Minha luz
6 Quandary
Notas iniciais
Duas semanas se passaram desde o pedido de afastamento definitivo de Clara.
Marina estava fazendo um papel muito bom sobre ter finalmente superado o amor impossível que não podia ser correspondido. Apesar de aquilo ter deixado Vanessa feliz, imaginando que poderia finalmente reatar sua relação com a chefe, não era aquilo que estava rolando dentro da cabeça de Marina.
Para não sofrer mais do que já estava sofrendo naquelas duas semanas, Marina decidiu se jogar de cabeça no trabalho. Passava horas do dia fotografando, preparou materiais para duas campanhas publicitárias e finalmente havia começado a dar aulas de fotografia no Galpão Cultural, já que finalmente havia fechado uma turma.
Como as aulas eram sempre a tarde, vez ou outra Clara e Marina se cruzavam, já que a ex assistente estava trabalhando lá também. Ambas sentiam que estavam se evitando, mas às vezes não tinha como evitar e acabavam cruzando o olhar e quando isso acontecia ambas prendiam a respiração, como se entrassem num ambiente a vácuo.
Em uma das vezes que Marina viu Clara, pode jurar que viu um sorriso fraco ser direcionado em sua direção, mas foi muito rápido.
Naquele dia, inclusive, Marina fez questão de levar sua turma para tirar fotos no andar debaixo do Galpão, onde fica o Bistrô, como uma desculpa para ver Clara mais uma vez. Não adiantava, seu coração não havia mesmo aceitado a separação.
– Então a Marina está mesmo dando aulas aqui. – Falou Cadu, com indiferença. – Pensei ter visto ela por aqui esses dias, mas achei que era só pra tirar fotos para o site do galpão.
– Não sei se ela já ta dando aulas aqui.. – Respondeu, um pouco impaciente, enquanto ajudava o marido.
– Você não vai mesmo me falar porque vocês brigaram? – Perguntou, sem esconder a felicidade de a esposa finalmente ter se afastado da fotógrafa.
– Não. Isso é assunto meu e somente meu.
– Percebi que você anda meio amargurada desde que saiu do estúdio da Marina..
– Impressão sua, Cadu. – Disse, tentando não dar atenção ao chef, e se afastou para limpar algumas mesas que estavam sendo desocupadas.
Cadu decidiu não discutir. Pelo menos não ali e voltou ao trabalho.
Trabalhar no Bistrô estava deixando a cabeça de Clara bem ocupada. Mas o coração dela passou a doer mais ultimamente. Percebeu que ele ansiava por aquela que o fazia bater descompassado, e cada dia que Clara passava sem Marina ele ficava ainda mais inquieto.
~.~
A noite chegou bem depressa, e com ela veio a movimentação do Espaço Gourmet.
Clara tentou convencer Cadu a ir para casa descansar, enquanto ela ficaria ali até a hora de fechar, mas ele logo recusou. Naquelas duas semanas o novo coquetel de remédios que Cadu tomava começou a fazer efeito, e ele se sentia menos cansado em meio aos exercícios que fazia ali. Como não queria discutir, Clara optou por ir para casa, já que estava muito cansada.
Chegando em seu prédio, buscou Ivan no apartamento da irmã e foram juntos para seu apartamento. Deu janta para o filho, o mandou para o banho enquanto limpava a cozinha e, depois de tomar seu próprio banho, se aconchegou com Ivan na pequena cama do menino.
Estava quase dormindo quando ouviu o pequeno a chamar.
– Mãe. – Disse, se virando pra ela.
– Fala, meu amor. – Respondeu com a voz sonolenta, ainda de olhos fechados.
– Porque você não está mais trabalhando com a Marina?
Abriu os olhos e passou a encarar os olhos muito azuis do filho.
– Como sabe que eu não estou mais trabalhando lá? – Perguntou, curiosa.
– Ouvi o papai falando disso esses dias.
– Eu precisei sair de lá. – Acariciou os cabelos loiros de Ivan. – Pra ajudar seu pai no Bistrô.
– Mas você era feliz trabalhando com a Marina, não era?
– Era sim, filho... Mas agora preciso ajudar seu pai...
Ivan ficou em silêncio. Tentava, mas não conseguia entender porque os adultos nunca faziam aquilo que realmente queriam.
– Dorme agora, você tem aula amanhã cedo... – Clara abraçou o filho e fechou os olhos. – Eu te amo muito, meu bichinho..
– Também te amo, mãe.. – E dormiram, juntos.
~.~
Marina chegou em casa por volta das 2h45 da manhã. Mesmo que suas aulas no Galpão terminassem às 18h, resolveu sair pela cidade, sem rumo. Não queria voltar para casa, para a solidão que vivia naquele lugar.
Quando saiu do Galpão, parou em um lugar qualquer para comer alguma coisa, pois não queria arriscar ir comer algo no Bistrô. Rumou para a praia de Copacabana. O calçadão de lá era muito movimentado a noite e resolveu andar por lá, fotografando algumas paisagens que achava interessante. “Posso deixar essas fotos armazenadas para algum trabalho futuro”, pensou.
Estava sem sono, então foi até a cozinha a procura de algo para beber. Pegou uma garrafa de whisky e serviu um copo para si, enquanto se sentava no balcão. Ficou ali por um tempo, com o copo quase intocado, até que percebeu alguém parado no batente da porta.
– Você chegou agora? – Perguntou Vanessa.
– É minha mãe agora, Vanessa? Vai ficar controlando meus horários? – Respondeu, olhando para o copo que estava pousado no mármore do balcão.
– Não... Apenas fiquei preocupada. Tentei te ligar pra gente sair e fazer alguma coisa, mas seu celular caia sempre na caixa postal...
– Ele estava desligado.
Vanessa suspirou. Adentrou a cozinha e encostou em um dos armários embutidos que possuía ali, observando Marina de longe.
– Ela conseguiu acabar com você, né? – Disse, mas a amiga permaneceu em silêncio. – Você não superou mesmo. Bom, era de se esperar. Se eu não superei o meu amor por você é compreensível que você não tenha superado seu amor por ela.
– Como posso superar o fim de uma relação que nunca aconteceu?
– É o que estou me perguntando à duas semanas.
– Eu aceitei que perdi. Mas não da pra esquecer ela, Van. Eu vou dormir pensando nela e acordo pensando nela. É todo esse blá blá blá piegas que você já conhece. Sabe o que parece? Que eu levei um tiro bem certeiro no coração quando vi ela pela primeira vez. E não consigo parar de sangrar desde então. Já tentei de todas as formas fechar essa ferida mas não dá, não vai sarar. – Bebeu tudo num único gole.
– Marina, você não está entrando num súbito estado de depressão, né? – Perguntou, preocupada.
– Não. – Marina riu, mesmo que fraco, deixando a ruiva um pouco aliviada. – Não vou chegar nesse estado, e nem tentar me matar. Amo meu trabalho, pelo menos isso ainda não tentaram tirar de mim. – Se levantou. – Vou tomar um banho e dormir.
– Quer companhia?
Marina foi até a amiga e a abraçou. Era bom saber que ainda tinha alguém em quem se amparar.
– Obrigada, Vanessinha, mas quero ficar sozinha. Espero que me entenda. – E foi para o quarto.
Vanessa ficou ali na cozinha, pensando. Sabia que depois que Clara foi embora Marina estava trabalhando mais, o que era ótimo. Desde que Diogo cortou o dinheiro que mandava para a filha, definitivamente, era bom que a fotógrafa se dedicasse ao trabalho para se sustentar já que agora estava sozinha.
Mas Marina só permanecia bem enquanto estava fotografando. Quando acabam suas aulas no Galpão ou algum ensaio feito no estúdio, ela reparava que a amiga voltava a ficar vazia. Temia que se aquilo se prolongasse Marina acabasse adoecendo. Alguma coisa precisava ser feito.
~.~
Naquela manhã Cadu iria a uma consulta com a doutora Silvia e de lá iria para o Bistrô, já que as atividades lá começavam bem cedo. Levantou-se, chamou o filho, já que o levaria para a escola, deixando Clara descansando em casa. Ele não sabia dizer, mas mesmo não tendo um clima ruim na casa os dois haviam voltado a se estranhar. Saiu rápido de casa para deixar o filho na escola, evitando a vontade de acordar a esposa e perguntar o que tanto a estava atormentando.
Depois da consulta, com o resultado de um novo exame indicando que os remédios estavam agindo conforme o planejado, o chef foi direto para o Bistrô. O lugar estava fazendo tanto sucesso que era difícil de acreditar.
Chegando no lugar já encontrou o espaço aberto e funcionando. Avistou Verônica sentada em uma das mesas e sentou-se também.
– Bom dia, Cadu! – Saudou Verônica.
– Bom dia, Ve! Então, como está o movimento por aqui?
– Muito bom, como sempre!
– Ah, espere aqui. Fiz uma receita nova que está na geladeira e quero que você experimente! – Levantou rápido da mesa e correu na cozinha. Logo voltou com o doce em um prato e uma garfo. Colocou na frente da amiga e voltou para o lugar que estava sentado. – Prova.
– Cadu, que delícia! – Falou, depois de provar a primeira garfada. – Bom, eu tenho um fraco por tortas de banana. – Riu.
– Fiz essa receita ontem e já adicionei no cardápio. Acho que vai ser um sucesso. – Sorriu.
– Tudo o que você está fazendo ultimamente está sendo um sucesso. – Falou, deixando o amigo encabulado.
– Ah, nem tanto viu. Até alguns dias atrás eu achei que tinha conseguido fazer meu casamento ser um “sucesso” de novo. Mas ele mudou da água para o vinho.
– Às vezes são só momentos, Cadu. Você vai ver, quando menos se espera as coisas melhoram. Olha só, sua saúde está melhorando. Pense que as coisas tem que ser feitas uma de cada vez. Acredita! – Falou, segurando a mão do amigo.
– Obrigado. – Sorriu.
~.~
Clara acordou e olhou no relógio. Era 9h25. Estranhou que ninguém a tivesse acordado, mas constatou que Cadu preferiu não acordá-la. Todos aqueles dias, trabalhando no Bistrô desde cedo até a noite, estava acabando com ela. Porém, ainda precisava ir lá hoje para dar uma força. Tomou banho, comeu qualquer coisa e saiu rápido de casa.
Pegou um taxi até lá, porque Cadu estava com o carro. Chegando lá, antes de entrar no Galpão, avistou alguém parada ao lado de fora, com uma cabeleira ruiva inconfundível. Vanessa nunca aparecia no Galpão, se não fosse para Marina realizar fotos para o site do estabelecimento. Quando viu a ruiva gesticulando para ela com uma cara muito séria, querendo conversar, logo se desesperou. Achou que algo havia acontecido a Marina e Vanessa estava sendo portadora de uma má notícia.
– Vanessa! O que faz aqui? Nunca te vejo por aqui. Aconteceu algo com a Marina? Ela está bem? Se eu não me engano as aulas dela são só a tarde.. – Perguntou, já visivelmente alterada.
– Meu Deus, Clara, calma! Não, não aconteceu nada com a Marina. – “Não, por enquanto”, pensou.
– O que veio fazer aqui então? – Olhava em volta. – Percebi que a Marina não ta aqui com você..
– Vamos começar da maneira certa: Bom dia, Clarinha! Como está vivendo sua linda vida de mulherzinha? – Ironizou, sorrindo.
– Ai Vanessa, por favor. Você veio aqui especialmente para me irritar? – Passou a mão pelo rosto, como uma forma de se manter calma, o que fez Vanessa rir.
– Te irritar está na minha lista pessoal de coisas diárias que devo fazer, onde tem também: acordar, escovar os dentes, tomar banho, comer. Então percebeu que é uma necessidade, né?
– Incrível como o destino gosta de pregar peça nas pessoas! Eu vou e conheço uma pessoa maravilhosa como a Marina. Mas daí pensaram: “Não, isso tá muito fácil. Vamos mandar junto alguém pra infernizar a vida dela!”. E mandaram você de brinde pra empatar minha vida!
Vanessa gargalhou daquele comentário e percebeu que Clara talvez não fosse uma pessoa tão ruim, como pensava.
– Ta certo Clarinha, agora que trocamos nossas farpas diárias, podemos sentar? – Pediu.
Viram algumas mesas de pedra postas do lado de fora do galpão e se sentaram, uma de frente para outra. Vanessa ficou por um tempo observando a ex colega a sua frente se perguntando, pela milésima vez, o que Marina tinha visto nela. Clara sustentou o olhar e fechou a cara.
– O que você quer, Vanessa?
– Conversar.
– Ta carente? – zombou. – Marina não está mais querendo conversar com você, é?
– Ok, vou direto ao assunto antes que eu tenha vontade de dar umas na sua cara. – Suspirou. – Como foi viver essas duas semanas, Clara? Digo, emocionalmente? Estou fazendo uma pergunta sincera e quero que você seja sincera comigo.
Clara se surpreendeu com a pergunta e constatou que algo estava sim acontecendo.
– Vanessa, nunca tivemos muita intimidade pra conversar já que você me odeia desde que nos conhecemos. Não sei se quero falar dessas coisas com você..
– Você pode até não querer conversar comigo sobre essas coisas, mas você sabe que eu sou a única porta-voz confiante até a Marina.
– Quem me garante que tudo que eu fale aqui você não vai distorcer depois?
– Você não confia em mim? – Fingiu estar chocada.
– Não. – Disse simplesmente. – Vanessa, me fala logo o que ta acontecendo com a Marina. Você não veio até aqui só pra “conversar” comigo.
– Tudo bem. – Suspirou e começou. – Eu estou por dentro desse afastamento que vocês. Não, a Marina não falou nada. – Se apressou em dizer quando viu Clara abrir a boca para falar algo. – Eu meio que pego as coisas no ar, e você está a duas semanas sem trabalhar. – Fez uma pausa e continuou. – A Marina me disse, antes de vocês terem essa conversa, que se você se decidisse pelo Cadu ela iria aceitar. Afinal, ela colocou a sua felicidade acima da dela. Acontece que ela não aceitou nada disso. Ela está infeliz, Clara. Está vivendo para o trabalho e não faz mais nada além disso. Ela trabalha de manhã, de tarde, e depois sai a noite sabe-se lá pra onde e não deixa ninguém ficar perto dela.
Vanessa parou, esperando que Clara falasse alguma coisa, mas ela permaneceu em silêncio, então continuou.
– Quero saber como você passou essas duas semanas, com relação ao afastamento de vocês?
Clara respirou fundo e quando percebeu, já estava chorando.
– Eu sinto falta dela. Sinto tanta falta dela que isso me deixou mal-humorada, amargurada, como o Cadu falou ontem. Van, você precisa acreditar em mim, o que eu sinto pela Marina é verdadeiro. Mas eu não sei o que fazer. Eu tentei “arrumar” as coisas e acabei perdendo a Marina e isso está acabando comigo. Parece que cada dia que passa eu desfaleço mais devagar.
– Clara. – Se pronunciou. – A Marina realmente ama você. De todas as formas. Carnal, espiritual, sexual. Tudo. Eu já joguei a toalha faz duas semanas sobre minha relação com ela e agora eu só quero vê-la feliz. Eu estou muito preocupada, Clara, que a Marina entre em depressão. Que fique doente. Eu não quero pressionar você, pra você largar o Cadu e ficar com ela, mas olhando pra você agora eu estou vendo a dimensão desse amor. E vocês duas estão sofrendo em proporções iguais. Acho que você deveria dar uma chance. – Se levantou. – Agora eu preciso ir porque hoje o estúdio vai estar cheio de trabalho.
– Vanessa, por favor, não comente com a Marina o que eu disse pra você. Eu preciso pensar, me ajustar. Decidir o que vou fazer para que nenhum dos lados saia ferido.
Vanessa ficou parada por um momento, mas acenou com a cabeça e foi embora.
Clara observou-a se afastar enquanto pensava em tudo aquilo que Vanessa havia dito. Ela estava tentando ajuda-la a se resolver.
Pelo visto o dilema de sua vida havia voltado com força total.
Fale com o autor