Notas iniciais
Gente, esse capítulo não vai ter muito da Clara, vai ser quase inteiro da Marina mesmo. Me perdoem!!! Mas estou escrevendo com todo meu coração e preparando uma coisa bem legal pra vocês!! Como eu havia explicado, antes essa fic ia ser de apenas 2 capitulos mas me convenceram a mudar e continuar. Só tenham paciencia comigo com a relação a tempo, que eu não tenho muito! Os dois primeiros capitulos serão narrados em primeira pessoa mas os proximos não. Boa leitura!!! P.s.: Sou apaixonada pela música Born To Die da Lana Del Rey e eu precisava usar ela nesse capítulo :B

Feet, don’t fail me now. Take me to the finish line. (Pés, não me falhem agora. Me levem até a linha de chegada).

Essa é a força que estou pedindo para aguentar tudo isso. Essa música martela tanto na minha cabeça que arrisco a dizer que resume perfeitamente o que estou passando. E sentindo. E por isso faço uma careta, afinal, nunca fui muito emotiva.

Oh, my heart, it breaks every step that I take. But I’m hoping at the gates. They’ll tell me that you’re mine. ( Oh, meu coração, ele se parte a cada passo que dou. Mas estou esperando nos portões. Eles me dirão que você é meu).

Minha.

Depois do que presenciei no Galpão Cultural a alguns dias atrás confesso que pensei em jogar tudo para o alto e sair do país. Comecei a me arrepender de não ter aberto aquela correspondência que a Vanessa deixou na minha mesa sobre um convite para expor minhas fotos em Paris. A situação financeira que estou passando está tão séria que não consigo mais dormir a noite. Que eu amo fotografia, amo meu trabalho, isso todo mundo já sabe. Mas de uns meses pra cá estou amando ela mais do que a mim mesma. Estou pensando mais nela do que no meu trabalho e tenho a Vanessa que não me deixa esquecer isso.

Walking through the city streets. Is it by mistake or design? I feel so alone on a Friday night. (Andando pelas ruas da cidade. É por engano ou planejado? Me sinto tão sozinha em uma sexta-feira à noite).

Faz uma semana que a Clara não vem trabalhar. Estou com um pressentimento estranho, não sei se é bom ou ruim. Eu não esperava mesmo que ela se entregasse para mim depois de se declarar. Um casamento de 10 anos não acaba da noite para o dia e por isso sinto que não devo cobrar nada dela. O Cadu está doente, e parece que seu estado tem piorado cada vez mais, com a médica deles cogitando um possível transplante de coração. E ainda tem o Ivan. Um menino adorável que está vivendo bem no meio desse turbilhão todo. Por muitas vezes chorei a noite pensando justamente nele, que eu não tenho o direito de “destruir” a família dele. Acima de tudo, ele ama a mãe e o pai e quer muito que eles fiquem bem, juntos.

Can you make it feel like home if I tell you you’re mine? It’s like I told you, honey. (Você pode fazer eu me sentir em casa se eu disser que você é meu? É como eu te disse, querido).

Mais uma vez olho no visor do celular e leio aquela mensagem que já sei ler de trás pra frente: “Desculpe Marina, mas não vou poder trabalhar por uns dias. O Cadu piorou e estou muito preocupada. Espero que entenda. Prometo que passo no estúdio para te ver se tiver tempo. Penso em você a todo o momento. Clara.” Apesar de esta mensagem fazer meu coração bater tão forte a ponto de escutá-lo, não consigo sorrir. Não sei o que está acontecendo comigo. Toda vez que me vem a imagem dela, me abraçando, me beijando e dizendo que me ama, surge por cima a imagem do Cadu e do Ivan e o remorso do que estou fazendo com eles vem em forma de lágrimas como uma enxurrada. Esse é o único momento que consigo dormir, depois de ser vencida pela exaustão e não restarem mais nenhuma lágrima para cair.

Don’t make me sad. Don’t make me cry. (Não me deixe triste. Não me faça chorar).

Mais uma lágrima desce pelo meu rosto. Encosto na parede, bem no canto do estúdio, e me deixo deslizar até o chão. Durante toda minha vida, desde que tenho idade para tal, procurei viver intensamente. Mas, apesar de todo apoio que vinha recebendo do meu pai até então, precisei me virar “sozinha” quase toda minha vida. Pelo seguinte motivo: meu pai é um empresário internacional e extremamente ocupado. Digamos que ele compensava toda sua ausência com o dinheiro. Eu não posso reclamar, nunca me faltou nada e sempre recebi apoio dele no meu trabalho. Mas eu não tinha a figura dos pais no dia a dia para me orientarem, durante minha adolescência. Minha mãe faleceu a um bom tempo atrás e o que mais estou sentindo falta nesse momento, sozinha, é do seu colo. Ela foi a primeira pessoa (e, senão, a única de minha família) que ficou do meu lado quando me assumi homossexual. E meu pai, bom, ele é indiferente a isso. Acredito que por ser tão ocupado ele não tem tempo pra pensar a respeito.

Sometimes love is not enough and the road gets tough, I don’t know why. (Às vezes o amor não é o bastante e a estrada fica difícil, não sei por quê).

Falando no meu pai, ele veio aqui mais uma vez, no meio da semana. Por conta da nossa conversa muito esclarecedora, estou cogitando recomeçar minha vida sem a ajuda dele. Se eu não amasse tanto esse estúdio e o meu trabalho, eu já teria vendido a casa e me mudaria para algum lugar mais simples, para começar do “zero”. Ficamos por duas horas discutindo, tudo pelo motivo da nossa crise. Ele jogando na minha cara que essa falência se da em partes por minha culpa, por ser a típica filha mimada que não consegue controlar o cartão de crédito. Eu nunca me meti no trabalho do meu pai, mas eu entendo de números. Sei que ele fez uma coisa MUITO errada e senti um calafrio percorrer meu corpo quando passou pela minha cabeça que ele enriqueceu de forma injusta. Confesso sim que nunca me segurei quando o assunto é dinheiro, principalmente quando quero agradar alguém. E isso me leva à festa de aniversário que fiz para a Clara. Por mais que a Vanessa jogue na minha cara que foi um gasto desnecessário, não me arrependo do que fiz. Quando a vi entrar no salão, com os olhos brilhando, e ela direcionou seu olhar para mim, eu entendi que meu propósito de vida era, a partir dali, fazer aquela mulher feliz.

Keep making me laugh. Let’s go get high. (Continue me fazendo rir. Vamos ficar chapados).

Com minha atenção totalmente voltada à imagem daquela linda morena, não reparei quando meu pai adentrou o estúdio. Sem me levantar de onde estava, olhei para ele e, pelo seu semblante, já vi que mais uma conversa difícil estava a caminho.

– Marina, precisamos conversar. – Ele começou, mantendo sua expressão de indiferença.

– Pai, não estou bem pra conversar, não hoje .. – Permaneci sentada, apenas o encarando.

– Não me interessa. O que foi agora, Marina? Vai ficar aí pelos cantos chorando e se martirizando por aquela mulherzinha desprezível? Onde está ela agora, hein? – Levantei num pulo, chamando sua atenção e o impedindo de continuar. Não sei como ele sabe da Clara mas tive um mal pressentimento.

– Não fale da Clara! Você não tem direito algum de se quer tocar no nome dela! – Eu não saio do controle tão fácil, mas falar assim da Clara faz meu sangue ferver. Se o pau da barraca já foi chutado mesmo, vamos em frente.

– Olha como fala comigo, garota! Você me deve sua vida por tudo isso aqui que você tem! – Ele gritava e agitava os braços, se referindo ao estúdio, à casa. A tudo.

– Vem cá, como você sabe da Clara? – Eu tentava me manter séria, mas por dentro estava com medo. – Por acaso está me vigiando?

– Não me subestime, sou seu pai e sei tudo o que acontece aqui. – Ele começou a andar pelo estúdio e quando parou pra me encarar fiquei estática. – Eu te dei tudo isso aqui, e se eu quiser tiro tudo de você!

Eu amei muito meu pai um dia. Ele sempre deu tudo pra mim. Bom, talvez não tudo. Eu nunca consegui sentir o sentimento que ele devia ter, de pai, por mim. E vendo ele ali na minha frente, cogitando tirar a minha vida, senti o chão faltar.

– Não estou te entendendo. O que quer que eu faça? Quer que eu venda tudo isso, meu estúdio, minha casa e dê o dinheiro pra você pagar suas dívidas?

– Estou te dando uma chance de recomeçar, Marina. Largue isso. Volte comigo para Nova York. Eu posso te dar suporte lá.

– Você quer que eu volte pra me colocar uma coleira e ficar controlando minha vida! – Senti as lágrimas descerem quentes pelo meu rosto, pois agora eu demonstrava desespero em meio à minha voz alterada. – Pai, você precisa me entender. Eu não posso voltar. Eu não quero voltar! Eu amo a Clara!

– Mas ela não te ama. Como ela tem coragem de largar um casamento e um filho pequeno pra viver essa safadeza com você? Por mais que não me interesse o que cada um faz da vida e a opção sexual de cada um, eu não permito que você acabe com uma família. – Ele não se importou com a minha feição perplexa e continuou. – Eu estou prestes a fechar um bom negócio com um grande empresário americano que vai nos reerguer e quitar todos esses problemas. E é aí que você entra, Marina. Ele tem um filho da mesma idade que você e pra esse negócio ser afirmado um casamento precisa...

– Não, espera... Casamento? – Eu aprecei em dizer, totalmente em choque. – Quer que eu me case com o filho desse cara pra você ganhar dinheiro?

– Pelo amor de Deus, Marina, não comece com isso. Não é só pra mim, mas pra você também. Eu e você estamos passando por um problema bem grande e precisamos superar isso.

– Fale por você, eu posso me virar sozinha.

– Ah, Marina, não me faça rir! – Ele gargalhou de forma irônica. – Mesmo que você tenha um trabalho reconhecido internacionalmente, você precisa da minha ajuda. Eu pago suas contas, seu cartão de crédito. Acha que vai conseguir viver até quando sem meu dinheiro? Duvido que aguente viver na pobreza.

– Você está me ofendendo! Não sou como você! Eu não me importo de ficar pobre, de passar por dificuldades! Eu.. – Juntei minhas mãos e as encostei no meu peito, fechando os olhos, pra sentir meu próprio coração. – Eu conheci um sentimento tão puro, pai. Eu estou amando e cada dia que passa estou amando mais a Clara. Por mais que eu conheça as possíveis consequências desse amor, eu não quero desistir. E diante de tudo isso que está me consumindo por dentro, o dinheiro passou a não ter importância alguma. Eu não me importo de perder tudo, desde que eu não perca ela.

Ele permaneceu por um bom tempo calado, me observando. Ainda sem esboçar nenhum tipo de sentimento, ele apenas suspirou. Imaginei que tivesse se dado por vencido.

– Vamos ter essa conversa de novo, Marina. Num outro dia. – E sem me deixar dizer mais nada, ele se virou e foi embora.

The road is long, we carry on. Try to have fun in the meantime. (O caminho é longo, nós seguimos adiante. Tente se divertir nesse meio tempo).

Senti necessidade de chorar. Me joguei de joelhos no chão e inclinei meu corpo pra frente até encostar a testa no chão, em posição fetal. Abracei meu corpo com força como se quisesse me proteger. Não sei quanto tempo fiquei ali, mas por conta de toda a adrenalina que percorria meu corpo, eu não conseguia ouvir nada. Não ouvi meu choro nem meus gritos. Ver que meu pai está disposto a me levar embora, a me afastar dela, fez meu coração quebrar, quase que literalmente. Conheço meu pai. Se ele está disposto a levar essa loucura adiante eu talvez não consiga lutar.

Come and take a walk on the wild side. Let me kiss you hard in the pouring rain. (Venha e dê uma volta no lado selvagem. Deixe-me te beijar intensamente na chuva).

Com todos esses sentimentos e sensações borbulhando dentro de mim, não ouvi quando passos adentraram o estúdio e caminharam em minha direção. A pessoa se agachou e senti um toque muito familiar em meu ombro, que me tirou daquele transe. Quando a pessoa entrou no estúdio, eu precisei de 2 segundos pra perceber quem era. O jeito do andar e o perfume que preencheu o ambiente ficaram muito claros para mim. E com sua mão, pousada de forma carinhosa no meu ombro, eu tive mais certeza. Me levantei devagar, sentindo meus músculos se contraírem de forma involuntária, e senti que meu corpo inteiro estava dolorido. Porém, quando nossos olhares se encontraram, senti tudo relaxar de novo.

You like your girls insane. (Você gosta das suas garotas insanas).

– Clara.. – Era tudo que saia dos meus lábios. A vi sorrir pela forma como pronunciei seu nome e meu coração se aqueceu. Eu permaneci ali, olhando pra ela e só então fechei meus olhos, sentindo a mão dela acariciar meu rosto.

– Senti uma dorzinha aqui.. – Ela pegou minha mão com carinho e pousou em seu próprio coração e ele batia com força contra minha mão. – E senti que você precisava de mim.

Me joguei em seus braços sem pensar duas vezes. Ela me abraçou com tanta ternura que um soluço escapou pelos meus lábios e a onda de lagrimas recomeçou. Ela sentou no chão, ainda com seus braços em volta de mim, me dando apoio. O choro veio tão forte que meu corpo inteiro tremia. Senti as mãos dela percorrerem minhas costas, como uma forma de me acalmar.

Choose your last words. (Escolha suas últimas palavras).

Ficamos ali, por um tempo. Acredito que ela não falou nada ainda apenas esperando o meu pranto sessar um pouco. Quando sinto meu corpo parar de tremer a abraço com força. Queria transmitir para ela que tudo o que eu sinto é verdadeiro. E recíproco. Ela acredita em mim, eu sei disso, mas num ato de desespero eu senti necessidade de demonstrar.

– Clara.. – Eu a chamei, num sussurro. Ela ainda me segurava com força. – Por acaso você..

– Eu ouvi a conversa. – Ela disse simplesmente, com a voz calma. – Cheguei aqui na sua casa já tem um bom tempo. A Vanessa me disse que seu pai estava aqui, mas eu sentia que você precisava de mim. Se passei dos limites ouvindo a conversa, peço desculpas.

Afastei-me um pouco dela pra encará-la. Como ela consegue ser tão linda e apaixonante?

– Não.. eu.. – Me calei por um momento, tentando formular alguma frase. – Eu não queria que nada disso estivesse acontecendo. – Senti uma outra lagrima cair de meus olhos e ela logo tratou de limpá-la com um beijo. – Não quero me afastar de você, Clara. Não quero. Nunca.

This is the last time. (Esta é a última vez).

Ela sorriu pra mim e eu senti ainda mais vontade de chorar. Imaginar que eu poderia, um dia, ficar sem ver aquele sorriso me deixou aterrorizada. Me senti uma criança indefesa.

– Você já faz parte de mim, Marina. Desde a sua exposição, que nos conhecemos. Afastar você de mim seria como arrancar meu próprio coração. – Ela dizia aquelas palavras, como uma declaração. – Você me conquistou. Me fez te amar. E agora sou eu que não permitirei que você se afaste de mim.

Ela segurou meu rosto com as duas mãos e ficamos por um tempo ali, nos olhando. Deslizei minha mão até a nuca dela e me aproximei, mas não muito. Queria que a iniciativa partisse dela. Queria que ela me beijasse. Eu precisava sentir aquilo, sentir que sou importante pra ela e que tudo aquilo significa algo. E foi o que aconteceu. O beijo que veio a seguir, apesar de calmo, foi suficiente pra fazer todas minhas preocupações irem embora. Aquela conversa com o meu pai havia ficado para trás porque o que importava era aquele momento. Apenas ela importava.

Cause you and I ... (Porque você e eu...)

Ela permaneceu comigo pelo resto da noite. Queria perguntar sobre o Cadu, o Ivan. Se eles estavam bem e se ela não teria problemas em voltar para casa no dia seguinte. Mas eu estava precisando dela. Sentir o amor dela. E com toda essa mistura de sentimento, eu me agarrei a ela e disse para mim mesma que nunca mais iria soltar. Afundei meu rosto no pescoço dela para sentir seu perfume. Aquele perfume que ativava todos meus sentidos. E ela disse aquilo que eu precisava ouvir.

We were born to die. (Nascemos para morrer).

– Nós enfrentaremos tudo. Juntas.

Notas finais
Gente, deixa eu contar uma coisa pra vocês: no dia que eu escrevi esse capítulo da Marina (ontem), eu tive um sonho e quero contar pra vocês. Ontem eu cheguei muito cansada em casa e resolvi dormir a tarde e acabei sonhando com a Clara e com a Marina (pra vocês verem o vício que to nesse shippe). O que me deu a entender é que a Marina ia dar uma palestra numa universidade e a Clara a acompanhou. Parece que antes disso, nesse mesmo dia, elas haviam feito umas fotos na rua e a Marina tava selecionando algumas enquanto o auditório ficava cheio. Não sei o que a Clara falou pra ela em seguida disso (ela não falou baixo, foi meio alto e estou cortando meus pulsos por não conseguir lembrar) que deixou a Marina desnorteada, e acho que foi sério. Ela correu pra uma cadeira e sentou, porque começou a ficar tonta. Uma aluna que estava ali no momento (que não tinha ouvido nada) chegou pra Marina e falou ”Que calor é esse que se alastrou por aqui? Esse amor todo é correspondido? Porque se um dia for, te garanto, o Ganache vai ser dos Deuses”. Olha, não sei o que quer dizer. Sei que Ganache é um creme de chocolate, então talvez ela tenha falando que seria muito bom, maravilhoso, DOS DEUSES. Mas só digo uma coisa: eu acordei desnorteada também e corri pro pc pra escrever esse capítulo. Preciso me tratar, isso não é normal. O que acharam? *-*