Notas iniciais
Meia-noite
- Pelo que o Tom disse, aqui o tio dele guarda o que sobra das safras. Harry explicou, adentrando o armazém da fazenda ao lado de Juliana e Lucas.

- Pelo que o Tom disse, aqui o tio dele guarda o que sobra das safras. – Harry explicou, adentrando o armazém da fazenda ao lado de Juliana e Lucas.

- Taí algo que eu não sabia que ainda tínhamos na Inglaterra! – Juliana riu. – Digo, eu sempre cresci na cidade e nunca tinha visto uma fazenda de produção agrícola assim.

- Eu acho que me lembro vagamente desse lugar. – Lucas disse, olhando bem ao seu redor.

- Bom, se você costumava vir aqui todas as férias quando pequeno, é de se supor que já tenha visto aqui. – disse Harry.

O amigo concordou.

- Eu, na verdade, não sei como nunca encontrei o Tom aqui antes, já que ele morava aqui.

- Pelo que o próprio Tom nos contou, ele não costumava sair muito da fazenda, já que aqui já tinha tudo que ele usava para se divertir.

- Menino esperto. – Juliana disse. – Eu, tendo um lugar desses a minha disposição, também não ia sair daqui não.

- Pequena, você mal sai da frente do seu computador, quem dera sair de uma fazenda dessas. – Lucas comentou, abraçando a amiga pela cintura e a fazendo rir.

Logo a frente havia duas escadas laterais que subia para um segundo andar aberto de madeira.

No telhado, que cobria tanto o segundo quanto o primeiro andar, haviam cordas penduradas a um lustre grande, mas velho e quebrado.

- Isso não conta – a menina protestou.

Ela pôs o primeiro pé na escada e foi subir, mas um rangido alto a fez mudar de idéia.

- Pode ir, Ju! – Harry disse, subindo pela escada do outro lado. – Elas rangem o tempo todo, não podemos dar muita atenção à isso.

- Eu tenho medo. – ela admitiu, rindo de si mesma.

- Devia vir aqui em cima. – Lucas disse já no segundo andar. – É incrível aqui em cima e... Nossa, quanta coisa!

- Lu, vem aqui, você vai subir comigo.

Ela olhou para o alto e viu a cabeça do amigo surgir por cima de uma cerca de madeira que impedia alguém do segundo andar, de cair.

- Mas eu já to aqui em cima. – ele disse.

- Eu quero que você suba com a sua amiga medrosa, dá pra ser ou ta difícil? – ela pediu.

- Ta.

Ele riu dela e desceu, segurando a mão da menina enquanto ela subia.

- Isso é realmente frescura. – Harry riu.

- Judd, calado! – Juliana o olhou, ameaçadora.

Ela, ao chegar no segundo piso, pôde ver um canto cheio de coisas entulhadas. Objetos velhos e quebrados.

Do outro havia grandes latões de metal, em bom estado. Ela deduziu que, se não estivessem vazios, seria aonde o avô de Tom estocava o leite que não conseguia vender.

Bem no centro, havia uma enorme janela. Devia ter uns três metros por dois. Ela passaria por ali facilmente. Havia ali uma cortina, também, rasgada e marrom de sujeira, que balançava com o vento.

- Esse lugar pode ser assustador, sabiam? – Juliana comentou.

- Para de frescura. – Harry riu dela. – Olha, você já viu algum daqueles radinhos antigos de manivela?

- Não, por que?

Harry foi até a pilha de entulhos.

- Vem aqui, vou te mostrar uma que achei outro dia aqui.

Ela sorriu e foi atrás do rapaz.

Lucas olhou para os dois, que discutiam como seria o funcionamento a manivela do radinho.

Ele, contudo, não estava muito interessado nisso.

Foi até uma estante, ao lado da enorme janela, onde havia toda uma coleção de bolas de boliche.

De cores diferentes, umas brilhantes, outra com brasões e insígnias. Tentou pegar uma dela.

Eram muito mais pesadas que bolas de boliche comuns. Pesada demais, constatou, deixando-a no chão.

Ele puxou a cortina para a esquerda e olhou o céu azul marinho pela janela. A noite estava limpa e levemente fria, lembrando-o de Londres. O menino fechou os olhos, sentindo uma brisa fresca entrar pela janela.

Sorriu para si mesmo quando ouviu Juliana xingar Harry atrás de si.

Respirou fundo aquele ar puro que não encontrava na cidade e puxou a cortina para o lado.

Ela esvoaçou para fora da janela e depois foi de acalmando, voltando ao lugar.

Lucas se virou para olhar Harry e Ju, mas por um momento pensou ter sentido uma sensação estranha vinda do estômago. Virou-se para a janela novamente.

A cortina havia voltado ao normal, exceto pelo canto dela, que havia parado firme para fora da janela, em um formato estranho. Era como se houve alguém ou alguma coisa na base da janela e ele pudesse ver através disso. A cortina acompanhava as curvas de alguma coisa invisível que ele não conseguiu discernir.

O rapaz caiu para trás, sentado, empurrando, sem querer, a bola de boliche.

- Lu? Você ta bem? – Juliana perguntou atrás de si.

- E-eu... Eu to... Eu... – ele se virou para ela. – O que é aquilo na janela?

Ele sentiu ela observar algum ponto atrás dele.

- Depende, alem da cortina?

Confuso, o rapaz se virou e constatou que não havia nada na janela. A cortina estava normal.

Mas que diabos...

- AH! – Harry gritou.

Os dois olharam para o amigo, que corria atrás da boa de boliche. Só então reparam que a mesma estava quase caindo da escada.

Eles correram para ajudar o amigo.

- Parem! – Harry gritou, observando a bola, que balançava para lá e para cá a ponto de cair. – Se algo acontecer com as bolas de boliche do avô do Tom, nós estamos mortos.

Os outros dois observaram a bola.

Ela balançou mais para lá e caiu um degrau abaixo, parando ali.

Juliana soltou a respiração, aliviada.

- Isso é estranho. – disse Lucas.

- Por que? – Harry perguntou, virando-se com um sorriso.

- Porque ela não deveria ter parado aí, ou deveria? Não devia ter caído até lá em baixo?

- Sei lá, isso não realmente... AH!

O menino acabara de dar um passo à frente e a madeira do chão rompeu-se. Ele caiu até a cintura.

- Meu, achei que ia morrer agora.

Juliana rolou os olhos.

- Ai Harry, como você é idiota.

Ela foi ajuda-lo a se levantar, enquanto Lucas ia pegar a bola na escada.

O menino esticou os dedos para pegá-la, mas a o degrau da escada subitamente quebrou-se, fazendo-a cair no de baixo.

A bola, no entanto, acabou rolando para o lado e batendo com violência no suporte que madeira que sustentava o segundo andar, antes de chegar no chão do térreo.

A madeira cheia de bolor do suporte quebrou-se diante dos olhos de Lucas, que virou-se para Juliana e Harry.

- Não se movam! – ele gritou. O coração começava a acelerar, o sangue corria mais rápido pelo corpo.

Começava a sentir a mesma coisa que sentira dias atrás, no dia do acidente com o ônibus.

Tarde demais! Pensou.

Harry havia saído do buraco e sentara-se pesadamente no chão, olhando Lucas confuso.

- Oi?

Antes que dissessem mais alguma coisa, um rangido alto e contínuo ecoou pelo armazém. Parecia o som de madeira entortando-se lentamente.

- O suporte quebrou. – o menino explicou. Juliana levou as mãos a boca, ficando estática. – Isso daqui pode cair a qualquer momento.

O chão entortou-se levemente diante dos seus olhos; tombava para o lado que eles estava.

- Droga, porque é sempre pro meu lado? – ele reclamou, pulando para frente, ao lado de Juliana e Harry.

Ele virou o rodapé desprender-se da parede, e essa escorregar lentamente pela parede direita.

- Isso ainda pode cair? – Juliana perguntou, aflita.

Lucas olhou para ela, preocupado.

- Isso vai cair.

- Pela outra escada! – Harry gritou, levantando-se e correndo para a esquerda. Lucas e Juliana o seguiram.

O fato de o piso ter descido de nível havia comprometido a escada, “esmagando-a” embaixo dele.

- Vamos ter que pular. – Lucas constatou.

- A Ju vai primeiro. – Harry disse. – Vai estar segura lá em baixo.

- O que? – ela quase gritou. – Eu não vou descer.

Lucas olhou para os lados e viu um puff velho jogado ali. Pegou-o e jogou no térreo.

- Pronto, não se machuca mais!

- Não, Lu, eu não vou... – Harry não a esperou terminar de falar, empurrou-a. – AH!

O grito da menina soou por todo o local, mas ela acabou por cair certeira em cima do puff.

- Agora vai você. – Lucas disse ao amigo.

- Não, você vai...

- O que... AH, MEU DEUS! – eles ouviram Júlia gritar.

A menina vinha acompanhada de Dougie.

- Harry? Lucas? O que está acontecendo?

- Caso você ainda não tenha notado, isso daqui ta desmoronando. – Juliana gritou.

A madeira rugiu alta e ameaçadora. O chão despencou alguns centímetros em seco. As paredes ao lado começavam a se quebrar.

- Vai você!

- Não, mais que droga, Harry, desce logo.

Juliana, lá em baixo, aproximou-se de Dougie e Júlia.

- Parem de frescura e pulem os dois. – Dougie gritou.

Lucas e Harry se entreolharam. Ambos deram um passo a frente e a madeira cedeu.

Lucas ainda teve tempo de pular e agarrar-se à uma das cordas do teto, mas o amigo acabou não conseguindo segurar sua mão e caiu, batendo em seco contra o chão e desmaiando.

- Harry! – Dougie gritou.

Ele tentou correr até o amigo, mas o teto acabou despencando com Lucas junto, bloqueando o caminho.

O rapaz, antes agarrado a corda, pulou dela antes que o telhado chegasse ao chão, conseguindo cair em cima do puff.

Ele levantou-se e olhou ao redor com dificuldade. O telhado havia se despedaçado, levantou uma poeira densa que impedia Lucas de ver alguma coisa.

Júlia, Dougie e Juliana já estavam fora de perigo, fora dali, e isso de alguma forma servia de consolo.

Seus olhos passaram a procurar Harry.

Viu o menino caído no chão, não tinha nenhum ferimento visível.

O mais estranho foi ver o que havia ao lado dele. Um espaço sem nenhuma poeira, como se fosse uma região de vácuo, aonde a poeira contornava, mas não entrava.

Aquele espaço tinha o mesmo formato que a cortina assumira a poucos minutos atrás.

- Harry! – ele chamou. – Harry, acorda!

O menino nem se moveu.

Hesitante, Lucas se viu obrigado a aproximar-se.

O espaço continuou ali quando ele se abaixou para pegar Harry, mas quando tocou no amigo, a poeira recuou dos dois lados do espaço. Ele parecia tomar outra forma, parecia... Abrir as asas?

Lucas não teve tempo de pensar, algum tipo de força invisível jogou-o para longe.

Ele sentiu uma forte ardência possuir se corpo com ferocidade quando suas costas bateram fortemente contra os destroços do telhado.

A dor não demorou a espalhar-se pelo seu corpo e chegar na cabeça, apagando completamente a consciência do rapaz de uma só vez.