Seis

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“A felicidade de um amigo deleita-nos. Enriquece-nos. Não nos tira nada. Caso a amizade sofra com isso, é porque não existe.

Jean Cocteau

— Se serão trinta estrelas, iremos precisar de pelo menos cinquenta folhas de papel laminado para decorar. Então é melhor eu acrescentar mais sacos de glitter. – Aline fala para si mesma, enquanto anotava em seu caderno a lista de materiais que precisaríamos para fazer a decoração do baile. – Acho que eu vou precisar comprar mais máscaras e ir atrás da cascata. Isso foi deixar o ambiente com um aspecto mais mágico.

Ele escreve mais uma vez em eu sei caderno e eu acabo encarando-a quando paramos em frente a um sinal de trânsito. Mesmo cansada pela reunião demorada que tivemos mais cedo, assim que entramos no carro, ela passou a pesquisa sobre decoração de festas, não demorando muito para que ela embarcasse naquele mundo só dela.

Era impressionante o talento que ela tinha para desenhos e a sua criatividade para criar um esboço de como ela planejava que o baile ficasse. Aline não se importava com o movimento do carro e nem com o som do rádio que passava. Sua mente estava distante e eu desconfiava que naquele momento ela havia esquecido até mesmo da minha existência. Sorrio e volto minha atenção para o trânsito, já que o sinal estava aberto mais uma vez.

— Você realmente está animada com o baile. – Comento e ela parece despertar da realidade alternativa que estava antes de me encarar surpresa. – Desculpa. Não queria te atrapalhar.

— Ah, não atrapalhou. Por enquanto eu vou deixar apenas isso anotado. Assim que eu chegar em casa, pesquiso melhor o que eu faço com o restante da decoração que está faltando. – Responde Aline, fechando o caderno em sua perna. Ela começa a guardar as coisas em sua mochila e sorri. – Eu realmente quero que tudo saia perfeito. Não apenas por você e Josy, que obviamente, continuam sendo a minha prioridade, mas eu também acho que esse é um evento importante para todos que irão participar. Afinal, durante quatro anos no colegial, todos são divididos em grupinhos. Os populares, os atletas, os nerds, os artistas, os palhaços, os rejeitados. Enfim, a gente sempre é rotulado a fazer parte de um grupinho quando estamos no colegial.

E então, quando estamos prestes a terminar, existe uma noite que dá um jeito de reunir todos esses grupos. A festa de formatura é aquela noite em que não importa quem vestiu a camisa do time ou quem foi cortado. É a noite em que você pode se pegar cantando até perder a voz com pessoas com quem você nunca falou. É aquela noite me que, enfim, o garoto tímido da aula de matemática pode se declarar como naqueles filmes de romance para a garota que ele tem amado não tão secretamente assim por anos ou que as pessoas que brigaram durante anos, finalmente fazem as pazes e percebem que nunca houve motivos para se implicarem por tanto tempo.

Enfim, a festa de formatura é a nossa noite e cada um daqueles que lutaram tanto para chegar nesse dia quer que ela seja inesquecível. É por isso que eu quero que ela seja perfeita. Eu realmente quero que sua declaração seja perfeita. Que Josy perceba e corresponda aos seus sentimentos. E mais do que isso, que todos os formandos sempre se lembram dessa noite como a melhor de suas vidas. – Aline sorri sonhadora e aperta a mochila contra o peito.

— Confesso que eu nunca havia parado para pensar no baile de formatura dessa forma. É uma boa justificativa e tem uma causa nobre para se dedicar, então vou te perdoar por me enfiar nessa roubada que vai me levar a loucura. – Brinco e ela dá uma risada discreta.

— Obrigada. – Ela agradece e suspira. – Você realmente não acha que meus pensamentos são idiotas?

— Claro que não. – Garanto, prestando atenção no cruzamento que estávamos. Assim que estamos em um ponto seguro, viro-me para Aline. – Ainda tenho minhas dúvidas sobre até que ponto sua ideia de baile de máscaras vai funcionar, mas eu tenho certeza de que será uma noite memorável para todos.

— Você é realmente um cara legal, Gusta. – Comenta Aline, encarando a paisagem com o olhar distante. Eu não tinha dúvidas de que ela estava pensando no idiota do John. Ao notar o meu olhar preocupado, ela ri e suspira. – Não me olhe assim. Eu estou bem.

— Você tem certeza? – Questiono e ela bufa.

— Sim. Eu tenho. – Afirma, dando um empurrão de leve em meu ombro. – À propósito, como são os Black Pearls?

— Você não os conhece? – Questiono surpreso e ela dá de ombros, voltando a atenção a sua mochila.

— Eu apenas ouvi algumas músicas. Eles são bons, mas nunca me interessei em ir atrás para saber mais sobre eles. – Confessa a garota, voltando a me encarar. – E então? Como eles são? O quão próximo você é da banda?

— Eles são como meus irmãos mais velhos. – Respondo, sorrindo nostálgico. – Bradley, Leonard, Anderson, Cameron e Kennedy ou simplesmente, Brad, Leo, Andy, Cam e Kenny. Eles inicialmente queriam se chamar de Black, mas o agente deles disse que não poderiam, por causa da marca já ser registrada. Então, eles resolveram acrescentar Pearls, porque Josy insistiu que Pérolas Negras era um nome incrível e Andy sendo o irmão mais velho babão que ele é, aceitou prontamente o pedido e ainda fez de tudo para convencer aos outros que Black Pearls seria um nome de sucesso.

— Isso foi fofo. – Comenta Aline, sorrindo com interesse. – Ele parece ser um bom irmão.

— E é. – Afirmo, relembrando de como Anderson faz de tudo por Josy. – Na verdade, os cinco são ótimas pessoas. Foi o Andy que me ajudou com a minha sexta declaração que foi no dia seguinte a quinta declaração.

— Juro que estou ansiosa para ouvir a sexta declaração e como ela envolve o irmão da Josy, mas você ainda não me contou a quinta. Não pode pular o processo. Precisa me contar com todos os detalhes como ocorreu a quinta declaração e depois a sexta. – Exige Aline como se eu estivesse desrespeitando todas as leis do universo. Rio e dou de ombros.

— Tudo bem, fada madrinha. Eu vou contar a quinta declaração. Acho que ela foi uma das mais frustrantes de todas. – Comento e ela me encara com ainda mais curiosidade.

— Isso me deixa ainda mais curiosa. – Afirma Aline, cerrando os olhos de maneira investigativa. – O que aconteceu?

˖˖˖

[Três anos atrás]

Um pouco mais de um ano havia se passado desde a última declaração e muita coisa havia mudado em nossas vidas. Com o seu namoro com Bryan, Josy acabou se afastando de todos, inclusive de mim. O rapaz parecia ter muito ciúmes de nossa relação e eu não podia o culpar, ainda assim, isso não tirava a raiva que eu sentia por ele não apenas ter começado a namorar com a garota que eu amo, como ainda havia feito questão de a manipular ao ponto de fazer com que ela não escutasse ninguém além dele.

Nós ainda nos falamos, mas com menos frequência. Não importava quantas vezes eu tentasse alertar Josy do ser inescrupuloso que Bryan era, infelizmente, minha melhor amiga estava cega de amor e acabava se deixando levar. Aos poucos, tudo o que eu pude fazer foi assistir de longe ela se envolver cada vez mais com o mundo de Bryan e se esquecer de nosso mundo.

— Esse filme é horrível. – Comenta Ashley, colocando um pouco de pipoca na boca. Encaro-a com um sorriso irônico. – Não começa. Eu sei que você tinha me avisado. Não precisa jogar isso na minha cara.

Rio e retiro as pernas da linda garota de longos cabelos negros e olhos azuis brilhantes de cima das minhas para pegar controle da televisão e retirar o filme que havíamos alugado na locadora para assistir.

— Agora podemos assistir o filme que eu disse que realmente valia a pena? – Questiono, retirando o CD de dentro do aparelho de DVD. Ashley bufa, mas não demora a ri.

— Você adora o fato de estar certo, não é? – Comenta, encarando-me com um sorriso irônico. Dou de ombros, mas correspondo ao sorriso. Ela ri mais um pouco e balança a cabeça em negação, ainda que a diversão brilhasse em seus olhos. – Chato!

Antes que eu a respondesse, a porta da sala de estar é aberta e vejo o pai de Ashley entrar em casa com um tubo preto de projetos e uma pasta enorme com todos os materiais que ele usa para trabalhar. O homem de olhos tão azuis quanto os da filha coloca as coisas sobre a mesa da sala de estar e sorri assim que me reconhece.

— Gustavo! Que surpresa boa te ver por aqui. – Comenta o pai de Ashley, sorrindo simpático.

— Boa noite, sr. D. Chegou tarde hoje. O senhor está bem? – Questiono e ele amplia seu sorriso, enquanto afrouxa a gravata que usava.

— Boa noite, Gustavo. Pois é. Hoje eu tive que atender um cliente em uma cidade há cento e cinquenta quilômetros daqui. Foi uma viagem longe, mas apesar do cansaço, eu estou muito bem. – Ele se aproxima e deixa um beijo na testa da filha que o encara com um sorriso traquina. – Agora é muito mais compreensível que a rebelde da minha adorável filha do meio tenha escolhido ficar em casa em uma sexta-feira à noite ao invés de fugir para aquelas festas terríveis que me tiram as noites de sono.

— Você trouxe o que eu te pedi, pai? – Pergunta a garota, levantando do sofá com os olhos brilhando em animação.

— Deixe seu pai descansar primeiro, Ash. Ele acabou de chegar do trabalho e de uma longa viagem. Ele deve estar exausto. – Repreendo a garota, que revira os olhos e me lança língua de maneira infantil. Rio e suspiro. – Muito madura.

— Não se preocupe, Gustavo. Eu já estou acostumado a lidar com a ingratidão de minhas filhas. – Dramatiza Jacob Doosse, trazendo aquele mesmo brilho que ele parecia compartilhar com Ashley, enquanto entrega a barra de chocolate que Ashley havia implorado para o pai pelo telefone.

— Quanto drama, pai. – Resmunga Ashley, voltando a se sentar. – Você já tem cinquenta anos. Está na hora de amadurecer.

— Quarenta e cinco, garota petulante. – Retruca o homem, dando um peteleco na testa da filha que ri com diversão. – Onde está sua mãe e suas irmãs?

— Mamãe está na cozinha preparando a janta. As outras irritantes eu não faço ideia de onde estão. – Responde Ashley, concentrando-se em comer o seu chocolate, sem se importar com o olhar questionador do pai.

— Amanda está no quarto estudando para uma prova que vai ter na segunda, sr. D. Já a Amy foi para uma festa na casa de uma amiguinha e só volta amanhã de manhã. – Respondo e o homem assente, parecendo mais aliviado. Ele então deixa mais um peteleco na testa de Ashley, que o encara indignada.

— Ei! Por que fez isso? – Resmunga como uma criança mimada. Rio e coloco o filme que eu havia sugerido anteriormente a Ashley, enquanto ouço seus protestos com o pai, que reclamava da falta de sensibilidade e atenção da filha do meio.

— Já chega vocês dois. Vão acabar assustando o Gustavo. – Reclama Audrey, a mãe de Ashley, surgindo na sala com mais uma bacia de pipoca para nós. Ela se aproxima de mim e me entrega a bacia com um bonito sorriso. – Aqui, querido. Eu trouxe as suas prediletas. Espero que esteja no seu gosto.

— A senhora sabia que eu que sou sua filha e não ele? – Questiona Ashley, fingindo-se de ofendida. Ela reclamava dos dramas do pai, mas era tão dramática quanto ele.

— Ele é visita. Você não. – Retruca a mulher e Ashley ri ainda mais.

— Visita há mais de um ano? – Provoca a garota, mas a mãe da garota a ignora, voltando sua atenção para mim.

— Obrigado, sra. D. Não precisava disso. Eu poderia ter estourado a pipoca de micro-ondas que eu trouxe para não sujar mais louça. – Garanto e ela sorri, balançando a cabeça em negação, enquanto acaricia meus cabelos.

— Você é um rapaz tão bom, Gustavo. – Elogia a mulher com o tom de voz maternal. – Eu adoraria ter um jovem tão bonito e educado igual a você como meu filho.

— Falando nisso, quando vocês vão começar a namorar? – Indaga o sr. D. e eu acabo engasgando com o questionamento do homem. Ashley ri com diversão e me encara com um sorriso malicioso. Ela adorava me ver em situações embaraçosas. – Você já é como um filho para nós mesmo. Adoraríamos o ter como genro, Gustavo.

— Ele é apaixonado por outra garota, pai. Enquanto isso, eu estou me aproveitando da bondade dele para tirar casquinha dele e termos uma amizade colorida. – Responde Ashley e eu tenho certeza de que meu rosto não demora a aparecer com um tomate de tão vermelho que eu fico com o comentário de Ashley.

— Ash! – Repreendo a garota, preocupado com o que os pais da garota diriam. No entanto, nenhum dos dois pareciam realmente surpresos com o comentário sem noção de Ashley.

— O quê? Você sabe que é verdade. – Afirma a garota, encarando-me com malícia.

Ela estava certa. Não havia sido apenas o afastamento de Josy que havia mudado em minha vida. Depois que a garota começou a namorar com o idiota do Bryan, Ashley e eu acabamos nos aproximando. Nós não estávamos namorando, mas às vezes acontecia de nos beijarmos ou das coisas avançarem. Não era planejado e eu geralmente evitava. Mas algumas vezes, Ashley acabava assumindo o controle e eu era incapaz de ir contra sua vontade. Fosse por carência ou frustração, eu acabava me entregando aos toques de Ashley e naqueles momentos, eu esquecia por algumas horas sobre Josy e o quanto sua ausência me machucava.

No entanto, quando toda a euforia passava, a culpa sempre me atingia. Por mais que Ashley soubesse de meus sentimentos e Josy estivesse namorando, eu não conseguia evitar aquela sensação de traição. No fim, eu acabava usando as boas intenções de Ashley para preencher o vazio que Josy havia deixado. Era uma medida paliativa que eu sabia que no fim só me machucava ainda mais.

Apesar disso, Ashley e eu havíamos nos tornados bons amigos. A gente se divertia muito juntos e sua família me acolhia com muito carinho. Eram raros os fins de semana que eu não aparecia para jogar com o sr. D. ou comer a deliciosa comida da mãe de Ashley. As irmãs da garota também eram divertidas. Amanda é a mais velha e responsável das irmãs e tem dezoito anos. Nós compartilhamos do mesmo gosto para livros, então estávamos sempre trocando indicações de livros. Amy é a filha mais nova da família e tem dez anos. Ela é bem doce e tímida, mas ela adora jogar videogame comigo e com o pai, então sempre acabávamos nos divertindo.

Eu amava a família de Ashley e era por isso que eu me sentia tão mal por estar nessa situação com a garota. Ela e a família merecem alguém que realmente possa ocupar um lugar tão especial quanto o de namorado de Ashley.

— Eu sinto muito, sr. e sra. D. Em momento algum eu tive a intenção de...

— Não precisa se desculpar com o comportamento de Ashley, Gustavo. Eu conheço a filha que eu tenho e não tenho dúvidas de que ela tem tornado sua vida bem difícil. Obrigado por ser bom com ela e por cuida dela. – Interrompe o pai de Ashley, sorrindo agradecido.

— Além disso, sabemos que suas intenções com ela são as melhores. Lamento pela garota boba que não é capaz de corresponder aos seus sentimentos. – Completa Audrey, parecendo estar sendo sincera com suas palavras.

— Obrigado. – Agradeço, envergonhado pelo voto de confiança da família. Ashley sorri com doçura e me lançasse aquele olhar de orgulho. – Eu... – Antes que eu terminasse a minha sentença, o meu celular começa a tocar. Suspiro e o puxo de meu bolso. Estranho ao ver que o número pertencia a Josy. – Desculpa. Eu preciso atender.

— Claro. Fique à vontade. Eu vou tomar um banho para jantar. Com licença.

Jacob se despede com um aceno e segue para o andar superior. Audrey também retorna para a cozinha. Ashley me encara com curiosidade para saber quem estava me ligando. Respiro fundo e levo o aparelho ao ouvido.

— Alô. – Atendo, sentindo-me um pouco tenso. Já fazia meses que não conversávamos por telefone.

Onde... você está? – A voz de Josy sai de forma enrolada e chorosa. – Por que você não está aqui?

— Josy? O que aconteceu? Onde você está? – Questiono com preocupação. Ashley se aproxima ao notar que havia algo de errado. O som alto de uma música ruim tocava ao fundo. Pessoas gritavam e pareciam celebrar algo. Josy parece se movimentar e é possível ouvir alguém a xingando por ter derrubado toda a bebida de seu copo.

Desculpa. – Murmura Josy com a voz rouca.

— Josy! Onde você está? – Repito a pergunta, cada vez mais preocupado com o que poderia estar acontecendo com a minha melhor amiga.

Eu não sei. – E então o choro vem com intensidade. – Eu preciso de você. Não sei onde o Bryan... está e... e eu estou sozinha. Ele... ele está com outra garota, Gusta.

— Desgraçado. – Rosno e pelo comportamento de Josy, eu tinha quase certeza de que ela estava sob efeito de álcool. Eu precisava encontrar a garota antes que ela acabe fazendo alguma besteira. – Josy, você precisa me dar uma dica de onde você está para que eu possa buscar você.

Eu... acho que estou em um bar. Tem alguns cavalos aqui e... e bebidas. – Responde a loira do outro lado da linha e eu suspiro.

— O que aconteceu? – Questiona Ashley com preocupação.

— Parece que o Bryan a deixou bêbada em algum lugar para ficar com outra garota. Ela está tão alterada que nem mesmo é capaz de dizer onde está. Tudo o que eu sei é que ela está em algum lugar com cavalos e bebidas. Talvez um bar. – Conto a Ashley, que bufa indignada. Ela também faz parte do grupo de “ódio a Bryan”.

— Eu acho que eu sei onde ela está. – Responde a garota, pensativa. – Espere um pouco. Eu vou avisar meus pais e pegar meu celular e minha carteira. A gente vai atrás dela.

— Obrigado. – Agradeço, enquanto escuto Josy chorar desolada do outro lado da linha. Eu não fazia ideia do que tinha acontecido, mas meu coração se despedaçava em tristeza e ódio ao ver quão machucada emocionalmente ela parecia estar por causa do babaca do namorado. – Josy, eu já estou indo. Não saia de onde você está.

Tudo bem. – Concorda, fungando.

Nesse momento, Ashley aparece na sala com sua bolsa e a chave de seu carro. Ela era dois anos mais velha do que eu, então felizmente já possuía carteira. Assim, após uma rápida troca de olhares, corremos para fora de casa e em direção ao local onde Ashley acreditava que Josy estaria.

A todo momento permaneci com Josy na linha. Por não saber onde e com quem ela estava, temia que alguém a machucasse ou a levasse para longe. Para a nossa sorte, as pistas estavam tranquilas para uma sexta-feira à noite. E quando enfim chegamos, encontramos uma chácara na região mais afastada da cidade.

— Que lugar é esse? – Pergunto, assustado com a quantidade de pessoas que havia no local.

— Essa é a chácara da família de Keith Mackean, um dos melhores amigos de Bryan. Boatos na minha sala disseram que eles dariam uma festa aqui, já que os pais de Keith estão fora da cidade. – Responde Ashley, suspirando. – Eu tenho quase certeza de que o babaca a trouxe para cá. O único problema vai ser encontrá-la.

— É melhor você ficar por aqui. Eu vou atrás dela. – Digo, tirando o cinto de segurança. – Se ela aparecer por aqui, você me liga.

— Tome cuidado. – Orienta Ashley, visivelmente insatisfeita com a situação.

Assinto e corro pela chácara. Naquele momento, a ligação com Josy havia se encerrado. Encontro diversos rostos conhecidos pela região e cumprimento algumas pessoas, questionando sobre o paradeiro de Josy. A cada nova informação que eu recebia, mais a raiva dentro de mim se alastrava.

Pelo que eu havia entendido, Josy havia corrido sem olhar para trás assim que viu Bryan aos beijos com outra garota. Ainda que tivessem se sensibilizado pela situação da garota, ninguém teve a coragem de ir atrás dela. E essa situação me deixava ainda mais furioso.

— Josy! – Grito, assim que encontro a garota sentada no degrau da escada dos fundos da casa. Ela chorava e tremia intensamente, com a cabeça abaixada. Ao ouvir seu nome, ela ergue o olhar e meu coração se destrói ainda mais com a cena que eu vejo.

A garota se levanta cambaleando e se joga contra mim, abraçando-me com intensidade. Correspondo imediatamente, apertando-a contra mim. Inspiro o perfume suave de seus cabelos e a afago, tentando transmitir algum tipo de conforto. A garota chora por minutos sem dizer nada.

E então, ela se afasta rapidamente. Antes que eu questionasse o motivo do movimento brusco, Josy acaba vomitando em minha camisa e sapatos. Arfo e prendo a respiração, afastando-me um pouco. Ela me encara com os olhos arregalados quando o vômito cessa e o choro se intensifica ainda mais.

— Me desculpa, Gusta! – Lamenta Josy e vejo a culpa em seus lindos olhos.

— Não tem problema, Josy. – Garanto, sorrindo com sinceridade. Retiro a jaqueta de couro que eu usava — que felizmente não estava suja com o vômito – e cubro Josy. A noite estava fria e ela tremia intensamente. Ela se encolhe e me encara chorosa. Levo a mão ao rosto da garota e acaricio, enquanto limpo as lágrimas. – Vamos para casa. Nós dois precisamos de um banho e esse lugar já te machucou demais.

— Vamos. – Sussurra, parando de chorar. Ela então encara minha camisa manchada de vômito e estremece de nojo. – Eca.

— É. Eca. – Concordo, rindo ao encarar a mancha. Retiro a blusa que usava e posso sentir os olhos de Josy atentos ao meu corpo. Tento fazer minha mente não imaginar bobagens e repito milhares de vezes para mim mesmo que essa reação é apenas pelo efeito do álcool em seu sangue e pela recente decepção amorosa. – Agora assim, podemos ir.

— Você não está com frio? – Questiona a garota, encarando-me com intensidade.

— Não se preocupe comigo. Eu estou bem. – Garanto, passando o braço por cima dos ombros de Josy, conduzindo-a para a saída daquele lugar. Ela se aconchega em meu peito e passa a encarar o chão com o semblante triste.

Decido deixar a garota em paz. Nada do que eu dissesse agora melhoraria a situação e nem a dor que ela sentia. Ainda que minha mente implorasse por respostas, aquele não era o melhor momento para pressionar Josy, que já deveria estar se sentindo péssima. Assim, seguimos em silêncio pela enorme casa onde ocorria a festa em direção ao carro de Ashley. No entanto, antes que encontrássemos a porta de saída, somos surpreendidos pela aparição de Bryan.

— Sai de perto dela!

Bryan exigiu com os olhos vermelhos e furiosos. O rapaz de quinze anos parecia ser mais velho devido a sua altura e o tamanho dos músculos. No entanto, naquele momento eu estava tão furioso que eu nem mesmo me importava com o fato dele ser maior do que eu. A obrigação de Bryan era cuidar de Josy, mas além de ter permitido que a garota bebesse, ele a traiu e a abandonou embriagada no meio de inúmeros idiotas.

Eu realmente sentia cada poro do meu corpo pronto para destruir o rosto daquele maldito, mas ter Josy tremendo em meus braços, enquanto sua mão fria pressionava o meu peito em certo desespero, decido que resolveria meus problemas com o babaca depois. A minha prioridade era proteger a Josy, tirá-la daquele maldito lugar e garantir que ela chegaria em casa com segurança.

Então, respiro fundo para não me deixar levar pelas minhas emoções e ignoro Bryan completamente. Continuo a andar como se eu não tivesse o visto ou entendido a ameaça mortal que ele fazia silenciosamente com os olhos. Ele estava bêbado e, possivelmente, sob efeito de outras drogas. Não valia a pena gastar o meu tempo, saliva e paciência com aquele desgraçado. No entanto, ele não parecia ter a mesma ideia, pois no momento em que demos as costas a ele, Bryan me puxou pelo braço e imediatamente disfere um soco em meu rosto.

Felizmente, consigo soltar Josy antes de ir ao chão e evitar que ela acabasse se machucando. Aproveitando-se de minha desorientação, Bryan se aproxima e tenta me atingir novamente, mas aquele movimento havia sido a gota d’água que eu precisava para descontar toda a raiva que eu vinha sentindo de Bryan nos últimos quinze meses. Assim, com os incentivos dos adolescentes ansiosos por ver a briga se desenrolar, avanço contra Bryan e agarro sua cintura, derrubando-o no chão.

Utilizando uma força que nem mesmo sabia que eu tinha, desfiro socos contra o rosto de Bryan. A fúria me dominava naquele momento. Ao ponto de mesmo saber que havia algumas pessoas tentando nos separar, eu não era capaz de me controlar. Eu apenas queria que aquele desgraçado pagasse por tudo o que ele fez a Josy.

Odiava o fato de Josy ter o escolhido e não a mim. Odiava saber que ela provavelmente nunca falaria sobre mim de forma tão apaixonada como ela fazia quando se referia a Bryan. Odiava a raiva e a inveja que eu sentia desde que esse maldito entrou em nossas vidas. E me odiava por não ser forte o bastante para lidar de forma madura com essa situação. Eu estava até mesmo indo contra os meus princípios de usar a violência para resolver meus problemas, quando sabia que isso não nos levaria a lugar algum.

Ainda assim, eu só fui capaz de sair de cima de Bryan no momento em que ouvi as vozes de Ashley e Josy, tentando me puxar para longe do desgraçado. Eu estava tão cego de raiva, que nem mesmo notei que Bryan já havia perdido a consciência.

— Gusta! – Josy me abraça assustada, ao mesmo tempo em que me empurrava para longe de Bryan. Ashley vem logo atrás de nós com a minha camisa suja e a jaqueta que Josy deixou cair. – Por que fez isso? Ficou maluco?

— Vamos embora. – Resmungo, ainda irritado, enquanto conduzia Josy para o carro de Ashley, segurando o seu braço.

— Gusta, espera! Espera! Calma! – Josy tenta puxar o braço, mas eu estava tão furioso, que suas palavras nem mesmo chegava aos meus ouvidos. – Gusta, você está me machucando!

O grito repentino de Josy me assusta. Solto o braço de Josy e ela massageia o local, encarando-me com preocupação. Ashley para logo atrás da garota e suspira, provavelmente notando a culpa me consumir. Ela então se aproxima de mim e sorri com doçura, algo bem incomum para Ashley.

— Fique calmo. Ela está bêbada e provavelmente nem vai se lembrar do que aconteceu. Vamos levá-la para casa. Amanhã vocês conversam. – Pede Ashley, colocando a mão em meu rosto, acariciando o local onde eu havia levado o soco de Bryan.

— Ela não pode ir para casa. Os pais dela vão surtar se a ver assim. – Respondo e Ashley bufa.

— E com razão! – Afirma a garota, encarando-a com repreensão. Josy bufa e pega a minha jaqueta da mão de Ashley.

— Ele me deu essa jaqueta. – Resmunga, vestindo a jaqueta. Ashley bufa e me encara com um sorriso irônico.

— Ela é o tipo de bêbada infantil e possessiva. Vamos ter uma noite divertida. – Comenta Ashley, recebendo um olhar nada amigável de minha melhor amiga.

— Por que ela está aqui? – Questiona Josy, apontando para Ashley com raiva.

— Porque alguém resolveu beber demais com o idiota do namorado, só voltou a se lembrar do melhor amigo quando foi deixada de lado. – Retruca Ashley, impaciente.

— Ash! – Repreendo a garota que bufa.

— Isso não é verdade! – Grita Josy, abraçando-me de maneira possessiva. – Eu sempre lembrei do Gusta.

— Mesmo? Não parece! Durante todo esse tempo em que o babaca do Bryan te deu atenção, você ignorava as ligações do Gusta e demorava a responder as mensagens dele. Você até mesmo se atrasou para a festa de aniversário dele. Mas todas as vezes que o babaca te machuca, a primeira pessoa que você se lembra de chamar é o Gusta. – Acusa Ashley, encarando Josy com raiva.

— Já chega, vocês duas. – Resmungo, cansado. – Vamos levar a Josy para minha casa. Meus pais foram visitar minha avó e só voltam pela manhã.

— Você continua passando a mão na cabeça dela. É por isso ela faz o que faz. – Repreende Ashley, abrindo a porta do carro para que eu colocasse Josy no banco de trás.

— Eu não vou com ela! – Exclama Josy, apertando-se contra mim. Ashley revira os olhos. Ela nunca foi muito paciente e já tinha um tempo que ela vinha se irritando com o comportamento de Josy. Eu não a julgava. Também não concordava com as atitudes da garota, mas sabia bem que isso também tinha uma grande influência do relacionamento abusivo que ela vivia com Bryan.

— Josy, por favor, vamos embora. – Peço docemente, conduzindo-a para o carro, mas ela estava determinada a não entrar.

— Não! Eu não vou com ela! – Insiste, encarando Josy com intensidade.

— Ah, pelo amor de Deus, garota. Entra logo na droga do carro, que você já deu dor de cabeça demais por uma noite. – Responde Ashley, puxando o braço de Josy para que ela entrasse de uma vez por todas.

— Não! – Grita Josy, fazendo força para se soltar. Por causa da falta de equilíbrio pelo álcool no sangue, ela acaba caindo e levando Ashley ao chão.

— Ash! Josy! Vocês estão bem? – Questiono, ajudando as duas a se levantarem.

— Não, Gusta! Não está tudo bem! – Josy se levanta e as lágrimas voltam a cair com intensidade. – Eu estou bêbada, meu namorado me traiu, eu fui humilhada na frente de todos os alunos da nossa escola, eu vomitei em você e agora eu estou com o joelho doendo e a minha roupa está toda manchada de lama. Então, por favor, não me faça ir para casa com essa garota.

— Isso só pode ser brincadeira. – Sussurra Ashley, limpando o resto de lama que havia sujado sua roupa.

— Olha, Josy, eu lamento muito que sua noite não tenha saído como você esperava, mas você está sendo injusta com a Ash. Ela não tinha obrigação alguma de vir aqui, mas foi graças a ela que eu te encontrei e ela ainda está fazendo o grande favor de nos levar para casa. Nós estamos longe de casa e a essa hora, duvido muito que algum táxi vai querer vir para essa região. Então, deixe de ser teimosa e entre no carro. – Peço, reunindo o pouco da paciência que eu ainda tinha.

— Não, Gusta! Eu não quero...

— Já chega, Josy. Entra no carro. – Digo, impaciente. – Ash tem razão. Nós já tivemos dores de cabeça demais por uma noite. Eu estou cansado e dolorido pelo que acabou de acontecer. Então será que dá para deixar as infantilidades de lado e colaborar?

O choro de Josy se intensifica e eu suspiro, cansado. Ashley me encara esperando que eu fizesse alguma coisa, mas a verdade é que essa é a primeira vez que eu lido com Josy bêbada. Eu não fazia ideia do que deveria fazer e estava agitado demais para conseguir pensar com racionalidade.

— Eu sou uma pessoa horrível. – Afirma Josy, soluçando aos prantos. – Bryan tinha razão. Ninguém nunca será capaz de me amar, porque eu sou chata, grudenta e irritante.

— O Bryan é um idiota e nada do que ele disse deve ser levado em consideração. – Afirmo, controlando-me para não expressar a raiva que eu sentia do rapaz por ter implantado ideias tão absurdas na cabeça de Josy. Coloco as mãos no rosto de Josy e a obrigo a me encarar. – E nada do que você disse é verdade. Você não é uma pessoa horrível, Josy. É a garota mais doce, divertida, inteligente e linda que eu conheço e qualquer um que não seja capaz de ver isso não merece estar ao seu lado.

— Você está dizendo isso só porque é o meu melhor amigo e me conhece desde que nascemos. – Josy funga e posso ver toda a fragilidade contida em seus olhos.

— Não. Eu estou dizendo isso porque é a verdade. – Afirmo com determinação. – Você não precisa do idiota do Bryan, Josy. Você é como uma estrela. É brilhante e encantadora.

— Eu sou? – Sussurra, encarando-me emocionada.

— Sim, você é. Então não acredite no que ele maldito fala. Porque eu amo você. Com todo o meu coração. – Declaro e tento transmitir o máximo de meus sentimentos naquelas palavras. Ela parece surpresa, mas logo sorri.

— Eu também te amo com todo o meu coração. – Ela responde, abraçando-me com carinho. – Você é o meu melhor amigo, Gusta.

— O quê? – Sussurro, tentando afastar Josy. – Não. Você não entendeu. Eu não estou falando nesse sentindo. Quer dizer, eu te amo assim também, mas eu falei no sentido romântico e...

— Ela dormiu. – Ashley me interrompe, suspirando com um fraco sorriso. Nesse momento percebo que ela estava certa. Josy simplesmente caiu no sono em meus braços e provavelmente nem mesmo havia escutado a minha declaração direito. – Sinto muito.

— É melhor levá-la para casa. – Respondo, frustrado. Pego Josy no colo e a coloco deitada no banco de trás do carro. Assim que me viro, vejo Ashley me encarar com preocupação. – Por que as coisas nunca dão certo para nós dois? Por que sempre parece que todos os meus esforços são em vão?

— Esse é o caminho que você escolheu. – Afirma Ashley, aproximando-se de mim. Ela coloca as mãos em meus ombros e me beija. Assim que se afasta, a garota me encara com seriedade. – Você sabe que existem pessoas que fariam qualquer coisa para te ter assim como você faz por Josy. Se quer continuar a lutar por ela, é melhor se preparar, porque isso está apenas começando e as chances de você sair com o coração partido são quase de noventa e nove porcento. Agora, você pode escolher ficar comigo e eu te garanto uma família carinhosa, uma namorada incrível, divertida, companheira e a certeza de que você será amado com todo o coração.

— Eu tenho certeza que sim. – Respondo e ela ri.

— Mas... – Instiga, provavelmente já sabendo o resultado.

— Mas eu realmente a amo. Eu tentei, Ash. Você é uma garota incrível e eu confesso que não foram poucas as vezes em que pensei que estava apaixonado por você. Mas, você viu. Não importa quanto tempo se passe, eu ainda vou correr até ela. Eu ainda...

— Você vai continuar escolhendo Josy. É. Eu sei. Mas não custava nada tentar. – Responde Ashley, suspirando. – Tudo bem. Eu não vou mais insistir. Ainda que eu ache que é perda de tempo e que você está apenas se desgastando em vão, eu vou respeitar a sua decisão.

— Obrigado. – Agradeço, sorrindo com sinceridade.

— Não me agradeça. Eu provavelmente ainda vou dar um jeito de usar você. Afinal, eu já te disse antes. Eu não sou uma garota tão legal assim. – Avisa Ashley, dando uma piscadela. Ela então pega as chaves do carro e anda em direção ao lado do motorista. – Agora vamos. Nós temos que cuidar da sua amada e eu tenho certeza de que a nossa noite será longa. Muito longa.