Minha Alma
6 Apostas
— É um jantar apenas – disse Sebastian arrumando sua gravata – eu sei que não quer que eu desça, mas já faltei ao chá da tarde.
— Faltou ao maldito chá da tarde por quê é inconsequente – rebateu – não havia necessidade de ter feito aquilo na banheira, sabe que preciso de cuidados posteriores quando tenta me abrir daquele jeito.
— Você pediu por dois dedos... – Ian pegou a gravata do demônio trazendo sua face para encará-lo rudemente.
— Dois não são quatro – disse estreitando o olhar – não importa quanto você massageei, os ligamentos da minha coxa ainda doem.
— Disso você pode me culpar – disse o demônio quando o outro largou sua gravata – eu tinha que testar sua elasticidade. Quando o dia chegar...
— Quando o dia chegar e fizermos amor – rebateu o rapaz se afastando para pegar a jaqueta do outro na cama – eu não vou precisar entrar no circo para isso...
— Bochaan – cortou Sebastian e Ian teve vontade de se chutar, ele havia usado a expressão maldita de novo – o que eu falei sobre essa expressão? – o rapaz revirou os olhos irritado e bufou. Eles já haviam conversado tantas vezes sobre aquela bendita noite que ele estava mais do que consciente do que iria acontecer. Ian era um pessoa centrada e muito realista, ele se orgulhava disso. No entanto, com o passar dos anos ele não podia deixar de romantizar a primeira vez dos dois, onde ele se entregaria para Sebastian e os dois seriam um.
Mas é claro que como um bom demônio que era, Sebastian havia feito questão de quebrar se castelinho de cartas.
— Meu pequeno – começou tentando alinhar o próprio cabelo em frente ao espelho – quantas vezes eu tenho que dizer, que o que acontecerá entre nós dois no dia da ligação não haverá absolutamente nada de romântico – ele virou-se para Ian que se aproximou como se não tivesse dito nada pronto para vesti-lo, no entanto, teve seus movimentos cessados pelo demônio que segurou seu queixo para fazê-lo encarar – eu vou foder você impiedosamente, até que não consiga mais saber se meu pau está dentro de você ou não.
— Estou ciente – disse o rapaz virando o rosto para libertar-se das mãos do demônio – não precisa me lembrar constantemente.
— Parece que preciso sim – disse o outro rindo da face corada do menor – vez por outra você me surge com esse tom romantizado, não quero que tenha falsas expectativas sobre isso.
— Não se preocupe – disse o rapaz livrando-se das mãos do demônio e voltando a sua tarefa de vesti-lo – minhas expectativas para isso são bem baixar, não se ache tanto – retorquiu vestindo-o com a jaqueta passando as mãos rudemente nos ombros para alinhá-la, seu movimento brusco foi cessado pela mão de Sebastian que segurou seu pulso.
— Isso não quer dizer que quando acabarmos e você se recuperar, nos dois não iremos fazer amor como duas pessoas que se amam – disse o outro virando-se para encará-lo, aquele ato de carinhoso encheu o rapaz de rancor, como se o demônio estivesse lendo sua mente.
— Não me venha com esse tom jocoso depois de me falar sobre uma coisa que se aproxima mais do estupro do que um ato de ligação – retorquiu fazendo Sebastian arregalar os olhos.
— Não... – começou o domínio incerto – não será estupro... não existe ligação demoníaca quando não há consentimento – esclareceu – por isso estou de deixando consciente de tudo o que irá acontecer, de tudo...
— O código moral de vocês demônios é deveras controverso – rebateu o rapaz – você pode fazer um pacto para pegar a alma de uma criança de 10 anos, mas não pode me estuprar para fechar a nossa ligação? – aquilo pareceu acender alguma coisa dentro de Sebastian que tornara-se por sua vez verdadeiramente ofendido.
— Existe uma diferente gritante entre esses dois pontos – disse tentando manter a voz calma e controlada.
— Qual?
— Em um deles você é um humano sem valor...
— Tocante Sebastian...
— E na outra você o ser mais importante de toda a minha existência – e aquilo finalmente calou Ian.
E era assim que os últimos anos foram conduzidos. Não é que ele não acreditasse, hoje ele tinha uma fé cega no amor de Sebastian por ele, mas no início, quando aquela proposta nada mais era do que uma realidade distante e uma corda de salvação da vida de tortura que o irmão o submeterá, ele simplesmente não acreditava que o demônio poderia, verdadeiramente amá-lo.
No entanto, passado os anos, as experiências, a convivência sem o degrau da serventia, a dedicação e principalmente a beleza de Sebastian, ele tinha entendido que aquele ser das trevas era absolutamente devotado a ele, e por mais que ele tentasse resistir no começo, ele também se entregará a isso.
Não foram apenas declarações como essas que os colocaram onde estão hoje, mas os olhares de cumplicidade, os toques secretos, as noites em claro na varanda observando os campos e as estrelas, os jantares a luz de velas em meio a temporais onde sempre finalizam em uma valsa lenta e hipnotizante, a forma como os corpos dos dois se encaixavam, como eles conheciam cada defeito e qualidade um do outro e principalmente como era fácil amar um ao outro. Isso tudo havia feito o rapaz cair por ele, e ouvir declarações como essas em meio a seu mar de dúvidas era como água no deserto.
— Cuidado Sebastian, você está perigosamente perto do meu tom romantizado – brincou, o demônio ainda abriu a boca para dizer alguma coisa, mas o menor colocou-se na ponta dos pés e plantou um beijo rápido em seu lábios, o calando – você já está pronto, desça logo antes que Francis mande alguém te buscar – e saiu em direção ao closet do casal, deixando Sebastian meio atordoado no meio do quarto.
Apostas
Sebastian desceu as escadas em um folego só, ele realmente queria evitar mais alguma indisposição com seus “convidados”, mas depois de faltar ao chá da tarde para cuidar de seu companheiro contundido ele tinha a obrigação de se fazer presente no jantar. Ele sabia que não existia argumento no mundo que fizesse Ian acompanha-lo, pois o menino estava decidido a não encontrar o irmão, a tia e os primos, era direito dele depois de tudo.
O casarão estava completamente acesso, os criados pareciam mais ansiosos que o normal, ninguém realmente estava pronto para a refinação dos Phantomhive ou dos Midford, aquela casa apesar de ser de um Lorde era conduzida com pouco luxo e menor formalidade ainda, era assim que Ian havia escolhido e era assim que Sebastian havia feito.
No entanto, hoje eram outros dias, em que tudo tinha de ser perfeito. Ele dobrou o corredor para encontrar a figura de Tanaka de pé próximo a porta do salão de jantar conversando com uma criada, ele sorriu discretamente aproximando-se do antigo mordomo, o senhor o reconheceu de imediato não conseguindo deixar escapar a expressão de felicidade.
— Boa noite Lorde Michaellis é uma honra finalmente vê-lo – disse educadamente como o mordomo que era.
— Boa noite Tanaka-san – disse Sebastian com o mesmo tom respeitoso que sempre usará – vejo que está muito bem, espero que os ares de nossa propriedade lhe agradem.
— Sim, é um lugar muito bonito – disse em tom cortes – fico feliz que jovem mestre tenha encontrado um lugar tão bonito para viver – ele fez uma pausa olhando além do corredor – não o veremos hoje?
— Ele... – tentou mentir Sebastian, mas sentiu algo morrer nos olhos do velho mordomo que parecia realmente desapontado em não ver o menino, Ian havia contado que quando ele era pequeno e ficava enclausurado em casa Tanaka era o único que cuidava dele, sua mãe tinha uma saúde muito frágil e os demais criados não tinha permissão de tratar do pequeno, sendo ele o responsável pela sua saúde – ele está descansando, na verdade por insistência minha, hoje à tarde ele escorregou no banheiro e distendeu o musculo da coxa, por isso não conseguimos descer para o chá... ele está bem agora, mas eu prefiro que faça a refeição no quarto por enquanto, não quero ele descendo escadas enquanto o musculo não estiver relaxado.
— Eu entendo – disse o mordomo mantendo a compostura – meu senhor me dispensou por hoje, já que há vários criados na casa, logo não serei necessário hoje à noite.
— Que pena – respondeu Sebastian – esperava lhe pedir um último favor antes de se retirar – aquilo atentou o velho mordomo – eu prometi ao pequeno que lhe traria leite com mel antes que ele durma, eu sei que é um costume infantil, mas você o conhece, certas coisas nunca saem de moda. Acredito que o Conde vai querer conversar comigo após o jantar, você se importa em levar um pouco de leite até o quarto do pequeno?
E foi como se o natal tivesse chegado mais cedo, o velho mordomo sorriu na medida que sua compostura permitia, curvou-se aceitando a ordem.
— Será uma honra – disse em voz tímida, Sebastian sorriu para ele e com um aceno entrou no salão.
A mesa estava ridiculamente posta, os lustre acessos e tudo era tão iluminado que o salão parecia maior, ele realmente não podia mais duvidar da capacidade de seus criados, o lugar estava lindo.
Ele deslizou pelo salão até encontrar a então condessa de Phantonhive ao lado de seu amado esposo, Sebastian teve de se conter, ele não gostava de ver aquele rosto abraçado com outra pessoa, muito menos sendo um rosto que ele precisaria mutilar mais cedo ou mais tarde.
— Lorde Michaelis – disse a voz articulada de Ciel Phantomhive – vejo que decidiu se juntar a nos hoje.
— Sim – começou em tom de paz – tive alguns contratempos a tarde, espero que minha ausência não tenha prejudicado o chá da tarde.
— Não há como – continuou – a propriedade é belíssima, foi uma vista bastante agradável para o chá.
— Que bom que apreciou – ele então voltou-se para Elizabeth – condessa a senhora está encantadora, se me permite o elogio.
— Obrigado Sebas... quero dizer, Lorde Michaelis – disse ela meio sem jeito, o olhar de desaprovação do esposo não passou desapercebido e então para aliviar os ânimos Sebastian voltou-se para Ciel.
— A Marquesa e Lorde Edward não nos acompanham hoje? – perguntou tentando mudar o ar do salão.
— Na verdade ela e Edward estava discutindo algo antes de descer, não devem demorar – disse o outro indiferente a presença da tia e logo as portas do salão de abriram revelando a marquesa e sua cria.
— Então resolveu nos agraciar com sua presença Lorde Michaelis – disse ela ríspida como sempre – sentimos sua falta no chá da tarde.
— Minhas desculpas por isso – disse no tom mas cortes que conseguiu – Ian teve um pequeno acidente, achei melhor não deixa-lo sozinho.
E o clima na sala mudou, ele não soube exatamente para o que, mas havia uma mistura de sentimentos entre os membros da sala ao citar o nome do jovem. Francis parecia prender a respiração até Edward se viu baixando o olhar, foi apenas o conde que quebrou o silêncio.
— Um belo nome que ele escolheu – disse mais para si do que os outros – ele está bem?
— Uma distensão na coxa – disse em tom de conversa – nada que repouso e compressas não resolvam – ele fez uma pausa para estudar a expressão do conde, como se ele estivesse tentado a perguntar algo – não se preocupe, em poucos dias ele vai estar correndo a cavalo pelos campos e tirando toda a minha pouca paz – supreendentemente aquela declaração pareceu trazer um novo ânimo aos convidados, e com um anuncio do serviçal o jantar foi anunciado.
O jantar, para a surpresa de Sebastian foi agradável, de um jeito que ele não se sentia confortável. Era quase como um prazer culpado que ele interagiu com os convidados e gostou disso, os Midford foram incrivelmente agradáveis até o próprio conde parecia alguém descente. E isso só deixou as dúvidas de Sebastian mais fortes, algo estava realmente errado naquele quadro.
No final de tudo, as damas se recolheram para a sobremesa e como já era previsto, ele e o conde foram até seu escritório, ele só não contava que Edward os acompanhasse.
— Muito bem Conde – disse Sebastian servindo os dois com um copo de bebida – em que posso lhe ser útil?
— Acredito que já tenha ciência do motivo da minha visita – disse finalmente cortando qualquer rodeio – sabe que quero o posto de Guarda da Rainha de volta.
— Cão – corrigiu Sebastian.
— O que disse?
— Cão de Guarda da Rainha – corrigiu – é assim que se referem ao posto, não é o mais louvável dos nomes, mas é assim que nos chamam nas baixas rodas.
— Entendo – disse o conde pensativo – eu sei que você e Soleil exerceram essa função por anos, e sei que por isso ela manteve o posto com os dois, mas eu devo insistir que ele retorne a família Phantomhive. Soliei abdicou de seu nome, então não vejo necessidade em mantê-lo no cargo.
— Tecnicamente ele não faz a função – disse Sebastian – eu faço, o ato do seu irmão ter abdicado do nome da família nada mais foi do que uma condição para que eu possa assumir o cargo. Não culpe o pequeno, nos dois sabemos que no meio de tudo isso ele é apenas uma vítima das pessoas que ama.
Se um olhar pudesse perfurar corpos, com certeza Sebastian Michaelis estaria em pedaços nesse momento, não apenas pelo qual ridículo era aquela situação, mas saber que aquele ser elegante e incrivelmente articulado que falava com tamanha pompa era um demônio sanguinário que estava arrancando tudo dele, o cargo da sua família, seu irmão mais novo, tudo.
— Onde está Soliel? – perguntou.
— Eu já disse, ele se machucou está descansando.
— Eu exijo vê-lo – disse em tom firme.
— Ora, ora meu nobre conde – começou Sebastian – você não tem autoridade nesta casa, e muito menos autoridade sobre ele, não mais...
— Seu demônio – disse sem conter sua língua, chocando Edward. Sebastian percebeu que a coisa ficaria fora de controle logo e tentou mediar a situação.
— Então Conde – continuou – eu tenho uma oferta para você – ele caminhou além da escrivaninha pegando a última carta recebida da rainha – recebi essa carta recentemente de Vossa Majestade. É uma trabalho para o cão como você deve imaginar, nada simples ao meu ver. No entanto, essa tarefa me custará meses de trabalho árduo e muita vigília e em breve eu infelizmente terei uma viagem importante a fazer, e não posso cumprir a urgência que ela pede, nesse caso faremos uma aposta – o Conde ouviu atentamente as palavras do demônio – se resolver esse caso, completamente até dia 16 de dezembro, eu mesmo falarei com Vossa Majestade para que o cargo volte para as mãos dos Phantomhive...
— Isso é...
— ... mas, caso não consiga – continuou o demônio – você vai desistir da ideia de reclamá-lo para sempre, vai esquecer que seu irmão existe e vai parar de nos perseguir e enviar bandidos para invadir a nossa casa no meio da noite – e aquilo fez o conde empalidecer – e antes que pense que eu fui o responsável pelo não retorno da sua corja, comece a aceitar uma verdade – ele caminhou pelo escritório estendendo a carta para o conde em convite a aceitar a aposta, sem hesitação ele arrancou a carta das mãos dos demônio ainda o encarando com ódio puro.
— Que verdade?
— Um pouco de rancor faz milagres com os seres humanos.
Quando a noite finalmente acabou Sebastian estava exausto, a discussão dos termos da aposta com Ciel eram exaustivas e o demônio só queria poder arrancar o pescoço do outro sem ter que sofrer por isso, ele dobrou no corredor dos quartos, indo direto para a suíte.
Assim que Sebastian abriu a porta suas preocupações foram varridas pelo som dá risada doce que ele tanto amava, mas raramente ouvia. Ele avançou pelo cômodo indo até a varanda para ver seu amado sentado na varanda do quarto usando apenas o pijama tradicional com um robe frouxamente por cima, ao seu lado, na cadeira que costumava ser ocupada por Sebastian estava Tanaka, os dois pareciam envolvidos em uma conversa educada e cheia de pequenos risos, a xicara de leite estava esquecida em uma bandeja em cima da mesinha de centro.
Quando Sebastian se aproximou da varanda Ian ergueu o olhar feliz para ele.
— O jantar acabou? – perguntou sorrindo quando o demônio sentou-se em uma cadeira ao lado dele.
— Sim, e a conversa com o conde também – informou pegando a mão de Ian e beijando os dedos – vejo que a visita lhe fez bem.
— Como não faria? – disse o menino – Tanaka sempre foi a minha melhor companhia.
— Em tempos enfermos – completou o velho mordomo sorrindo para o jovem – mas está ficando tarde meu jovem, e você precisa descansar para voltar as suas atividades normais.
— Ele tem razão Boochan – disse Sebastian ainda brincando com os dedos do menor – está tarde, é melhor você se deitar.
— Não sou mais uma criança que ia dormir as 21 – defendeu-se – e mesmo quando era, acho que nunca fui dormir as 21.
— O que em parte é nossa culpa – disse o mordomo ficando de pé para se retirar – não fomos muito rígidos nesse quesito Lorde Michaelis.
— De fato – concordou Sebastian ainda encarando o menino.
— Devo me retirar agora – ele pegou a outra mão de Ian e plantou um beijo respeitoso nas costas – Mestre Ian, Lorde Michaelis, tenham uma boa noite.
— Para você também vovô – disse o menino sorrindo docente, e logo ele e Sebastian estavam sozinhos na varanda, quando a porta do quarto bateu Ian se viu apertando a mão de Sebastian para chamar a atenção do demônio para si.
— Como foi a conversa com ele? – Sebastian lhe deu um sorriso de satisfação.
— Como você gosta de jogos sei que vai amar o que tenho a dizer.
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