MinarFic
6 Finais de Seleção
Quando voltou a si, o homem percebeu que estava deitado em uma cama branca, dentro de uma barraca. Ainda estava na Floresta. Ao seu lado, estava o arqueiro franzino que o salvara, fingindo-se de morto.
-Finalmente, você acordou — disse, sorrindo levemente. -Você também ficou um bom tempo dormindo — falou um arqueiro de chapéu, o que atirara junto com Sheddeer, que também estava ali. O homem olhou para ele. — Além disso, dê um desconto, ele recebeu o dobro de flechas que você. -Bem, é verdade, só acordei tem uns minutos. Mas mesmo assim, já estava na hora. Estão esperando você pra começar os testes finais. -Não sei porque se deram a esse trabalho — disse o de chapéu — Se tivermos que lutar entre nós outra vez, vou te fazer dormir de qualquer jeito. O homem riu. -Talvez eu seja um pouco vingativo — disse, por fim. Então, franziu a testa — Mas espera, eu caí — lembrou, olhando para o arqueiro de casaco verde — E você também. Estamos classificados para as próximas provas? O arqueiro de chapéu assentiu. -Nuck decidiu que vocês têm potencial — disse Sheddeer, simplesmente — Afinal, mesmo o melhor dos arqueiros perde às vezes. -Estranho que todos os que sobraram usam arcos — reparou o de chapéu, coçando o queixo — Mais estranho ainda como os novatos sempre acham que as balestras são melhores, simplesmente por serem mais potentes. -E por serem fáceis de usar — ajuntou Sheddeer — Com uma semana de treinamento você aprende a usar uma balestra. Mas os arcos são diferentes. É preciso anos de prática, desenvolver o instinto necessário para mirar e atirar em um segundo, e no momento seguinte já estar com outra flecha preparada. Coisas que muitos simplesmente não têm paciência para fazer. Os outros três assentiram, concordando. Era exatamente isso o que pensavam. Fez-se um silêncio, e o arqueiro de chapéu disse, por fim: -Meu nome é Meralon — apresentou-se, olhando para os dois homens na expectativa — Esse do meu lado é Sheddeer, e esse aí que acabou de acordar é o Lance, segundo o Sheddeer. E você? — perguntou, olhando para o menos deles. -Eu me chamo Milne — disse. Meralon assobiou. -Milne, aquele do Deserto Nihal, Mu Lung, o monstro de Magatia... e tudo mais? — perguntou Sheddeer, os olhos arregalados. -É o que dizem — respondeu, dando de ombros. -Por quê? — perguntou Lance, olhando-o confuso — Eu nunca ouvi falar de você, sabe. -É um dos melhores arqueiros de Henesys — explicou Meralon — Viajou pra Mu Lung, capturou diversos contrabandistas e matou os mais diversos monstros, que aterrorizavam várias cidades. Pegou uns vinte criminosos em Kerning, e matou o chefe de uma das gangues mais temidas da cidade — enumerou. Lance bufou. -Então foi uma sorte eu ter tido você na minha equipe — disse — E mais ainda vocês terem conseguido derrubá-lo. -Sorte nada — retrucou Sheddeer — Pegamos a pior equipe de todas. Amarelo claro é uma cor mais difícil de se camuflar na floresta — explicou. -Isso não pareceu ter atrapalhado muito — rosnou Lance, sarcástico. -Não — concordou Meralon — Mas a gente teria ido bem melhor se tivesse pego a cor verde. -Então, já sabem o que vai ser o teste final dos arqueiros? -Rastreamento e captura — dissera uma voz grave, sobressaltando todos ali, exceto Milne, que parecia sempre preparado para surpresas. — Vocês serão divididos em duplas, cada um terá uma base, que é um círculo azul no meio do campo. Depois disso, terão que encontrar um dispositivo metálico com um relógio. Ele indica quanto tempo vocês têm até a prova terminar, e quando ele acabar, ganha quem tiver o item mais próximo da base, ou dentro dela. -E se eu achar o item dos inimigos, posso destruir ele? — perguntou Meralon. Nuck sorriu. -Você não pode ver o item da dupla adversária. Somente eles poderão enxergá-lo e até mesmo rastreá-lo. Vocês não podem nem mesmo atraí-lo com um ímã, atingí-lo com uma flecha, é como se, pra vocês, ele não existisse. Mas a dupla adversária também não pode fazer nada com o seu item. E mais um lembrete: vocês não devem nunca, nunca, pisar em nenhuma das bases, nem mesmo na do adversário. Quando pegarem um item, joguem-o na base, mas não toquem nela. Mas uma vez que colocarem um item na base, ele se tornará visível para a outra equipe. Depois, devem ir até uma torre, que você vão saber onde fica, confiem em mim. Quando chegarem nela, apertem um botão com as iniciais dos membros da sua equipe, mas lembrem-se: apertem somente quando tiverem o item na sua base. E nem pensem em apertar o botão da base adversária, porque eu vou saber se fizerem isso. Entendido? Eles assentiram, mas ainda restava uma dúvida. -E depois que uma equipe ganhar... — começou Sheddeer — Sobrarão dois. O que fazemos então? — Mas ele já sabia a resposta. Nuck sorriu para ele, evidentemente esperando a pergunta. -Bem... vocês vão reparar que suas aljavas estarão cheias de flechas com ponta de borracha. Se é que vocês me entendem. Todos assentiram, estava bem claro para todos eles.
Fez-se silêncio enquanto eles refletiam, até que Sheddeer perguntou: -Então, quando isso começa? Nuck sorriu maliciosamente.Informação extra]A partir daqui recomendo prestar muita atenção nos detalhes, particularmente nos tipos de árvores, principalmente nos detalhes quando Sheddeer estiver sozinho.-Agora mesmo — e estalou os dedos, envolvendo tudo na escuridão. Seguiu-se um silêncio, um atordoamento terrível, e de repente ele estava de cara na grama, sentido o peso do arco e da aljava em suas costas. -Bela carona — resmungou alguém ao seu lado. Sheddeer se levantou e viu Lance, já em pé, sacudindo as folhas da roupa — Bem, acho que seremos eu e você, parceiro. Sheddeer assentiu. Estavam parados ao lado de um disco de madeira azul do diâmetro de uma sala, com uns cinco dedos de espessura. A base deles. -Como será que começamos? — perguntou Lance, olhando em volta. Sheddeer ajeitou o casaco, e ao fazer isso sentiu alguma coisa em seu bolso. Era um pequeno rastreador magnético. -Eu não ganhei um — lamentou Lance, com a mão em um dos bolsos — Mas espere... — sua expressão mudou. Tirou um papel do bolso, que dizia "ju xjmm cmbtu". Não faço idéia do que signifique. Vamos ver o que você ganhou. -Deixe eu ver esse papel — pediu, trocando o mecanismo de metal pelo papel. Olhou o papel longamente, mas não conseguiu descobrir o que significava. Lance remexia no dispositivo. Uma luz acendeu e o aparelho fez um bip. -É um rastreador — explicou — Aponta metais em uma área de dez metros, mas você tem que manter ele sempre perto do chão. Não é um dos melhores modelos — acrescentou, decepcionado. -Mas é o melhor que temos — respondeu sabiamente Sheddeer — Já que você conhece bem isso aí, pode ficar com ele. Sugiro a gente se separar e ir procurando. Se vir alguma coisa, assobie três vezes, ou vire a cabeça três vezes se eu estiver olhando. Lance assentiu, e foi para uns trinta metros longe. Procuraram, Sheddeer olhando o chão cuidadosamente, verificando cada oco de árvore, mas sem sucesso. Vez ou outra Lance assobiava, mas eram apenas pedaços de metal velhos e inúteis, certamente colcoados ali para confundir. Sheddeer registou vagamente que preferia ter tido o experiente Milne como parceiro. Ou mesmo Meralon, que também era bom, e ele havia conhecido um pouco mais, pois estiveram na mesma equipe no teste anterior. Lance parecia ser um pouco inexperiente, tudo bem que sabia manter a calma, mas ele achou que ele não era muito esperto. Então, depois de quase meia hora, Sheddeer viu uma coisa que o fez parar. Ele olhou para Lance, esperando, até que o parceiro finalmente olhou para ele. Sheddeer balançou a cabeça três vezes. Silenciosamente, o outro homem se aproximou. -Veja isso — sussurrou Sheddeer, apontando para o chão. — Lance agachou-se para observar melhor. Era uma pegada, quase apagada, mas claramente visível para rastreadores experientes como eles. -Pode ser de qualquer um deles — acrescentou Sheddeer, pensativo, mas Lance balançou a cabeça. -É de Meralon — falou firmemente — Veja esses padrões no sapato, são exatamente os de Meralon. Dei uma boa olhada nos sapatos de todos enquanto estávamos naquela barraca. Sheddeer concordou, secretamente impressionado. Não lhe ocorrera verificar as pegadas dos outros antes de irem. -Mas isso quer dizer que eles estão por aqui em algum lugar — disse — Precisamos... Por puro instinto, ele se abaixou, no momento em que Lance pegava uma flecha e atirava. Ela atingiu alguns galhos, inofensiva. Sheddeer viu um borrão verde e atirou, mas se acertar. Ele ouvia Lance atirar mais algumas vezes, e ouviu os tiros de resposta dos adversários. Sheddeer foi para trás de uma árvore, e foi se movendo cada vez mais para frente, na direção de onde a pegada vinha. Logo encontrou mais pegadas, e foi andando no sentido contrário a elas. Aquilo tinha que indicar o caminho para a base inimiga. De longe, ouviu mais alguns zunidos, mas logo os tiros cessaram. Sheddeer odiava abandonar um companheiro assim, mas sabia que era melhor seguir em frente com a missão. Além disso, a idéia de ganharem o jogo e depois terem que se enfrentar quase que a sangue-frio o desagradava mais ainda. Lance ficara com o rastreador, por isso Sheddeer não sabia bem como iria fazer. Encontrou a base inimiga — o disco de madeira azul era exatamente igual ao deles, e estava coberto de pegadas. Decidindo que não havia nada a fazer ali, ele voltou, dessa vez seguindo as pegadas. Então, no meio do caminho, reparou que algo estava muito errado. Ele via o par de pegadas a sua frente, mas... Então, num movimento repentino, Sheddeer foi para trás de uma árvore, e subiu nela rapidamente. Acabara de perceber o que estava errado: ele só achara um par de pegadas. E, se Lance estava certo e aquelas fossem pegadas de Meralon, onde estaria Milne? Sheddeer não encontrara nenhum outro par de pegadas saindo da base, portanto, só havia uma explicação: as árvores. Milne estava se deslocando acima do chão, sem deixar rastros. Fazia sentido, agora que se lembrava que Lance havia atirado no topo de uma árvore. Fez-se silêncio por vários minutos. Sheddeer se movia o mínimo possível, saltando de uma árvore a outra naquela densa floresta. Não havia sinal dos outros candidatos, até que ouviu-se um assobio. Três notas. Uma ascendente, duas descendentes. O sinal claro de "vá para a direita". Lance não assobiara nenhuma vez, então, não poderia dizer com certeza se aquilo era um aviso dele ou de um dos adversários. Sheddeer continuou avançando pelas árvores, e quando chegou em um carvalho, ouviu-se outro assobio. As mesmas três notas outra vez. No momento em que Sheddeer registrou o assobio, ouviu-se um zunido — o som de uma flecha cortando o ar — seguido de um gemido estrangulado. E dessa vez ele teve certeza de que reconhecera a voz de Lance. Sheddeer continuou na árvore, o coração batendo a todo vapor. Lance era bom rastreador, e poderia estar lhe passando uma mensagem. Ele balançou a cabeça. Lance fizera exatamente o que um novato faria: se viu sozinho, e tentou avisar seu companheiro, denunciando sua posição ao fazê-lo. Mesmo assim, tentou pensar no que aquilo significava. "Vá para a direita", pensou Sheddeer. Por que ele lhe diria isso? Certamente, ele poderia tê-lo visto, e estar lhe indicando alguma coisa. O item, talvez. Sem ter mais o que fazer, Sheddeer desceu da árvore, com o máximo de silêncio que podia, e foi se movendo pela direita, cuidadosamente. Então se lembrou que foram dados dois assobios de três notas, o que poderia significar... mova duas vezes para a direita? Duas vezes o quê? Sheddeer olhou para a árvore onde estava, e teve uma idéia. Foi andando, passou pela primeira árvore que ficava à direita da àrvore que ele estava, então, chegou à segunda. Era uma árvore oca. Mas logo constatou que não havia nada ali. Frustado, ele se virou, balançando a cabeça. Era demais esperar que aquilo fosse realmente uma mensagem... Uma mensagem. Então, Sheddeer se lembrou do zunido, segundos depois do segundo assobio. E se Lance tivesse tido a intenção de assobiar novamente, mas nesse momento foi atingido por Milne ou Meralon? Animado, Sheddeer foi para a terceira árvore, mas era muito lisa e grossa, e seriam necessários vários minutos para escalá-la. Não, ele não poderia ter escondido nada ali. A quarta era oca, mas não tinha nada. Finalmente, na sétima árvore, ele teve outra idéia. Voltou para a segunda árvore. Afinal, se Lance sabia que Sheddeer precisva ir para a direita, era óbvio que sabia onde ele estava, e sabia que estava em cima das árvores. E Lance assobiara o aviso padrão de Henesys para ir para a direita, mas isso não incluía descer da árvore. Então, Sheddeer voltou para a segunda árvore, mas em cima dela também não havia nada. Quando estava prestes a desistir, foi que ele se deu conta. Fora tolo em não ter percebido isso antes. Voltou para o carvalho onde ouvira o segundo assobio, e subiu nele. Não encontrou nada, mas agora tinha certeza de que era aquilo que Lance se referia. Ficou na mesma posição que estava quando ouviu o assobio, então, virou-se para a direita. Analisando a árvore, finalmente encontrou um pequeno embrulho feito de folhas. Quase tremendo de excitação, Sheddeer o pegou.Não era o item, como esperava, e sim o pequeno dispositivo de metal que achara em seu bolso. Sheddeer sabia como usar um rastreador, mas aquele parecia ser um modelo bem antigo, e ele tinha apenas uma vaga noção. Apertou um botão, o que achava que era o de rastrear, e um radar apareceu. Desceu da árvore e aproximou o dispositivo do chão, e um ponto cinza apareceu no mostrador, piscando. Sheddeer foi até lá com cautela, e achou um pequeno pedaço de metal retorcido. Decididamente não era o item.
Ele continuou andando, dando voltas, juntando várias peças de metal estranhas e inúteis. Não havia sinal de Milne nem de Meralon, e nem do corpo de Lance. Não ouvia nada, além do farfalhar das folhas e dos ocasionais pássaros. O rastreador apitava e apontava várias e várias peças de metal. Depois de um tempo que lhe pareceu muito longo, ele finalmente o encontrou. Semi-enterrado entre as raízes de um salgueiro, e coberto por terra e folhas, estava um pequeno quadrado laranja, com uma tela em um dos lados. A tela, claramente um mostrador de minutos/segundos exibia "14:06", e o lado dos segundos ia descrescendo. Tinham catorze minutos antes do tempo acabar. Excitado, mas ainda mantendo a calma, Sheddeer começou a se mover de volta para a sua base. Quando o mostrador indicava que faltavam pouco mais de dez minutos, porém, ouviu-se o disparo de uma flecha. O atirador estava em algum ponto à esquerda de Sheddeer, tão perto que o rapaz conseguira ouvir o som da corda vibrando no arco. Escondeu-se atrás de um salgueiro, e ouviu o som de passos apressados. Meralon apareceu à direita, e Sheddeer disparou imediatamente um tiro contra ele, mas errou. O atirador à esquerda, que tinha que ser Milne, ficara em alerta, pois não se mexera mais. Exatamente o que ele queria. Movendo-se por trás das árvores, Sheddeer foi voltando até a sua base, quando ouviu o som de passos logo acima dele. Rolou para o lado, depois para o outro, na tentativa de driblar qualquer flecha disparada pela pessoa que ele agora sabia que estava acima das árvores, mas nenhum tiro veio. Finalmente, Sheddeer chegou perto da base. Então, Milne pulou de uma árvore à sua frente, bloqueando o caminho, e Sheddeer imediatamente se escondeu. Mas Milne não tentou atirar. Sheddeer continuou escondido, e de repente suas costas se encontraram com as de alguém. Assustados, Sheddeer e Meralon se viraram um para o outro, e quase caíram. Sheddeer disparou uma flecha contra o peito do rapaz, mas ele esticara o braço à frente por puro reflexo, e o braço direito de Meralon "dormiu", pendendo inútil ao lado do corpo. Sem alternativa, mirou um soco bem no queixo do oponente. Sheddeer recuou para trás, vendo estrelas. Um outro zunido, e Meralon se escondera. Milne não estava em lugar nenhum. Sheddeer não conseguia entender. Por que haviam atirado naquele primeiro instante, quando ele estava voltando para a base, pra começar? Tinha certeza de que ninguém o vira, e agora, Milne atirara, e Meralon se escondera. A menos que... Lance! O seu companheiro, que ele pensara ter caído, agora corria alguns metros à sua frente, e saltara contra alguma coisa atrás de uma árvore. Ouviu-se um gemido e o som de pessoas se arrastando nas folhas. Ao longe, Sheddeer vira Meralon correndo... O rapaz subiu na árvore mais alta que havia por perto e, com Milne estava ocupado com Lance, ficou completamente exposto na árvore. Mirou em Meralon, que corria em ziguezague, e atirou, Conseguiu atingir o pé do rapaz, que caiu. Sem tempo para verificar se ele iria se levantar, girou 180 graus e, tirando uma corda do bolso, amarrou o item com o mostrador que indicava que faltavam cinco minutos na base de uma flecha, e mirou. Abaixando um pouco o o ângulo de mira por causa do peso adicional, atirou. A flecha acertou a base de madeira, e o item rolou para o chão, mas continuou na base. Já pensando em como iria encontrar a tal torre, a base brilhou, que nem aqueles discos de abdução alienígena. Uma seta surgiu do nada, apontando para a direita de onde estava. Sem hesitar, correu, avistando a torre ao longe. Então ele viu Meralon, que também ia na direção da torre. Ele andava pulando no pé direito, o esquerdo imobilizado pela flecha de Sheddeer. Certamente já havia colocado o item na base, e agora corria para apertar o botão. Sheddeer preparou uma flecha. Mas naquele instante, Lance surgiu, gritando em pânico. Correu até Sheddeer e o segurou. -Não, Sheddeer! — berrava, alarmado, a respiração pesada. Seu lábio inferior sangrava — Deixe, volte para o item! -Eu consegui, Lance — disse, tentando se desvencilhar — Vamos, corra para a torre, me ajude! Mas Lance tentava empurrá-lo de volta para a base. -Sheddeer, não! — dizia — O item! O tempo todo, aquele código das Terras das Sombras, ele vai... E isso foi tudo, porque no instante seguinte ele arqueou as costas e caiu. Milne a alguns metros, segurando seu arco, um dos olhos bem inchado. Preparou outra flecha, mas Sheddeer já se escondia atrás de uma árvore. O que Lance estava querendo dizer? Terras das Sombras, era o terceiro livro de uma série, Sheddeer conhecia, mas o código... Seu coração deu um salto quando ele se lembrou. Puxou o papel que Lance havia ganho, e releu novamente as palavras ali impressas, desta vez, traduzindo usando o código. "ju xjmm cmbtu". Foi como se o coração de Sheddeer tivesse parado. Mal conseguia acreditar no que quase acabara de acontecer. Sem nem mesmo olhar o que fazia, disparou uma flecha da direção de Milne, sabendo que errara, mas já corria, voltando para sua base. Quando estava quando chegando, lembrou-se de que não deveria pisar na base, e puxou uma flecha, agachou-se e a disparou na direção do item. A flecha acertou no quadrado laranja, lançando-o para fora da base. Sheddeer foi até ele e o pegou. Faltavam dois minutos agora. Rapidamente, virou-o, e abriu uma tampa, onde geralmente ficam as baterias, pilhas ou coisas assim. Mas em vez disso, encontrou ali um monte de fios. Havia alguns azuis, uns amarelos, um vermelho... Era exatamente o que ele esperaria encontrar em uma bomba. Sem parar para verificar o mostrador, Sheddeer cortou alguns fios, torcendo-os com a mão, e o mostrador desativou. Achando que aquilo tinha que ser o certo, fechou a tampa, e jogou o negócio de volta na base, que brilhou do mesmo jeito, e a seta reapareceu. O arqueiro balançava a cabeça, impressionado. Aquilo tudo era uma armação. O item era uma bomba, e provavelmente ativada pelo botão na torre. Quando ele o apertasse, a bomba iria explodir tudo, e onde a bomba iria estar? Na base, voluntariamente colocada pela própria pessoa. E Lance havia descoberto o segredo do código, de um jeito ou de outro. Deve ter pego o papel com Milne, enquanto brigava com ele. Então correra para avisá-lo, mesmo que isso custasse ser desacordado. Como ele pudera achá-lo inexperiente? Duvidara tanto de sua esperteza, mas nem ele descobrira o código... o código! Estava no terceiro livro da segunda "série" de uma série de livros que ele gostava, e como ele conseguira não perceber? Sheddeer agora corria, passando por árvores, o mais rápido que podia. Mas, quando chegou até a torre, viu Meralon, agora se arrastando no chão por causa do pé dormente,a poucos passos da torre. Sheddeer ia atirar, mas lembrou-se do aviso de Lance. Atrás de Meralon, Milne estava com uma flecha preparada, cobrindo a retaguarda do parceiro. Provavelmente, imaginava que Sheddeer iria tentar um ataque por trás. Naquele momento, Meralon o viu e sorriu. -Bela luta, Shad — zombou, e apertou o botão. Ouviu-se uma explosão vinda da base adversária, e Meralon olhou para trás, incrédulo. Calmamente, Sheddeer se aproximou da torre e, antes que Milne fizesse qualquer coisa, sem dizer palavra, apertou o botão com os dizeres "L/S". ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- -Hu! Rá! Iá! AAAAARRRRR!!! Os gritos que vinham da arena de Warrior não eram exatamente os mais legais. Tampouco era uma coisa divertida, ver uma dezena de homens se engalfinhando, batendo espadas e machados uns nos outros, dando golpes, defendendo com escudos... Dos dez candidatos restantes a Tutor Warrior, seis usavam espadas. Desses, dois usavam espadas longas, de duas mãos. Dos quatro restantes, um deles era um rapaz de uns dezesseis anos, de cabelos brancos rebeldes, óculos e expressão fechada. Usava um curto machado de guerra, e era bastante ágil. Outro era Amos, o rapaz briguento com o machado que desacordara Nick, mostrando que realmente falava sério sobre não deixar ninguém vencê-lo, e tinha também o rapaz alto que usava a estranha combinação de foice e machado. O quarto candidado restante era o Davien. Eles estavam engajados em um duelo, cujas regras eram simples: Os dez eram soltos no meio da arena, e lutavam até que só restasse um em pé. Para que eles pudessem atacar sem medo de ferir gravemente uns aos outros, o próprio Nuck estava presente, flutuando no meio da arena de areia, perto do teto. Estava com as mãos erguidas, os olhos arregalados emitindo um brilho esverdeado, e toda a sua magia curativa ia para aquela arena, de forma que eles poderiam atacar o quanto quisessem sem se ferir. Por exemplo, se alguém furasse outro com a espada, ela iria entrar no corpo da pessoa e ficar presa ali, mas a pessoa sofreria o mesmo dano que sofreria se tivesse sido atingida por um holograma. O rapaz com o machado decapitara um dos espadachins, mas quando retirou a arma, percebeu que ela o pescoço dele continuava ali, intocado, sem causar nenhum dano físico. O espadachim ficou inconsciente no mesmo instante. Todos ali haviam vencido vários outros testes, que basicamente era fazer parte de uma tropa, ocupando as mais variadas posições. Primeiro tinham que agir como soldados da linha de frente, depois, como atacantes nos flancos, e até como generais, liderando um exército de bonecos animados de treinamento. Agora, estavam todos ali, lutando uns contra os outros. Um dos espadas longas derrubara outros dois, em sucessão, mas foi derrubado pelo outro que usava espada longa. Os dois espadachins armados com escudos lutavam entre si, um defendia os ataques do outro com o escudo, suas espadas se cruzavam, mas um não conseguia atingir o outro. O último espadachim de espada longa finalmente foi "decapitado" o rapaz com a foice, que desferiu-lhe um golpe certeiro no pescoço, e foi se engajar num combate contra o garoto com o machado. Davien enfrentava Amos. -Você tinha razão — falou Amos, desviando-se de um golpe do oponente. Seu rosto estava coberto de suor, e ele tinha os dentes à mostra enquanto falava — Sua polearm é mesmo de verdade. Davien recolheu a imensa polearm. -Agora só falta você provar o sabor dela — respondeu, cortando o ar com a arma. Amos desviou. Mesmo com Davien usando uma arma vários metros maior, ela também tinha lá suas desvantagens. Amos conseguia ser um pouco mais rápido, e além disso, Davien tinha que cuidar para não deixar o adversário chegar muito perto. Os dois se enfrentavam ferozmente. Amos levemente ofegante manejando seu machado como se fosse uma pena, e Davien coberto pelo pó azul brilhante de gelo. Ambos ofegavam, cansados pelas intensas horas de provas duras. Não havia traços do desententedimento antes da seleção(ainda que Davien não tivesse nada a ver com aquilo). Mas Thugles conversara com ele antes de entrar na arena, dizendo que o socara por causa do soco que ele dera em Nick. Mas Amos estava apenas usando uma estratégia, e mesmo ela tendo falhado, ele não era do tipo valentão. Ele estava cada vez mais cansado, mas prosseguia a luta sem vacilar. Davien também não fazia muito progresso. Por mais acostumado que estivesse com sua polearm, ela era muito grande e desajeitada, e Amos tinha calma suficiente para se desviar. E assim a luta prosseguiu, durante incontáveis minutos, até que ouviu-se um gemido estrangulado. O rapaz com a foice caíra, com um machado negro e dourado projetando-se de seu peito. O dono dela aproximou-se e retirou o machado, sem uma única gota de sangue nele. O rapaz caído certamente iria levar algumas horas até acordar. Amos se distraiu por alguns segundos, mas era tudo o que Davien precisava. Deu um giro rápido com a polearm, virou a lâmina bem na direção do oponente e cortou o ar, fazendo um arco horizontal mirando bem na cabeça do guerreiro. Amos, porém, se abaixou, e a polearm passou direto por cima de sua cabeça. Davien se desequilibrou, e Amos deu uma machadada certeira no peito do oponente. A armadura coberta de gelo absorveu a maior parte do impacto, mas ainda empurrara Davien para longe da polearm. Amos ergueu o machado, preparando-se para dar o golpe final. Davien ergueu o braço, jogando um pouco do pó gelado no adversário, atingindo-o em cheio no rosto. Ele vaciou por alguns instantes, e Davien se levantou e pegou novamente sua arma. Foi nesse instante que recebeu um soco no rosto, e desabou no chão, atordoado.
Davien levou alguns instantes para perceber que havia sido atingido na cabeça pelo rapaz com o machado, que agora lutava contra Amos, já recuperado da névoa congelante. Também se levantou, pegando a polearm. Ele deveria estar desacordado áquela altura, mas os três estavam muito cansados, com os reflexos lentos e atrapalhados. Ansiavam pelo fim da luta, e isso dificultava o raciocínio, o planejamento de um ataque eficaz. Ele parou, tentando observar o modo de agir dos dois adversários, mas sua mente não parecia capaz de processar aquilo. Ele via Amos girar seu machado, correr, saltar algumas vezes enquanto atacava. O outro, cujo machado não chegava a metade do tamanho do de Amos, era rápido, atacava poucas vezes, jogava na defensiva... não na ofensiva, mas não... Davien não conseguia distinguir o padrão nos ataques deles, não conseguia mais formar uma estratégia decente. Pelas janelas da arena, o céu escurecia. Fazia uma hora que os três estavam ali, lutando penosamente. Finalmente, Davien ergueu a arma, correu em direção a Amos e o atingiu, num golpe que teria desintegrado sua cabeça. Amos caiu no chão, mas conseguia atingir o oponente no peito, enfraquecendo-o ainda mais. Davien sabia que tinha feito uma manobra arriscada. Atacara Amos sem nem sequer se preocupar com a defesa, mas não aguentava mais aquilo. E pelo jeito, deu certo. Amos estava tão cansado, e os reflexos tão atrapalhados, que não conseguira fazer outra coisa senão responder com outro ataque. Agora, virou-se para encarar seu novo oponente, finalmente analisando-o detalhadamente. O rapaz era baixo, tinha cabelos branco-cinzentos completamente desgrenhados no rosto. Usava óculos, o que era estranho ele não ter reparado da primeira vez, um par pequeno e bem discreto, por trás de pequenos olhos cinzentos e determinados. Mas o mais estranho é que ele não usava armadura. Estava vestido com calças jeans simples, casaco preto e uma capa preta, e seu machado era realmente uma obra de arte. Pequeno, um pouco maior que uma espada longa, com cabo cinza e a lâmina curva era preta com detalhes dourados. Eles se encararam, a uns cinco metros de distância. Davien sorriu. -Então, parece que vamos decidir como vai acabar isso tudo — disse, quase sussurrando. O rapaz de machado deu um sorriso fraco. -O problema — respondeu, e era a primeira vez que falava desde que pisara na arena. Sua voz era tranquila e agradável, e mesmo estando ofegante, mantinha a voz firme — é que não sabemos qual de nós vai decidir isso — e atacou. Davien foi forçado a recuar alguns passos, e então atacou com a polearm, mas, se Amos era rápido, aquele rapaz se movia como um gato. Desviava, e por mais que Davien o atacasse, ele se esquivava, rolava no chão, levantava-se rapidamente. Logo ficou claro que o objetivo era cansá-lo, então Davien parou de atacar. Assim que sentiu que o oponente tinha parado de atacar, o rapaz de machado investiu. Davien simplesmente se desviava para o lado, sem fazer qualquer tentativa de bloqueio. Não estava com a mesma rapidez de quando começaram os testes, por isso achava melhor não arriscar um bloqueio. E ficou assim, Davien atacava, o outro desviava, e ataca, e Davien se esquivava. Então, Davien recuou, e seu oponente fez o mesmo, e finalmente ele entendeu o que o outro rapaz quis dizer. Davien conhecia bem o cansaço em um homem, e aquele rapaz exibia o semblante de alguém obrigado a se esforçar quase além do limite, por mais que tentasse disfarçar. O próprio Davien ofegava e respirava com dificuldade, sentindo a garganta seca. Começou a sentir pontadas no lado esquerdo do corpo. Finalmente, quando fez vinte minutos que os dois estavam ali dando voltas sem encostar um no outro, Nuck desceu da arena. -Acho que já é o suficiente — disse, erguendo a mão. Os dois jogaram as espadas e se sentaram ali mesmo, agradecidos. As janelas da arena revelavam um céu totalmente negro agora — Considerem a luta empatada. -Mas... o que vai ser da seleção? — perguntou Davien, a voz rascante. O outro inclinou-se para ouvir. Nuck coçou o queixo, pensativo. -Bem, eu esperava terminar isso agora, com um de vocês campeão. Mas nenhum dos dois parece ter condições de continuar, portanto, podem ir para os quartos, e faremos a luta amanhã de manhã. Se vocês concordarem, é claro. Davien olhou para o adversário, que deu de ombros. -Por mim, tudo bem — e com isso Davien também concordara, secretamente agradecido. ___________________________________________________________________________ O teste, porém, precisou ser adiado para a semana seguinte, porque ambos não conseguiram sequer levantar da cama quando acordaram. Haviam se esforçado durante mais de dez horas, correndo, carregando pessos, dando golpes, levando golpes, caindo, levantando. Tudo isso praticamente sem uma pausa sequer. Quando os músculos dos dois rapazes finalmente esfriaram, a dor foi tanta que descobriram músculos em lugares que nem sabiam que existiam. Depois de uma semana de repouso, e alguns exercícios leves para "não desacostumar", Nuck os levara para uma parte mais deserta do fórum, um lugar cheio de grama que ficava além da seção Archer. Nuck delimitara um círculo um pouco menor que a arena, e os colocara ali, de armas e tudo. Uma grande multidão se algomerava em volta do círculo, gritando, torcendo e até fazendo apostas. -Por que será que o Nuck não vai fazer a seleção em um lugar mais isolado? — perguntara Vampiritico, intrigado. -Desse jeito o fórum fica com mais visitantes — dissera Thugles, explicando algo óbvio. — Quase o dobro de visitantes sem precisar ficar vigiando as seções. O que poderia ser mais oportuno que isso? -Bem, pelo menos isso resolve sua preocupação com o fórum estar com poucos visitantes — dissera Davien, a voz carregada de sarcasmo. — Vou lá ver se pego o cargo que jamais deveria ter perdido. Torçam por mim. — e foi-se, mas antes que pudesse chegar no círculo, um rapaz corpulento o parou. -Ei cara, vê se ganha essa, ok? — era Amos. Sem a armadura e o pesado machado, ele parecia ser uma pessoa bem legal. — Não quero que ele seja tutor, não confio muito nele. Mas você — agora seu rosto exibiaum sorriso sarcástico — me derrotou, então, deve dar pro gasto como Tutor Warrior. -Não se preocupe — rira Davien, colocando a mão no ombro do ex-oponente — E quando eu conseguir, a primeira coisa que vou fazer vai ser criar um clube de duelos, e você está convidado pra perder, digo, lutar comigo quando quiser. Sem aquela magia protetora do Nuck — acrescentara, fingindo preocupação — Mas você sempre pode ir contra os novatos, que usam polearms de plástico. Amos balançara a cabeça em um sorriso. -Veremos, Davien, veremos... — e for fim, Davien foi até o imenso círculo, que estava vazio exceto por Nuck, Davien e o rapaz de machado, que agora sabiam que se chamava Arroiz. Nuck pedia silêncio à multidão. Thugles estava certo: ele parecia estar de bastante bom humor naquele dia. -Bem, hoje vamos definir quem ocupará o tão procurado cargo de Tutor Warrior do MinarForest! — gritou. A multidão berrava ansiosa. "Como não houve um vencedor na última luta, iremos decidir aqui qual dos dois tem mais capacidade para ocupar o cargo. Lembrando que o vencedor obterá um cargo de altíssima responsabilidade e compromisso, e blá blá blá, blá blá blá..." Dez minutos depois, virara-se para os dois candidatos. -Bem, o desafio de vocês é muito simples — dissera, apenas para os dois, porque a multidão já sabia o que eles iriam ter que fazer. Nuck gostava desse tipo de surpresa — Cada um de vocês poderá desafiar o outro a fazer alguma coisa, e no final, veremos quais são os melhores resultados. Vocês podem fazer o que quiserem e puderem, exceto, por exemplo, desafiar o outro a sair do círculo. Se um de vocês sair, não será desclassificado, mas poderá começar o desafio de novo. Boa sorte, e lembrem-se: espero que dessa vez consigamos decidir o Tutor Warrior! Nuck saiu do círculo, a multidão estava em silêncio, na expectativa. Os dois candidatos ainda estavam parados na arena, sem saber o que fazer. -Então... quem começa? — perguntou Arroiz, hesistante. -Pode ser por ordem alfabética — sugeriu Davien — Tanto faz pra mim. Acho que consigo dar conta de qualquer coisa que você sugerir. Mas ele disse a frase sorrindo, sem arrogância. Arroiz deu de ombros, e olhou em volta, pensativo. -Bem, então, eu te desafio para... pega-pega. Davien olhou para ele incrédulo. Nuck estava transmitindo a conversa para a multidão por algum tipo de mágica, pois era impossível que ouvissem o que eles estavam dizendo, ali no meio daquele imenso círculo, mas no momento seguinte as pessoas em volta riram. O próprio Davien parecia tentado a rir. -Pega-pega? — repetiu — Como assim, você acha que em uma batalha os inimigos vão se render se você ganhar deles no pega-pega, ou algo assim? A multidão escarneceu, mas Arroiz não se alterara. -Não exatamente — disse, sua voz calma e controlada como na arena — Mas suponhamos que você esteja em uma missão de reconhecimento, ou mesmo carregando alguma coisa importante no meio das linhas inimigas, e precisasse fugir para não ser capturado. O que iria fazer? -Fugiria — respondeu Davien — É, tudo bem. Como fazemos, então? Tá com quem? Arroiz tocou o braço de Davien delicadamente, e correu. -Com você! — gritou, à distância. A multidão riu. Davien corria em volta da arena, tentando pegar o pequeno guerreiro, mas ele corria muito. E não conseguia encurralá-lo naquele círculo. Passaram-se vários minutos, Arroiz corria, e quando Davien finalmente chegava perto, ele se desviava e corria lá pro outro lado. Então, Davien teve uma idéia. Pegou a polearm no centro da arena, e jogou-a para Arroiz. Ela bateu no chão perto dele, fazendo-o tremer, desequilibrando o rapaz. Davien não exatamente o pegou, na verdade o ergueu pelo colarinho e o jogou no chão. -Pronto, formiguinha — disse, triunfante — Nem acredito que consegui. Arroiz deu uma risada seca. -Bem, minha vez — falou Davien, enigmático — E o meu desafio, será... — ele olhou em volta, para a multidão, e disse: — Imitar meus movimentos. Agora era a vez de Arroiz ficar confuso. -Como assim? — perguntou, tentando soar como Davien quando ele apresentara o desafio do pega-pega. — Você acha que se estivermos em uma batalha os inimigos vão se render se conseguirmos imitar eles como se fôssemos mímicos? -Engraçadinho — rosnou Davien — Mas não, eu quero ver se você tem bom reflexo, e se sabe usar alguma coisa além desse seu machado. Eu faço os movimentos e você me imita, mas você vai ter que usar uma polearm. Arroiz concordou, e Nuck jogou para ele uma polearm grande, mas ainda assim um palitinho perto da imensa polearm do Davien. -Certo, tente me acompanhar — e começou. O primeiro movimento era bem simples: ergueu a polearm acima do ombro, depois a desceu no chão. Um movimento fácil, mas Davien estava usando um pequeno truque. Ele descia a polearm com toda a força, parando a centímetros do chão, mas Arroiz prestava atenção. Ele também descera a polearm e a parara pouco antes de ela tocar o chão. Nuck projetara algum tipo de tela mágica acima da arena, de modo que Davien pudesse ver se Arroiz o acompanhara, quando acabasse o movimento. Também permitia que as pessoas que estivessem mais distantes do círculo acompanhassem tudo. Davien então girou a arma para o lado, e Arroiz o imitou direitinho. Em seguida, Davien lançou a polearm num golpe direto à frente, depois a girou para esquerda, depois para cima, rodos noventa graus, girou o corpo. A multidão observava tudo admirada. Mesmo que muitos ali não conhecessem exatamente as técnicas dos guerreiros, os movimentos pareciam muito bem coordenados, como uma dança. Uma dança mortal. Davien parou, olhando para a tela, que indicava que Arroiz havia feito quase exatamente como ele. A multidão aplaudiu -Certo, vamos ver se você copia esse aqui. E Davien jogou a polearm para frente, com uma só mão, girou para a direita, depois para a esquerda, ergueu a polearm bem acima da cabeça com as duas mãos, saltou girando o corpo, e com rugido, desceu a polearm com toda a força no chão. A tela acima deles fraquejou um instante, e o chão brilhou levemente. Evidentemente, Nuck criara um escudo de proteção para proteger o chão bem a tempo. Sim, proteger o chão. Da última vez que Davien atacar o chão com aquela polearm criou um buraco tão fundo que atingiu a tubulação de água do banheiro do fórum. A tela voltou, e Arroiz havia feito exatamente como ele. Todos aplaudiram, e Arroiz sorriu, inocente. Davien assentiu. -Nada mal — disse, por fim — Nada mal, mesmo. Mas eu mencionei — disse, com um olhar perverso — Que você teria que fazer isso com a minha polearm? Arroiz arregalou os olhos, mas logo se recuperou. -Não, não mencionou — disse, e Davien jogou a polearm na direção dele. O rapaz tentou levantá-la com uma mão, mas logo precisou usar as duas, e por fim a ergueu um pouco acima da cabeça. Não ousaria apoiar aquilo no ombro — Caramba, isso aqui é pesado... — comentou, os joelhos tremendo levemente — quanto pesa, exatamente? Davien disse o peso da arma. As pessoas em volta ficaram boquiabertas, soltando gritos de espanto. Mas Arroiz continuou firme. Davien pegou a polearm do Arroiz, e fez alguns movimentos. Começou girando a polearm para a esquerda, depois, girando ela por trás do corpo, e dando uma tremenda estocada para frente, e a bateu no chão. Arroiz se preparou. Uma vez superada a apresentação inicial, a arma não parecia pesar tanto, mas somente se você for um guerreiro treinado e acostumado a levantar pesos. Arroiz girou a polearm para a esquerda, depois passou-a para trás do corpo, e finalmente, deu le estocada monstra pra frente, a bateu no chão, mas não parou por aí. Acrescentou, sem perder o movimento, uma subida rápida acima da cabeça, e a desceu com toda força no chão. Entretanto, ele fora mais rápido que Davien, e a queda afundara um pedaço de três metros do chão. Ele então girou a gigantesca polearm pelo corpo, e desferiu uma estocada para a frente, sem que Davien ordenasse. Improvisara aquilo tudo. A multidão ia à loucura. — "Arroiz! Arroiz! Arroiz!" — berravam. Arroiz saudou-os modestamente, e atirou a polearm para Davien. Seus amigos, e até mesmo Nuck, aplaudiram a habilidade do garoto. E Davien, furioso, agarrou o cabo de sua polearm, andando em direção ao oponente. Arroiz se virou. -Acho que acabaram os desafios — disse, e as pessoas concordavam, ainda gritando o nome do rapaz. -Ainda não acabou — rosnou Davien — Você acha que é só impressionar esse bando de gente com a minha arma? Não, meu amigo, não é assim que funciona — sua boca tremia de raiva. Arroiz sorriu levemente. -Na verdade, acabou, eu te apresentei meu desafio, e você apresentou o seu. Agora... -Ainda não — interrompeu Davien, alto o bastante para que todos ali ouvissem — Ainda tenho um último desafio... E ele é um duelo comigo, aqui, e agora!
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