Notas iniciais
Mais um capitulo pra vocês! Sabe, eu escrevo essa história ao som de Imagine Dragons. Já ouviram? Eles são demais! Mas não aconselho a ler a fic ouvindo alguma música deles, é estranho HAHAHA Boa leitura!

Levantou cedo naquele dia.

Preparou o café da manhã, levou o filho para a escola e depois voltou para casa. Ia acordar o Cadu para que ele fosse trabalhar no Bistrô, mas ele mal quis abrir os olhos. Estava totalmente baqueado e aquilo a deixou preocupada. Decidiu que ligaria para a doutora Silvia sem falta assim que resolvesse seus problemas naquela manhã.

Como havia combinado com Marina, chegou cedo no estúdio. Se sentiu mal por ter revelado para a amiga pelo telefone que queria conversar e imaginou que a fotografa não teria pregado os olhos naquela noite, já que ela mesma não conseguiu dormir.

Quando estrou no estúdio logo avistou Marina sentada em cima da mesa, fazendo anotações em algum caderno.

Ela usava um macacão bem largo, de tecido, na cor cinza e estava descalça. Os cabelos estavam soltos e estava de óculos. Clara, particularmente, achou que ela estava linda. Percebeu que ela estava concentrada demais para notar sua presença e decidiu se aproximar devagar. Deu um rápido beijo na bochecha dela, a tirando de sua distração.

– Clara! – Marina logo saiu de cima da mesa e abraçou forte a amada. – Sua chata! Nunca mais te ligo de madrugada!

– Ué, mas por quê?

– Você me vem com um “precisamos conversar”, toda séria. Eu não dormi a noite! – Falou, aflita.

– Eu sei, me perdoa. – Estava envergonhada. – Logo que desligamos eu me arrependi de ter falado que queria conversar com você... – abaixou o olhar, para não encarar a fotografa.

– Clara.. – Marina a chamou, tentando entender o que estava acontecendo. – O que esta acontecendo?

– Marina, eu .. – Gaguejou, sentindo que as palavras não queriam sair. – Eu preciso ser sincera com você, por ser muito importante pra mim. Você é minha melhor amiga, senão, a única, sabe?

Marina observava Clara em silêncio. Quando ouviu a assistente proferir a palavra “amiga” sentiu uma dor invadir seu peito. Queria ver aonde aquela conversa iria parar.

– Pare de dar voltas, Clara. Me diga aonde você quer chegar. – Estava séria e aquilo deixou Clara surpresa.

– O ponto principal desse assunto é o seguinte: O Cadu, ele.. – Mas foi impedida de continuar por um súbito ataque de desespero da chefe.

– Ai Clara, o Cadu de novo! Por favor, meu coração não vai aguentar! Sabia que eu sempre sinto como se uma mão gigante tivesse esmagando ele cada vez que você fala no seu marido?

– Marina, o Cadu é meu marido. O que você quer que eu faça?

– Parece que nem você e nem a Vanessa me deixam esquecer isso. – Falou, visivelmente irritada.

– Ué, desde quando você é tão egoísta, Marina?

– Eu, egoísta? Pelo menos não sou eu que estou em cima do muro, confusa sobre quem eu amo! – Marina praticamente cuspiu as palavras na cara de Clara. Sentia que os olhos ardiam e mais uma onda arrebatadora de lágrimas estava por fim. E parece que ainda nem haviam chegado no assunto principal.

Clara ficou em silêncio, assimilando. Até aquela indecisão toda estava deixando ela mesma irritada.

– Você já está me acusando sem eu ao menos ter falado do real assunto, Marina.

– Porque eu já sei que vem notícia ruim por aí..

Clara respirou fundo e como Marina não falou nada, se sentiu encorajada a continuar.

– Marina. – Começou, se aproximando da fotografa, que se afastou. – Eu estou com um grande problema aqui. O Cadu piorou, e piorou muito. Eu não posso abandoná-lo agora.. – Suspirou, sentindo os olhos ficarem úmidos. – Mas não sei se um dia conseguiria larga-lo, mesmo se ele estivesse bem.

Marina ficou chocada. Não esperava mesmo que Clara o largasse para ficar com ela, mas esperou que ela ao menos dissesse para espera-la, que de um dia Cadu melhorasse as duas poderiam finalmente ficar juntas. Involuntariamente, já estava chorando.

– Como.. como assim? – Disse, tentando compreender o que a assistente havia dito. Estava nervosa e sabia que sua paciência com Clara já estava se esgotando. – Eu nunca te cobrei nada, nunca exigi que você se divorciasse. Mas pensei que depois de ter dito que me amava, você já estava ciente do que sentia e que teria finalmente decidido! Clara, eu não quero ser amante!

– Eu sei que não! E nem eu iria querer que fosse assim! – Chorava copiosamente. – Eu estou me sentindo péssima por ter dado essa esperança pra você, me perdoa! Mas eu não sei quando o Cadu vai melhorar, se um dia ele vai melhorar! Ele precisa de mim! E o Ivan também!

– Clara, você me disse tudo o que eu já sabia, mesmo fingindo não acreditar! Mas eu quero saber o que você quer dizer com tudo isso? Você quer um afastamento radical, de novo? É isso?

– Quero um afastamento definitivo. – Falou, em voz baixa, mas o suficiente para Marina ouvir.

Sentiu o chão desaparecer sob seus pés quando ouviu isso. Parou de andar imediatamente e sentou na cadeira mais próxima. Estava se sentindo tonta. Balançava a cabeça de um lado para o outro, se negando a acreditar naquilo.

– Isso de novo não, Clara. Sabe que não vai funcionar.. – Olhava para a assistente parada a sua frente, ambas com o rosto todo molhado pelo choro. – Não faz isso com a gente, Clara. – Suplicou.

– Eu não quero, Marina. Mas eu preciso! Não quero que sofra. Você merece toda a felicidade do mundo e eu não sei se você vai encontrá-la estando comigo. Olha pra mim, eu só faço você sofrer. – Chorava, proferindo aquelas palavras em meio a soluços. Aproximou-se dela e se ajoelhou em sua frente. – Você é uma pessoa maravilhosa, Marina. Eu só tenho a agradecer por tudo o que fez por mim, e por ter me ajudado a me encontrar, como mulher. – Acariciou o rosto da fotografa a sua frente, de leve, enxugando uma nova lágrima, que escorria por aquele lindo rosto, com o polegar. – Se eu pudesse eu embrulhava o sol e dava pra você.

– E toda aquela história de “não consigo conviver com a ausência da presença do seu amor”? Você estava brincando comigo? — Disse, tentando se manter forte e ignorando a última frase de Clara.

– Não. – Permaneceu em silêncio por um momento. – Você quer acreditar que sim, mas sabe que eu não estava brincando com você. O que nos vivemos, Marina, mesmo não sendo muito, foi verdadeiro. Mas eu não posso me dar ao luxo de pedir pra você me esperar.

Marina chorava. Clara estava ajoelhada a sua frente e sorria com carinho, mesmo com os olhos inchados de tanto chorar. Sabia que o amor de ambas era verdadeiro e estaria disposta a tudo se Clara aceitasse amá-la.

Clara se levantou. Se ficasse ali por mais um minuto iria voltar atrás em tudo que estava dizendo. Aproximou-se da fotografa, que ainda estava sentada, e depositou um beijo carinhoso em sua testa.

– Obrigada por tudo. – Sussurrou, antes de sair correndo do estúdio, deixando para trás uma Marina em prantos.

~.~

O resto do dia foi calmo. Cadu, mesmo acordando tarde devido ao cansaço repentino que vivia sentindo, decidiu se distrair no Bistrô. Tentou ligar para Clara para perguntar se ela aceitaria almoçar com ele, mas não conseguiu falar com a esposa até a noite, que se esquivou do marido, mentindo, dizendo que estava tendo muito trabalho no estúdio naquele dia.

Clara, depois que saiu do estúdio, decidiu se isolar do mundo para pensar um pouco. Foi até a praia deserta que Marina a levou uma vez, e ficou lá por horas, pensando. Quando deu o horário de buscar Ivan na escola, foi surpreendida pelo filho que pediu pra ficar com Virgílio na oficina. Deixou Ivan lá e foi fazer uma visita a Juliana.

– Então, tia, como está sua vida? – Perguntou, sem muito animo.

– Normal. – Respondeu, estranhando a expressão da sobrinha. — Clara, não pude deixar de notar que você está estranha, abatida. Chega a ser estranho, porque você sempre ta com um brilho diferente nos olhos. Mas não to vendo esse brilho aí.

Clara se surpreendeu com o comentário da tia e decidiu abrir seu coração.

– Tia, lembra quando te contei sobre uma mulher que eu estava “gostando”?

– Sim, que você disse inclusive que vocês duas tem química. – Ficou curiosa e passou a prestar mais atenção na sobrinha. – O que tem ela?

– Eu não sei mais o que ta acontecendo comigo, Ju. Eu simplesmente acabei de “romper” com ela, porque escolhi dar uma chance pra valer ao meu casamento, e pra cuidar do Cadu, mas estou me sentindo vazia. – Clara passou a mão no rosto, num ato de desespero. – Eu não sabia que esse sentimento iria me consumir tanto. Eu estou amando ela, mas com medo de magoar pessoas que eu também amo, decidi me afastar de vez dela.

Juliana ficou séria pela confissão da sobrinha.

– Clara, você já pensou que talvez esteja deixando escapar pelos dedos a sua “alma gêmea”? – Disse, pegando Clara de surpresa. – Por tudo isso que você me diz, sei que está sofrendo por não poder ficar com ela. O que foi que essa Marina fez quando você pediu pra se afastar?

– Ela chorou. Ficou desesperada. Pediu que eu não fizesse isso. – Suspirou, sentindo as lágrimas rolarem pelo seu rosto mais uma vez. – Tia, se o Cadu e o Ivan não precisassem tanto de mim confesso que teria me entregado. Meu corpo inteiro está pedindo por isso.

– Eu acho que você deveria tentar. Experimentar.

– Quer que eu traia meu marido? – Falou, chocada.

– Ué, você já traiu tantas vezes em pensamento. Não acabou de falar que seu corpo está pedindo por isso? Vai por mim, você deveria dar uma chance.

– Não é assim tão fácil...

– Até é, mas você complica demais as coisas, Clara. É uma legítima Fernandes. – Riu. – Você deveria correr atrás da sua felicidade. Uma felicidade que te dê alegria...

– Felicidade alegre.. – sussurrou, aquelas mesmas palavras que havia dito a Marina a alguns meses atrás, logo quando se conheceram.

– Por que eu sei que AGORA você não está alegre.

~.~

– Marina! – Diogo entrou no estúdio, chamando pela filha. Encontrou-a sentada no canto do estúdio e se surpreendeu ao ver que o estado que Marina estava. Ela parecia respirar com alguma dificuldade, como se o ar que tivesse em volta não fosse o suficiente. O cabelo estava bem bagunçado e as roupas amarrotadas. Deduziu que ela estava um pouco bêbada.

Marina olhou para o pai por algum momento e depois voltou sua atenção para o copo de whisky que estava em sua mão, como se aquilo fosse mais importante.

– O que você quer? – Disse, ríspida.

– Eu disse que ainda tínhamos muito que conversar. – Puxou uma cadeira e se sentou, observando a filha.

– Não tenho nada pra conversar com você, pai. Peço desculpas por ter gritado com você, e tudo o mais. Mas enquanto você não conseguir compreender o que eu estou passando não vamos conseguir nos entender.

– Sentimentos nunca foram meu forte e você sabe disso. – Falou, indiferente.

Marina permaneceu em silêncio.

– Marina. – Suspirou. – Não tivemos uma primeira conversa muito boa, mas você precisa entender o meu lado. Eu preciso..

Ela o cortou. – Não vou me casar com ninguém pra você ganhar dinheiro. Sou sua filha e eu vou te ajudar. Mas não dessa forma.

Ele levantou da cadeira e começou a andar pelo estúdio com a mão na cabeça, tentando se controlar. Marina estava disposta a não colaborar com ele naquilo.

– Marina, eu não vou poder ficar mais no Rio de Janeiro. – Falou, chamando a atenção dela. – Preciso voltar logo para Genebra para ver se consigo resolver ao menos alguns desses milhões de problemas. Já entendi que não vou conseguir te convencer a isso, pelo menos por enquanto. Vim apenas para me despedir. Mas escute. – Ele ficou sério, se cobrindo com uma armadura de aço. – O casamento está de pé, e ele vai acontecer. É apenas questão de tempo para você entender que precisa da minha ajuda. E enquanto você não me ajudar, não terá suporte meu para nada. – Completou, saindo do estúdio.

Permaneceu ali por mais algumas horas, digerindo as palavras do pai. O estúdio estava deserto e aquele silêncio a incomodava. Logo depois que Clara saiu do estúdio dispensou todas, inclusive Vanessa, e decidiu afogar as mágoas na bebida.

Mesmo que dissesse que o dinheiro não era importante, percebeu que todo aquele sentimento que ela estava sentindo não iria colocar o “pão na mesa”. Levantou-se, pegou o copo, a garrafa de whisky e uma almofada e foi para fora. Deitou-se na grama, próxima a piscina, e passou a observar as estrelas. De toda aquela rápida conversa que teve com o pai, uma coisa entendeu: ao menos por um tempo seria deixada em paz.

A noite estava quente, com uma brisa gostosa passando pelo lugar, então não sentiu frio. Ficou ali por horas e acabou dormindo. Permitiu-se sonhar com Clara e com aquele mundo perfeito que queria oferecer a ela. Em seu sonho se beijavam, se amavam, viviam uma vida juntas. Tinha o Ivan para si também. No sonho o menino havia a aceitado e estavam felizes juntos, os três. Acordou sentindo os raios fracos do sol batendo em seu rosto e, lembrando-se do sonho, chorou. Chorou muito. Chorou do que ainda tinha, do que não possuía mais e do que ainda poderia perder. E sentiu raiva, ódio. De si mesma e de Clara.

Não sabia rezar. Não acreditava em entidades divinas. Mas começou a questionar se algum Ser maior estava brincando com seu destino, a impedindo de ser feliz. E então voltou à realidade. Lembrou-se de que havia contas a pagar, ensaios para fazer, uma vida para viver.

E decidiu que iria seguir em frente.

Notas finais
Obrigada aos comentários que recebi hoje! Vocês são umas fofas!