MinarFic

7 Duelo entre Finalistas


-Você está louco? — perguntou Arroiz, incrédulo. A multidão ficara imediamanete silenciosa. — Saímos de um duelo semana passada!

-Aquele na arena não contou — respondeu Davien — Estávamos cansados e mal nos aguentávamos em pé. Agora, estamos descansados e cheios de energia. Pelo menos — acrescentou, os olhos exibindo uma expressão de puro deboche — eu estou. Mas se você estiver cansado de girar minha polearm e quiser desistir, eu entenderei perfeitamente.

Arroiz se enrijeceu.

-De jeito nenhum — disse, erguendo o machado — Se você quer um duelo, tudo bem. Eu aceito.

Davien sorriu, maldoso.

-Mas entenda, que quando eu digo "duelo", eu quero dizer um duelo mesmo, aqui nesse círculo, e sem nenhuma magia protetora — ele olhou para o mago de casaco — do Nuck. Será um duelo entre dois homens, como qualquer outro, sem interferências. E quem perder desiste do cargo de tutor.

-Nada disso — negou Arroiz com veemência — Vamos deixar o Nuck decidir. Não vou arriscar.

Davien deu de ombros.

-Tudo bem — disse, com frieza — Você só precisa aceitar a luta sem as magias de defesa do Nuck.

Nuck apareceu ao lado dos dois. Seu olhar para Davien era de preocupação.

-Davien — começou — Isso não seria...

-Eu aceito — repetiu Arroiz, interrompendo Nuck — Será um duelo sem nenhuma magia, nenhuma interferência.

Davien quase riu.

-Então, está combinado. Nuck, você ouviu a formiguinha, você não pode interferir. Não se preocupe — continuou, ao ver a expressão no fundador do fórum — Vou tentar não matá-lo. Posso estar puto com ele, mas não sou assim tão sangue-frio.

Não eram exatamente o tipo de palavras tranquilizadores, mas como os dois guerreiros continuavam se encarando firmemente, Nuck teve que aceitar.

-Tudo bem — anunciou, alto para que toda a multidão pudesse ouví-lo — Parece que vamos ter um último desafio, uma luta entre os dois candidatos. — A multidão berrou em aprovação.

-Agora, escutem — disse em voz baixa, apenas para que os dois podiam ouví-lo — Sei que vocês dois querem muito esse cargo, mas por favor, se controlem. Não quero mortes nem ferimentos graves aqui, lembrem-se de que se um de vocês perder uma perna, ou algo parecido, eu não poderei curar isso.

-Não se preocupe — tranquilizou-o Arroiz — Não vou chegar a matá-lo, se eu vencer. E tenho certeza de que ele também vai se controlar, não é, Davien?

Davien bufou, mas assentiu.

-Um momento — lembrou Davien, olhando para Nuck — Nuck, eu também vou querer uma espada. Uma pequena, bem curta.

-Isso seria injusto — respondeu Nuck, balançando a cabeça com firmeza — Cada um de vocês deverá usar apenas uma arma.

-Eu sei disso — respondeu Davien, impaciente — Mas se eu não tiver uma, estarei em desvantagem. Nunca vou conseguir sequer tocar o chão a meio metro em volta dele, do jeito que ele é rápido. Além disso, ele está usando um machado bem curto. É quase impossível eu conseguir atingir ele, se ele chegar muito perto.

Nuck assentiu, pensativo. Fazia sentido. Davien podia ser mais forte e estar usando uma arma muito maior, mas o tamanho seria uma desvantagem muito grande. Se Arroiz chegasse muito perto, ele não teria como se defender, já que a lâmina da polearm ficaria vários metros longe dele.

Nuck ergueu a mão, e uma espada embainhada voou até Davien, que a prendeu na cintura.

-Você também pode escolher uma arma — disse, para Arroiz — Uma polearm, se preferir. Não temos nenhuma grande como a do Davien, mas...

Arroiz balançou a cabeça antes de ele terminar.

-Prefiro lutar apenas com meu machado. — disse, simplesmente — Obrigado — acresentou.

Não havia mais motivo para continuar adiando o começo da luta. Os dois candidatos se afastaram, indo para bordas opostas do círculo metros longe do outro.

Nuck olhou de um para o outro, preocupado. Então se virou.

-Então, desejo boa sorte aos dois. A única interferência que vou fazer será um campo de força ao redor do círculo, para impedir que alguém em volta entre e tente interfeir. E que vença o melhor! — a última frase foi dita bem alto, e no instante seguinte, Nuck ergueu os braços, e saiu voando em direção ao céu, como uma rolha saindo da garrafa. A multidão berrou.

A luta começara. A tela azul holográfica reapareceu acima da arena, mostrando os dois adversários claramente. Ambos se encararam por um instante, então, começaram a avançar na direção do outro, lentamente. Davien pensava em atacar com a polearm, e usar a espada para se defender caso ele chegasse muito perto. Então, Arroiz começou a correr.

Ele era rápido. Muito mais do que na arena, quando estava cansado e quase sem forças. Agora, corria na direção de Davien com o machado erguido, pronto para atacar. O antigo tutor ergueu a polearm, preparado.

Então, quando Arroiz chegou a uns oito metros de distância de Davien, ele se jogou para a esquerda.

Foi um movimento incrível. A multidão chiou impressionada. Arroiz nem sequer se virara, apenas deu um passo para a esquerda, sem sequer virar o corpo. Então atacou, e Davien, sem tempo de tirar a espada, apontou o cabo da polearm para cima, segurou-a bem perto da lâmina — que tinha quase o tamanho dele — e a usou como escudo.

Não havia chance de algum ataque de machado penetrar aquilo. O choque das duas armas fez um som metálico, aço batendo sobre aço, e Arroiz recuou, e tentou atacar o lado esquerdo de Davien, que se virou a tempo. Novamente, o atacante acertara apenas a lâmina da polearm, e recuou de novo, e foi para a esquerda novamente. Davien virou para a esquerda e continuou usando a polearm como escudo.

Arroiz atacou a esquerda mais três vezes, sem sucesso, até que se jogou, com toda sua rapidez, para a direita. Mas Davien estava preparado para aquilo. Sabia que Arroiz, que até aquele momento só atacou pela esquerda, iria mudar para o outro lado a qualquer momento. Certamente enganaria novatos, e até guerreiros mais experientes, mas não ele. Davien virou-se para a direita quase com a mesma rapidez, e o machado de Arroiz novamente encontrou a pesada lâmina da polearm do oponente.

Finalmente, Arroiz percebeu que aquilo não iria dar certo. Davien sorriu, sem humor. Então atacou repetidas vezes, girando a polearm para a esquerda, para a direita, por cima, mantendo o cuidado de nunca atacar diretamente com a lâmina, e de não colocar muita força nos golpes.

Não que isso fizesse diferença. Arroiz nem sequer chegava a sentir o vento deslocado pela polearm, pois se esquivava quase com facilidade. O fato de não querer uma segunda arma também representava uma vantagem, e logo Davien corrigiu o pensamento. Ao escolher lutar apenas com o machado, ele havia sim escolhido uma segunda arma. A rapidez. A falta do peso adicional lhe proporcionava mais movimento, mas flexibilidade. E Arroiz era alguém que pareci saber usar isso muito bem.

Davien tentou uma cortada por cima, mas Arroiz rolou para o lado. No mesmo segundo em que voltou a ficar com os pés no chão, ergueu o braço para a frente, atingindo as costelas de Davien, e voltou a rolar para trás para fugir do golpe seguinte. Davien massageou a armadura. Não quebrara nada, mas dava uma sensação bastante dolorida.

Davien voltou a atacar, mas os reflexos de Arroiz eram formidáveis. Davien abandonara qualquer tentativa de não ferir o oponente, e atacava como se estivesse lutando contra um monstro qualquer, mas não importava, porque não conseguia tocar o adversário. Arroiz tinha mais agilidade do que mais de três quartos dos candidatos a Tutor Thief. Por falar nela, a seleção para Tutor Thief, assim como a seleção para Tutor Fanart, já haviam sido feitas. A seleção para Tutor Fanart havia sido bem simples, em parte era testes sobre a criatividade do candidado, e sobre a habilidade na hora de desenvolver projetos de diversos tipos de máquinas e equipamentos, bem como desenhos, pinturas e animações.

Faltava apenas a seleção para Tutor Pirate, que não havia sido feita, porque a seleção para Tutor Fanart havia demorado mais do que o previsto, sendo necessário adiar para o dia seguinte. Todos os candidatos a Tutor Pirate concordaram.

Arroiz nunca atacava, somente Davien, que ficava dando golpes com a polearm que nem um idiota. Mas o objetivo não parecia ser cansá-lo, porque Arroiz certamente também se esforçava ao se esquivar daquela maneira. Mas logo ficou claro que aquele não era o caso.

Quando Davien deu a primeira ofegada, percebeu um pouco assustado que Arroiz estava calmo como sempre, parecendo completamente descansado. Ele decidiu mudar um pouco o rumo da batalha. Apoiou a polearm no chão, fingindo estar ficando cansado, esperando que Arroiz o atacasse.

Mas o oponente não era nada bobo. Vira o quanto Davien era capaz de resistir, e sabia que ele não estaria cansado daquela maneira tão rapidamente. Mas entrou na jogada, e atacou.

Davien, achando que Arroiz engolira a isca, rapidamente levantou a lâmina para pegar o oponente pela lateral, mas ele estava preparado. Desviou-se para o lado e desferiu outro golpe contra o peito de Davien.

Mas ele conseguiu se esquivar, e o machado de Arroiz passou direto à direita de Davien, que desembainhou a

e deu uma estocada certeira contra o peito do adversário, sem nem mesmo se preocupar em não ferí-lo.

Arroiz se esquivou, mas ainda assim foi atingido de raspão da lateral da barriga desprotegida. A multidão fez um "ooooh!"

Davien imediatamente recuou, vendo a lâmina manchada de sangue. Olhou para o oponente, com olhar de desculpas. Mas logo voltou a ficar sério, porque suas costelas atingidas escolheram aquele momento para doer.

Nuck começou a andar na direção deles, mas Arroiz ergueu a mão para ele.

-Devagar aí — disse para Davien, analisando o corte. Não era profundo, havia atingido apenas a pele.

-Ops — rosnou Davien, indiferente. Suas costelas ainda doíam. Mesmo assim, deu um tempo para que ele tirasse uma tira de pano do bolso e a amarrasse na cintura. Davien limpou a espada na grama e a embainhou.

Ele voltou a atacar, dessa vez tentando uma estocada direta, mas Arroiz se esquivara novamente.

No meio da multidão, Thugles chegou perto de Nuck.

-Ei, Nuck, e a minha seleção? — perguntou. Ele, Vampiritico e os outros antigos tutores estavam com Nuck perto de uma das bordas do imenso círculo, que brilhava levemente devido ao campo de força que impedia as pessoas de entrarem — Vai se hoje mesmo, ou vai adiar pra amanhã de novo?

Nuck suspirou.

-Logo que acabar a de Warriors, Thugles — respondeu, sem tirar os olhos dos lutadores — Então a gente faz a sua.

-Por que a gente não faz ela agora? — perguntou Thugles.

Nuck virou-se para olhá-lo.

-Bem, eu não quero ser grosso nem nada — respondeu, quase com sarcasmo — Mas estou um pouco ocupado analisando outra seleção, portanto...

-Eu sei disso, mas pelo que estou vendo, a luta vai ficar nisso aí por um tempo — interrompeu Thugles, apontando o polegar para os dois últimos candidatos a Tutor Warrior — E já são quase quatro da tarde. Daqui a pouco fica escuro, e se o mar estiver ruim de noite,a gente vai acabar tendo que adiar a seleção pra amanhã.

-É verdade, Nuck — falou Sheddeer — O mar é muito imprevisível, e além disso, já que você não pode interferir, pode sair para fazer a prova do Thugles.

-Bom que você faz isso logo de uma vez — ajuntou Vampiritico.

Nuck pensou, indeciso.

-Mas eu preciso ficar aqui, pra ver o desempenho dos dois...

-Isso você pode gravar — respondeu Sheddeer no mesmo instante — Como essa tela em cima deles, que mostra tudo, você certamente pode colocar umas câmeras e filmar. Na verdade, é até melhor, porque você vai poder se sentar com calma depois que tudo isso acabar, colocar as filmagens numa tela, e analisar tudo, podendo voltar cenas quantas vezes você quiser.

-E ficar aqui vendo o Arroiz fazer o Davien de bobo é bem legal, mas depois de um tempo, começa a enjoar — falou Vampiritico, o olhar triste.

Os outros balançaram a cabeça em aprovação. Thugles olhava Nuck, ansioso.

-Bem, nesse caso... tudo bem — concordou, por fim. Na verdade, ele quase interferira quando Davien atingira Arroiz e, se estivesse ocupado com a seleção de Thugles, ele poderia evitar qualquer impulso de curar algum deles — Vão indo para porto ao norte do fórum, encontro vocês lá. Só vou dar um aviso rapidinho.

Na arena, Arroiz acabava de dar mais um rolamento. Davien erguera a polearm para dar mais um golpe — que não ia acertar o oponente de jeito nenhum — quando Nuck materializou-se na frente dele, entre ele e Arroiz. Davien quase caiu, ao parar o golpe.

-Caramba, Nuck! — reclamou, sobressaltado — Nunca mais me assuste desse jeito! Quase te parti em dois — disse, ofegante de susto. Arroiz apenas ergueu as sombrancelhas.

-Escutem — começou Nuck, ignorando a reação de ambos — Vou para o mar fazer a seleção de Pirates. O Thugles vai ser o ganhador de qualquer jeito, só tem ele de candidato, mas são as regras do fórum.

Davien deu uma risadinha.

-Vá com Deus — desejou, dando de ombros.

-O que eu quero dizer — seu tom de voz era quase de súplica — É pra que vocês tenham cuidado. Davien, eu vi o que você fez com o Arroiz, por favor, tenha mais cuidado. O mesmo vale para você, eu posso dar um jeito no seu ferimento, se quiser — disse, virando-se para Arroiz, que se afastou.

-Não, obrigado — agradeceu, dispensando ajuda — Mas estamos em um duelo. E em um duelo, simplesmente não podemos aceitar ajuda de bispos.

-Vejo que você entende das regras, pelo menos — debochou Davien.

Nuck, que decidiu que não adiantaria dizer mais nada, virou-se para o lugar onde estava com seus antigos tutores, e estranhou vê-los parados onde estavam. Ele foi até eles.

-Por que ainda estão aqui? — perguntou, impaciente — Era pra vocês estarem indo para o porto norte do MinarForest!

-O Sheddeer disse que você tem um jeito especial de transporte — explicou Thugles, animado.

-A gente quer experimentar também — disse Nick, também animado — Leva a gente até lá, vai!

-Vamos, Nuck, dá uma carona pra gente! — pediu Vampiritico.

Nuck lançou um olhar de censura para Sheddeer, que deu de ombros, tentando não sorrir. Nuck revirou os olhos para cima, suspirando, e estalou os dedos.

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

-SOCORRO! Alguém, por favor... ME AJUDE!!! ESTOU AQUI! SOCORRO!

No imprevisível e tranquilo oceano, agora violento e instável, um homem se agarrava a uma rocha no meio do mar, gritando por socorro. As ondas batiam na pedra e o encharcavam e saturavam suas roupas, mas ele conseguia se manter firme. Mas aquilo não ia durar muito tempo.

A única esperança era um imenso navio de madeira. Tinha mastros para velas, mas elas estavam abaixadas por causa do vento. Em vez delas, um grupo de vinte remadores, dez de cada lado, era o que impulsionava a embarcação.

Thugles estava no leme, gritando ordens aos seus homens. Velas eram puxadas, cordas jogadas, bóias preparadas.

Os "homens", que eram bonecos animados pelo Nuck — agora usando casacos esfarrapados e chapéus de marujos — obedeciam como se fossem homens comuns. Imitavam os piratas tão bem que cinco deles fizeram um motim, que Thugles conseguira conter, convencendo-os a continuar no navio. Dois deles ainda estavam no calabouço.

Ele estava na seleção de tutores, em uma corrida contra o tempo. Precisava mover o navio naquela tempestade, passando por pontos selecionados do mar, e então voltar à terra.

Mesmo com toda aquela ventania e — o primeiro raio caiu logo em seguida — a violência do mar, Thugles estava conseguindo um bom tempo. Ainda faltavam dez minutos, e ele achava que chegaria em menos de oito. Foi quando um dos homens gritou que havia alguém ao mar.

Thugles não sabia o que iria acontecer se perdesse a prova. Era o único candidato a Tutor Pirate, mas duvidava que Nuck fosse lhe entregar o cargo assim, de bandeja. Ele pensou em concluir a prova e voltar depois, mas duvidava que o homem fosse aguentar todo esse tempo. Por um momento — apenas pr um segundo — cogitou a possibilidade de fingir que não vira nada, afinal, o corpo iria se perder para sempre naquelas àguas, e ninguém jamais saberia daquilo... não. Thugles balançou a cabeça, e uma intensa sensação de culpa tomou conta dele. "Como pude pensar nisso?", pensou, desesperado "Meu Deus, como eu posso pensar em abandonar alguém só pra completar essa prova? Ah, dane-se o fórum!" E então, sem hesitar, girou o leme, virando o navio a noventa graus para leste, e movendo-o em direção ao homem.

-Vamos! — berrou — Mais rápido! Não cheguem muito perto... Joguem a bóia! AGORA!

Dois dos homens jogaram uma bóia salva-vidas amarrada a uma corda, mas ela passou longe do lugar onde ele estava. E ele não poderia chegar muito perto, ou o navio poderia deslocar ainda mais água para a pedra, podendo afogá-lo. Se estivesse em sua pequena embarcação habitual — Nuck mandara consertá-la de Mu Lung — poderia chegar perto do homem sem perigo, pois o navio foi projetado pra isso. Mas ele estava na seleção de tutores, e a prova era realizar aquela corrida contra o tempo usando um imenso cargueiro de seis mastros.

Vendo que não tinha mais alternativa, o candidato a Tutor Pirate pulou do navio, mergulhando de cabeça na água gelada e violenta. Nadou com habilidade até perto da pedra, e então, mergulhou.

O homem, achando que sua salvação havia se afogado, começou a gritar ainda mais. Então, rápido como o salto de um peixe, Thugles saltou sobre ele, segurando-o por trás e levando os dois à água.

O homem se debateu, em pânico, mas Thugles estava preparado para aquilo. Sabia que a primeira coisa que uma pessoa quase afogada faria, se alguém tentasse salvá-la, era agarrar-se violentamente ao salvador. Isso é um impulso natural, de se agarrar ao que quer que tente salvá-lo, mas isso pode acabar afogando o salvador e, é claro, a pessoa.

Por isso, Thugles mergulhara, dera a volta na pedra e então pegara o homem por trás, imobilizando-o com uma das mãos e nadando com a outra. Estava certo. O homem se debatia e tentava violentamente se virar.

-Nade com as pernas! — dizia Thugles, o mais tranquilamente que podia e ainda ser ouvido apesar do barulho das ondas, enquanto nadava habilmente até o navio. O homem era bem pesado — Não tente me agarrar. Fique quieto, apenas mexa as pernas e me ajude. Você está a salvo, não se preocupe — tagarelava — Vamos chegar até um navio, não se preocupe. Vai ficar tudo bem.

Enquanto falava, tentava manter a cabeça do homem fora da água, mas ele continuava se debatendo. Acalmara-se um pouco, mas apenas um pouco. Pelo menos estava balançando as pernas e ajudando a nadar.

Finalmente, chegaram na borda do navio, e uma escada de corda já estava preparada. Thugles ajudou-o se agarrar a escada, e felizmente o homem teve a presença de espírito de agarrar-se nela e subir. Thugles subiu logo atrás.

O homem chegou ao casco do navio, ofegando aliviado. Thugles chegara logo em seguida, registrando sua aparência.Ele tinha cabelos negros compridos que iam atém dos ombros, agora molhados e colados ao rosto. Usava um pesado casaco marrom que, encharcado, pesava três vezes mais, o que explicava a razão do homem estar tão pesado, porque ele era bem magro. Thugles agachou-se ao lado dele, e colocou a mão em seus ombros.

-Está tudo bem — disse, tentando acalmar o homem que ainda olhava para o chão, cuspindo água. Parecia bastante abalado — Cara, como foi que você foi parar no meio daquelas pedras? — perguntou em tom divertido, mas o homem não respondia, e continuava ofegante — Certo, melhor começar com algo mais fácil — então sorriu — Eu me chamo Thugles. Qual o seu nome? — perguntou — De onde você vem?

O estranho não respondeu de imediato, mas parecia estar voltando à respiração normal. Então seus lábios pareceram se curvar num leve sorriso. Ele levantou a cabeça, afastou os cabelos do rosto e disse, com voz rouca:

-Eu me chamo Nuck — respondeu, sorrindo largamente — Venho do MinarForest, pra anunciar que você está acaba de ganhar o cargo de Tutor Pirate do fórum.

---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

A multidão urrava enquanto Davien socava Arroiz, um golpe após o outro. Finalmente, o efeito do gelo pareceu diminuir, e ele conseguiu recuar, escorrendo sangue pela boca.

Davien estava coberto pela mesma armadura de gelo que ele usara na arena. Ele estava guardando suas energias para o momento certo, até que ele finalmente surgiu, quando Arroiz tentara golpeá-lo na barriga. Davien então soltara a polearm e se desviou do golpe e, segurando a cintura de Arroiz com as duas mãos, conjurou a armadura em ambos.

Em Davien, apareceu somente a névoa de gelo branco-metálica que protegeria a pessoa de impactos, mas em Arroiz, o efeito foi diferente. A armadura de gelo servia para proteger a pessoa de impactos, mas também podia servir para prejudicar um inimigo, se o conjurador assim decidisse. Por isso, Arroiz ficara coberto pelo mesmo pó que Davien, mas ele não ganhava resistência adicional nem nada. Ao contrário, seus músculos é que pareciam resistir aos comandos do rapaz. Arroiz não estava imobilizado, mas conseguia se mover apenas lentamente, como se cada membro do seu corpo tivesse sido transformado em chumbo. "Chumbo congelado", pensou Arroiz friamente, ao sentir o imenso frio que aquilo lhe causava. Não conseguia entender como o oponente suportava aquilo, mas logo ele teve que afastar esses pensamentos. Davien sorriu maldosamente, e então, começou a socá-lo com ferocidade.

Um soco já é bastante dolorido. Some isso ao fato de o agressor ser um guerreiro, e guerreiros preferem dar socos lentos, mais potentes — o que é pior do que qualquer rajada de socos, e inclua o fato de você estar sentindo frio em cada centímetro de seu corpo, e todos sabemos como qualquer contusão dói muito mais no frio. Agora imagine que além disso tudo, o atacante é um homem cujos punhos, os mesmos que estão socando você agora, são capazes de levantar uma arma de quase seis metros como se levantassem um pedaço de lenha. Se ele estiver com raiva de você, então, pior ainda.

E Davien era e sentia tudo isso, em relação a Arroiz. Seus socos descontavam cada momento em que o adversário fora homenageado, recebera vivas, fora adorado pela multidão, por ter feito algo melhor do que ele. Davien não se achava o maioral — se achava sim, mas no fundo sabia que não era -, mas Arroiz ganhara toda aquela atenção sendo melhor que ele, enganando-o com suas esquivas e saltos. "Bem", pensou Davien, a testa franzida de concentração enquanto procurava os pontos onde iria doer mais "Quero ver ele se esquivar dessa agora".

Arroiz, vendo que não tinha alternativa, ergueu as mãos na tentativa de proteger o peito e o rosto, não que isso ajudasse muito. Davien socava-o no queixo, depois no peito, então no estômago, novamente no queixo, na cabeça. E Arroiz era obrigado a ficar ali, quase parado, enquanto seu adversário o socava, esmurrava, sem parar...

Finalmente, Arroiz começava a se acostumar com o gelo, e se movia um pouco mais rapidamente, até que finalmente a névoa derreteu e ele pôde voltar a se mover normalmente. Ofegante e com um dos lábios sangrando, ele recuou, massageando as costelas doloridas e enregeladas. Toda a parte frontal de seu corpo doía.

Davien ia parar para respirar, mas conhecia a incrível velocidade e rapidez de Arroiz, e sabia que o oponente iria continuar reagindo quase tão rápido quanto antes, mesmo depois daquele festival de golpes. Então, ele pegou a polearm do chão, e atacou.

Arroiz se esquivou novamente, mas dessa vez atacando Davien. O golpe atingiu a armadura, mas a pesada cota de malha, somada ao peitoral de bronze agora coberto de névoa de gelo, foram suficientes para que ele não sentisse nada além de uma cutucada. Davien sacou a espada e conseguiu atingir Arroiz no peito, com a lateral da lâmina.

Fora um golpe bastante dolorido, mesmo que não tivesse causado muitos danos. Mas agora a vantagem começava a pender para o lado de Davien — depois da armadura de gelo que quase o imobilizara, Arroiz estava perdendo sua maior arma: a mobilidade. Ele estava ficando cada vez mais cansado, e Davien também, afinal estavam lutando ali havia mais de quatros horas — a seleção de Thugles levou três — e já estavam começando a sentir a mente um pouco atordoada. Mas só um pouco.

Os dois eram guerreiros altamente capazes, e aguentariam muito mais tempo em combate, contra outros guerreiros. Mas eles eram dois dos melhores na região, eram os dois candidatos a Tutor Warrior mais fortes e capacitados que se poderiam encontrar. E estavam se enfrentando agora, naquele momento.

Os minutos se arrastavam, e a luta continuava assim. Vez ou outra um conseguira atingir o outro no peito, ou desferir um soco particularmente dolorido na canela, mas nada além. Finalmente, Arroiz se pronunciou.

-Davien — começou, afastando-se alguns metros. Não queria correr o risco de ser atacado enquanto falava — Acho... acho que já é o suficiente, não? Podemos parar por aqui mesmo.

Davien sorriu sarcasticamente.

-O quê, você está desistindo? — disse, com indiferença, já se preparando para dar mais um golpe — Porque eu posso aguentar isso aqui até... mais tarde — a pausa foi porque ele levantou a polearm e a desceu no chão.

-Não é isso — respondeu Arroiz, depois de desviar do golpe com facilidade — Estou dizendo que estamos começando a cansar... Além disso, o que estamos fazendo aqui? — perguntou, na ofensiva — Já nos desafiamos um ao outro, o que mais falta para mostrar? E como você esperar que terminemos com isso, sem magia protetora, sem nada? Estamos ficando cansados, e como não podemos realmente desferir nenhum golpe fatal, isso só vai acabar quando um de nós não aguentar mais ficar em pé!

-Exatamente — concordou Davien, levantando a polearm novamente — E eu estou com o pressentimento de que não serei eu o primeiro a não aguentar.

Arroiz se desviou, e voltou a insistir.

-Davien — disse, o olhar bem sério — O que você quer provar aqui? Não tem como acabarmos essa luta, a não ser que um acabe matando o outro, ou que as horas se passem e um de nós finalmente desmaia de cansaço! Mas você entende — ele agora apelava para a disciplina de Davien — que um guerreiro, quando cansado e entediado, está mais disposto a ferir rapidamente pra acabar logo com isso! Logo não vamos mais coordenar nossas ações direito, e vamos acabar se machucando!

-Você vai acabar se machucando — corrigiu Davien — Agora, me dá licença, fique parado enquanto eu aplico o que eu desejo muito que seja o golpe final, assim...

E ergueu a polearm, para depois descê-la no chão com toda a força. Arroiz, impaciente, rolou para o lado, depois pulou para a frente e golpeou Davien com o machado.

Bem no rosto. O golpe fez um corte longo, mas não profundo, na bochecha direita do guerreiro. Davien gemeu de dor, levando a mão à bochecha.

Arroiz abaixou o machado.

-Está vendo? — disse, em tom óbvio — É isso o que eu quero dizer. Acho que já podemos...

Com um rugido, Davien puxou a polearm para trás e, repentinamente, a girou como se fosse um taco de baseball na direção de Arroiz, que só teve tempo de levantar o machado à sua frente para se proteger. O golpe, que iria atingir diretamente o peito desprotegido do rapaz — e provavelmente o dividiria em dois — acertou o machado. Ouviu-se o barulho de aço contra aço, mas a força e a raiva e Davien eram tantas, que a força de Arroiz não foi suficiente, e ele foi arremessado longe, como uma bola de golfe.

Arroiz voou vários metros acima do chão, e só parou ao bater no meio do nada — ou melhor, ao bater no campo de força invisível ao redor da arena. Caiu no chão, visivelmente ensanguentado, e não se moveu mais.

A multidão pareceu prendeu a respiração. Davien ficou ali parado, respirando longamente, sem saber o que fazer, enquanto a raiva e o ódio iam se apagando lentamente, mas ainda o consumindo. Momentos depois, Nuck chegou com os antigos tutores, olhando incrédulo para o corpo estatelado no chão, depois para Davien.

-Acho que você tem seu vencedor — Davien disse, simplesmente.