Sentada no banco do piano, eu mal fazia ideia porque um dia já cogitara terminar nosso namoro. Eu dedilhava preguiçosamente no teclado a música mais melosa que eu conhecia do Elton John e tentava não suspirar a cada três segundos.

Nick apareceu na sala arrumando a barra do moletom.

Endireitei-me no banco e olhei para ele e seus cabelos lascivamente molhados. A água ajudara e seu arranhão não era mais que uma linha vermelha no rosto. Ele passou a mão pelos cabelos, deixando-os arrepiados.

— Ficou pequeno? — indaguei.

Nick esticou os braços e o moletom subiu junto, deixando amostra seu umbigo. Soltei uma risada.

— É melhor que aquele trapo, pelo menos.

Dei espaço para ele sentar-se ao meu lado, o que ele fez sem dizer nada. Nick semicerrou os olhos para as teclas do piano e com o dedo indicador rígido começou a tocar o que eu imaginei que fosse Old MacDonald had a farm.

Aplaudi, rindo de seu esforço.

— Obrigado, obrigado. — ele se curvou. Depois olhou para baixo do piano. — Ei, para que servem esses pedais? — ele disse ao pisar em um deles como se fossem arreios de cavalo.

Chutei seu pé para longe de meus pedais.

— Cuidado! É um piano delicado! — fiz carinho sobre a madeira escura trabalhada. — São basicamente para mexer nas cordas dentro do piano. — ele arqueou uma das sobrancelhas, surpreso, e eu tive que me conter para não rolar os olhos. — Sim, Nicholas, piano é um instrumento de corda.

Pus o pé sobre o pedal da direita.

— Esse é para prolongar a vibração da nota.

Toquei um dó maior enquanto pisava no pedal, deixando que o som se ampliasse e repercutisse pela sala inteira, e meus ouvidos se deleitaram.

Fui para o pedal do meio.

— Esse aqui abafa o som. Muito útil usar, principalmente quando você está tocando.

— Engraçado.

— Eu sei. — dei um pequeno sorriso. — E o da esquerda é para, digamos, suavizar as notas.

— Gosto de suave.

Ele me arrancou um beijo antes que eu pudesse dizer alguma coisa.

Nick pôs sua mão em volta de minha cintura, me apertando, declarando posse. Entreguei-me a mágica sensação de tê-lo pertinho de mim, coisa que eu queria e não queria voltar a me acostumar. Seria perfeito, porém mais cedo ou mais tarde ele teria que partir. Eu não queria provar da despedida novamente.

Tomar consciência disso tornou o beijo desesperado, uma silenciosa súplica para que ele ficasse. Que não me deixasse de novo. Para que ele soubesse o quanto eu precisava dele.

— Por que não toca um Tchai-kovs-ky? — Nick perguntou tão perto de meu rosto que nossos lábios ainda se encostavam.

Era fofo como ele ainda não conseguia dizer o nome de meu compositor favorito de uma vez.

— Vai querer ouvir uma suíte inteira de O Quebra-Nozes?

— Vou querer assistir a pianista mais bonita de todos os tempos tocando uma suíte inteira de O Quebra-Nozes.

Dei-lhe um selinho antes de me sentar direito na banqueta novamente.

— Acho que vou ter que tocar o ballet inteiro, então.

— Também não avacalha.

Dei risada.

— Quer o que? Bach? Beethoven?

Ele fez uma careta.

— Que tal algo desse século?

— Sem chances.

— Século passado?

— Podemos negociar isso aí. Uma massagem em mim e você escolhe a música... Até a década de oitenta!

Nick fez cara de bravo.

— Não vou cair nas suas barganhas.

Sorri, mas logo em seguida expirei, tristonha.

— Ai, Nick. Como vamos mandar você de volta para casa?

— Já me quer longe?

Baixei os olhos para as teclas amareladas do piano de segunda mão.

— Não mesmo.

— Então a gente pensa nisso só depois.

— Bem depois... — as palavras flutuaram no ar. — É uma pena, mas acho que você vai ter que passar a noite comigo, então.

Deparei-me com seus olhos brilhando.

— Que lástima. — ele disse, mas o canto da boca estava erguido em um meio sorriso travesso.

Peguei sua mão e comecei a brincar com seus dedos.

— E a gente tem um bom tempo ainda — falei, mexendo em seu mindinho. — Temos que ocupa-lo.

— Sem dúvidas.

— Urgentemente.

— Uhum.

Entrelacei nossos dedos e respirei fundo.

— Nick, vou te perguntar uma coisa séria. Está bem?

Ele engoliu seco.

— Sim...?

— A gente já está namorando há um bom tempo e eu estive pensando...

— O que?

Ele apertou forte meus dedos e assumiu uma feição ansiosamente aflita. Percebi que ele prendeu a respiração, nervoso.

— Ai, que vergonha. — balancei a cabeça. — É que a gente nunca...

— Fala.

Fiz uma pausa longa pausa e estudei seu rosto. Eu podia jurar que ele estava prestes a me sacudir pelos ombros e me fazer falar logo.

— Nick, quer assistir Meninas Malvadas comigo?

Notas finais
Se querem saber qual música do Elton John era, eu super arriscaria Your Song. Mas é isso aí, galera. Foi bom reviver meu lado Samantholas (...e a Briana). To tão iwegnrijvndsinawfemv com isso que to até abandonando minhas tendências Sed (nao msm). Obrigada por lerem e beijos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!