Minha Gotinha de Amor

2 Futura Doutora Hastings


Notas iniciais
Quero agradecer imensamente aos comentários! Sério, um mais lindo que o outro :')

Bastante a contra gosto, Aria arrumou suas coisas para ir à escola na manhã de segunda-feira. Não que ela estivesse destruída a ponto de não querer sair da cama para fazer contato com os seres humanos à sua volta, muito pelo contrário. Ela se sentia bem. Não plenamente nova em folha mas bem o suficiente para se sentir enjoada quando recebia olhares condolentes, como o de sua mãe, por exemplo.

– Tem certeza de que está bem mesmo, querida? – perguntou Ella, vendo Aria descer as escadas já com a mochila nas costas.

Aria analisou precisamente a expressão pesarosa que repousava no rosto de sua mãe e respondeu curta e fracamente:

– Tenho – desejando emendar um “podemos por favor nunca mais falar sobre isso enquanto eu viver?”.

Ella era a única que sabia sobre o relacionamento de Aria com Ezra. Aria jamais contaria algo assim para Mike, seu irmão de quinze anos com idade mental de uma criança de sete e, por mais que Byron fosse definitivamente o pai mais amoroso do mundo, aquilo jamais poderia chegar aos ouvidos dele. Aria tinha a impressão de que, depois que ele entregasse Ezra para a polícia, suas palavras seriam exatamente “estou muito decepcionado com você”, naquela voz fria e contida. E ela não poderia viver com essa culpa.

Mas, por outro lado, namorar Ezra havia unido Aria e sua mãe de um jeito que as duas nunca haviam sido. Nas palavras de Ella “ele é um ótimo rapaz”. Aria havia ouvido isso de Ella quando ela fora ao cinema com algumas colegas de trabalho e vira Aria na mesma sala escura de mãos dadas com Ezra. Aria não havia notado e Ella a interrogara no final daquele dia.

– Eu estou namorando – Aria começara, há pouco menos de um ano atrás, ainda com dezesseis anos. Estava completamente petrificada mas mesmo assim decidira jogar a bomba por inteiro. – Ele é meu professor de inglês e tem vinte e cinco anos.

Ao fim daquele terceiro fato, Aria achara que Ella teria uma síncope. Mas ao fim da confissão completa, Ella lançara para Aria um meio sorriso e suas exatas palavras foram:

– Ele é mesmo muito bonito.

E talvez fosse mesmo por isso que Ella estivesse tão triste com aquele rompimento. Ela perdera o genro de seus sonhos, afinal de contas. Até porque Aria nunca namorara sério antes de Ezra. Fora beijada apenas contra sua vontade por caras que ela chamava de “típicos garotos de Rosewood”. Garotos esses de mesma mentalidade que seu irmão. Quer dizer, Mike chegava a ser mais inteligente que eles, ela tinha que admitir.

Mesmo que o conto de fadas tenha se desfeito, Aria sempre se lembraria de Ezra com um imenso carinho, afinal, ele fora seu primeiro amor. Mas ela estava pronta para seguir em frente e não queria nem pensar nos olhares recheados de pena que suas amigas lançariam-na uma vez que chegasse a Rosewood High. Isto é, menos Spencer.

Aria ameaçara Spencer a respeito de nunca mais querer ouvir um “sinto muito” vindo dela. Sentia-se no direito de fazer isso pois parecera que ela e Spencer haviam se aproximado ainda mais naquele domingo. Dissera a ela que sentiria muita falta das tardes que passava assistindo filmes antigos com Ezra em seu pequeno e bagunçado apartamento. Ele costumava sentar com ela entre suas pernas e deixar os braços frouxamente envolvendo sua cintura.

– Ora, e quem disse que isso vai ser um problema? – perguntara Spencer, enérgica – Vem cá. – ela sentara outra vez na cama de Aria e deixara as costas rentes à parede – Pode me chamar de travesseiro reserva.

Ainda insegura, pensando que era mais um dos momentos sarcásticos da garota, Aria acomodou-se entre as pernas dela. Spencer tinha um corpo esguio que definitivamente era menor que o de Ezra, mas, ao deixar-se relaxar recostada ao peito dela, Aria notara que se sentia igualmente protegida. Conseguia sentir que tudo o que Spencer desejava era colar os pedacinhos quebrados de seu coração, isso pelo jeito como ela acariciava imperceptivelmente suas mãos. Aquilo a emocionava. E juntas elas assistiram pela enésima vez Cisne Negro, que não era em preto-e-branco mas era um dos favoritos de Aria.

E exatamente como o previsto, Aria precisou engolir calada os desejos de “melhoras” que suas amigas lhe mandavam. Inclusive Alison, de seu próprio jeito, mas ainda assim era tocante, de certa forma.

– O que não te mata te torna mais forte – disse ela antes de elas subirem juntas para suas respectivas salas, soando extremamente confiante – Você vai superar. Todas nós superamos, todos os dias.

Era possível identificar um toque de indiferença na voz de Ali, mas Aria sabia que as intenções da garota eram boas. A única que não agiu como se Aria fosse nada além de uma frágil e inocente criança, além de Ali, foi Spencer. E ela deu graças a Deus por isso. A última coisa que ela queria era que Spencer a visse como uma coitadinha.

Na hora do almoço daquele dia, parte da estranheza ainda pairava no ar. Parecia que as garotas escolhiam a dedo as palavras na hora de conversar sobre o que quer que fosse e, como que pisando em ovos, cuidavam para não pronunciar “aula de inglês” ou algo relacionado a isso, ainda que fizesse meses que Ezra parara de lecionar ali. Isto é, menos Ali, que continuava desbocada como sempre e por vezes era a única falando à mesa.

Aria teve sua última aula com Spencer e, dividindo com ela uma das carteiras duplas, conseguiu relaxar. O que ainda era estranho pois, em menos de vinte e quatro horas, estar com Spencer estava se mostrando ser mais natural do que estar com as outras. E, durante quase uma hora, Ezra não ocupou sua mente em nem um segundo sequer. Aria pensava inconscientemente que seria assim pelo menos até o fim do dia, mas ela estava enganada.

Poucos minutos antes da aula terminar, Aria ouviu em meio ao silencioso burburinho um garoto cochichar com com mais dois alunos atrás dele.

– Eu soube que o sr. Fitz se mandou da cidade.

– E acho que já podemos suspeitar de quem o fez fazer isso – Kristen Cullen replicou um tanto alto demais.

Aquela voz estava recheada de veneno. Exatamente como a voz de Alison costumava soar há alguns anos atrás quando ela resolvia ofender certos alunos não populares, como Mona Vanderwaal. Alison não fazia mais isso ultimamente – até porque Mona já não era mais tão “não popular” assim – mas aquele timbre era inconfundível. E o fato agravante era que Kristen não gostava de Alison, o que consequentemente a fazia não gostar do resto do “bando” que a cercava, incluindo Aria.

– Covarde – disse o rapaz ao lado de Kristen e os três riram.

Aquilo foi como uma facada no coração de Aria. Não só pelo fato das ofensas e da intenção deles de se fazerem ser ouvidos, mas aquilo também a fez lembrar-se de que já fora alvo de muitas risadas quando era mais nova. Antes de ser amiga de Ali e das outras, Aria era taxada de “a menina esquisita que só usa preto e fica desenhando e lendo pelos cantos”. Doía muito.

Possivelmente sentindo aquele desconforto, Spencer tocou seu pulso.

– Ignore. – ela murmurou, segura, praticamente sem mover os lábios – Apenas ignore.

Aria suspirou e obedeceu, agradecendo por Spencer estar ao seu lado. Ignorou até o momento que foi possível. Fechando seu fichário após o soar do sinal que dispensava a classe, pôde ouvir os imbecis atacarem mais uma vez.

– Pra onde vocês acham que o sr. Fitz foi? – perguntou Kristen a seus dois capangas, sendo que restavam apenas eles, Spencer e Aria na sala – Certamente é um desperdício ele estando fora da cidade. Nunca tive o prazer de ter aula com um professor tão gostoso.

Um dos garotos se aproximou de Kristen e cochichou algo em seu ouvido. E os três começaram a rir mais uma vez. Aria conseguia sentir três pares de olhos queimando sobre si e foi capaz de distinguir a palavra “vadiazinha”. Enxugou uma lágrima que descia de seu olho direito e, num impulso, levantou-se. Não merecia ficar ali ouvindo aquilo. Foi então que Spencer deixou seu livro de Economia cair sobre sua carteira com um leve estrondo que fez Aria congelar em pé.

– Mas escutem aqui, vocês não têm o que fazer, hein? – esbravejou ela, levantando-se também. De repente Spencer parecia a autoridade máxima ali e os Três Patetas pareciam nada mais do que crianças assustadas, cujos sorrisos evaporaram de seus rostos. – Que tal irem ao shopping gastar o dinheiro dos seus papais na nova atualização do iPhone? Porque está claro que em livros é que ele não será gasto.

Ninguém ali ousou rebater o argumento de Spencer. Kristen apenas lançou-a um olhar de nojo e puxou os dois garotos para fora da sala.

– Vem – Spencer se virou e sorriu para Aria, que ainda estava estagnada ao mesmo lugar, e estendeu um braço para ela, instruindo por meio daquele gesto que era para ela encaixar-se ali. Aria também não ousou discutir.

Saíam a passos desapressados da sala até que reviram Kristen curvada ao bebedouro, sozinha. O olhar de Aria seguiu o de Spencer por um segundo mas em seguida a mais baixa desviou-o da garota ao longe. Spencer, porém, deixou de seguir seu próprio conselho.

– Me dê um minuto – ela sussurrou para Aria e, a passos largos, direcionou-se à loira que nada mais era do que uma cópia barata de Alison – Ei, Cullen! – chamou-a com voz firme – Você vai pagar por isso.

Kristen endireitou-se e virou o rosto para Spencer. Sua expressão era irritantemente tranquila.

– Está falando comigo?

– Com quem você acha que eu estou falando?

Metade de Aria queria correr atrás de Spencer e contê-la. Ela estava com cara de quem queria comprar briga e como também isso não era muito comum, a expressão de raiva de Spencer era inconfundível. Ela poderia ser suspensa. Mas a outra metade de Aria estava apenas petrificada demais para fazer qualquer coisa.

– Poupe-me, Hastings – Kristen cuspiu, fazendo menção de virar-se, mas Spencer agarrou-a pelo antebraço.

– Se você ao menos soubesse o quanto eu tenho nojo de pessoas como você, que acham que são alguém só porque pisam nos outros. – disse, e Aria ia aos poucos se aproximando. A raiva dava um brilho diferenciado aos olhos da garota, mas Aria não deixou de pensar que se lembraria de Spencer daquele jeito para sempre. Ela estava linda, quase como uma revolucionária reivindicando seus direitos. – A sua laia é desprezível.

Kristen expirou um risinho irônico. Mantinha-se calma, não fazendo questão de desvencilhar-se de Spencer.

– Se você odeia tanto a minha laia deveria odiar também a sua tão adorada abelha-rainha.

– É aí que você se engana. Alison teve sorte. Encontrou em tempo pessoas como nós que estamos constantemente mudando-a para melhor. E o diferencial é que ela está se deixando ser mudada por nós. E se você a essa altura não encontrou ninguém ainda é porque ninguém se importou o suficiente com você. E isso por si só diz que você é pior do que ela.

Com isso Spencer largou do braço da garota – que pareceu abalar-se por um segundo –, com um olhar não menos enojado.

– Você está avisada, Cullen. – murmurou entredentes. Ia afastando-se com Aria em seu encalço, boquiaberta com o que acabara de presenciar, quando Kristen lançou mais uma por trás, ainda tranquilamente debochada.

– Desde quando virou advogada dos fracos e oprimidos, Spence?

Spencer girou cento e oitenta graus em suas botas de saltos curtos e sorriu da mesma maneira debochada.

– Desde hoje. Minha mãe diz que eu levo jeito para advogar. Tenho começado a pensar que posso mesmo me dar bem no ramo.

Notas finais
Estou muitíssimo a fim de colocar uma pitada de Hanna e Mona na história. Elas são definitivamente o meu vício. O que acham? Obviamente que se eu colocasse, elas só fariam "figuração", não seria nada muito dramático ou aprofundado.