Minha Gotinha de Amor

3 Ovos, farinha e limpadores de pára-brisa


Notas iniciais
Como retribuir tanto amor nos comentários? Aaaahh, ainda estou sem palavras. Amo vocês :3

— Caramba! Você não tem outro DVD, não? – indagou Mike, na certa espantando pelo fato de sua irmã estar assistindo novamente Cisne Negro, desta vez deitada no sofá da sala.

— Pois é, parece que não – Aria devolveu fracamente, não dando-se o trabalho de se mover para fitá-lo.

— Não sei como você consegue gostar desse filme – ele quicou uma vez a bola de basquete que trazia debaixo de um braço – O final é muito bizarro.

Aria revirou os olhos e finalmente pousou-os parcialmente no irmão.

— É preciso ter uma alma poética para entender. Mas, traduzindo para uma linguagem mais fácil, o que a Nina faz mostra amor à camisa.

— Ei, eu tenho amor à camisa. Dos Lakers. – disse ele, orgulhoso, apontando com uma mão para o logo de sua camiseta da liga estadual de basquete da Califórnia – À proposito, se alguém perguntar por mim diga que eu fui fazer umas cestas com o pessoal na quadra da escola.

— Claro – Aria concordou no mesmo tom de voz fraco, sem desgrudar os olhos da televisão.

— Mas se você quiser avançar para a parte em que a Natalie Portman e a Mila Kunis transam, eu ficarei mais do que feliz em me atrasar um pouco.

— Cale a boca! – ela virou-se para Mike, finalmente cedendo a uma risada.

Mike riu junto e a deixou sozinha em seguida. A não ser pelo som da televisão, a casa estava incrivelmente quieta. E em meio a tamanha quietude, Aria percebeu que nunca havia de fato prestado atenção à cena que o irmão se referia, mesmo não podendo contar quantas vezes tinha visto aquele filme. Não havia sido uma transa de verdade, apenas um delírio da personagem principal, e tal cena sempre havia passado despercebida por Aria, até porque um relacionamento lésbico não era o ponto central da trama. Mas agora, sem que se desse conta, seu polegar esquerdo apertava a tecla de avançar do controle remoto.

Seu primeiro pensamento quando a curta cena chegou ao fim foi: uau. Como ela nunca havia reparado naquilo antes? Era digno de se reparar. Como seu irmão dizia, era quente. Bastante quente. E por três vezes, Aria clicou na tecla de voltar do controle remoto. Analisava a cena mais com um olhar crítico do que com qualquer outra coisa. Prestava atenção às expressões das personagens. Elas davam a entender que aquilo era algo bom, libertador. Será que era?

Estava para clicar por uma quarta vez na tecla de voltar quando ouviu seu celular vibrar na mesinha de centro. Seu coração acelerou, demasiadamente assustado. O toque do aparelho se assemelhou a uma sirene de polícia. Era como se Aria estivesse fazendo algo errado. Mas então a sensação ruim passou. Ler o nome de Spencer na tela a fez lembrar do motivo pelo qual estava assistindo mais uma vez àquele filme. Ele o fazia pensar nela. E naquele momento fofo que as duas tiveram na tarde passada. Aliás, aquilo talvez fosse ser um marco eterno a partir de agora.

— Oi, Spence – saudou, sentindo-se leve e alegre.

— Me diga, quais são seus planos para essa tarde?

Aria fitou o relógio digital da televisão por um segundo. Beirava as quatro da tarde. Soltou um suspiro dramático.

— Deixe-me ver... – correu os olhos pela sala vazia e naturalmente iluminada – assistir pela quadragésima vez o meu filme favorito, confere; estar quase cochilando sob um cobertor felpudo, confere. E quem sabe se eu tiver sorte, posso ir à feira de produtos orgânicos com a minha mãe depois que ela chegar do trabalho.

— Bem, deixe um bilhete para a sra. Montgomery na porta da geladeira pedindo desculpas por minha parte. Eu quero te levar para um lugar.

— Ah, não. Você está com aquela voz. – tentou entonar algo próximo a tédio ou desapontamento, quando na verdade estava difícil conter a animação.

— Que voz? – Aria teve certeza de que Spencer estava franzindo as sobrancelhas.

— Aquela voz de “eu tenho um plano maligno”.

— Cá entre nós, eu tenho um plano maligno. – vangloriou-se.

Aria quis rir.

— Devo ficar com medo?

— Não. – respondeu Spencer calmamente – É algo que te beneficia também.

— Quer, por favor, cortar o falatório e me dizer o que é?

— De jeito nenhum! – Aria ouviu a garota bater um pé do outro lado da linha – É uma surpresa. Agora, vista algo confortável e que possa eventualmente sujar. Ah, e traga uma dúzia de ovos.

Aria não conseguiu conter uma risada desta vez.

— Por quê? Vai me preparar mais uma fornada dos seus maravilhosos biscoitos de chocolate?

Spencer ficou em silêncio por alguns segundos. Ela estava definitivamente tramando alguma. Era típico dela. Quer dizer, Aria adorava aquele espírito mas, novamente, não era sempre que a garota nerd e centrada dava lugar a tal, então, quando ele resolvia aparecer, sem prévio aviso, era bom aproveitar.

— Pode-se dizer que nós vamos colocar as mãos na masa, sim, mas não vai haver um momento para degustação depois.

Aria não entendeu. É claro que esse devia ser o objetivo de Spencer desde o início.

— Certo, eu estou definitivamente com medo – brincou ela, quando tudo que havia em seu interior era uma empolgação que fazia seu coração bater depressa.

— Mas ainda ontem você disse que confiava em mim – Spencer protestou infantilmente.

— Eu confio – Aria rebateu quase no mesmo instante, numa voz doce. Spencer sempre discursava com uma inabalável segurança. Era impossível não confiar nela.

— Então apronte-se que eu vou estar aí em dez minutos, ok? E não se esqueça dos ovos! — Spencer jogou um beijinho para Aria e desligou.

Depois de rapidamente vestir leggins e uma camiseta folgada de algodão com estampa de um céu estrelado – ela mesma havia tirado da internet a ideia para pintar –, uma de suas favoritas, Aria tirou da geladeira uma caixa de ovos quase cheia. Riu, pela primeira vez analisando aquele pedido. O que diabos ela estava aprontando? Quer dizer, pela hipótese mais lógica, elas provavelmente cozinhariam alguma coisa e alguém da família de Spencer havia esquecido de comprar ovos. Mas se elas fossem mesmo cozinhar, não faria sentido provar a “obra de arte” depois? Então por que Spencer dissera “não vai haver um momento para degustação”?

Aria desistiu de tentar prever o futuro. Balançou a cabeça, percebendo que ainda havia um sorriso bobo em seu rosto. Ela confiava muito em Spencer, tanto que não via sentido em levar aquele questionamento adiante. Catou rapidamente pela casa uma sacola dessas reaproveitáveis de pano e pôs-se a esperar sentada na namoradeira de sua varanda o carro de Spencer estacionar à frente da casa.

— Você me deve explicações – disse Aria depois de prender o cinto de segurança do banco do carona e de deixar sua caixa de ovos no de trás. Havia duas sacolas de plástico ali também e Aria identificou o conteúdo de uma como sendo outra caixa de ovos. – Pra quem vamos fazer um bolo? É aniversário de casamento dos seus pais?

— Não – Spencer sorriu, não desviando os olhos do volante –, só daqui a três meses.

Mesmo sabendo que agora os pais de Spencer provavelmente preferiam sair para comer caviar à noite em algum restaurante chique em seu aniversário de casamento, Aria não pôde deixar de se lembrar do dia em que ela, Spencer e as meninas se reuniram na cozinha de Spencer com o objetivo de presentear o casal Hastings com um bolo de fabricação própria. Obviamente que o resultado não foi dos melhores e as cinco, na época pré-adolescentes, acabaram apenas fazendo um escarcéu na cozinha.

— Então? – insistiu Aria, agora perdida.

— Você vai ter explicações em alguns minutos – Spencer tirou os olhos do volante por um segundo a lançou-a um sorriso travesso.

Aria abriu a boca para replicar, mas também desistiu. Recostou a cabeça no encosto do banco e relaxou. Ficou uma boa parte da curta viagem até uma arborizada rua sem saída pensando naquele sorriso. Um sorriso bonito, que havia destacado as maçãs do rosto de Spencer e feito surgir uma covinha em cada canto de seus lábios. Num pensamento rápido, Aria admitiu que adoraria vê-la sorrir daquele jeito mais vezes.

Spencer estacionou em frente a um condomínio simpaticamente modesto. Aria havia passado poucas vezes por aquela ruazinha antes. Era singela e silenciosa.

— Spencer, o que estamos fazendo aqui? – Aria indagou num tom baixo, temendo que alguém as fosse escutar.

— Você já vai descobrir – respondeu a garota, aproximando-se do porteiro eletrônico e sem que Aria percebesse, já com as sacolas em mãos – Aqui mora alguém que eu e você conhecemos muito bem.

As únicas pessoas que Aria e Spencer conheciam muito bem eram Alison, Emily e Hanna, e nenhuma das três morava ali.

— Eu posso saber como você planeja entrar aí? – Aria colocou uma mão na cintura.

— Muito simples – ela deu de ombros com o mesmo sorriso travesso nos lábios e deslizou o indicador direito pelas fileiras de botões numerados dos apartamentos. Instantaneamente a porta foi destrancada. – Ah, o velho truque das escoteiras!

Aria arregalou os olhos, agora genuinamente assustada.

— Spencer, você enlouqueceu? Isso se chama invasão domiciliar!

— Não – disse Spencer calmamente, fechando novamente a porta gradeada atrás delas e entregando a Aria sua sacola de pano com sua caixa de ovos –, se chama justiça.

Agora sim Aria estava completamente confusa. Percebeu que Spencer a guiava para os fundos do prédio, onde ficava o estacionamento descoberto para os carros dos moradores, e parou.

— Spencer, quem mora aqui? – perguntou Aria numa voz firme.

Spencer também parou, um pouco à frente, e sorriu novamente para Aria, ainda inabalável.

— Reconhece algum desses carros?

Aria passou os olhos por uma fileira de veículos à sua esquerda e reconheceu um conversível vermelho-escuro da década de 1990 perfeitamente lustroso e bem conservado.

— Ah, não! – Aria sentiu o queixo cair. Era o carro de Kristen Cullen. – Como você descobriu onde ela morava?

— Bem, não me chamam de nerd à toa – ela deu de ombros outra vez – Eu invadi o sistema da escola pelo meu computador. E a isso sim eu tenho orgulho de dar o nome de invasão.

— Você... – Aria olhou do conversível para Spencer e vice-versa, sem acreditar – por quê?

— Você me ouviu dizer que ela pagaria por ter feito você derramar aquela lágrima, não é? – Spencer relembrou-a numa voz suave e segurou por um momento sua mão direita, a que não segurava a sacola.

Aquele toque quentinho e macio paralisou Aria por um segundo. Não sentia seu coração disparado assim desde a primeira vez que beijara Ezra. Fechou os olhos por uma fração de tal segundo e disse a si mesma que o que quer que as duas fossem fazer dali adiante, não tinha problema.

— Quais são suas ideias quando o assunto é vingança? – Aria sorriu, ainda com a palma da mão unida à de Spencer.

— Observe e aprenda – Spencer largou da mão de Aria e segurou com a outra apenas a caixinha de isopor que tirou de dentro da sacola plástica que trazia. E antes que Aria pudesse realmente se dar conta, um ovo voou por mais ou menos três metros e atingiu em cheio a janela esquerda do conversível, que estava com o teto levantado.

Aria cobriu a boca com uma mão e riu, como se aquela fosse a coisa mais “fora da lei” que ela já tivesse feito.

— Quer tentar? – Spencer ofereceu a caixinha de ovos a ela – É revigorante!

Aria suspirou, nervosamente empolgada.

— Uma parte de mim não quer participar disso, mas a outra parte simplesmente diz foda-se.

Spencer sorriu de um jeito parcialmente malicioso e arqueou uma sobrancelha.

— Qual parte está ganhando?

Aria não respondeu. Determinada, ela apenas largou a própria sacola no chão e, usando toda a força de sua raiva ao pensar no que Kristen havia indiretamente dito a ela naquela mesma manhã, fez um ovo estatelar-se um pouco acima do pneu dianteiro esquerdo.

— Cara, os gregos sabem das coisas! – exclamou, animada, referindo-se ao fato de, nos filmes, os gregos sempre quebrarem pratos em festas familiares.

Spencer riu e elas se aproximaram do carro, vez ou outra usando as mãos para quebrar os ovos rente à lataria e limpando-as nas camisetas uma da outra. Em certo momento, Spencer arrancou os dois limpadores de pára-brisa em dois movimentos rápidos.

— Para dificultar o trabalho de limpeza – alegou, orgulhosa.

— No cabelo não, Spencer! – Aria guinchou, rindo, pouco depois quando a garota deslizou os dedos cobertos de clara e gema por seu rosto.

— Ahá! Descobri seu ponto fraco! – Spencer pescou um dos últimos ovos da segunda caixinha – Vem cá!

Aria deu a volta no carro de capô lambuzado e começou a fugir da amiga sem direção alguma, como uma criança feliz. Viu as sacolas de Spencer ainda no chão e correu até uma delas, tirando de lá uma embalagem de meio quilo de farinha de trigo. Uau. Spencer havia mesmo vindo munida.

— Pare aí mesmo! – disse Aria, a mais ou menos um metro de distância dela – Um movimento em falso e eu disparo, hein?

— Você não teria coragem – Spencer atiçou, num tom desafiador.

— Ah, não? – Aria enfiou uma mão no saco de papel que já estava aberto e atirou em Spencer o que sua palma era capaz de comportar, recomeçando a correr em seguida.

— Você está morta! – Spencer ameaçou pausadamente antes de também recomeçar a persegui-la, agarrando-a por trás e derrubando-a sem muito esforço.

As duas foram para o chão, ainda rindo. Spencer ficou por cima de Aria e enlaçou-a pelos quadris com as pernas.

— Te peguei – disse ela, num tom de voz baixo e com uma ponta do que Aria arriscou-se a classificar como malícia – Meu Deus, a cada dia eu me impressiono mais com o quão você é pequenininha.

Ainda que estivesse se sentindo queimar por dentro com aquela proximidade, Aria arranjou forças para replicar.

— Você vai se arrepender de ter dito isso – ela agarrou um dos pulsos de Spencer e conseguiu tirar dela o ovo que ainda estava em sua mão e ainda não tinha se quebrado. E como nos filmes de O Gordo e o Magro, Aria quebrou-o usando a parte de trás da cabeça da garota.

— Sua filha-da-mãe! – Spencer xingou-a entre risadas e segurou ambos os pulsos de Aria, assim fazendo com que os dois braços dela ficassem acima de sua cabeça.

Aria arregalou os olhos e achou que o coração fosse sair pela boca quando sentiu a garota descer o próprio tronco e deixá-lo rente ao dela. Seus rostos colaram-se instantaneamente e seus lábios não colidiram por muito, muito pouco. Por um momento tudo que se ouviu foram as respirações aceleradas das duas. Se o toque da mão de Spencer havia sido quente antes, o calor corporal era ela mil vezes mais intenso.

— Desculpe – Spencer murmurou, ainda sem se mexer, o que fez Aria achar que, de alguma forma, iria morrer ali mesmo.

— Tudo bem – Aria gaguejou no mesmo tom. Certo, elas estavam assustadoramente próximas e Spencer não parecia se incomodar com aquilo. – Hã, Spence, posso levantar?

— Ah, é claro. – ela finalmente saiu de cima de Aria de um jeito bastante desajeitado que fez a garota rir – Trégua? – propôs, já de pé, estendendo uma mão para a amiga.

— Trégua – Aria repetiu, apertando-a.

— Acho que fizemos um belo trabalho – Spencer suspirou, admirando o carro agora vermelho e amarelo.

— Eu só espero que esse lugar não tenha câmeras de segurança – Aria cochichou, olhando em volta –, ou podemos ir para a cadeia.

— Ah, qual é! Nada que uma ida ao lava-rápido e à uma loja de autopeças não resolva. Além do mais – ela sorriu daquele jeito travesso outra vez -, falta o toque final.

Spencer recolheu o saco de farinha do chão e polvilhou um pouco sobre o capô como se aquilo fosse algum tipo de pó mágico.

— Perfeito! – murmurou para si, de olhos brilhando.

— É, perfeito, agora vamos, por favor – Aria puxou-a pelo antebraço, impaciente.

Spencer cedeu e, no caminho de volta das duas ao portão gradeado, uma senhora que chegava ao prédio puxando um carrinho de feira deu dois dólares para cada uma, na certa pensando que elas eram tipo aqueles universitários que se lambuzam intencionalmente uma vez que concluem o curso e saem pelas ruas pedindo dinheiro nos semáforos para a formatura. Riram pela enésima vez naquela tarde.

— Ei, que tal irmos para casa, tomarmos um banho e colocarmos uma roupa mais... apresentável? – Spencer propôs, uma vez que já estavam de volta ao carro.

— Eu concordo com a parte do banho. Mas por que uma roupa mais apresentável? Temos mais casas para invadir hoje?

— Não. Eu só pensei que seria bom comemorarmos o sucesso da nossa pequena vingança – ela falava naquela mesma voz de quem estava tramando algo – Quero te levar para jantar.

Notas finais
Para escrever esse capitulo eu me inspirei numa cena de My Mad Fat Diary. A Chloe também joga ovos no carro da vadia que ofendeu a Rae, sua BFF :3 Alguém aí assiste? Ah, e falando em assistir, eu super recomendo Cisne Negro. Além de a história ser foda, a tia Marlene já disse várias vezes que muitas pistas sobre quem é -A estão escondidas lá.