Miles and miles away
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu amava algumas coisinhas da vida: o Central Park no meio do outono, dias de tempestades, s’mores, leituras da madrugada e, acima de todas de todas essas, ficar sozinha em casa. Talvez, se meu pai soubesse disso, não morreria de pena toda vez que ele me avisasse que teria de viajar a trabalho por alguns dias.
Cheguei em casa ainda rindo da besteira que Jenny me dissera na esquina onde nossos caminhos se divergiam. Joguei as chaves sobre o aparador do hall de entrada e fechei a porta atrás de mim, barrando a circulação do ar gelado da escadaria.
Deliciei-me com o silêncio do apartamento vazio e inspirei fundo, como se eu pudesse absorver a beleza daquilo. A ausência da movimentação dentro de casa era quase que um hino de liberdade para mim.
E como primeiro decreto de uma adolescente livre, decidi caçar alguns filmes para assistir. Rumei com um sorriso idiota no rosto até o rack, onde meu acervo de quase duzentos filmes me esperava para uma noitada.
Não importava se eu estava terrivelmente cansada por conta da noite mal — ou nem — dormida. Não importava se, mesmo eu implorando por cama, Jenny me fizera ficar no colégio por mais duas horas para ajudá-la a coordenar um projeto audiovisual do clube de música. Eu iria assistir tantos filmes quanto eu pudesse até bater uma e meia da manhã, horário que começava o especial de Doctor Who.
Sentei-me sobre o tapete escuro e felpudo que cobria o chão entre os sofás e o rack, suprimindo a tentadora ideia de deitar-me nele e enfiar meu rosto nos feltros de lã. Abri o compartimento que guardava os DVDs cuidadosamente separados por gênero e ordem alfabética e comecei a procurar algum filme que prendesse minha atenção.
— Vamos de drama? — perguntei a mim mesma, olhando os dois versos da capa do primeiro DVD que peguei. — A Felicidade Não Se Compra?
Guardei o filme no lugar e peguei outro.
— Um amor para recordar. — li em voz alta, fazendo uma careta. — Chances que vou ver isso sozinha.
Rolei no chão até minha mochila que estava largada perto do sofá de três lugares, aproveitando ao máximo da suavidade do tecido quentinho do tapete em contato com minha pele. Vasculhei o bolso lateral e, assim que achei meu celular, digitei rapidamente uma mensagem para Jenny:
Traga Doritos, um pijama e seu traseiro gordo. Eu faço a pipoca.
Eu já ia desligar o celular — não era muito seguro para um semideus ficar usando essas modernidades toda hora —, mas Jenny me respondeu imediatamente.
Acredite, vc não vai querer que eu vá. Se divirta. XOXO.
Olhei para o led do celular e reli a mensagem mais duas vezes, ainda sem entender o que ela quis dizer com aquilo. Jenny sempre adorava falar por entrelinhas e eu já estava acostumada a isso, mas nem mesmo assim eu consegui entender qual era a dela.
Desliguei o aparelho, mesmo querendo ficar relendo aquelas palavras até elas me emitirem alguma resposta.
Desconfiada, voltei à minha busca.
— Meninas Malvadas. — joguei a capinha do DVD do sofá. — Esse vai ser o primeiro.
A campainha soou, atrapalhando minha conversa de louco. Levantei resmungando, pensando que fosse o babaca do síndico querendo encher o saco mais uma vez. No entanto, fui surpreendida quando abri a porta e dei de cara com a última pessoa que esperava encontrar naquele dia.
— Nick? — minha voz saiu meio esganiçada. — O que você está... Hã!?
E, apesar de dever estar no outro lado do país, apesar de estar todo suado e com um belo arranhão no rosto e com a camiseta rasgada no ombro, lá estava meu namorado me encarando e sorrindo feito uma criança que acabara de ganhar um sorvete.
Ele encostou-se no batente da porta de modo despojado, como se a sua aparição fosse algo trivial.
— Eu estava passando por aqui perto e...
Não deixei ele terminar a piadinha que muito provavelmente deve ter ensaiado. Puxei-o para um abraço tão apertado que o fez soltar alguns grunhidos de dor. Ele não pareceu ligar — pelo contrário, me abraçou mais forte ainda.
Dei passos desengonçados para dentro do apartamento, levando-o junto comigo. Nick só afrouxou o abraço quando me beijou avidamente. Sorri contra seus lábios. Meu peito pareceu soltar fogos de artifício. Era surreal tê-lo comigo ali, naquele momento. Como eu poderia imaginar?
Beijei-o de novo. E mais uma vez. E eu poderia continuar beijando-o se ele não tivesse recuado gentilmente.
— Um dia você me deixa terminar uma frase. — ele comentou, abrindo um sorriso.
Respirei um pouco, admirada por ainda sentir as borboletas no estômago.
Dei-lhe um último beijo, só para garantir que aquilo tudo era real.
— Quem sabe. — deslizei minhas mãos por seus braços até elas chegarem às dele. Entrelacei nossos dedos. — O que aconteceu com você? O que diabos você está fazendo em Nova York?
— É uma história levemente engraçada.
— Estou com tempo.
Levei-o para a sala e fiz com que ele sentasse no sofá, deixando-o lá enquanto ia para a cozinha buscar um copo de água para ele.
Peguei-o observando o local quando voltei para a sala, seus olhos ora estudando meu Baldwin — o piano vertical que papai me dera dois anos antes — e o armário de prataria do ambiente ao lado, que servia como sala de jantar, ora analisando o rack e os DVDs jogados no chão, ora contemplando o quadro pendurado perto do hall de entrada.
— Meu pai que pintou. — eu disse ao entregar-lhe o copo d’água, referindo-me ao quadro. — Parece um quadro impressionista, não acha? Mas tente dizer isso a ele e verá a fúria personificada em um cara de meia-idade.
Nick arqueou as sobrancelhas.
— Não falar sobre as tendências impressionistas do sogrão. Anotado.
Dei uma pequena risada. Mal ele sabia que teria que anotar muitas outras coisas para conhecer o sogrão.
Sentei-me ao seu lado, com as pernas para cima do sofá. Nick bebericou a água e pousou o copo na mesinha de centro, então envolveu meus ombros com um dos braços. Senti meu corpo inteiro relaxar ao receber seu abraço tão familiar.
— Certo. — ele começou. — Então eu estava voltando para casa depois do colégio. Irritado, aliás. Se o professor Harris marcar em cima de mim de novo eu juro que...
— Menos ódio, mais história.
Nick revirou os olhos.
— Mas ele é um saco! Ok, então. Eu estava passando pelo Pioneer Park, que é caminho de casa. Eu olhei para o lado e... você nem vai acreditar. PIMBA! Tinha um cão infernal fazendo xixi na árvore do parque.
Sorri levemente ao imaginar a cena de um bichano de quase dois metros passando por despercebido no meio de um parque público.
— E você foi xeretar. — deduzi.
— Sim! Quer dizer, não! É que ele era muito parecido com o Spike. Aí pensei “Ah, Queen apareceu para uma visita.”. Tive que verificar.
Endireitei-me no sofá.
— Aposto que ela adoraria fazer uma visitinha. — alfinetei.
Nick me lançou um olhar divertido.
— E eu adoraria que ela viesse. — provocou ele, e ganhou uma cotovelada em resposta. — Ugh! Quanta violência! Você sabe que eu ia gostar mais de uma visitinha sua.
Olhei para minhas mãos.
— Você sabe que não posso. Não tenho um Cão Infernal de estimação. E os ônibus para lá são poucos. Além disso, ando ocupada com o clube de música. Você sabe, a ideia da Jenny de um canal no YouTube e essas coisas. E também o diretor viu no meu histórico o lance do quizzes e ele quer...
— Eu sei. Srta. Wikipédia ataca novamente.
— Sumi dos quizzes por dez meses. Eu tinha que voltar uma hora. Certo, volte para a história.
Ele franziu o cenho.
— Onde parei? — perguntou.
— Cão infernal fazendo xixi na árvore.
— Cão infernal fazendo xixi na árvore! Ah, então. Não era o Spike. Descobri isso um pouquinho tarde demais. E ele descobriu quem eu era um pouquinho cedo demais. Partiu para o ataque.
Peguei seu queixo e virei seu rosto de lado, para ver melhor o arranhão que marcava sua face direita na altura da maçã do rosto. Não era tão profundo, mas sangrara em determinado momento — ainda havia sangue seco por ali.
— Foi quando conseguiu isso? — indaguei.
— Nem lembro quando foi. Mas o bichinho era feroz. Saiu para cima e de mim, começamos a rolar e, de repente, tudo ficou preto. Aí senti meu estômago saindo pela boca. Quando abri os olhos... Adivinhe onde eu estava. Antes de chegar aqui. — ele mandou.
Mordisquei meu lábio, avaliando os lugares que me vinham à cabeça.
— Guatemala? — arrisquei.
— Quase! Estava em Idaho. — bufei, descontente com o chute errado. — Lutamos mais um pouco e aconteceu de novo. E tah dah! Acabei parando na Times Square. Ah, se eu fosse você, não ligava no noticiário. Foi meio... conturbado para acabar com o garotão.
— Eu deveria me preocupar?
— Nããão. Apenas tivemos uma pequena confusão com os pedestres. E uns carrinhos de cachorro quente que viraram, assim, acidentalmente. Mas o meu rostinho lindo conseguiu ficar longe do alcance das câmeras, não se preocupe.
Mandei-lhe um olhar de repreensão, este amansado com um beijo entusiasmado que me arrancou até um suspiro.
— Aí me lembrei: — ele disse com o rosto perto do meu — Nossa, a minha namorada linda mora em algum lugar por aqui. Ela iria gostar de uma surpresa.
— Eu amei. — eu disse, encarando seus lábios. — Como descobriu onde fica o endereço?
Ele endireitou as costas, animado.
— A parte mais nada a ver e engraçada de todas! O que eu, um pobre garoto de Provo, conhece de Nova York além do Empire State, a rodoviária e o Central Park? Nada! Então saí perguntando para as pessoas onde ficavam essas coisas, para saber qual estava mais perto de você.
— Nenhum deles é exatamente perto.
— Percebi. Mas nessa louca aventura de garoto-perdido-em-Nova-York, avistei uma criatura com headphones cantando como se ninguém estivesse ao lado e brincando com seu cachecol roxo.
Sorri ao me lembrar da mensagem que recebi minutos antes.
— Jenny.
— Exato! Contei mais ou menos o que aconteceu, ela riu da minha cara, claro, e depois me explicou como chegar aqui. Mas tive prometer que ia passar na casa dela depois.
— E agora você está aqui.
— E agora estou aqui. — ele passou as mãos pelas coxas, olhando ao redor e respirando por entre os dentes. — Já chega. Quero conhecer o apartamento!
Nick levantou do sofá em um rompante e agarrou minha mão, trazendo-me consigo. Ele me arrastou pela cozinha e pelo largo corredor, parando na frente de uma das portas.
— Seu quarto? — ele perguntou.
— Do meu pai.
Ele abriu a porta e deu uma olhada lá dentro.
— Você é muito curioso! — eu disse ao fechar a porta.
— Recebi tantas cartas suas imaginando onde você poderia estar enquanto as escrevia. Isso é mais agoniante do que você pode imaginar.
Ele andou até a outra porta.
— E aqui? Seu quarto?
— Quase. O banheiro social. — ele me mandou um olhar entediado. — A do lado.
Ele deu um sorriso bobo e foi, alegre, até a próxima porta.
Lembrei-me tarde demais que meu quarto estava um pouco bagunçado, o que era totalmente injusto. Ele passava o tempo inteiro um brinco de tão arrumado e quando meu namorado vinha me visitar a cama ficava por fazer e minha escrivaninha coberta por partituras e outros papéis.
Por sorte, Nick não pareceu se importar.
Seus olhos capturavam cada parte do quarto — as fotos distribuídas aleatoriamente em meu mural, os livros em minhas prateleiras, o edredom estampado com flores, a cortina branca fechada até a metade.
Ele ficava tão lindo com seus olhos brilhando de contentamento que eu poderia ficar admirando-o por minutos.
— Gosto de escrever sentada ali. — eu disse, apontando para o chão ao lado do pé da cama.
Eu não entendia por que aquilo era tão importante para ele. Era só o meu quarto. Nick, contudo, parecia maravilhado, como se ele tivesse descoberto o mistério do ano.
Ele me puxou pela cintura para mais perto dele.
— Vai tocar piano para mim?
Diminuí a distância entre nós até as pontas de nossos narizes roçarem uma na outra. Seus olhos apresentavam um tom de verde tão intenso que parecia ser impossível desviar o olhar deles. Droga, aquele garoto me tinha na palma da mão e nem sabia.
— Vamos fazer assim. — eu disse baixinho. — Você toma um banho, lava esse machucado e veste algo decente. Estarei esperando no piano.
Ele inclinou-se para frente e me beijou.
Se alguém me dissesse que aquilo tudo era um sonho, eu acreditaria. Não era possível ele estar ali, dizimando os centímetros que nos separavam. Ele não podia estar ali com seus lábios salgados e o jeito de príncipe encantado que nunca esperei encontrar até eu realmente conhecê-lo.
Mas estava.
E era simplesmente tão bom. Havia um tremendo rebuliço em meu peito, mas eu gostava disso. Eu sentia como se fosse me derreter a qualquer segundo, e juro que quase foi assim quando Nick mordeu meu lábio inferior e o esticou com seus dentes.
— Senti tanto sua falta. — ele disse.
Era possível se apaixonar mais de uma vez pelo mesmo cara?
Embora eu estivesse com minha habilidade de falar momentaneamente debilitada, consegui responder:
— Eu também.
Lutando contra minha própria vontade, soltei-me dele e fui vasculhar meu armário. Joguei o maior moletom que eu possuía para ele e torci para que coubesse. Nick abriu o moletom e colocou na frente no corpo, olhando para baixo.
— Você acha que esse aqui ressalta minhas curvas? — ele perguntou, com ar gozado.
Encostei minhas costas no armário e cruzei os braços.
— Sabe, geralmente é o namorado que empresta o moletom para a namorada, e não o contrário.
— Oito meses juntos e você não ainda não aceitou o fato que somos um casal atípico?
Meu rosto iluminou-se quando lembrei que estávamos a dois dias de quatro de março, quando completaríamos mais um mês de namoro.
— A propósito, que horas teu pai chega?
Segurei um sorriso e saí do quarto.
— Não chega. — respondi ao passar pela porta, imaginando-o arregalar os olhos com a informação.
Entrei no quarto de meu pai e fui até a cômoda encostada na parede, onde ele guardava as cuecas na terceira gaveta. Nick parou sob o batente da porta e ficou observando-me revirar as samba-canção de meu pai.
— O que você quer dizer com “não chega”? — ele perguntou, receoso.
Franzi o cenho, frustrada por não estar achando a cueca horrorosa de meu pai que eu tinha encolhido por acidente na lavadora.
— Ele está em um congresso. Em Boston. Uma discussão sobre novos registros incas que acharam, coisa assim. Super importante.
— Hum.
Achei a maldita cueca e dei um sorriso vitorioso. Entreguei-a para Nick e o empurrei até a porta do banheiro.
— As toalhas ainda não foram usadas, então pode pegar.
Ele meneou a cabeça e entrou no banheiro, beijando-me rapidamente mais uma vez antes de fechar a porta atrás de si.
Bem, isso não acontece todo dia.
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