Meu querido diário
77 Por trás da história
Notas iniciais

Olhei mais um pouco para a aliança que trazia por alguns anos no dedo, respirei fundo e por fim levantei.
— Você me leva na casa dele? – Questionei vendo a hora, se aproximava das nove da manhã.
— Só se limpar bem esse rosto — Ele riu abrindo a porta.
Dei um meio sorriso e corri para o quarto para me arrumar, vi o diário aberto jogado em cima da minha cama e quando li o nome Cebola estampado em uma das folhas, tive mais certeza ainda de que era aquilo que eu queria fazer, estava realmente decidida, a hora de conversar com o Mauricio e acabar com aquele noivado havia chegado.
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POV Cebola
Sai de casa furioso, eu sabia o caminho de cor, nem mesmo a raiva que eu senti naquele momento conseguiu me confundir.
Liguei o carro rapidamente e dei partida, ignorando totalmente o fato da minha irmã gritando para que eu não fosse de dentro da minha garagem.
Segui impaciente, quanto mais eu dirigia, mais eu imaginava o quanto ele havia sido canalha com a Monica e o quanto eu queria encontrá-lo para confrontá-lo. Não gostava de agir com a cabeça quente, mas aquele momento pedia exatamente aquela ação, não esperei por mais nada para jogar tudo que sempre quis, na cara dele.
Parei bruscamente assim que avistei o prédio da famosa Aprel, era inconfundível, ele se destacava na avenida movimentada. Desci do carro, peguei o celular da Maria nas mãos e caminhei decidido até a entrada, toquei a campainha da cobertura pelo menos quatro vezes para só então ser atendido.
— Oi, em que posso ajudá-lo? – A voz dele preencheu meus ouvidos pela campainha digital, fazendo meu sangue ferver.
— É o Cebolácio, preciso te entregar algo, pode descer por favor? – Pedi tentando não demonstrar nervoso algum.
Ele desligou rapidamente e em menos de dez minutos abriu a grande porta de vidro leitoso que bloqueava a entrada do local.
— Eu acho que te conheço – Ele comentou arrumando os cabelos para trás e estendendo a mão educadamente.
— Me conhece sim, sou o Cebola, já fomos apresentados antes! – Não correspondi ao cumprimento.
— Ah! Sim, era o professor da Mônica no colégio, não é? – Ele perguntou sem entusiasmo.
— Fui! Agora não sou mais, e meu papo é com você, de homem para homem, cara a cara! – Cruzei os braços sustentando o olhar fixo em seus olhos.
— Ih! Nem te conheço direito pra você vir com essa – Ele recuou um pouco desconfiado.
— Ah, mas eu te conheço bem Mauricio, bem até mais do que eu gostaria, não tenho tempo, nem saco pra ficar aqui conversando com você, só quero tirar a limpo uma história – Continuei, posicionando o celular da Maria em minhas mãos.
— Que história? – Questionou preocupado.
— Essa... – Mostrei uma foto, pude o ver perdendo a cor do rosto.
— Como conseguiu isso? Quem é você? Algum detetive? Estão te pagando pra isso? – Perguntou em disparada.
— Não, eu só queria olhar nessa sua cara de pau e confirmar que você não presta, não merece nada que tem – Vociferei.
— Quem você pensa que é? Sabe com quem está falando? – Ele retrucou crescendo a voz. — Se eu chamar meu segurança, você sai daqui preso!
— Eu sou o cara que abriu mão da própria história, pela felicidade da Mônica e agora, vejo você jogando isso no lixo, como tem coragem? Como pode fazer isso? – Perguntei coçando a cabeça. – E eu não tenho medo de você, minha vontade é de arrebentar sua cara.
— Ah... Verdade,,, Agora faz sentido... Lembro de você e do seu nome em vários lugares diferentes das anotações da Mônica... Você é o professor apaixonadinho? – Ele riu, provavelmente relacionando a história do diário – Bem que eu desconfiava, que dó! Acha mesmo que ela trocaria um cara como eu, por um como você?
— Isso não é sobre bens, é sobre carater, que você não tem nenhum! Eu a amo e quero vê-la feliz, diferente de você seu canalha! – Respondi fechando meus punhos.
— Calma Cebolinha, a Mariana é só um caso, nada serio, quem nunca não é? Eu vou fazer a sua Monica feliz, pode deixar comigo, vamos nos casar em breve, e tudo ficará bem. – Me respondeu ainda rindo. – Agora, quanto você quer pra apagar essas fotos e esquecer que elas existem, seu salário mais uns cinquenta por cento, tá bom não é? — Tirou a carteira do bolso.
Antes que eu pudesse controlar, o acertei no olho esquerdo, com a maior força que pude concentrar em um soco. Não consegui esquivar quando ele voltou de reflexo me empurrando, mas aquilo foi o gatilho para eu partir pra cima dele e disparar murros em todas as direções. Senti que ele tentava me afastar, ou atingir meu rosto, mas sem sucesso, eu estava furioso e quando ficava daquele jeito era difícil me segurar, jamais permitiria que alguém repetisse aquelas palavras vazias a respeito da Monica.
Entre empurrões, socos e palavras desconexas, só paramos quando ouvimos algumas vozes familiares chamarem por nossos nomes.
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POV Monica
O caminho todo permaneci inquieta, olhava no relógio aflita de cinco em cinco minutos, o Titi tentava me acalmar, mas não obtinha muito sucesso. Por mais que eu quisesse, não era uma tarefa fácil acabar com um relacionamento de cinco anos.
Pensei tanto no Cebola e no DC naqueles últimos dias, que imaginei ser miragem, quando o carro foi parando em frente a Aprel e eu pude ver os dois no meio da calçada, juntos demais para uma conversa amigável.
Soltei o cinto imediatamente, acompanhada do Titi que deixou a baliza por fazer e saiu correndo na direção dos dois. Corri incrédula e assim que me aproximei a única coisa que consegui fazer foi empurrá-los pedindo para que parassem. Pude ver o olho do meu noivo inchado e os cabelos do Cebola totalmente alvoroçados, a expressão de raiva em seu rosto me deixava claro que algo sério havia acontecido.
— Vocês ficaram loucos? – O Titi gritou assim que conseguiu conter o Cebola.
— Eu... Eu perdi a cabeça – Ele respondeu arrumando os cabelos na medida do possível.
— O que aconteceu aqui? – Gritei afoita por respostas arregalando os olhos no meio dos dois. — Vocês piraram?!
— Seu professor está descontrolado, apareceu na porta da minha casa, partindo pra cima de mim, falando coisas estranhas – O Mauricio se defendeu ajustando sua roupa. Mirei o Cebola novamente, vi que ele evitava o contato visual comigo.
— Seu desgramado, vem cá que vou acabar com essa sua cara de pau – Ele tentou ir para cima do DC novamente, mas o Titi o parou.
— Cebola!!! – O olhei suplicando explicações para tal comportamento.
— Quem tem que te explicar alguma coisa aqui é ele, seu noivo, que tem a coragem de ainda te olhar nos olhos, depois de tudo que fez – Respondeu respirando rapidamente, seu rosto transparecia furia e eu comecei a ficar preocupada.
— Hey! Qual é Careca? O que está acontecendo aqui? – Meu irmão questionou assustado, voltando a atenção para ele.
— Pode deixar que eu explico! – A Maria entrou no assunto, se aproximando após descer agitada de um taxi,
— Maria, não acredito que você me seguiu! – O Cebola vociferou indignado.
— Claro, eu te conheço! — Ela respondeu nervosa se voltando para mim – Mo, amiga, não queria ter que te falar isso, muito menos numa situação como essa.
— Vocês se metem demais na vida dos outros, isso sim é um problema, por que não nos deixam em paz? – O Mauricio reclamou se aproximando de mim. O olhei de lado um tanto agoniada, eu podia sentir que alguma coisa ruim estava acontecendo, apenas pelo olhar dos irmãos em minha frente.
— Deixa ela falar DC! – Retruquei quando que ele me puxou para perto, me abraçando.
— Solta ela! – O Cebola avançou de frente, tentando se aproximar de nós sem sucesso após mais um bloqueio do Titi.
— Será que da para você ficar calmo? — Meu irmão gritou, o empurrando um pouco mais para longe.
— Tá! Me larga! — Ele respondeu cruzando os braços.
— A gente só descobriu de verdade hoje, mas parece que já rola faz um tempo – Maria tirou o celular do bolso do irmão, selecionou algo na tela e o estendeu para mim.
No começo não entendi muito bem, talvez por querer recusar que aquilo fosse realmente verdade, mas depois, quando finalmente foquei pela terceira vez a combinação de fotos, levei a mão à boca incrédula.
— Eu... Eu posso explicar amor – O DC começou a falar me virando de frente para ele.
— ...Essa menina é sua amiga não é Maria? – Questionei ainda mirando o celular com os olhos marejados. — Eu a conheço.
— Sim... Mas eu nunca desconfiei Mo, os encontrei essa semana e só tive certeza hoje, quando questionei ao Cebola, e ele confirmou que realmente era o Mauricio. A Mariana já sai com ele há meses, foi pedida em namoro esses dias atrás. – Contou claramente chateada.
— Não posso acreditar – O Titi balbuciou estralando os dedos. – Eu vou te matar.
Dessa vez, foi o Cebola que intercedeu, ele conhecia o amigo, o Titi perdia totalmente as estribeiras quando estava nervoso.
— Eu posso explicar tudo isso, me escuta, a gente se ama, como estávamos um tanto distante, acabei me envolvendo com ela, foi só um deslize – Ele comentou segurando em minhas mãos. — Nada comparado ao nosso casamento, que será lindo.
— Me larga, NÃO ENCOSTA EM MIM! – Gritei me soltando de todo e qualquer contato com ele.
— Não faz assim – Ele pediu tornando a se aproximar. – Vai jogar cinco anos para o alto por causa disso?
— Não escutou ela não? Quer que eu te mantenha longe? – Cebola perguntou o encarando novamente.
— Nossa! Estou até emocionado... Que lindinho, o professorzinho de quinta, defendendo a aluninha especial, quantas dessas você conseguiu iludir na escola Cebolácio? Todas acreditaram e escreveram sobre você também? – O DC apelou para o lado defensivo, pude sentir desespero em suas palavras.
— Cala sua boca ou eu vou ter prazer em quebrar cada um dos seus dentes – Ele retrucou com o rosto vermelho. Eu conhecia aquela expressão, estava furioso.
— Para Mauricio, por favor — Pedi chorosa, entrando em pânico com a situação,
— Alias, você nunca me contou não é Monica? Que os protagonistas do seu best-seller estavam mais próximos que eu imaginava. Eu que te tirei do fundo do poço, te resgatei quando você sofria por esse cara ai, e você é uma ingrata – Concluiu fazendo uma lágrima escorrer do meu rosto. — Aluna especial não é?! Tenho certeza que passou com as melhores notas.
Antes que qualquer um dali partisse para cima dele que era o que aconteceria com certeza, eu virei um tapa em sua cara, o estalo foi alto, marcando os cinco dedos em sua bochecha.
— Você mudou totalmente Mauricio, nunca mais foi quem eu conheci há anos atrás, e mesmo se fosse, não é você que amo, nunca foi você. Eu posso conviver com uma traição e com o fato de ter sido enganada por tanto tempo, mas e você pode sabendo que em cinco anos nunca fez com que eu realmente te amasse? — Tirei a aliança do meu dedo e joguei com força no chão – Diamantes, eventos de luxo, flores, nada disso compra amor! – Conclui com todas as emoções fervilhando, pude ver que ele não queria ter dito nada daquilo que falou anteriormente, no segundo que se seguiu ao tapa, sua expressão foi de medo.
Mas era tarde, ele já tinha dito, ele já tinha ferido, e as palavras, uma vez pronunciadas, nunca mais podem ser apagadas.
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