O dia antes da viagem foi uma maratona. Antonella decidiu que precisava de uma "armadura" nova para enfrentar o inverno coreano e as reuniões na Kang Corp. Ela foi ao melhor shopping da região, mas manteve sua essência: queria elegância, mas com aquele toque solar que era sua marca registrada.

O Guarda-Roupa

Ela entrou em uma boutique de luxo e escolheu peças estratégicas:

Sobretudos Impecáveis: Um em tom de areia e outro em um vermelho vibrante, para não sumir no meio do cinza de Seul.Alfaiataria Moderna: Blazers bem cortados e calças pantalonas que exalavam a autoridade de uma futura psicóloga organizacional.O Toque Brasileiro: Vestidos de tricô leve e sedas coloridas para usar por baixo dos casacos, mantendo o calor do Nordeste perto da pele.

— Você vai arrasar, Bella! — dizia sua melhor amiga, ajudando-a a escolher botas de couro que aguentariam as longas caminhadas por Gangnam.

A Assinatura Olfativa

Depois das roupas, Antonella foi à perfumaria. Ela queria um cheiro que fizesse Ji-hoon lembrar do mar, mas que também impusesse respeito nos corredores da empresa. Ela escolheu um perfume com notas de bergamota, flor de laranjeira e um fundo de âmbar amadeirado. Era fresco como uma manhã na Pajuçara, mas sofisticado como uma noite em Seul.

...

Ao chegar em casa com as sacolas, ela começou a organizar as malas. O pai apareceu na porta do quarto, observando a movimentação.

— Muita roupa de frio para quem nasceu no sol, hein? — ele brincou, mas o olhar era de saudade antecipada.

— É para eu não congelar antes de conseguir mudar o mundo lá, pai — ela respondeu, indo dar um abraço nele.

Ela guardou, entre os perfumes novos e as roupas de grife, um pacote bem fechado de farinha de milho e um pote de doce de caju. O luxo de Seul era incrível, mas ela não ia sem levar um pedaço do seu chão.

Enquanto fechava o zíper da última mala, o celular vibrou. Era uma foto de Ji-hoon. Ele estava no closet dele, que agora tinha um lado completamente vazio, esperando por ela.

"O seu espaço já está pronto. Só falta você preenchê-lo com o seu barulho e o seu perfume. Te vejo em 24 horas."

Antonella respirou fundo, sentindo o aroma do perfume novo no pulso. Ela estava pronta. O avião não era mais um lugar de encontro por acaso; era o veículo que a levaria para o seu destino.

A mesa estava mais farta do que o normal. O cheiro da comida caseira inundava a casa, misturando-se ao aroma do perfume novo que Antonella havia passado no pulso. Era o último almoço, e sua mãe tinha feito questão de preparar todos os seus pratos favoritos.


Havia feijão tropeiro, arroz soltinho, macaxeira frita e, claro, uma carne de sol acebolada que desmanchava na boca.


— Coma bem, minha filha — disse a mãe, servindo uma colherada generosa no prato de Antonella. — Lá naquele lugar eles só comem pimenta e arroz grudento. Precisa levar sustância no corpo.


Antonella riu, mas sentiu um nó na garganta. Cada garfada tinha um gosto de infância, de domingos na praia e de conversas jogadas fora na varanda. Seus irmãos disputavam o último pedaço de macaxeira, tentando manter o clima leve, mas os olhares para a mala encostada no canto da sala entregavam a tristeza da partida.


— Ó, Bella — o irmão mais novo entregou a ela um pendrive. — Coloquei todas as nossas fotos aqui, e uma playlist de axé e forró das antigas. Se aquele coreano te deixar triste, você coloca o fone de ouvido, ouve um Calcinha Preta e lembra que você é de Alagoas, viu?


Todos riram, e até o pai, que estava mais calado, soltou uma risada discreta. No final do almoço, ele se levantou e trouxe uma pequena caixa de madeira.


— Para você nunca esquecer de onde veio — ele disse. Dentro, havia um amuleto de artesanato local, feito de palha e conchas da Pajuçara. — O mundo é grande, minha filha, e eu fico feliz que você tenha coragem de explorá-lo. Mas lembre-se: essa porta aqui nunca terá chave para você.

Antonella abraçou o pai, deixando algumas lágrimas caírem. Aquele almoço era o seu combustível. Ela estava levando na bagagem perfumes franceses e roupas de grife, mas na alma, ela levava o tempero daquela mesa e o amor incondicional daquela família.

A mala de Antonella estava um desafio de engenharia: ela precisava equilibrar os casacos pesados e os perfumes novos com as lembranças que não podiam ficar para trás. Cada item dobrado era um pedaço da sua história em Maceió que ela guardava com cuidado. Ji-hoon ligava a cada poucas horas, a voz ansiosa, contando os minutos para o pouso dela em Incheon.

No segundo dia, o clima na casa era de uma correria silenciosa. O almoço de despedida tinha deixado um gosto de saudade, e agora o carro estava parado à porta, pronto para seguir em direção ao Aeroporto Zumbi dos Palmares.

No Aeroporto

A comitiva dos Mascarenhas chamava atenção no saguão. Era o pai, a mãe, os irmãos e até alguns primos que fizeram questão de aparecer. O barulho da família contrastava com o ambiente estéril do aeroporto.

— Não esqueça de ligar assim que fizer escala! — a mãe repetia pela décima vez, conferindo se o casaco de lã estava acessível na mala de mão.

— Se ele não estiver lá te esperando, você dá meia volta! — brincou o irmão, embora o abraço que deu nela tenha sido o mais forte de todos.

O pai de Antonella, que tinha mantido a postura firme durante todo o processo, foi o último a se despedir. Ele segurou as mãos da filha e olhou para o painel de embarque, onde o destino "Seul" brilhava em letras digitais.

— Vai lá, Bella. Mostra para eles que o sol do Nordeste brilha em qualquer lugar — ele sussurrou, dando um beijo na testa dela.

O Portão de Embarque

Ao atravessar a Polícia Federal e olhar para trás uma última vez, Antonella acenou para a família que ainda pulava e gritava seu nome da área pública. Quando ela finalmente se sentou na poltrona da primeira classe, o silêncio e o luxo do avião pareceram estranhos.

Ela abriu a bolsa e sentiu o cheiro do perfume novo que tinha escolhido. No bolso lateral, encontrou um bilhete que o pai tinha escondido: "Você nunca estará sozinha".

A aeronave começou a taxiar pela pista. Pela janela, Antonella viu o mar azul de Alagoas se tornando uma linha fina no horizonte enquanto o avião subia. Em menos de 48 horas, ela cruzaria o mundo. O frio de Seul a esperava, mas o calor que ela levava no peito era o suficiente para derreter qualquer iceberg.

Notas finais
Que emoção! ✈️😭 A Antonella oficialmente partiu! A velocidade com que tudo aconteceu — dois dias — mostra a urgência desse amor. Agora não tem mais volta. O próximo capítulo é em solo coreano!