Meus Melhores Erros
6 Cinco
Notas iniciais
Cinco
...♛...
“Nós nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos. Somente através do amor e das amizades é que podemos criar a ilusão, durante um momento, de que não estamos sozinhos.”
Orson Welles
Existe alguns momentos na vida em que nos questionamos o motivo de sermos amigos de algumas pessoas. Alguns dizem que é pelos momentos bons que viveram juntos, as dificuldades que compartilharam, por todas as brincadeiras que fizeram, pelas qualidades da outra pessoa e semelhanças que possuem. Pode dizer como vocês se dão bem, ou há quanto tempo se conhecem, mas acontece, que no final das contas, existem dezenas de pessoas que preencheriam os mesmos requisitos e que nem por isso se tornaram seus amigos.
A amizade é muito mais que compatibilidade, companheirismo. A amizade é muito mais que complemento, é algo que vai além de tudo isso. Ainda assim, nada diminuía o desejo que eu sentia no momento de estrangular Josy, Juliana e, principalmente, Aline. Eu estava ao lado da garota de cabelos cacheados, de frente para o comitê de formatura, o conselho estudantil da escola e de todos os representantes de turmas do último ano da escola, além dos professores que ficaram responsáveis por nos ajudar com a formatura.
Sem que eu tivesse muita escolha contra as três garotas, eu fui arrastado para a sala de reuniões da escola e nomeado como o responsável da contabilidade e finanças do baile de formatura, além de ser o braço direito da representante do comitê da festa, também conhecida como Aline, minha fada madrinha maluca. Josy e Juliana afirmavam que eu era a pessoa mais responsável e de maior confiança para assumir o cargo e Aline nem mesmo me deu o direito de escolha uma vez que colocou meu nome nos papéis solicitados pelo diretor para saber quem participaria da organização do baile que marcaria a vida dos quase cem alunos do último ano do ensino médio.
— Alguém tem alguma dúvida? – Questiona Aline, assim que termina de explicar como funcionaria o Baile da Noite Secreta. Suspiro, segurando um caderno, onde eu havia anotado todas as informações passadas durante a reunião e os pontos que eu achava que precisávamos analisar. – Não?
— Eu tenho uma dúvida, Lili. – Peter James, o representante da turma D, levanta a mão e encara o bloco de notas que tinha em mãos.
— Pode falar, PJ. – Responde Aline, encarando o rapaz. Eles estudaram juntos desde o jardim de infância, mas apesar dos apelidos, a garota afirmava que eles não eram tão próximos assim. Aparentemente, eles se afastaram mais depois que Peter começou a namorar Kelsey Debney, uma das jogadoras do time de vôlei da escola e que tinha fama de ser bastante ciumenta.
— Você disse que teremos que confeccionar a decoração do baile por causa do orçamento. Já tem uma ideia de quando vamos começar? Porque não temos muito tempo e, sendo sincero, eu posso ajudar, mas sou uma negação com decoração e artesanato, então temos que calcular o tempo que vamos levar o caso de acabarmos destruindo alguma coisa ou de algo não sair como a gente quer e acabar tendo que fazer tudo de novo. – Relembra o rapaz, tocando em dos muito pontos que eu havia destacado em meu caderno durante a reunião.
— Sem falar que em breve nós iremos começar com as entrevistas nas universidades e toda aquela correria do último ano escolar. Podemos acabar ficando sem tempo para fazer tudo. – Aponta Courtney, a representante da turma B.
— Excelente pergunta, PJ. – Comenta Aline, sorrindo com confiança. Ela então se vira para mim e me encara com divertimento. – E essa pergunta será respondida pelo nosso responsável pelo setor financeiro da comissão de formatura. Gustavo, por favor, compartilhe com os nossos colegas o que nós havíamos conversado sobre isso.
Não. Nós não havíamos conversado nada sobre isso. E o olhar desesperador que ela me lança é o bastante para eu entender que ela estava perdida quanto o assunto e esperava que eu milagrosamente tivesse uma resposta para dar a todas as mais de vinte pessoas presentes na sala, que aguardavam minha resposta com curiosidade.
Suspiro e novamente me questiono o que eu estou fazendo nesse lugar. Eu nunca fui gostei de ser o centro das atenções. Apesar de realmente ter uma certa popularidade na escola – ainda que eu não entenda nada o motivo disso -, eu sempre fui muito reservado e dificilmente me envolvia em projetos importantes como esse, porque odiava lidar com pessoas. Josy e Juliana sabiam disso e por isso nunca me forçaram a fazer mais do que algumas ajudas discretas. Mas o mesmo não acontecia com Aline.
— Como a Aline disse, por causa do nosso orçamento teremos que ser cautelosos com nossos gastos e teremos que dar um jeito de arrecadar mais dinheiro. Ao analisar todos os custos que o baile terá, achamos melhor deixar o orçamento que recebemos da escola para pagar as despesas mais altas, que seria o buffet, com a comida, os garçons e as bebidas inclusas, e o aluguel de todo o jogo de luz e a parte de iluminação especial que vamos precisar para a festa. – Respondo, fazendo Aline suspirar discretamente. Eu ainda queria esganá-la, mas já que eu já estava no cargo e não podia mais voltar atrás, faria o meu melhor para cumprir com a minha responsabilidade. – Então, o restante do dinheiro que temos, devemos usar para comprar o que for necessário para realizar a arrecadação de mais dinheiro. Com o que conseguirmos, compraremos todos os materiais que iremos precisar para confeccionar a decoração.
— É uma ótima ideia, Gustavo. Todos os anos tivemos problemas com a parte de alimentação e bebidas na festa, porque os alunos achavam que não era necessário investir nisso e deixavam tudo para última hora. O resultado era sempre muita decepção dos convidados. – Comenta o professor Franklin, satisfeito com o meu plano.
— É verdade. Alimentação e bebida acaba sendo muito caro e estressante. Saber que não iremos nos preocupar com isso durante o baile tornar tudo mais fácil. – Concorda a professora Rachel, sorrindo com doçura.
— E vocês já tem alguma ideia de como vamos arrecadar o dinheiro? – Pergunta Eric, o representante da turma C.
— Podíamos fazer a lavagem de carros. – Sugere Kelly, sorrindo animada. A vice representante da turma B parecia ser a mais animada com a reunião.
— Não é uma boa ideia. Você se lembra do que aconteceu no ano passado? – Questiona Juliana e Kelly balança a cabeça negando. – Acabou tendo uma grande confusão por causa da lavagem de carros. No fim, o comitê de formatura acabou ficando com um grande prejuízo.
— E vamos ser sinceros, a lavagem de carros só dá algum dinheiro, quando as garotas mais bonitas ficam praticamente nuas se esfregando nos carros, enquanto os tarados ficam assistindo de camarote. Eu não quero ter que fazer parte de um espetáculo horrível assim. – Comenta Josy e logo uma discussão sobre a lavagem de carro se inicia. Durante uns dez minutos, todos dão suas opiniões sobre o assunto, até que a atividade acaba sendo descartada com votos unânimes do comitê de formatura, dos representantes de turma e do pessoal responsável pelo conselho estudantil.
— Tudo bem. Já que a lavagem de carro foi vetada, alguém mais tem alguma sugestão? – Questiona Aline e a responsável pelas finanças no conselho estudantil levanta a mão. – Pode falar, Amanda. O que você tem em mente?
— Por que não vendem doces, bolos e outras guloseimas? Acho que não causaria tanto problema e não seria difícil de vender, já que adolescentes amam doces. – Sugere a garota, mas a presidente do conselho estudantil intervém.
— Eles não podem competir com a lanchonete da escola. A proprietária paga um aluguel ao diretor da escola para que eles sejam os únicos a venderem alimentos por aqui. Além disso, duvido muito que somente os doces trariam os rendimentos que eles precisam para financiar a festa. – Comenta Summer, dando um fraco sorriso. – Eu sinto muito, pessoal.
— Está tudo bem, Summer. E você tem razão. A venda de alimentos como esse só daria o lucro que a gente precisa se tivéssemos mais tempo e se vendêssemos em maior quantidade. Infelizmente nós só temos quatro meses até o baile de formatura. Nós precisamos de algo rápido e que nos dê mais lucro. – Respondo e Aline suspira.
— Mais alguma ideia do que podemos fazer? – Aline parece estar quase sem esperança pela falta de alternativas.
Todos pareciam incertos sobre o que deveríamos fazer. Alguns começam a comentar algumas ideias, mas nada era bom o bastante para nos dar o retorno que precisávamos. Aline passa a morder as unhas e me encara quase em um pedido silencioso de socorro. Eu definitivamente tinha que dar um jeito na minha fada madrinha que estava exigindo cada vez mais de mim.
— Já que ninguém tem mais ideias, eu darei a minha. – Anuncio, chamando a atenção de todos que me encaram com esperança. – O que eu pensei foi vender ingressos para o nosso baile. Cada formando e aqueles que participaram da organização da formatura vai receber um convite, mas como dessa vez não teremos pares, podemos vender os ingressos da festa para os outros alunos e pessoas de fora que tenham o interesse de participar. Como a comida e a bebida vão estar inclusas e o tema é divertido, podemos investir em publicidade e cobrar um preço mais caro no ingresso. A venda será antecipada e precisaremos receber o dinheiro até no máximo duas semanas antes da data do evento. Isso vai nos ajudar a pagar mais do buffet se for necessário.
“Outra ação que podemos fazer para chamar a atenção do público são as atrações da festa. O irmão da Josy possui uma banda que tem feito bastante sucesso no YouTube. Acho que todos aqui já ouviram falar sobre os Black Pearls.” – Ao falar o nome da anda do irmão mais velho de Josy, todos parecem se animar. A música deles é incrível e eles estão ficando cada vez mais famosos a cada dia. – Eu tenho certeza de que se eu falar com o Anderson, ele pode fazer um preço mais em conta para trazer a banda dele para tocar.
— Do jeito que ele te idolatra, é capaz de tocar de graça só porque você está pedindo. – Comenta Josy, rindo com humor. Dou de ombros e correspondo ao sorriso. – Eu acho que ele te ama mais do que a mim.
— É claro. Eu sou muito mais legal que você. – Provoco e ela me dá língua, antes de rir e dar de ombros, como se não pudesse negar o meu comentário. – De qualquer forma, nós limitamos a quantidade de pessoas para que não vire uma bagunça que a gente não possa controlar. E se a gente ver que a procura está maior do que esperávamos, aumentamos o valor do ingresso e contratamos seguranças para nos ajudar a manter o controle. Felizmente o salão que usaremos cabe até oitocentas pessoas com tranquilidade para dançar. Obviamente, esperamos que o número de participantes seja menor para que a gente possa usar o espaço para outras atrações. Eu vou conversar com minha tia que tem uma loja de decoração. Acho que consigo fontes e outros ornamentos que possam tornar o ambiente ainda mais encantador. O irmão da Juliana é DJ e acho que também consigo com que ele venha tocar de graça para a gente.
— Ele definitivamente vem. Aquele lá adora aparecer. – Comenta Juliana, rindo do irmão mais novo. Sorrio e assinto. Matheus e eu nos damos muito bem e eu sabia que se conversasse com ele, conseguiria convencer o rapaz a se apresentar sem custo além de um ingresso para a namorada dele.
— Minha ideia para conseguir arrecadar mais dinheiro fácil seria fazer um show de talentos com a cobertura da emissora local. Minha mãe trabalha como apresentadora do jornal matinal do canal vinte. Posso conversar com o chefe dela e pedir que permita que a gente participe do programa especial que eles fazem no sábado, mostrando o show de talentos. Ele está sempre em busca de algo novo para atrair a audiência e acho que se usar os argumentos certos, conseguiria umas três horas do programa. A gente tenta encontrar alguns patrocinadores que possam nos ajudar a conseguir um bom prêmio para dar ao vencedor do show de talentos e cobramos uma taxa de inscrição para os participantes. O dinheiro arrecadado, usaremos para comprar os primeiros materiais para a decoração e para o que mais a gente conseguir. – Completo e encaro meu caderno, apenas para ver se eu tinha esquecido de alguma coisa. – Acho que é isso. Alguém tem alguma pergunta ou acha que as minhas ideias são ruins?
— Elas são perfeitas! – Comenta Summer, impressionada.
— Definitivamente dará muito trabalho, mas o retorno que teremos será além do que precisamos. Tenho certeza que as pessoas farão fila para participar do nosso baile só por causa do Black Pearls. E as pessoas sempre fazem de tudo para aparecer na televisão. – Afirma Eric, animado com as sugestões.
— Gustavo, você é um gênio! Impressionante o plano que você montou. Acho que essa será o maior e mais organizado baile de formatura que a Lincoln já teve. – Comenta a professora Linda, sorrindo orgulhosa. Ela é uma das professoras mais antigas da escola e está sempre envolvida com os projetos de formatura da escola. – Eu sabia que você a sua participação no comitê de formatura traria muitos benefícios, já que você é um aluno muito confiável e responsável, mas isso ultrapassou todas as nossas expectativas. Você simplesmente conseguiu organizar o nosso orçamento da melhor forma possível e ainda visualizou um lucro que nos dará a chance de tornar esse baile inesquecível. Meus parabéns, Gustavo.
— Obrigado, professora. – Agradeço, um pouco envergonhado pelos elogios da mulher.
Não demora muito para que todos os outros presentes passassem a comentar o quanto estavam surpresos com a minha criatividade e a forma como eu consegui solucionar o problema. Confesso que eu não sabia muito bem como reagir, mas era muito bom receber o reconhecimento, ainda mais de tantos alunos como naquele momento.
Depois disso, passamos a discutir os detalhes de como funcionaria o show de talentos, as regras que podíamos colocar e os patrocinadores que poderíamos conseguir. Eu consegui marcar uma reunião com o chefe da minha mãe no dia seguinte para apresentar a nossa proposta e com os pais de Peter James e Courtney, que eram donos de empresas grande na cidade e que poderiam se interessar em nos ajudar.
Também tivemos que começar a pensar na decoração e procurar empresas de buffet, onde pudéssemos fazer os orçamentos. Por causa da quantidade de pessoas que esperávamos reunir, precisaríamos de empresas grandes. Para fazer negócio com eles, usaríamos os professores para mostrar o compromisso da escola com o evento.
Ainda precisaria conversar com o irmão de Josy e o de Juliana para podermos anunciar na escola e começar a divulgar o evento. Quanto mais rápido começássemos, mais pessoas poderíamos atrair. No entanto, já deixamos com os outros alunos do comitê de formatura a tarefa de começar a elaborar o material de divulgação. Usaríamos as redes sociais, cartazes espalhados pela escola e os fofoqueiros da escola como o principal meio de divulgação. O objetivo era conseguir o máximo de interessados possíveis, ao ponto de a demanda ser maior do que a oferta e faturar mais.
Ao fim da reunião, eu estava completamente esgotado. Já não era nem mesmo capaz de pensar sobre nada. Minha cabeça doía de tanto pensar em tantos detalhes. Organizar um baile de formatura era muito mais complicado do que eu imaginava. Eu ainda precisaria resolver com Aline como faríamos com as fotos e a questão de rei e rainha da festa. Como o baile seria aberto ao público e ainda seria um baile de máscaras, precisávamos pensar muito bem nos critérios que usaríamos para a votação.
— Você se saiu muito bem hoje. – Comenta Aline, assim que todos se retiram da sala, indo para suas casas. Como Josy dormiria hoje na casa de Juliana, eu iria sozinho para casa, então descansava um pouco a minha mente antes de partir. – Você é mesmo um gênio. Obrigado por me salvar.
— Eu juro que eu perdi as contas de quantas vezes eu pensei em te matar hoje. – Resmungo e ela ri, sentando-se ao meu lado. – Nunca mais me meta em encrencas como essa sem me consultar antes.
— Eu sabia que você recusaria se eu pedisse a sua permissão. Situações desesperadoras exigem medidas desesperadas. – Responde e eu reviro os olhos, antes de suspirar. – Mas me desculpe por isso. Eu sei que foi errado. Mas é que eu queria muito a sua ajuda. Você é responsável e sempre tem ideias muito boas. O baile de formatura é algo que eu tenho sonhado desde que era criança e finalmente terei a chance de fazer parte de algo que vai marcar a vida das pessoas para sempre. Mesmo quando estivermos velhos, com netos e bisnetos, nós ainda lembraremos desse evento com carinho. Essa a nossa chance de tornar isso o melhor baile de formatura de todos os tempos.
— Tudo bem. – Afirmo, perdoando a garota. – Mas não pense que você escapou de suas responsabilidades como presidente do comitê de formatura só porque eu estou aqui. Você ainda vai conversar com todas as pessoas que iremos precisar que participe da organização do baile e ainda vai ser responsável por pensar em toda a decoração da festa.
— O quê? – Questiona Aline, surpresa. Sorrio convencido e ela choraminga. – Mas Gustavo, isso é muita coisa!
— Eu não mandei você me envolver nessa. Agora aguente as consequências. – Respondo, dando de ombros. Levanto-me e pego minha mochila no canto da sala, enquanto Aline continuava a choramingar. – Agora vamos.
— Para onde? – Pergunta a garota de cabelos encaracolados com preocupação.
— Para o estúdio de ensaio do Black Pearls. Nós precisamos conversar com o Anderson e precisa ser ainda hoje. – Revelo e ela arfa, desanimada.
— Hoje? Gustavo, eu estou exausta! Não podemos fazer isso amanhã? Já são mais de seis horas da tarde. Eu passei o dia vendo todos os detalhes de como vai funcionar o baile. Preciso de um bom banho e da minha cama. – Reclama Aline e eu ando até a mochila da garota para entregar a ela, sem me sensibilizar com o drama que ela fazia. – Gustavo!
— Vamos logo, Aline. Eu também estou exausto, mas precisamos da resposta do Anderson o mais rápido possível. Então levanta logo daí e deixa de moleza, que ainda temos muito o que fazer. – Digo e sem muitas escolhas, Aline pega a mochila dela e sai da sala em direção ao estacionamento da escola batendo o pé, inconformada com o que precisávamos fazer. Suspiro e a acompanho. As dores de cabeça estavam apenas começando.
Fale com o autor