Minha Luz
2 Por Você
Notas iniciais
Despertou lentamente, como se precisasse absorver todas as sensações ao seu redor. O dia anterior havia sido o melhor de sua vida! Makoto fora compreensivo e paciente; ouviu todos os seus lamentos e angústias, compartilhando, logo depois, os próprios. Assim como havia imaginado, Makoto sentia-se só e sentia, também, bastante ciúmes de Rin e Haruka. Pensava ter perdido o melhor amigo, assim como ele havia perdido.
– Sousuke! — ouviu o grito de Rin na cama de baixo.
– Pra quê o grito? — Sousuke murmurou irritado.
– Ah! Foi mal... — desculpou-se. — Pensei que ainda estivesse dormindo!
– Tá legal... Deveríamos ir a aula hoje? — Sousuke perguntou desmotivado.
– Sinceramente, não me sinto no clima pra isso – Rin respondeu. — E se... fossêmos vê-los?!
– É uma boa ideia, embora seja completamente idiota! — comentou.
– Quer ir ou não? — Rin perguntou.
– Você sabe que agora pela manhã eles estão na escola, não é? — Sousuke disse.
– Sim, eu sei. Nós podemos andar pela cidade até dar o horário deles – falou animadamente.
– E só piora... — debochou.
– Quer ir ou não? — questionou já impaciente.
– Quando saimos? — perguntou.
Subiu as escadas mais rápido do que Rin e quando chegaram na bifurcação que os separaria, o esperou.
– Até mais tarde! — disseram juntos.
Bateram as mãos e seguiram por caminhos diferentes. Tocou a campainha e foi atendido pelo pequeno irmão de Makoto, Ren.
– Como vai, Ren? — Sousuke disse de forma amável. O garoto corou um pouco mas sorriu docilmente, convidando-o a entrar.
– Nii-chan está lá em cima! — Ren disse. — Quer que eu vá chamar...?
– Se importa se eu mesmo subir? — perguntou. Ren negou e sorriu, indicando-o a escada.
Praticamente pulou os degraus, tamanha era a sua pressa. Sentia que se não fosse vê-lo rápida e imediatamente, sufocaria. Era como estar na água. Embora ela o envolvesse calma e calorosamente, era mortal e perigosa. Makoto era como a água. Entretanto, Sousuke ainda não compreendera completamente os seus sentimentos e agia por puro impulso e instinto.
– Makoto! — exclamou ao abrir a porta de forma brusca.
Makoto estava com uma toalha envolta na cintura e pingava um pouco. Sorriu, um pouco corado, para Sousuke e pegou outra toalha.
– Porque toda vez que eu venho aqui você tá saindo do banho...? — Sousuke resmungou sentindo seu rosto avermelhar-se.
– Que surpresa, Sousuke-kun! — Makoto disse e sorriu. Colocou a cueca box verde – pra variar – e estendeu a mão para o jovem sentado em sua cama. — Não tinha aulas hoje?
– Na verdade nós tínhamos – respondeu segurando a mão de Makoto.
Se ergueu num impulso e abraçou o corpo musculoso e bem trabalhado de Makoto. Tachibana Makoto, como sempre, sentira o famoso arrepio por seu corpo, mas nem por isso fizera questão de deixar os braços de Sousuke. Sentia-se bem ali, gostava da segurança que ele passava.
– “Nós?” — Makoto sussurrou divertido.
– Rin e eu – respondeu baixinho. — Ele deve estar na casa do Nanase agora mesmo, fazendo “sei-lá-o-que” com ele.
– Hahaha! — Makoto riu divertido. — Haru e eu pensávamos em fazer uma visita a vocês essa noite. Incrível coincidência, não?
– Sim – Sousuke sussurrou antes de, com muito custo, largar Makoto. — O que acha de tomarmos um sorvete? Está quente, e...
– Okay – Makoto respondeu antes mesmo que Sousuke terminasse de falar. Sosuke surpreendeu-se um pouco, mas concordou, achando divertido tudo aquilo.
– Chega de Rin e Nanase! Vamos ser só nós dois hoje! — Sousuke exclamou assim que sairam.
Makoto corou um pouco, mas sorriu gostando da proposta. Decidiram ir ao centro da cidade, compraram o sorvete e deram voltas e mais voltas.
Já passava das quatro da tarde quando resolveram parar e descansar. Sentaram-se em um banco na praça e conversaram. Havia tanto assunto... tanta coisa que poderiam conversar e desconversar, discutir e concordar. Falariam até mesmo sobre o almoço do dia caso faltasse algum assunto! Os toques entre ambos já não eram mais tão tímidos e não se constrangia mais com olhares indiscretos e maliciosos. Flertavam abertamente, ainda que inconscientemente.
– Sousuke-kun... Sasabe-san (nosso antigo treinador) está tendo dificuldades na escola. Pediu-me ajuda – Makoto disse depois de uma forte exclamação.
– Incrível, Makoto – Sousuke disse e sorriu. — Vai ajudá-lo?
– Acho que sim – Makoto respondeu distraído. — As crianças são adoráveis! Até me chamam de “Treinador Tachibana”. Não é fofo?
– Espera! Você já aceitou? — Sousuke perguntou surpreso.
– Sim – Makoto disse um pouco constrangido. — Desculpe, Sousuke-kun. Estava distraído.
– Notei... — respondeu. Apoiou o rosto sobre a mão e fixou um olhar penetrante em Makoto. — Me pergunto o que se passa na sua cabeça agora...
– Bem... estava pensando no que faria quando eu chegasse em casa – Makoto disse e olhou para o alto, fingindo pensar. — No que eu comeria e se eu deveria ir a casa do Haru.
– Você e Nanase são bem próximos mesmo... — Sousuke murmurou para si mesmo.
– O que? Não ouvi! — perguntou.
– Não é nada – Sousuke respondeu. — Já está ficando tarde, huh, vamos embora...?
– Claro! — Makoto disse e se ergueu, estendendo sua mão para Sousuke.
– Me pergunto o porque de você estender sua mão para mim todas as vezes – comentou Sousuke.
– Ah! — Makoto corou. — É o costume. Sempre faço isso com Haru.
– Então, por favor, pare – Sousuke disse duramente.
– Huh? Porque? — perguntou inocente. — Sousuke-kun, você ainda não gosta do Haru?
– Makoto – Sousuke disse sério. — Eu sou Yamazi Sousuke. Ele é Nanase Haruka. Somos diferentes. Prefiro não ser tratado da mesma forma que ele.
– Ah! — exclamou novamente. — M-Me desculpe por isso.
Sousuke não respondeu. Sentiu-se incomodado por ser uma substituição de Nanase, mas sentia agora a dor da culpa por tratá-lo mal. Voltaram em silêncio até a estação.
Era um simples atraso, mas naquele momento, Sousuke queria que o maquinista fizesse uma breve visita ao inferno. Makoto e ele não conversavam. Sua reclamação resultara em um silêncio perturbador e, principalmente, constrangedor. Não sabia o que se passava na cabeça de Makoto, mas sentia que ele estava triste com aquilo. Talvez ele quisesse apenas suprir a falta que Nanase fazia, mas... mas ainda assim! Não queria suprir Nanase! Queria ser o único na vida de Makoto! O único a habitar seus pensamentos e... seu coração.
De súbito, compreendeu. Fora realmente devagar! Durante todo o tempo que passara com Makoto nunca sequer notou os seus próprios sentimentos. Sentia-se, naquele momento, um verdadeiro idiota!
– Makoto – sussurrou.
Makoto virou-se imediatamente para ele; seu rosto gentil ainda mantinha a mesma calma e tristeza desde a hora em que havia saído da praça. Encararam-se durante poucos segundos; Makoto sorriu compreensivo.
– Está desculpado – Makoto disse sorrindo. Sousuke corou. — E... me desculpe também, Sousuke-kun. Eu agi errado. Peço que não pense que você é um substituto do Haru. Nunca pensei que fosse.
– Eu sei, Makoto – Sousuke disse e cruzou os braços. — Eu é que fui um idiota.
– Haha, verdade! — Makoto disse rindo.
Sousuke sorriu. Seu coração aquietou-se. As batidas, antes frenéticas e desesperadas, diminuiam seu ritmo aos poucos e Sousuke podia sentir a tão conhecida e amada paz. Descruzou os braços e os estendeu para perto de Makoto. Abraçou-lhe com tanta força que pensou que fosse esmagar os seus ossos, mas sentiu o mesmo envolver-lhe ternamente, com delicadeza.
Seus corações batiam no mesmo ritmo, serviam-se de sensações já conhecidas, porém experimentadas de um novo ângulo. Ângulo este da aceitação e do sentimento de derrota – aquele de perder o seu orgulho, de deixá-lo cair e se espatifar no chão, mas por uma boa causa.
Yamazaki deixou Makoto, puxando seu rosto para perto do seu. Sentiu o hálito quente e doce do mesmo; fechou os olhos, apreciando o momento, mesmo que por um breve instante. Deixou que sua testa encostasse na de Makoto e abriu os olhos, tendo a frente de seus olhos, a luz verde, que em outro dia lhe visitou em seus sonhos. Envolvia-lhe calma e carinhosamente, como se tivesse sido feita somente para isso. Não pode deixar de sorrir. Makoto fazia-lhe tão bem... Num “beijo de esquimó” sorriu mais um pouco.
Tachibana não estava incomodado. Ver-se tocado e acariciado daquela forma tão carinhosa lhe deixava extasiado e com uma sensação de felicidade que sequer poderia descrever com palavras ou gestos. Ele mesmo ergueu a mão e desenhou a linha do rosto de Sousuke. O maxilar forte e bem traçado o fez sorrir; as bochechas quentes (talvez pelo calor) e a linha do leve e delicado sorriso que Sousuke mantinha o deixaram ainda mais encantado. Não pode deixar ainda de notar o gostoso perfume que Sousuke mantinha no corpo. Inspirava e expirava profundamente, sem nunca deixar o sorriso no rosto.
Sousuke deixava-se levar pelos carinhos que recebia avançando cada vez mais. Descia as mãos a sua cintura, apertava ali e volta a subir; enroscava os dedos nos cabelos verde-oliva e os puxava. Seus lábios abriam-se e fechavam-se na esperança de dizer algo inteligente, mas só repetia os movimentos, chegando a roçá-los nos de Makoto. Estavam, definitivamente, envolvidos em seu próprio mundo. Seduziam-se e flertavam sem medo.
O primeiro selinho ocorrera de forma rápida e singela. Sousuke atrevera-se a roubar-lhe o doce e delicado beijo. Ouviu-se um estalo ao realizá-lo. Gostou do som; o repetiu. Os lábios fartos de ambos se encontraram mais uma vez, e, para a alegria de Sousuke, Makoto o fez. Prontos para iniciar um “beijo de verdade” ouviram risos e vozes agudas, seguido de uma forte exclamação.
– Olha, mamãe! Tem dois caras se beijando! — uma garotinha disse inocentemente.
– Ah! — a mulher exclamou. Virou as crianças e tapou-lhes os olhos.
Makoto corou e lutou para esconder seu rosto. A mulher xingava-os em voz alta, para que se constrangessem. Sousuke apenas revirou os olhos. Não via problema em nada daquilo, mas parecia que algumas pessoas haviam nascido apenas para serem problemáticas. Ainda segurando a cintura de Makoto, sorriu para o mesmo, compreensivamente.
– Desculpe por isso – sussurrou. Makoto sorriu, ainda envergonhado.
– Tá tudo bem – murmurou.
Sentaram-se em um banco e ficaram a conversar até que o atrasado trem chegasse. Até que o mesmo chegasse, suas mãos permaneceriam unidas e bem apertadas, como sempre deveria ter ficado.
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