Notas iniciais
BRIANA IS NOT DEAD

Namorar a distância fora uma decisão muito difícil para nós dois.

Só conseguimos toma-la numa tarde de dezembro, quatro dias antes do Natal. O sentimento de confraternização prevalecia, apesar de ser um feriado cristão, e muitos campistas estavam se preparando para voltar para casa a fim de passar esse dia especial com a família.

Já eu estava sentada na beirada de minha cama. Olhava para o papel em minhas mãos trêmulas, cujo branco da folha refletia a forte luz solar que passava pela janelava, irritando meus olhos.

Eu lia e relia o que estava escrito no papel. A angustia parecia estar entalada em minha garganta e estava ficando cada vez mais difícil de respirar.

Briana sentou-se ao meu lado sem dizer uma palavra. Ela pousou as mãos sobre o colo e desviou seus olhos sapientes para a folha que eu segurava, lendo a minha desgraça.

Entreolhamo-nos por um segundo e ela me deu um pequeno sorriso empático. Aliviada com a compreensão de minha situação, soltei um muxoxo. Deixei que meu corpo pendesse para trás e deitei-me na cama da cintura para cima. Briana fez o mesmo.

— Três mil quinhentos e vinte e quatro... — eu disse em voz alta meu mais novo número de azar. — Quilômetros.

— É, parece que você está encrencada.

— Não é nessa hora que você fala algo ambíguo para eu entender depois de um ano e então resolver minha vida?

Ela ergueu o canto da boca em um quase sorriso, fitando o estrado de madeira da cama de cima. Ficou algum tempo amuada, os dedos inquietos tamborilando o colchão ao lado de seu corpo.

— O amor é algo que foge a qualquer tipo racionalização. — ela disse — Se quer saber, se eu entendesse do assunto, não estaria sozinha aqui no acampamento.

Engoli seco, tentando não sucumbir ao desespero. Eu já conversara com Jenny e nada produtivo tinha saído daquela conversa. Se Briana não conseguia desatar aquele nó em minha cabeça, ninguém mais podia.

— Você já amou uma vez.

Os olhos dela subitamente se entristeceram.

— Já fui amada, mas não soube amar. E paguei um preço muito caro por isso.

Observei a cicatriz torta em seu ombro desnudo, que ela dissera ter ganho no dia em que tudo aconteceu. Aquele tudo que eu apenas fazia uma vaga ideia do que era. Clarck me vetou antes que eu começasse a investigar o que fora aquela trágica história. É melhor esquecer certas coisas, ele me disse.

— Mas ele era muito, muito especial para mim. — ela respirou fundo e juntou as sobrancelhas em um movimento arqueado, como se tentasse afastar um choro que ameaçava chegar. Ela deitou-se de lado e apoiou a cabeça sobre o punho fechado. — Você sabe que tem que decidir isso hoje, não sabe?

Assenti.

— Sei, só que é mais difícil do que parece.

— Se você fizer o que acha ser mais sensato, talvez se arrependa depois. Vai evitar dores futuras, mas vai sempre ficar com aquele “e se” martelando na cabeça. E é provável que seus sentimentos por ele não se diminuam por um bom tempo.

Era horrível, essa hipótese. Imaginei-me numa festa com Jenny, encolhida em um canto vendo todos dançarem — livre para fazer qualquer coisa pela moralidade, mas presa por meu coração.

— Por outro lado, se você fizer o que quer fazer, porque eu sei que você quer, talvez fique mais piradinha do que é. Relacionamentos a distância podem te deixar neurótica.

Senti minha garganta se fechar mais ainda.

— Eu sei, eu sei. Já pensei nisso. Muito. Nick vai voltar para as pessoas que fizeram parte da vida dele. Que foram muito importantes. E se elas voltarem a ser, até demais? E se ele conhecer alguma pessoa nova, que possa ficar perto dele, vê-lo quando quiser? Como posso competir com isso?

— E se você conhecer uma pessoa nova? — rebateu Briana.

Prendi a respiração. Até então, eu nunca havia pensado nessa possibilidade. Eu estava preocupada demais pensando em todas as motivações plausíveis para Nick me dar um pé na bunda assim que voltasse para Utah.

Como eu reagiria se alguma pessoa legal demonstrasse algum interesse em mim?

Sacudi a cabeça, afastando a ideia.

— Não. — eu disse. — Eu vou ser fiel.

— Ninguém disse que você tinha que trair. É só alguém chegar causar alguma turbulência básica na sua vida.

— Mas... Mas a gente é diferente! Ai, Briana, a gente tem que ser diferente. Senão, o que vai ser de nós?

Briana tornou a sentar.

— O segredo de uma boa decisão é ter confiança em si mesmo. Vocês são diferentes ou não? Você tem até às seis da tarde para saber e assinar o formulário de saída. Esse é o conselho do dia, gafanhoto. Se isso te conforta, sei que vai escolher o que é certo.

— Como tem tanta certeza?

Ela apenas sorriu e se levantou, dirigindo-se até o covil e me deixando sozinha para tomar a decisão.

Eu odiava quando ela bancava a sensei.

Li mais uma vez o formulário em silêncio. Respirei fundo.

Era a hora.


Marchei pela floresta com passos cheio de decisão. Andava tão rápido que eu nem aproveitava a belíssima iluminação da floresta à tarde, quando as copas das árvores filtravam os raios solares e deixavam o ambiente parcialmente claro com a alvura deles.

Nick me esperava deitado sob a grama, os olhos fechados, absorto com sua própria divagação. Ele sentiu minha aproximação e abriu um dos olhos, contente. Então ele me viu, e sua feição tornou-se séria, refletindo a minha.

— Você recebeu o formulário, não recebeu?

Não respondi.

Ele levantou-se do chão e bateu em seu short de tactel, expulsando os pedacinhos de grama e terra seca que se agarraram ali. Olhava-me preocupado, como se tivesse medo do que poderia acontecer a seguir.

Era insuportável encará-lo. Tudo nele parecia ser tão certo. Os cabelos bagunçados esperando por um corte, a discreta pinta perto de sua boca, os ombros relaxados, a linha de expressão entre suas sobrancelhas. Tudo parecia ser tão... meu.

Antes que perdesse a coragem que havia reunido, adiantei-me ao dizer:

— Foram os melhores meses da minha vida.

Nick estacou no lugar, de repente tenso. Sua expressão aflita me pegou de surpresa, cortando-me o coração. Como eu poderia fazer isso com ele?

— Não diga que...

— Vai ser melhor. Você não vê? A gente não consegue ficar nem três horas sem se ver. Como a gente vai aguentar os três mil quinhentos e...

— Vinte e quatro quilômetros. Eu sei.

Ele virou o rosto, pensativo e triste de um modo que eu só tinha visto uma vez: quando ele me contara sobre a morte de sua irmã.

As lágrimas fizeram meus olhos arderem. Tentei afastá-las. Nick não iria facilitar as coisas para mim, então eu precisava assumir o controle daquela situação. Só que a dor era forte demais para isso.

— Não vai ser bom para a gente. Talvez acabe mal e... eu não quero te perder assim.

Ele fazia que não com a cabeça continuadamente, sem dizer nada. Peguei sua mão e cheguei mais perto.

— Vai pra casa, Nick. Não quero que você vá e deixe algo para trás.

Então ele apertou minha mão com força e olhou firmemente para dentro de meus olhos.

— Você me ama? Você me ama de verdade?

Sorri timidamente e pisquei, fazendo com que lágrimas grossas pulassem fora de meus olhos e tracejassem um caminho por minha bochecha. A resposta era tão óbvia que parecia ser até brincadeira dele.

— Deuses, é claro que eu te amo. Te amo mais que tudo, mas...

— Então pro inferno com esses três mil quinhentos e vinte e quatro quilômetros! Porque eu te amo e não vou deixar você ir embora. Está me ouvindo? A gente não vai terminar.

— Não é tão simples.

— Não quero saber.

Ele segurou meu rosto entre suas mãos e começou a me beijar. Fechei os olhos e pus uma das mãos no topo de sua nuca, puxando-o para mim. Nick me conduziu até a árvore mais próxima, pressionando-me contra o tronco.

Senti meu mundinho frágil girar na órbita certa novamente. Algo se acendeu dentro de mim e era como se isso gritasse A gente pode fazer qualquer coisa! Eu acreditei naquilo imediatamente, e lutei contra uma gargalhada de felicidade que implorava parar sair. Todas as dúvidas se dissiparam e só havia uma alternativa: Nick.

Ele me pressionava cada vez mais, como se quisesse garantir que eu não iria embora. Passei minhas mãos por seu quadril e o juntei com o meu, assegurando que eu não o faria. Seus lábios foram da minha boca para meu queixo, e do queixo para meu pescoço. Estremeci.

A filha de Atena estava perdendo toda e qualquer capacidade de pensar.

— Promete — ele disse antes de beijar delicadamente o lóbulo de minha orelha — que a gente vai ficar junto?

Virei o rosto para lhe dar mais um beijo, então colei nossas testas para encarar seus olhos clamadores.

— Eu te amo. — respondi, ofegante. — Te amo tanto.

— Promete?

Aguardei um segundo, tomando consciência da importância daquilo.

— Prometo.