Minha luz
3 Mistakes
Notas iniciais
Clara acordou cedo naquela manhã. Olhou para a janela do estúdio e viu que a claridade do sol ainda estava muito fraca. “Deve ser umas 5 e pouco da manhã...” pensou, sentindo um peso sob seu corpo. Sentia o corpo inteiro um pouco dolorido e foi então que reparou que estava dormindo no chão. Olhou para baixo e viu a linda fotógrafa agarrada em seu corpo, dormindo profundamente. Não pode deixar de sorrir. Foi então que lembrou que acabou mesmo dormindo na casa da Marina, mais especificamente no estúdio. Elas montaram uma cama com alguns cobertores e almofadas que havia ali e dormiram, abraçadas.
Enquanto começava, de forma muito involuntária, a acariciar os cabelos escuros dela, Clara sentiu uma pequena dor invadir seu coração. Se lembrou da conversa que Marina e Diogo tiveram na noite anterior e não pode deixar de sentir medo do que viria a partir dali. E pensou em Cadu e Ivan com o sentimento de remorso vindo logo em seguida.
Perdida em seus próprios problemas, Clara não percebeu que estava sendo observada.
– Que cara franzida é essa? – Marina perguntou, com a voz sonolenta.
Diante da preocupação dela, Clara sorriu.
– Estou pensando. – Disse, acariciando de leve o rosto da fotógrafa.
– Deve ser uma coisa muito ruim para estar com essa cara. – Observou, inclinando um pouco a cabeça para o lado, procurando analisar Clara um pouco mais.
– Eu tava tão perdida, pensando em um monte de coisa, que nem reparei que estava fazendo cara feia. – Brincou, fazendo Marina gargalhar.
A fotógrafa saiu de cima de Clara e sentou no chão, ao seu lado.
– Ainda ta bem cedo.. – Olhou em direção a janela, procurando calcular que horas eram.
– Sim. – Se sentou também. – Como está se sentindo? Dormiu bem?
– Eu posso dormir num colchão de pregos, Clarinha, mas se você estiver ao meu lado eu vou dormir bem sempre. – Falou, olhando-a com ternura, fazendo Clara suspirar e sorrir em seguida.
– Eu queria muito ficar aqui com você, mas eu preciso ir pra casa. Levar o Ivan pra escola...
– Eu sei. Não queria te dar mais problemas, Clara, mas fiquei muito feliz por você ter ficado aqui comigo. Estava precisando muito de você. – Se aproximou da amada, que logo tratou de abraça-la com força. – Mas já que precisa ir embora tão rápido, pelo menos toma o café da manhã comigo? – Disse baixinho, com uma voz manhosa.
Clara sorriu ainda mais com aquele pedido. Aproximou da amada e depositou um demorado beijo na bochecha da fotógrafa. Não há como dizer “não” para aquela mulher.
~.~
Acabou demorando mais do que gostaria na casa de Marina. Por conta do horário, Clara imaginou que encontraria Cadu ainda dormindo, já que ele piorou de seu problema cardíaco naquela ultima semana. Porém, não foi o que aconteceu. Quando entrou no apartamento encontrou o marido sentado á mesa, com um semblante muito sério.
– Desde quando você dorme fora de casa, Clara? – Ele olhou pra ela, e não estava nada satisfeito.
– Está tendo uns problemas no estúdio e precisei ficar até tarde. Fiquei com medo de voltar sozinha e passei a noite lá. – Se sentia mal por estar escondendo do Cadu o que estava acontecendo entre ela e a Marina, mas não estava mentindo sobre o que tinha acabado de falar.
– E custava ligar pra avisar? Eu podia te buscar. Não me faça de idiota, Clara. Porque será que estou sentindo que não é nada disso, hein? – Ele se virou pra ela e a encarou, como quem procura uma mentira.
– Cadu, não vou discutir com você agora, a sua saúde..
– Ah, agora você ta preocupada com a minha saúde, Clara? Você se quer ligou pra avisar que passaria a noite fora, e agora está preocupada comigo? Ou com seu filho? — Ele levantou pronto para discutir, mas parou quando viu Ivan entrar correndo na cozinha, se jogando sobre a mãe abraçando-a.
– Mãe! – Clara sorriu e o abraçou forte acariciando seus cabelos loiros. – Porque a senhora não dormiu em casa?
– Tive uns problemas no trabalho, Ivan. Me desculpe. – Ela o soltou e olhou séria para Cadu, ainda falando com o filho. Não gostava nada quando ele metia seu filho na briga dos dois. – Isso não vai mais acontecer. Tome seu café que vou te levar pra escola.
– Pode deixar que eu levo ele! Já deixou sua família sozinha a noite, não precisa fazer o papel de mãe agora. – Cadu controlava o tom de voz para Ivan não perceber, mas Clara sabia que ele estava irritado.
– Ai Cadu, por favor, agora não. – Clara passa as mãos pelo cabelo procurando controle e tudo aquilo só deixava Ivan mais confuso. Ela abaixou na altura do filho, que estava sentado tomando o café da manhã, e beijou sua bochecha. – Querido, seu pai vai te levar pra aula, tá? Estou com dor de cabeça, preciso de um banho. – Se levantou e foi para o quarto.
Clara se trancou no quarto e encostou na porta. Fechou os olhos e respirou fundo. Sentiu que o que estava fazendo era MUITO errado. Só o fato de ter beijado Marina, ter deixado ser beijada por ela e ter passado a noite na casa dela era uma traição. Clara não era esse tipo de pessoa, era uma pessoa boa que sempre visava o bem dos que estavam ao seu redor. Mas apesar de estar amando, e muito, a Marina, estava se sentindo suja com o que estava fazendo com Cadu. Seu companheiro de tantos anos, o pai do seu filho. Apesar da imaturidade do chef, do seu jeito desligado e relapso, ele não merecia isso que ela estava fazendo. Precisava ser sincera com ele e explicar o que estava acontecendo mas tinha medo das consequências, afinal, Cadu estava doente e qualquer mudança mínima de humor dele já o deixava mal. Não o amava mais como um homem, mas como um amigo. Sentia um enorme carinho por ele. Precisava decidir, mas sabia que alguém sairia magoado (ou magoada) de tudo isso.
~.~
Naquele dia não haveria ensaio então Marina decidiu passar o dia na piscina. Já que estava passando por uma grande crise e a chance de perder sua casa era, também, muito grande, decidiu aproveitar o lugar, afinal, não saberia até quando moraria ali. Permaneceu boiando, no meio da piscina, apenas sentindo a água ondular de forma muito calma, balançando seu corpo.
– Você está aí há umas duas horas, sabia?
Marina não precisou abrir os olhos pra saber quem era.
– Preciso relaxar Van, senão é capaz de eu virar um vulcão em erupção.
– Você está bem? – Se sentou na beira da piscina e ficou observando a chefe.
– Um pouco. – Decidiu ficar em pé e se virou pra Vanessa. – Meu pai veio aqui ontem e disse coisas horríveis pra mim. E falou da minha relação com a Clara.
– Como ele sabe da Clara? – Vanessa parecia surpresa.
– Não sei. Acho que ele está me vigiando. – Suspirou, mas logo sorriu em seguida. – Mas a Clara veio aqui logo depois que ele saiu e passou a noite aqui. Disse que sentiu que eu precisava dela.
– Puxa, quem diria? Então a mulherzinha largou o maridão e o filhinho pra vir consolar você? Que progresso! – Disse, irônica.
– Vanessa, quando você vai parar de despejar veneno na Clara? Isso já ta ficando muito chato! – Se exaltou.
– Estou te dando um alerta, Marina. Você ainda vai trazer problemas pra Clara.
– Você ta nem aí se eu vou ou não prejudicar a Clara, tudo que você quer é manter ela o máximo possível longe de mim. — Disse, séria. – Você não percebe que tudo isso que você diz só me chateia cada vez mais? Se você realmente gosta de mim, me deixa ser feliz!
– E você está feliz, Marina? Está mesmo? A Clara pode até corresponder a todo esse amor que você sente por ela, mas será que ela tem coragem de largar o marido pra ficar com você? Você já se perguntou isso? O Cadu está doente e Clara não vai largar ele e já deixou isso claro pra você. Vai virar amante agora?
– Ai Vanessa, chega! A vida é minha e eu não te pedi opinião nenhuma! – Explodiu, saindo da piscina e pegando uma toalha para se enxugar. – Tudo o que você sabe fazer é me criticar, querendo que eu pare de amar a Clara. Acha que eu vou fazer isso e voltar a amar você? O seu tempo já acabou, somos amigas! Pare de ficar empatando minha vida, já basta meu pai!
Vanessa ficou por um tempo observando a amiga e se sentiu magoada com tudo o que ela estava dizendo. Sabia que as duas haviam se beijado e que Clara havia se declarado. Mas a assistente tinha uma vida que não seria trocada tão fácil assim e ela sabia que Marina ainda iria sofrer.
– Tá bom, Marina. Prometo que não vou dizer mais nada. Mas não venha chorar quando quebrar a cara. – Falou simplesmente, se levantando e se afastando da fotografa.
Marina viu a amiga se afastar e sentiu que talvez o sentimento de amizade que uma nutria pela outra havia diminuído. Queria muito que Vanessa não estivesse falando a verdade. Por mais que Clara tivesse se declarado pra ela e a beijado, sabia que as coisas não eram tão simples e parece que uma tempestade ainda estava por vir.
~.~
Cadu entrou novamente no apartamento ofegando. Era incrível como seu quadro clínico estava avançando depressa. Agora não podia levar o filho à escola que parecia que tinha ido tirar não só o pai, mas a família inteira da forca. Clara, que estava sentada no sofá esperando por ele se levantou de sobressalto e correu para amparar o marido.
– Cadu!
– Ué, não vai trabalhar hoje? – Ele se desvencilhou dela e foi direto pra cozinha beber um pouco de água. Clara o seguiu.
– Trabalhei até tarde lá. Acho que é justo ter uma folga. – Sentou no balcão e ficou o observando, preocupada. Se acalmou quando viu que a respiração dele voltava ao normal. – Cadu, desculpe não ter ligado ontem. Estamos realmente passando por um problema grave no estúdio. Eu meio que... esqueci de ligar.
– Esqueceu da sua família, você quer dizer.
– Cadu...
– Não, não venha com essa de Cadu, Clara! Eu achei que isso tinha passado! Que toda essa atração que você tinha pela Marina tinha passado! Eu não sou idiota, Clara, sei o que está acontecendo aqui. E aí, vai negar?
– Cadu. – Ela suspirou, e se sentiu mal pelo que iria dizer. – Não vou te deixar, isso eu garanto. Você esta muito doente, quero evitar ter todo tipo de briga com você. Eu e a Marina somos amigas. Melhores amigas. – Fechou os olhos e sentiu que se não se controlasse iria chorar na frente dele. – Ela é apenas isso. Por favor, me deixa cuidar de você.
O chef ficou em silencio por um momento assimilando tudo que ela havia dito.
– Me deixa ficar do seu lado. – Agora lágrimas desciam pelos olhos dela.
– Clara... – Cadu observou a esposa e não sabia dizer se ela estava triste pela briga que estavam tendo ou por outra coisa. Ou por outra pessoa. – Você está feliz?
A pergunta inesperada pegou Clara de surpresa. Ficou desconcertada e não soube dizer quanto tempo levou para respondê-la.
– Eu... – gaguejou e se sentiu uma idiota por isso. – Que pergunta é essa? Claro que estou feliz.
– Pois não é isso que parece.
– Meu amor, olha... – Ela segurou a mão dele por cima do balcão. – Você querendo ou não eu vou continuar aqui.
Clara se levantou e decidiu quebrar a distancia que o balcão impôs sobre eles, o abraçando com força.
~.~
– Leninha, preciso falar com você, é urgente! – Disse Clara, que entrou quase que correndo na Casa de Leilões e por pouco não quebrou um vaso que estava à sua frente.
– Irmã, estou um pouco ocupada, é tão urgente assim? – Mas logo se arrependeu com a pergunta que fez ao ver que a irmã caçula estava chorando. – Clara, o que aconteceu? Foi com o Ivan? O Cadu?
– Não, não. Eles estão bem. O problema é comigo! Preciso da sua ajuda! – Se mostrava absurdamente desesperada. Só assim para conseguir a atenção de Helena.
– Meu Deus, estou preocupada. Venha. – Pegou a mão da irmã e a levou para seu escritório. Chegando lá, fechou a porta para que tivessem privacidade e colocou a irmã sentada num sofá que havia no canto da sala. – O que aconteceu?
– Eu não sei o que ta acontecendo comigo, cara! Quer dizer, eu sei, mas não consigo fazer nada direito. Quando eu finalmente chego numa decisão, faço o caminho inverso!
– Não estou entendendo nada do que você ta dizendo. – Helena parecia visivelmente confusa.
– É sobre ela! E ele! – Clara não conseguiu continuar e logo começou a chorar de novo.
– Você deve estar falando da Marina e do Cadu, né? – Suspirou. – Me conte o que aconteceu.
– Eu amo a Marina, irmã! Eu inclusive disse isso a ela. – Continuou, sem se importar com a cara de surpresa que Helena fez. – Mas daí eu tomo uma decisão e quando finalmente decido contar pro Cadu vejo ele chegar em casa com a saúde ainda pior e simplesmente digo que não vou abandoná-lo. Eu não quero abandonar o Cadu, pô. Mas eu também não quero perder a Marina. E estou me sentindo horrível por isso porque ainda tem o Ivan, meu bichinho, que estava feliz em ver que eu e o Cadu finalmente estávamos bem de novo e eu até umas horas atrás eu tava pensando em separação. Não sei o que fazer. – Desabafou, chorando ainda mais.
Helena a abraçou com força.
– Meu Deus, Clara. Sinceramente, não sei o que faria no seu lugar. Acho que já teria explodido.
– Estou quase fazendo isso... Leninha, estou sentindo que se eu não pensar com calma eu vou perder alguém. Ou a Marina. Ou o Cadu. Ou o Cadu e o Ivan, junto. Se eu pudesse pegava os 3 e abrigava no meu coração pra sempre. – Disse, se afastando da irmã e cruzando as mão próximas ao coração.
– Mas você não pode. Clara, me escuta. Eu vejo, e vejo mesmo, nos seus olhos o quanto você esta sofrendo com isso. E está infeliz. Mas você não pode abandonar o Cadu agora. Ele está doente, vulnerável e precisa sentir que você está do lado dele de verdade, não por obrigação. Se no futuro, quando o Cadu estiver melhor e você quiser se separar, isso tem que ser feito de forma amigável para não magoar o Ivan. Mas agora você tem que pensar na sua família e ficar com o seu marido.
Clara suspirou, rendida. Parece que, por enquanto, sua decisão estava tomada.
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