Notas iniciais
Exagero
Ao abrir os olhos, naquela manha, sentiu-os queimarem e arderem forte com a luz do sol que entrava pela janela.
Lucas tentou levantar-se, mas uma dor aguda nas costas o fez desistir. Ele, então, parou para examinar melhor o lugar onde estava.

Ao abrir os olhos, naquela manha, sentiu-os queimarem e arderem forte com a luz do sol que entrava pela janela.

Lucas tentou levantar-se, mas uma dor aguda nas costas o fez desistir. Ele, então, parou para examinar melhor o lugar onde estava.

Era, definitivamente, um dos quartos da fazenda dos Fletcher, mas sabia que não era o lugar aonde dormira na ultima noite.

Lucas virou o pescoço, tentando enxergar alguma coisa atrás de si, pela janela grande acima da cabeceira da cama.

- AH! – alguém gritou e antes que ele pudesse sequer virar o rosto para a porta do quarto, sentiu algo pesar sobre seu corpo.

Ele resmungou de dor, fechando os olhos.

Ninguém havia se jogado em cima dele, como ele imaginara no primeiro momento, mas Juliana quase o esmagava em um abraço.

- Desculpa, desculpa! – ela disse, afastando-se no momento seguinte.

Lucas abriu a boca para dizer alguma coisa, mas a menina não deixou.

- Meu Deus! Lu, que bom que você acordou, estávamos todos enlouquecendo! Isto é, os outros ainda devem estar.

- Ju...

- Preciso avisar que você acordou...

- Ju...

- Mas eu não queria te deixar aqui sozinho de novo e...

- JULIANA!

- Oi?

Ele riu, olhando a cara de preocupação da menina.

- Eu to vivo, ta?

Ela respirou fundo, com as mão no peito, e depois sorriu.

- Ta, é sério, desculpa. – Lucas pôde ver tristeza nos olhos da amiga. – É que foi desesperador ver você todo machucado, inconsciente e tal.

A expressão do menino também se enrijeceu.

- O que aconteceu, afinal de contas? – ele perguntou.

- Depois que o teto caiu, deixando eu, a Juu e o Dougie do lado de fora, tudo desmoronou... Não sobrou armazém pra contar história, sabe? – Juliana explicou.

- E depois? Como vocês nos acharam?

- Essa é a questão. – a menina respondeu, abaixando os olhos marejados. – Depois, até a poeira baixar, já estavam todos lá. A Karol, o Tom, o avô dele e os empregados da fazendo em peso. Eu e a Juu, você pode imaginar, não parávamos de chorar e nesse desespero ligamos pra tudo que sabíamos, policia, ambulância e até corpo de bombeiros.

O menino assentiu, fazendo sinal para que ela prosseguisse.

- Então, estávamos realmente desesperados e sem saber o que fazer. Eu mal conseguia contar o que havia acontecido. Tinha sido tudo tão rápido.

- Imagino... Eu mesmo mal sei o que aconteceu comigo.

- Esta aí outra coisa estranha. Depois que os bombeiros te acharam, você foi diretamente levado ao hospital, onde foi submetido a vários exames. A conclusão lá foi que você havia batido forte a coluna, quebrando uma costela, e tinha duas hemorragias internas, uma pouco acima da cintura, do lado direito e outra na musculatura do ombro. Enfim, depois dos devidos cuidados, nada grave segundo os médicos. Eles apenas disseram que o que causou a hemorragia do ombro poderia ter te matado se fosse alguns centímetros para a direita, no pescoço, sabe? Mas disseram que, no fim das contas, você ficaria bem.

- E por que isso é estranho? – ele perguntou.

- Porque os médicos alegaram que a força que foi usada para quebrar sua costela e causar essas hemorragias tinha sido a força do teto ao cair em cima de você, mas o teto não caiu em cima de você, Lu. A gente tinha aceitado bem a perícia dos médicos sobre o seu estado, mas segundo os bombeiros, você foi achado desmaiado em cima, ou melhor, recostado nos destroços... Segundo eles não tinha nada em cima de você, o teto não havia caído.

- Estranho... Mas então, o que foi decidido a partir disso.

- Eles concluíram primeiro que alguém havia te empurrado contra aos destroços, mas acabaram por determinar que uma pessoa só não teria a força necessária para causar o impacto que te deixou nesse estado.

Lucas soltou uma risada divertida.

- É, e mesmo que uma pessoa tivesse, eles iam dizer o que? Que o Harry tinha me empurrado? – o menino riu. – Fala sério!

A menina não disse nada, apenas abaixou a cabeça, fazendo o amigo olhá-la, preocupado.

- O Harry estava desacordado, não estava?

- Não estava, Lu. – ela disse, chorosa.

O menino arregalou os olhos.

- Não estava... Desacordado, só?

A menina balançou a cabeça negativamente.

- Não estava... lá! – ela respondeu. – O Harry não foi achado, Lu... Reviraram tudo, tiraram tábua por tábua... Ele não tava lá.

Lucas encarou a menina, estático.

Uma imagem perturbadora surgiu diante de seus olhos.

Ele podia ver a poeira levantar do chão do armazém, bem ali, na sua frente. Podia ver quando a poeira não preencheu um espaço em vazio, ao lado de Harry. Pôde ver, ainda, aquele vácuo lançando-o para longe, quando ele tentava tocar Harry.

- Aquela coisa...

- Oi?

Lucas olhou Juliana.

- Ju, será que eu consigo andar?

- Por que quer andar? – ela perguntou espantada. – Os médicos disseram que você pode andar curtas distâncias... Ir no banheiro e coisas do tipo, mas tem que fazer repouso.

O rapaz crispou a boca, pensativo.

- Aonde você queria ir? – ela perguntou, enxugando as lágrimas com as costas das mãos.

- Na biblioteca municipal.

- Mas ein? Ficou louco? – ela quase riu do amigo. – Você não conseguiria andar tanto.

- Droga...

- Eu posso ir lá pegar alguma coisa pra você ler, se é isso que você queria. Mas continuo sem entender.

Ele sorriu para ela, parecendo subitamente mais animado.

- Você faria isso?

- Claro, ué.

- Ótimo. – ele comemorou. – Então eu vou falar o tipo de livro que quero ler... E depois que você me trouxer tudo, eu te explico exatamente o que tenho em mente, beleza?

A menina apenas sorriu, consentindo.