Midnight Sun
2 Capítulo 2 - Como enganar a morte
Notas iniciais
Faz dois dias que ela esta aqui e até agora não fez nenhum amigo, é como se ela fosse invisível e só eu a visse,como alguém pode não notar a presença dela? Eu nunca havia conseguido me aproximar o bastante para realmente reparar nela, mas percebi seu isolamento pois em todas as refeições ela era a unica que se sentava a mesa da Srta Edvard e das outras supervisoras, ate agora ela não havia se sentado com mais ninguém, e tinha algo nela que não tinha como passar despercebido, eu tinha que saber o que era, eu sabia apenas seu nome Lucy devido aos comentários que ouvi das supervisoras no dia que ela havia chegado , e por sua causa eu comecei a pesquisar sobre o que vem acontecendo comigo, mais como era de se esperar não achei nada que me ajudasse. Eu sabia apenas de 3 coisas:
1 — Se eu falar com alguém, mesmo que algumas palavras, a pessoa vai morrer
2 — Isso não afeta os animais pois nenhum nunca morreu por me fazer companhia
3 — Eu precisava achar um jeito de falar com ela
Se tudo isso que estava acontecendo comigo era possível, o que mais poderia ser possível? As vezes eu tento acreditar que são apenas coincidências, que eu sou somente uma pessoa muito azarada que já viu a morte muitas vezes, que simplesmente essas coisas aconteceriam mesmo comigo não estando ali, mas, sempre que penso sobre isso tenho uma sensação, como se algo dentro de mim gritasse que eu sabia que aquelas coisas não aconteceriam se eu não tivesse entrado na vida daquelas pessoas, elas estariam vivas, meus pais, meus tios, meus avós, as crianças do orfanato.
Eu estava deitada em minha cama, pensando sobre tudo isso e rabiscando um desenho em um caderno, assim que terminei dobrei o papel e o coloquei em meu bolso, me levantei e fui para a biblioteca, o único lugar onde tinha computadores, se eu tivesse sorte poderia achar algo que me ajudasse.
A biblioteca não era muito grande,tinha algumas estantes com livros e alguns computadores em um canto na biblioteca, fui para um canto afastado das poucas pessoas que estavam no local e me sentei, esperei o computador ligar e fui logo entrando no google, não sabia bem o que pesquisar, estava me sentindo nervosa,então digitei :
— " Todas as pessoas se aproximam de mim morrem,como evitar isso?"
Apertei pesquisar e como já esperava não achei nada que pudesse me ajudar, não era como se o google pudesse de alguma forma me dar uma solução magica para meus problemas, mas eu precisava tentar, então digitei algo que já estava na minha cabeça a alguns dias:
— " Como posso enganar a morte?"
Achei que também não fosse encontrar nada, mais um site me chamou a atenção, coloquei os fones para não haver reclamações e cliquei no link, neste site havia vários tipos de feitiços, tutoriais e coisas incomuns como ''compre seu sangue fresco aqui'' ou ''saiba o que usar em uma lua cheia'', já estava quase desistindo novamente quando vi um link com a descrição " Como enganar a morte", a curiosidade me tomou, cliquei no link e logo começou a passar um vídeo, nele tinha um homem , parecia ter uns 25 anos , tinha cabelos longos e negros, olhos verdes e uma expressão seria, ele estava sentado em uma poltrona com um livro nas mãos quando começou a falar :
" — Olá , para todos que não me conhecem meu nome é Alexandre, estou aqui para lhe ensinar a como enganar a morte.
Nessa hora ele se ajeitou na poltrona e passou os dedos pelos cabelos sedosos, fazendo uma pausa dramática antes de continuar:
'Isto não é uma tarefa fácil, se você está com problemas ou alguém está prestes a morrer eu te digo , é melhor você não brincar de Deus e tentar ajuda-las, tudo tem um preço e posso te dizer que o preço de enganar a morte não é nada barato.
Ele abriu o livro que estava segurando antes continuar :
'Estou aqui para lhes ensinar um feitiço, ele não vai salvar uma pessoa se ela estiver doente ou ferida, mais se ela estive morrendo por causas sobrenaturais, você pode fazer com que a morte não a veja, você pode lançar esse feitiço em algum objeto que ela use, um anel por exemplo, isso fará com que o anjo da morte não consiga localiza-la e leva-lá. Ela ficará invisível a seus olhos, mas tomem cuidado com o que desejam fazer com esse conhecimento, a morte não gosta de ser enganada "
Assim que terminou de falar o vídeo acabou e uma nova pagina se abriu, onde continha uma lista com vários ingredientes e um longo feitiço, explicando quando usar cada um dos ingredientes de forma correta, quando fazer e como, peguei o papel que eu estava desenhando mais cedo em meu bolso e rapidamente escrevi tudo nele, assim que acabei, tirei os fones e notei que estava suando frio, eu realmente estava disposta a fazer isso tudo para conhecer uma garota?
Desliguei o computador e decidi que tentaria fazer o feitiço hoje a noite, o feitiço exigiria uma lua cheia então era a oportunidade perfeita, os objetos não eram difíceis de achar, andei ate o refeitório onde peguei um vidrinho de sal sem maiores complicações , porem eu sabia que tinha que devolve-lo antes do fim de semana pois todos os itens eram contados e higienizados, e mesmo o sumiço de um saleiro seria motivo o suficiente para vários puxões de orelha da Srta Edvard.
Caminhei ate o jardim, ele era um lugar lindo e eu gostava bastante de me sentar lá, o orfanato era cercado por muros enormes, mas tinha um espaço bem grande por dentro, ali já fora uma mansão de um senhor muito rico, e que adorava cuidar de seu jardim, por isso mesmo com os muros enormes ele fazia questão que ele fosse igualmente grande, cheio de arvores frutiferas e um laguinho decorado ao centro. O espaço todo era enorme, quando o orfanato se mudou pra lá eles cortaram muitas das arvores para tentar ter uma visão mais ampla, mas as arvores sempre voltavam a crescer bem depressa então com o passar dos anos eles simplesmente desistiram de corta-las , tornando o jardim em uma pequena floresta particular. Desde o incidente com a orfã poucas pessoas tinham ido ate lá e estava estritamente proibido a ida ao lado sul perto do muro, onde ficava a arvore que a orfã fora encontrada.
Mas eu não me importava, me acostumei a ficar sozinha e o silencio desse jardim sem as crianças correndo e gritando era ate acolhedor. Andei em volta do laguinho procurando por algumas pedras circulares e coloquei algumas em meu bolso, estava pegando a ultima pedra quando a vi.
Ela estava parada no balanço da grande arvore que fica atras do orfanato ao lado leste, parecia estar perdida em pensamentos pois não havia expressado nenhuma reação ao me ver a encarando , me levantei lentamente e caminhei ate as arvores para sair do seu campo de visão, caminhei lentamente ate onde ela estava e fiquei encarando-a de trás de uma arvore, pude reparar que seus cabelos eram bem alaranjados, quase vermelhos, e sua pele branca continha sardas, seus olhos azuis pareciam perdidos em pensamentos e me peguei pensando qual seria seu cheiro, deveria ser maravilhoso.
— Oi?
Estremeci ao ouvir sua voz e me agarrei ao tronco para não fazer nenhum barulho, sera que ela tinha me visto?
— Tem alguém ai? — Gritou ela , porem seu rosto ainda continuava fixo ao ponto em sua frente, ela não estava olhando pra mim. Foi quando reparei a Srta Edvard saindo pelos fundos do orfanato e caminhando em direção a ela apressada
— Pelo amor de Deus menina, que susto, por onde você andou? Eu te avisei para não vir aqui fora é perigoso menina . — A Srta Edvard falava enquanto ia apressada ate ela mas mesmo assim ela não parava de encarar o lugar a sua frente, sem esboçar reação nenhuma . — Venha , vou te levar pra dentro já esta escurecendo , a janta é daqui a uma hora.
E foi somente quando vi a Srta Edvard a ajudando a se levantar do balanço e ela desdobrando o que parecia ser uma barra de metal que ia de sua mão ate o chão que percebi..
—Ela é cega..- Sussurei
Falei tão baixo que mal consegui ouvir minhas próprias palavras mas pude jurar que a vi inclinar um pouco a cabeça em minha direção como se estivesse tentando ouvir o que eu estava falando.
— O que foi Lucy? — Perguntou a Srta Edvard olhando em minha direção tentando enxergar entre as arvores
— Não foi nada Srta Edvard, podemos ir
Ela continuou olhando por mais alguns segundos para ter certeza de que não deixará escapar nada ate se dar por satisfeita e caminhar com Lucy ate a porta dos fundos do orfanato e sumirem de minha visão.
Eu não havia percebido ate aquele momento que ela era cega, isso fez minha curiosidade por ela aumentar cada vez mais, eu podia sentir que ela não era igual as outras crianças do orfanato. Caminhei rapidamente para fora do jardim e fui em direção ao meu quarto, separei todos os ingredientes que eu havia juntado ate agora e me preparei, faria o feitiço hoje a noite, eu estava prestes a fazer algo tremendamente arriscado, eu estava prestes a enganar a morte, e o Alexandre havia dito, ela não gosta de ser enganada.
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