Notas iniciais
Oii Cupcakes ♥! Desculpe a demora para postar. Eu realmente lamento pelo atraso, mas eu tive alguns grandes problemas para resolver. Esse capítulo em especial será em homenagem a Josy da vida real, uma das minhas melhores amigas, que ficou mais velha dia 06/09. FELIZ ANIVERSÁRIO, VAQUINHA! Obrigada pelos comentários Joosy, Marluci e Juliana Lorena no capítulo passado. Fico muito feliz que vocês estejam gostando da história. Espero não decepcionar com esse capítulo. Boa leitura...

Três

...♛...

“Eu acredito em experiências. Acredito em erros e acertos. E acredito que o erro seja o pai dos acertos. Acredito nas lições, e no que de bom podemos tirar de cada uma delas. É como escrever um livro, você vai juntando as palavras e quando vê está tudo completo. Acredito que seja assim na vida também. Você tem que juntar as pessoas, os sentimentos, as verdades e até as mentiras, e colocar tudo no papel, completar aquilo que falta, tirar aquilo que sobra e ser feliz com aquilo que restar.”

Isadora Markus

Sábado finalmente havia chegado e Josy não poderia estar mais animada. O dia da partida de vôlei que ela tanto esperava seria hoje. Ela havia passado a semana inteira planejando o dia e relembrando o quanto não via a hora da tão esperada revanche das Golfinhos, apelido dado ao time de vôlei feminino da escola, contra as Águias, escola que é concorrente da nossa há anos.

Particularmente, eu nunca me interessei por nenhum tipo de esporte. Fosse por futebol, natação ou vôlei, eu sempre preferi a leitura ao invés de me envolver com atividade físicas. Sendo sincero, eu agradecia todos os dias pela genética da minha família, que permitia que eu comesse bastante e continuasse magro, porque se dependesse de atividades físicas, eu já deveria ter me tornado uma bola.

No entanto, ao ver a animação da garota, eu acabava me deixando levar e até mesmo comemorava e torcia com ela. O sorriso largo e os olhos brilhantes ao falar de seu esporte favorito me fascinavam. Eu, como o bobo apaixonado que sou, ainda não gostando de participar dos gritos e a agitação que a quadra se torna nessas partidas, eu nunca consigo resistir aos pedidos de Josy e quando menos dou por mim, estou de pé às sete horas da manhã de um sábado, encarando meu reflexo no espelho, terminando de me arrumar para o jogo que acontecerá em uma hora.

— Já está passando da hora de cortar esse cabelo. – Bufo, irritado com a teimosia de alguns fios que continuavam a cair em meu olho.

— Se você cortar seu cabelo, eu juro que mato você! – Avisa Josy, aparecendo na porta do banheiro do nada.

— Josy! – Exclamo, levando a mão ao peito devido ao susto. – Você tem que parar com essa mania de entrar no meu quarto sem bater ou ao menos avisar.

— Desculpa. – Responde a loira, levantando os braços em sinal de rendição. – Mas é sério. Eu mato você se cortar seu cabelo!

— Pensei o cabelo fosse meu e que eu que decido o que faço com ele. – Ironizo e ela cruza os braços e dá um sorriso irônico.

— Pensou errado. Eu decido o que você faz no seu cabelo, porque sou eu que serei obrigada a andar ao seu lado e a sua aparência precisa ser impecável para acompanhar alguém tão linda como eu. – Brinca e eu acabo rindo.

— Tão convencida. – Comento, voltando a encarar o espelho, enquanto tentava arrumar meu cabelo de alguma forma menos desconfortável. Ela dá língua e ri. – Uma pena que você esteja certa. Você realmente é linda.

Meu comentário, ainda que não fosse novidade para a garota, parece a pegar de surpresa. Não demora muito que suas bochechas adquiram uma coloração avermelhada. Ela desvia o olhar e encara o chão, não sabendo como reagir ao meu elogio. Era nesses momentos que eu tinha alguma esperança de que ela entendesse meus sentimentos, mas era sempre nessas horas que ela riria ou comentaria algo que quebraria o clima por completo.

Mas, para a minha surpresa, ela se aproxima de mim e pega o pente de minha mão. Sem dizer nada, ela me vira para que ficássemos frente a frente, enquanto ela começa a pentear meu cabelo. O rosto delicado da garota permanecia corado, mas ela realmente parecia feliz por estar mexendo em meu cabelo. Era quase como se aquela ação trouxesse um pouco de calma a ela.

Por outro lado, eu me sentia perdido e nervoso. Aquela aproximação me deixava eufórico e sem saber como reagir. Então, tudo que consigo fazer é me abaixar um pouco para que ela ficasse mais à vontade e permaneço em silêncio. Não era que eu esperasse que ela de repente iria se declarar para mim ou algo assim. Eu só estava surpreso demais por ela ter se aproximado nesse estado sem dizer nada. Não é típico da garota que conheço a minha vida inteira.

— Gusta... – Chama Josy de maneira tímida.

— Oi. – Respondo em um sussurro.

— É que... eu... Não é nada. – A loira suspira, desistindo de falar. Ela então se afasta e me encara, sorrindo satisfeita com o resultado. – Pronto.

— O que você ia me dizer? – Insisto no assunto que ela parecia fugir.

— Não é...

— Se não fosse nada, você não teria começado. – Interrompo sua fala, encarando-a com curiosidade. – Você sabe como eu odeio que comecem a falar algo e não finalizam.

— Ah, é mesmo? Então agora é que eu não falo. – Responde Josy, sorrindo desafiadora.

— Ah, é assim? – Questiono, encarando-a desafiador.

— É. É assim. – E em um ataque surpresa, eu começo a fazer cócegas em Josy, que ria e esperneava, enquanto se contorcia em meus braços. A melodia das gargalhadas da loira me animavam e me fazia ri junto. – Para...para...

— Você vai me contar o que estava pensando? – Pergunto, continuando a fazer cócegas na barriga da garota.

— Nunca! – Grita, ainda rindo quase sem fôlego.

— Então eu não vou parar. – Respondo, aumentando a intensidade das cócegas. Ela se joga no chão, morrendo de ri e se debatendo, tentando se livrar de mim.

— Está...bem...eu... desisto... – Fala Josy entre arfadas. Afasto-me no mesmo instante e ela continua a ri por algum tempo antes de se recuperar por completo. – Você é muito malvado! – Resmunga, tentando se recompor.

— Fala logo! – Reclamo, ajudando a garota a se levantar do chão.

De repente, sua expressão muda. Ela parecia hesitar sobre falar o que tanto a incomodava. Espero pacientemente, sabendo que ela não conseguiria segurar as palavras por muito tempo. Após um suspiro, Josy levanta o olhar e me encara com um misto de incerteza e curiosidade. A determinação em seus olhos mostrava que ela realmente já havia pensado muito no assunto e, por fim, não havia chegado a lugar nenhum.

— Qual a sua relação com a Aline? Quer dizer, vocês estão ficando ou algo assim? – Pergunta Josy, finalmente revelando o que tanto a incomodava.

Permaneço em silêncio por alguns instantes, absorvendo a pergunta da garota. Novamente, aquele sentimento de ser amado e visto de uma forma diferente por Josy falava alto, gritava intensamente em meu ouvido e em meu coração. Era nítido o desconforto da garota em falar sobre Aline e isso me inspirava a revelar o que venho tentando fazê-la entender pela décima vez.

No entanto, eu ainda me sentia receoso. Como se houvesse dois seres ao meu lado falando o que é ou não para se fazer, eu conseguia ouvir a voz de Aline me lembrando que ela era a minha fada madrinha e que preciso confiar em seu plano. E mesmo sabendo que talvez pudesse me arrepender, algo dentro de mim acredita mesmo que ela pode me fazer conquistar o coração de Josy.

Por esse motivo, respiro fundo e desvio o olhar, pensando no que eu deveria falar para a loira. Eu não poderia contar sobre o verdadeiro motivo de Aline me perseguir tanto – afinal, tudo o que a garota maluquinha deseja saber é sobre as minhas nove declarações fracassadas. Vejo a impaciência e a curiosidade de Josy passam a se fazer presente. Ela realmente queria as respostas e eram para ontem.

— Nós somos apenas amigos. Eu a consolei e a ajudei em um dia difícil e ela se tornou uma amiga. – Respondo e Josy passa a me encarar, como se tentasse ver se eu estava mentindo ou não. Ela tenta tocar no assunto, mas decido por um fim a essa conversa. – Vamos? Se continuarmos aqui, nós iremos nos atrasar para a partida.

Josy ainda me encara desconfiada por um tempo, mas balança a cabeça concordando, dando fim a qualquer conversa que poderíamos ter sobre o assunto. Um lado de mim estava em festa por ver que a possibilidade de me envolver com Aline a deixava desconfortável, por outro, eu também não sabia bem se estava me iludindo mais uma vez e acabaria me machucando novamente, como nas outras vezes.

No entanto, assim que entramos em meu carro e liguei o som, não demoramos muito a esquecer aquele momento estranho no banheiro. Josy ria e cantava animada as músicas, enquanto eu a acompanhava de maneira desafinada. Nós sempre fazíamos isso. Essa era a nossa diversão ridícula e boba, mas que sempre era muito animada e espantava qualquer raiva ou sentimento negativo.

Assim, em pouco tempo nós chegamos a entrada da escola. Como era de se esperar em um dia de uma partida tão importante, o estacionamento estava lotado de carros e o ginásio com certeza estaria em uma situação semelhante. Quando enfim consigo achar uma vaga e estacionar o carro, Josy sai me arrastando para conseguirmos um bom lugar na arquibancada.

A animação da garota triplica ao ver as torcidas de ambas as equipes, torcendo animadas pelas jogadores que se aqueciam em quadra. Olhamos em volta, procurando um lugar para sentar, mas parecia que havíamos chegado tarde demais. Josy já resmungava irritada, me culpando pelo atraso, quando vejo o rosto de Aline em meio a arquibancada. Ela balança os braços, acenando e nos chamando para sentar com ela.

— Veja! Parece que a Aline guardou um bom lugar para nós. – Digo, apontando para a garota. Josy olha para o lugar que eu apontava e sorri forçado.

— Ah, que bom, né? – Responde, rindo estranho em seguida.

— Sim. Vamos logo! – Afirmo, cansado de ficar andando de um lado para o outro. À contragosto, ela me segue em direção a Aline que já batia palmas e cantava o grito de guerra das Golfinhos.

— Oi gente! – Cumprimenta Aline, sorrindo largamente. – Que bom que chegaram! Eu guardei lugar para vocês. Sentem, sentem!

— Obrigado. – Agradeço e quando vou sentar ao lado da garota, Josy se senta entre nós dois. Ergo minhas sobrancelhas, quase questionando o que tinha sido isso. Aline parece fazer força para não ri e fazer algum comentário malicioso, mas ela permanece em silêncio.

— Aqui, Josy. – Aline entrega alguns acessórios personalizados das Golfinhos. – Imaginei que ia querer.

— Obrigada, Aline. – Agradece Josy, sorrindo sincera enquanto pega o boné e dois bastões infláveis. – Animada pela partida?

— Super! Eu quero ver as Golfinhos esfregando a cara das Águias no quadra de esporte. – Responde com um sorriso malvado nos lábios.

E de repente, elas engataram em uma conversa animada sobre o que esperavam da partida e como as garotas do time da escola estavam se saindo bem nesse último campeonato. Eu permaneço em silêncio, observando o mundo a minha volta e torcendo para que a partida não demorasse a terminar. Eu havia aprendido a gostar de vôlei por causa de Josy, mas isso não significava que eu ficava confortável com os gritos ao meu redor e os empurrões que recebia na arquibancada.

Quando a partida começou, Aline e Josy ficaram ainda mais fora de controle. Eu torcia para que as Golfinhos ganhassem, mas as duas ultrapassavam o limite da animação naquele momento. Elas gritavam, xingavam e pulavam a cada ponto marcado ou deixado de marcar. Eu apenas ria e vibrava com a forma como o time estava se saindo muito bem.

E depois de uma partida muito apertada, as Golfinhos ganharam a partida por três sets a dois. Foi realmente emocionante e longo. Muito longo. A partida acabou com vinte e oito pontos para a Golfinhos e vinte e seis para as Águias no último set. Eu havia levado tanto empurrões e cotoveladas de Josy, que tinha certeza que eu teria alguns hematomas roxos até o fim do dia.

Desvio o olhar da comemoração de Josy e Aline e passo a encarar a arquibancada rival, sendo surpreendido pela visão de alguém que eu jamais imaginei encontrar novamente. Aproximo-me de Josy e abaixo o rosto, impedindo que meu rosto fosse visto. Mas minha tentativa de passar despercebido vai por água abaixo, quando as jogadoras do time da escola, que também são grandes amigas de Josy, a chamam animadas para tirarem uma foto juntas.

— Eu já volto. – Responde Josy, correndo em direção as meninas. Balanço a cabeça, concordando e volto a ficar com o rosto virado para o lado, tentando não ser notado pela pessoa no outro lado.

— O que foi? – Pergunta Aline, encarando-me confusa.

— Por quê? – Questiono, sem me mexer. Eu tinha a esperança de escapar daquela situação sem mais ferimentos ou confusões.

— Por que está agindo como se estivesse cometido um crime e precisasse se esconder? – Insiste a encaracolada, cruzando os braços.

— Vamos dizer que estou evitando ser visto por uma pessoa sem chamar a atenção de Josy, porque isso pode dar muito problemas. – Respondo e Aline começa a encarar o lado aposto, curiosa e animada.

— Quem? – Indaga, sorrindo largamente. – Eu realmente preciso saber o porquê disso.

— Você parece aquelas velhas fofoqueiras, que não pode ver a chance de rolar um barraco que já fica animada. – Resmungo e ela ri, dando de ombros.

— E então? – Insiste Aline, ainda a procura de quem quase transformou a minha vida em um inferno.

— Sarah Johannes. – Respondo, apontando discretamente para garota de longos cabelos dourados e ondulados. – Ela foi responsável pela minha terceira declaração fracassada.

— Espera um pouco. Você disse terceira declaração? – Pergunta Aline, animada. Ela bate palmas e se aproxima ainda mais de mim. – Vamos! Eu quero saber de tudo! Conte como isso aconteceu!

Suspiro e volto a me ajeitar no banco. Quatro anos se passaram. Era ridículo eu ainda me sentir desconfortável com a presença de Sarah. E eu sabia que Josy também não reagiria muito bem com a presença da garota. As duas ainda possuíam a mesma rivalidade de quando éramos mais novos.

[Quatro anos atrás]

Não muito tempo se passou desde a minha segunda declaração fracassada. Com a chegada do dia dos namorados, vi a chance de quem saber conseguir uma resposta positiva de minha melhor amiga. Depois de duas tentativas nada satisfatórias e completamente despreparadas, agora as coisas seriam diferentes. Eu já não era mais uma criança ingênua e se fosse bem planejado, Josy conseguiria entender com clareza os meus sentimentos.

Por isso, quando soube que faríamos cartinhas de amor para distribuir pela escola em comemoração ao dia, imaginei que essa pudesse ser a minha chance. Cartas de amor são as formas mais puras e sinceras de se revelar os sentimentos. Por ser alguém tímido e péssimo com as palavras, escrever era a solução para que eu revelasse meus sentimentos com maior intensidade, sem esquecer as palavras e apenas ficar encarando Josy como se eu fosse um acéfalo.

A professora distribuiu folhas nas cores vermelho e rosa para todos os alunos, além de canetas coloridas. A maior parte reclamava da infantilidade, afinal, todos acreditavam estarem velhos demais para realizarem confecção de cartinhas e corações para as aulas de artes. Eu me mantive calado, ouvindo os resmungos de Josy por não saber o que escrever. Segundo ela, escrever era uma habilidade que ela não tinha.

— Oi Gustavinho. – Cumprimenta Sarah, de repente, surpreendendo. Eu não tinha visto a chegada da garota.

Sarah tinha acabado de chegar na escola e não tinha muitos amigos. Ela era sobrinha da nossa professora de literatura e, por ser um de seus melhores alunos, a mulher pediu que eu a ajudasse a se enturmar, o que não fazia sentido algum, se levado em consideração que eu era a pessoa menos sociável da escola.

Aparentemente, a garota havia mudado de escola devido a problemas que se envolveu na antiga. Sarah também não era o tipo de garota normal. Alguns de seus comportamentos me faziam entender o motivo de ter se envolvido em confusão. Começando pela personalidade um pouco egocêntrica. Tudo bem. Confesso que ela é muito bonita fisicamente. Os olhos acinzentados combinavam bem com a pele alva, as bochechas rosadas e os cabelos loiros ondulados.

Por outro lado, Sarah não conseguia aceitar um “não”. Ela conseguia tudo o que queria. Fosse usando sua beleza ou com palavras manipuladoras, Sarah possuía um encanto difícil de descrever que fazia todos os garotos fazerem o que ela queria. E era exatamente por esses detalhes, junto a típica personalidade implicante de Sarah e a impaciente de Josy, que as duas não se davam nada bem.

— Oi Sarah. – Cumprimento, voltando a me concentrar em minha carta. Ao meu lado, Josy lança um olhar severo a garota, quase como se a intimasse a se afastar de mim. O clima não demora muito para que se torne pesado e perigoso. – Precisa de alguma coisa?

— Nada. – Afirma, sorrindo simpática. – Eu apenas queria saber como está se saindo com a sua carta de amor. Você já sabe para quem vai dar?

Observo a garota por um tempo, tentando entender suas intenções. Ela parecia esperar algo de mim. Por fim, decido ser sincero. Eu não estava com cabeça para tentar adivinhar o que se passava na cabeça da garota.

— Sim. Eu já sei para quem vou dar a carta. E sobre a carta, eu não tenho certeza se estou me saindo bem, mas acho que o mais importante é a intenção, certo? – Respondo, dando de ombros, tentando não demonstrar a minha preocupação com o resultado final daquela carta. É a minha chance de revelar meus sentimentos a Josy e era inevitável não me sentir nervoso.

— Com certeza. Eu tenho certeza de que você vai se sair muito bem, Gustavinho. – Responde Sarah, sorrindo animada. Ouço Josy bufar diante da forma como a garota se portava. – Algum problema, Joselina?

— É Josy e você sabe disso. – Corrige minha melhor amiga, olhando com fúria para Sarah. Josy odeia quando modificam ou erram seu nome. Já me coloco em posição para interferir, caso necessário, na possível discussão que provavelmente estava para acontecer.

— Tanto faz. – Afirma Sarah, dando de ombros, como se aquele detalhe não tivesse importância alguma na vida dela. – Não é como se seu nome fosse importante mesmo. Ele não faz diferença alguma em minha vida, então não me importo em como você se chama, Josélia.

— Sarah! – Repreendo a garota, quando vejo Josy fechar os punhos com força. Ela com certeza estava se segurando para não atacar a garota. – Já chega. Que tal ir fazer sua carta de amor? Nós só temos até o fim dessa aula para terminar e com você aqui, eu não consigo terminar a minha.

— Tudo bem. Eu entendo, querido. – Concorda Sarah, sorrindo com doçura para mim. – Até mais tarde, Gustavinho.

E ela volta para o seu lugar, com a atenção de todos os garotos da sala voltados para ela. Ouço Josy bufar mais uma vez e revirar os olhos diante do comportamento desagradável de Sarah.

— “Até mais tarde, Gustavinho”. – Repete Josy com uma voz irritante carregada de deboche. – Essa garota não tem senso do ridículo. Eu tenho certeza que ela sabe meu nome, mas faz questão de errar só para me provocar. Eu juro que qualquer dia desses eu pulo no pescoço dessa galinha e a despeno inteira.

— Não dê ouvidos a ela. – Aconselho, rindo levemente. – Sarah gosta de ter atenção e sabe que terá isso se provocar você.

— Fácil falar. Não é você que tem que aguentar essas provocações ridículas dela, Gustavinho. – Responde Josy, revirando os olhos. – Sério, Gusta! Eu odeio essa garota. Se eu tiver que ouvir esse apelido irritante mais uma vez, eu provavelmente vou vomitar.

— Deixa de ciúmes e vai fazer a sua carta. – Digo, rindo e ela me olha com tédio, antes de voltar a fazer a carta proposta pela professora sem dizer nada.

E assim que eu finalmente tive paz para me concentrar, consigo terminar a carta. Com o fim da atividade, nós teríamos até o fim do dia para entregarmos a carta a pessoa que escolhemos para nos declarar. Não era necessário ser uma declaração amorosa, como a professora havia ressaltado na explicação da atividade. Poderia ser apenas uma carta de agradecimento a um professor ou amigo, ou alguma mensagem de incentivo para quem estivesse passando por um momento ruim.

Eu optei por entregar minha carta durante o intervalo, assim como Josy, que aparentemente, tinha escolhido a professora de Biologia para entregar a carta. Era a professora preferida dela e as duas sedavam bem, então Josy achou que poderia ser legal agradecer a professora por ter paciência para explicar a matéria e ter ajudado tantas vezes.

Foi uma tarefa quase impossível esconder para quem seria meu destinatário. Josy sempre foi muito curiosa, então ver o grande mistério que eu fazia sobre quem receberia minha carta de amor havia a deixado ainda mais ansiosa para descobrir quem era a pessoa na qual eu havia me esforçado tanto para fazer uma carta bonita.

E sozinho na área mais afastada do pátio, eu esperava ansioso pela chegada de Josy. Nós havíamos combinado de comermos juntos naquele lugar logo depois dela entregar a carta dela. Eu segurava a minha carta com certo receio. Minhas mãos tremiam levemente e suavam. O nervosismo começava a se tornar cada vez mais presente dentro de mim, assim como a insegurança em como ela reagiria.

No entanto, sou tirado de meus pensamentos pela chegada de Sarah. A garota carregava sua carta em mãos e parecia animada com a minha presença. Inevitavelmente, fecho meus olhos, sentindo que aquilo não acabaria bem. Por outro lado, tento me manter positivo e imagino que eu ainda teria um tempo para despistar Sarah antes da chegada de Josy, ou ao menos era com isso que eu estava contando.

— Ah, eu finalmente te achei! Por acaso estava se escondendo de mim, Gustavinho? – Pergunta Sarah, aproximando-se mais de mim.

— Não é isso, Sarah. – Respondo, sorrindo nervoso. – Aconteceu alguma coisa?

— Na verdade, eu vim te entregar a minha carta de amor e receber a sua. – Fala a loira de maneira simplista.

— Receber a minha? – Repito, confuso.

— Sim, bobinho! – Concorda Sarah, rindo, enquanto me dá um soco leve em meu peito. Continuo a encarando confuso. – A carta de amor que você fez para mim.

— Acho que houve um mal entendido aqui, Sarah. – Afirmo com cuidado. Não queria deixar a garota envergonhada, mas eu não sabia bem como explicar para ela que a carta de amor que eu escrevi não era para ela e sim para Josy. – Eu não fiz uma carta de amor para você.

— Claro que fez. Não precisa ser tímido, Gustavinho. – Insiste Sarah com convicção.

A maneira como ela insistia naquele assunto me deixava claro que eu estava com grandes problemas. Sinto meu nervosismo aumentar consideravelmente. Sarah não aceita facilmente um “não” e eu não tinha muito tempo antes de Josy aparecer para que eu entregasse a carta. Tento pensar em alguma solução, mas nada vem a minha mente.

— Eu...não estou sendo...tímido, Sarah. – Respondo, cautelosamente. – Eu realmente não escrevi uma carta de amor para você. Mas tenho certeza de que inúmeros garotos da escola fizeram cartas incríveis para você.

— Você não fez uma carta de amor para mim? – Sarah parecia bastante insatisfeita com a informação. – Se isso é verdade, então para quem você escreveu?

— Para a pessoa que eu gosto. – Digo, desviando o olhar. Não parecia uma boa ideia revelar que eu havia escrito para Josy.

— Se não é de mim que você gosta, quem é essa pessoa? – Insiste a garota com olhos expressão uma dureza jamais direcionada para mim. – Quem é a garota que é “melhor” que eu?

— Sarah...

— Fala, Gustavo! – Grita Sarah, atraindo a atenção das pessoas que passavam por perto. Respiro fundo e torço para que Josy demorasse mais um pouco. Observo Sarah por um tempo e noto que ela não desistiria até que eu revelasse para quem eu escrevi a carta.

— Não é questão de ser melhor ou pior...

— O...nome...da...pessoa...Gustavo! – Repete Sarah pausadamente. Engulo seco diante da evidente fúria de Sarah.

— Josy. Eu escrevi a carta para a Josy. É para ela que eu escrevi a minha carta de amor. É dela quem eu gosto, Sarah. – Revelo, desistindo de tentar lutar contra Sarah e o seu desejo de saber quem receberia a carta em seu lugar.

No mesmo instante, vejo Josy se aproximar com Juliana ao seu lado. Ela me encara envergonhada. Nesse momento, Sarah pega a carta da minha mão e abre antes que eu pudesse pegar de volta. Ela então olha com desprezo para Josy.

— Sarah, devolve a carta. – Peço, aproximando-me da garota, que em resposta, passa a ler a carta em voz alta.

“Não chame o meu amor de Idolatria./ Nem de Ídolo realce a quem eu amo,/ pois, todo o meu cantar a um só se alia/ e de uma só maneira eu o proclamo./ É hoje e sempre o meu amor galante,/ inalterável, em grande excelência;/ Por isso a minha rima é tão constante/ a uma só coisa e exclui a diferença./ 'Beleza, Bem, Verdade', eis o que exprimo;/ 'Beleza, Bem, Verdade', todo o acento;/ E em tal mudança está tudo o que primo,/ em um, três temas, de amplo movimento./ 'Beleza, Bem, Verdade' sós, outrora;/ Num mesmo ser vivem juntos agora.” ¹

Assim com as falas de William Shakespeare, eu...

Antes que Sarah continuasse a leitura em voz alta, Josy tenta puxar a carta das mãos da garota, interrompendo a leitura.

— Ele disse para você devolver a carta! Ela não é sua! – Exclama Josy, puxando a carta de encontro a si.

— Solta! Essa carta é minha! – Responde Sarah, puxando a carta de volta.

— Parem as duas. Vocês vão se machucar. – Digo, vendo que aquilo não acabaria bem.

— Você por acaso é surda ou seu cérebro sofreu algum trauma para ser tão sem noção? Essa carta não é para você! – Insiste Josy, puxando a carta com mais força.

Naquele momento, vejo que a carta iria se rasgar e, devido a força que usava, Josy acabaria caindo em uma das latas de lixo que havia próxima de onde estávamos. Corro até a garota e, infelizmente, o corpo dela bate contra o meu, que absorvo todo o impacto e bato o corpo contra a lata de lixo. Como resultado, acabei com um braço quebrado e com uma Josy superprotetora ao lado de minha cama, me visitando com a carta rasgada em mãos no final do dia.

— Eu sinto muito. Foi por minha culpa que você quebrou o braço. – Lamenta Josy, olhando-me com preocupação. Os olhos levemente avermelhados e inchados são as provas de que ela havia chorado mais cedo.

Depois da minha queda, eu senti uma dor fora do normal. Quando tentaram tocar, acabei chorando e gritando de dor. Por ter caído de mal jeito, acabei quebrando o braço em dois lugares e, por muito pouco, eu não precisei operar e colocar os pinos. Mas somente isso foi o suficiente para assustar Josy e nossas famílias.

— Não foi sua culpa. – Respondo, sonolento pelos remédios para a dor que eu havia tomado. – Sarah foi quem não deveria ter pego a carta. Não era para ela ter lido. A carta não era para ela.

— Foi uma carta muito bonita. – Comenta, olhando para as duas partes do papel em seu colo.

— Você leu? – Pergunto e ela balança a cabeça, concordando, enquanto me entrega os dois pedaços de papel. Desconcertado, pego e a encaro um pouco ansioso. – O que você achou?

— Você realmente leva jeito para escrever. É tão bonita e romântica. Qualquer garota ficaria encantada se recebesse uma carta como essa. – Responde, dando um fraco sorriso.

— Então você ficou feliz? – Pergunto e ela me olha confusa. – Eu disse. A carta era para você. A garota que eu gosto.

Josy arregala os olhos levemente e me encara sem dizer nada por alguns instantes. Meu coração bate rápido e eu finalmente acho que ela havia entendido o que eu estava tentando falar há tanto tempo. No entanto, ao ver as risadas da loira, entendo que, mais uma vez, ela não havia acreditado em mim.

— Eu deveria gravar como você está fora de si depois de tomar tantos remédios. – Responde Josy, parando de ri. – Você ficaria muito envergonhado.

— Josy...

— Eu sei que você falou que a carta era para mim para despistar a louca da Sarah. Não se preocupe. No seu lugar, eu teria feito o mesmo. – Afirma a loira, dando um beijo em minha testa.

— Mas Josy, eu realmente gosto muito de você...

— Eu também gosto de você, maninho. – Josy sorri e levanta da minha cama. – Agora durma. Eu preciso ir para casa. Nós nos vemos amanhã.

E assim, indo pela janela, como era de se esperar, Josy volta para a casa, deixando-me sozinho e sem reação alguma em meu quarto. Quando finalmente entendo que minha terceira tentativa havia fracassado, suspiro frustrado. Não que eu realmente estivesse surpreso e nem que esperasse que ela correspondesse aos meus sentimentos. Só era frustrante ver que mais uma vez, a SuperLerda havia me superado. Droga, por que é tão difícil fazê-la entender o que eu sinto?

Suspiro frutado mais uma vez e fecho os olhos, virando para o lado com cuidado para não me mexer bruscamente e acabar aumentando a dor que sentia em meu braço. Esvazio minha mente e decido me entregar ao sono. Eu havia perdido a batalha, mas não a guerra. Eu não desistirei tão fácil assim.

Notas finais
“Não chame o meu amor de Idolatria [...]"¹: Soneto CV - William Shakespeare oOo Oii Cupcakes ♥! O que acham? Deixem a opinião de vocês. Agora temos o Instagram dos meus leitores. Me sigam para receber recomendações diárias e participar de sorteios e muitas outras coisas. Muito obrigada e até mais ♥! Cupcakes da Lara: https://www.facebook.com/groups/677328449023646 Família Cupcake 2.0: https://chat.whatsapp.com/E6wkn6DU0rR0IoR0d3EOLi Instagram: _cupcakesdalara