Migalhas no caminho
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Quem não me conhece frequentemente me vê assim, correndo pela cidade, meio enrolada, um pouco atrasada, esbaforida. E lá estava eu, em um dia atípico, tranquila, a caminho de casa para banhar-me e sair para o meu tão esperado encontro...
Eu havia sonhado com o Márcio na noite anterior. Somos amigos, ele já sabia que eu gostava dele, eu contara. Depois que contei continuamos amigos, menos próximos. Eu achei que tinha superado porque já estava saindo com outro rapaz, o Daniel. Eu gostava de sair com ele, mas tinha um pequeno problema, eu ainda estava apaixonada pelo Márcio, e foi o sonho, que acabei de citar, que me mostrou isso. Foi um sonho intenso, não transávamos se é o que vocês querem saber, embora já tenha sonhado com esse momento diversas vezes e eu aposto com que o Márcio é um cara bem dotado (se é que vocês me entendem). Eu acordei meio tensa, mas depois o dia foi ficando normal, e eu resolvi ir sim pra aula dele, e foi lá que conversamos. Eu queria poder escrever os detalhes da conversa, mas não foi nada demais e de fato eu não lembro. Às vezes eu tenho um "delay" com conteúdos, e o importante foi que nos encontraríamos ao final do expediente dele, eu mal podia esperar. Não marcamos horário, mas eu sabia que teria uns 40 minutos ainda.
Eu estava radiante, quando meu telefone tocou. Era minha mãe me pedindo pra buscá-la no Centro da cidade, porque meu pai estava se sentindo mal. Eu não pensei duas vezes, apenas peguei meu carro e fui ao encontro dos dois. Quando cheguei, meu pai já estava melhor, os deixei em casa, não no hospital. A essa altura do campeonato, eu já estava mais do que atrasada. Só troquei de roupa, por uma muda bem basiquinha que eu tinha no banco de trás. Foi a famosa dichavada.
Cheguei ao local e ele sequer olhou pra mim, mesmo assim eu o abracei. Tinha um senhor com ele, comendo batatas fritas. Eu apenas disse:
— Oi querido, já te explico o que aconteceu.
Olhando pra frente ele respondeu:
— Não importa, você podia ter mandado uma mensagem. Eu não fiquei esperando duas horas pra jantar com você, só queria confirmar se em algum momento você apareceria.
Neste momento o senhor se levantou e saiu da mesa. Eu me sentei, e comecei a explicar:
— Márcio, eu saí da sua aula e estava indo pra casa me arrumar, mas minha mãe me ligou, pediu pra eu buscá-los no Centro da cidade. Meu pai não estava se sentindo bem, tive que deixá-los em casa.
Ele me cortou:
— Pode parar. Eu não estou duvidando de que você teve um motivo justo, mas você poderia ter me avisado, eu não ficaria igual um otário te esperando desde as 8. Fui chamado de o homem solitário da mesa 14, com certeza fizeram várias piadas.
Eu achei essa atitude um tanto infantiloide e não consegui disfarçar, o que sem dúvidas piorou um pouco a situação.
— Essa é sua preocupação? O que pensaram de você? Talvez eu nem viesse, se meu pai estivesse muito mal e ido pro hospital, provavelmente eu estaria lá, e eu lembraria sim de te ligar, mas não na hora Márcio. Eu estava esbaforida.
Ele balançou a cabeça. Acho que no fundo percebeu que estava errado, mas apenas conseguiu verbalizar:
— Quer saber? Eu vou embora. Eu sabia desde o início que não deveria sair com uma garotinha tão nova.
E quando ele disse isso eu não fui capaz de esboçar reação. Não gostava quando as pessoas usavam idade em um tom pejorativo. E ele acabara de me "matar". Eu continuei sentada por um minuto ou dois e me retirei de cabeça erguida, não comi nada, simplesmente perdi a fome.
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