já que para os outros dedinhos a jóia ainda era grande.
– Existe outra tradição em nossa família: a de que está jóia em especial seja passada apenas de primogênito a primogênito. Meu pai, o mais velho de três irmãos, a recebeu por direito e eu, por míseros sete minutos mais velho que Vincent, a herdei.
Ele beijou a mãozinha fofa e se ajoelhou aos pés de Ciel.
– Acredito que não terei filhos, portanto ela é sua por direito. Feliz aniversário, meu menino.
Uma onde de alegria invadiu Ciel. Pelo presente e pelo modo tão doce com o qual fora presenteado. Ele riu sem saber direito o que dizer e, com os olhos transbordando de felicidade, Ciel abraçou e beijou seu tio.
– Eu... eu... obrigado! É a coisa mais linda que eu já recebi.
Ciel sentia seu coração se aquecer. Aquele sim era um presente digno de um namorado! Daquele que ele tanto amava. O menino sorriu amplamente olhando o anel em seu dedo. Deste dia em diante ele conservaria a jóia como seu maior tesouro. Não por ser de família mas sim por ser algo mais: um símbolo da afeição, cumplicidade e amor que os unia.
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