Meu querido diário
5 Sorriso de Mel
Notas iniciais

— Como assim a gente precisa ir? Meu irmão nunca nos levaria, sem chance – Eu imaginei chateada.
— Ahhh Moniquinha, por isso que disse pra você não demorar muito pra voltar pra Sampa, parece até que não lembra com quem está falando, sou eu a Denise, acha que não consigo colocar a gente lá dentro? – Ela me animou de repente.
Denise é do tipo de amiga que sempre está ao meu lado, ao mesmo tempo que é craque em entrar em enrascadas, é super hábil em sair delas. Quando se trata de conselhos, ela é ótima, pode até te ouvir chorando mas em seguida vem com alguma história que te faz rir, mais rir mesmo, daquelas risadas de doer a barriga e te fazer esquecer pelo menos um pouco o motivo da sua dor.
Nos tornamos amigas desde o começo, desde pequenas, já discutimos, claro, várias vezes, ainda mais que ela paga um pau pro meu irmão, e eu tenho aflição só de pensar nisso, mas nunca passa de um dia nossa briga, no momento seguinte já estamos juntas novamente.
— Sério? Não acredito? – Eu me levantei ansiosa – Que horas vou pra sua casa?
— Vem umas oito horas e trás todo seu estojo de maquiagem e sua roupa, se troca aqui – Ela concluiu – Agora deixa eu ir cuidar da nossa entrada, beijos.
— Ok, ok – Eu desliguei eufórica.
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Parei um pouco para pensar na possibilidade e minha adrenalina foi a mil, uma festa de faculdade, a minha primeira, seria incrível!
Na mesma empolgação, abri meu armário onde guardo roupas na casa do meu pai e comecei a jogar um monte delas em cima da cama, tudo que eu imaginei que combinaria ou que daria para usar nesta noite.
Quando percebi uma montanha se formava, e decidi parar. Olhei um por uma, colocando em frente ao meu corpo, não era e nunca fui chata pra escolher roupas, pelo contrário, eu tenho um estilo variado, mas não tinha idéia do que usar em uma festa de faculdade, ainda mais no frio.
Demorei mais um pouco parando por vezes em frente ao espelho, e com um pulo me lembrei de uma bota que eu tinha deixado aqui da última vez que vim, porque não coube na minha bolsa para levá-la embora.
Ela era de cano longo até o joelho, logo que me lembrei dela, montei um look na cabeça, revirei mais um pouco as roupas e achei uma saia rosa rodada de cintura levemente alta e um body de manga comprida preta com as costas semi abertas. Era isso, iria exatamente com essa roupa.
Me arrependi de ter tirado tudo que tinha do armário no minuto seguinte que tive que guardar cada roupa em seu devido lugar. Demorei um pouco a mais do que esperava e quando terminei estava até cansada.
Coloquei delicadamente a roupa escolhida dentro da mochila, peguei meu estojo de maquiagem, meu perfume e tudo que imaginei que precisaria e a fechei deixando a bolsa pronta.
Como se eu tivesse combinado, meu pai chegou logo em seguida para perguntar se estava tudo bem, foi ai que me dei conta da hora, já eram quase duas da tarde.
— Monica, dormiu de novo? – Ele me perguntou aparecendo na porta.
— Ah... Não papi, estava arrumando umas coisas, hoje a noite vou lá pra casa da De, ta bom? – Eu perguntei saindo do meu quarto em direção a sala.
— Ta bom, quando eu chegar eu passo lá pra te buscar – Meu pai respondeu me seguindo.
— Acho que vou dormir lá pá, assim você não precisa ter pressa com suas coisas, nem o Titi com as dele, sem preocupações – Conclui ansiosa pela resposta.
— Como se eu fosse me apressar na festa só por sua causa, sonha – Meu irmão resolveu dar o ar da graça rindo.
— Titi ninguém te chamou, não se mete – Eu retruquei passando reto por ele, que estava sentado em frente à TV assistindo futebol.
— Podem ir parando os dois, ok Monica, amanhã cedo você volta, mas venha cedo mesmo, quero levar vocês para almoçar em um restaurante novo aqui do bairro – Meu pai concordou, fácil até demais.
— Ah pai, mas amanhã tenho futebol, sempre almoço com a galera lá – Titi reclamou como de costume.
— Sem desculpas Timóteo, você vai também e fim de papo. Sua irmã vem de vez em quando para cá, e quero aproveitar esse momento família juntos – Meu pai concluiu satisfeito.
— Ok pai, o senhor que manda – Ele concordou desligando a TV e se levantando.
— Ok Papi, pode deixar estarei cedo de volta – Eu concordei animada.
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O tempo pareceu passar devagar o resto do dia, ou eu estava ansiosa demais para que chegasse a noite, torcendo de dedos cruzados que a Denise tivesse conseguido as entradas.
Aproximadamente às sete e meia da noite meu pai estava pronto e me dando tchau saindo pela porta da sala, Titi corria de um lado pro outro passando perfume que não acabava mais e eu agoniada pensando se esse menino não sairia nunca, ia pegar uma carona, claro.
— Hey, você não está atrasado não? – Perguntei no intuito de apressá-lo.
— Isso é pra me irritar? Porque se for, pode parar – Ele me respondeu sempre grosso.
— Quero carona até a casa da Dê – Eu pedi já imaginando a resposta.
— Ta, mas só porque é caminho – Ele respondeu rápido – Pega suas coisas e leva o vídeo game porque não peguei ele a toa, vamos logo que tenho que buscar a Aninha.
— Ta bom – Respondi animada, achei que ele não iria aceitar.
Peguei de qualquer jeito a sacola do game, joguei nas costas minha mochila cheia, tranquei a porta e corri em direção ao carro que já estava ligado.
A casa da Dê é pertinho da minha, demorou cerca de dez minutos para chegarmos, desci aliviada por nenhuma pergunta ter sido feita no caminho, mas me precipitei com esse alivio.
— Monica, pra que uma mochila tão cheia assim? – Ele me perguntou, fazendo com que eu parasse no meio do caminho imaginando um milhão de coisas para responder. – Vai para algum lugar?
— Ah gato, ela vai me ensinar uns truques de maquiagens novos, quer aprender também? Se bem que lindo assim você não precisa – Denise apareceu na janela dando uma piscadinha pro meu irmão.
— Ah... Claro que não, to fora! Todo caso me liga Mo e juízo mocinhas! – Ele piscou de volta para ela e deu meia volta sumindo no escuro da rua, nunca perdia uma paquera.
Eu a fuzilei com os olhos, mas agradeci por ela ter aparecido, não saberia o que responder. Eu tinha certeza que se meu irmão fosse mais novo, ou a Denise um pouco mais velha, iria rolar alguma coisa entre os dois, balancei a cabeça rapidamente para tirar esse pensamento da minha mente.
— E ai, conseguiu? – Perguntei enquanto entrava em sua casa.
— Claro, chegando lá é só procurarmos o Xaveco, ele nos coloca pra dentro, já está tudo no esquema – Ela me respondeu animada.
— Denise ficou louca? O Xaveco é amigo do meu irmão, ele vai contar pro Titi, nem rola ser ele — Eu lamentei, entrando em pânico – Se meu irmão me pega lá, ele me mata.
— Monica, Monica, não me subestime amiga, primeiro que o Xaveco não tem idéia de quem é você, só informei que levaria uma amiga, você se trancar no quarto quando eles estão em casa tem seu lado bom, depois pode pensar em um nome pra você usar essa noite, porque você não será a Monica – Denise riu abrindo a minha bolsa e pegando meus estojos de maquiagens.
— Humm, eu gosto de Mel – Respondi entrando na onda – O que acha?
— Mel está ótimo, agora vamos nos arrumar senão chegamos no fim – Ela concluiu voando pro banho.
— Perai, de onde conhece o Xaveco?
— Ah, o conheci em uma festa de uma amiga, ele estava lá, e quando o adicionei no face vi que ele faz a mesma facul que seu irmão, liguei uma coisa na outra e plim, ele nem sonha que eu sou amiga da irmã do Titi.
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Um pouco mais de uma hora se passaram, e eu me olhei no espelho satisfeita. Estava pronta, com a ajuda do meu salto estava uns 10 centímetros mais alta. Olhei para trás e vi uma Denise totalmente produzida pronta também, chamamos um taxi e partimos para a festa, fomos o caminho inteiro treinando meu novo nome para não ocorrer enganos.
Quando finalmente chegamos, nos deparamos com o guarda no portão da faculdade pedindo os nomes para entrada. Denise o explicou que éramos convidadas do Xaveco e minutos depois o reconheceu vindo sorrindo do meio da escuridão.
— E ai meninas, vamos, entrem, entrem que a festa está bombando – Ele abriu espaço por entre ele o guarda e o portão.
— E ai Xavequinho, como anda? – Denise o cumprimentou com um abraço caloroso.
— Opa, estou ótimo, e melhor agora, estão lindas hein, e quem é essa princesa? – Ele perguntou sorridente.
— Eu sou a Mel, prazer – O cumprimentei sorrindo.
— O prazer é todo Mel – Ele brincou fazendo com que eu e a Denise o ignorássemos para não sermos inconvenientes, confesso que tive que me segurar para não rir.
Xaveco nos guiou pelo caminho que levava ao espaço de festas da faculdade, o campus era realmente enorme e eu me admirei quando paramos ao lado do salão, luzes de todas as cores e uma musica extremamente alta saiam pelas frestas das janelas.
Um pessoal se encontrava do lado de fora e dava para ver que estava lotado, percebi que era hora de nos dispersarmos do Xaveco antes que meu irmão chegasse próximo a ele.
Denise o avisou que íamos dar uma volta, e foi exatamente o que fizemos, a festa estava bombando, tinha gente pra todo lado, ela não parava de apontar para os carinhas lindos que passavam pela gente, e bota carinha lindo nisso, confesso que me senti um pouco perdida, acho que ainda não acreditava que estava ali sem meu irmão pra me encher o saco.
Fomos até a mesa pegar algo pra beber, e reparei que cheguei sozinha ao local, com a musica alta me dispersei e nem vi que a Denise tinha ficado quilômetros atrás conversando com alguém que eu não fazia a mínima idéia de quem era.
Dei de ombros e resolvi me misturar na pista pra dançar, uma das minhas musicas preferidas tocava indicando que a noite só estava começando.
Percebi-a se aproximando novamente, trazia alguns amigos juntos, que sob o som não escutei quem eram, mas entramos todos na dança, sorrindo como se nos entendêssemos.
Alguns minutos depois de muito dançar, eu virei para beber algo e foi então que tudo aconteceu, dei de cara, de cara mesmo, com um carinha, o baque surdo do encontro fez com que ele derramasse boa parte do conteúdo do seu copo no chão, mas não consegui olhar para a bebida recém caida, meu foco foi totalmente outro, encarei aqueles olhos mel vivos, que brincavam lindamente com seus cabelos estrategicamente desarrumados.
Nossos corpos ainda estavam colados um ao outro, e uma de suas mãos ainda seguravam o meu braço quando caímos em si e um rubor tomou conta do meu rosto. Tentei me desculpar, e acho que ele entendeu porque abriu aquele sorriso para mim, posso dizer que um dos mais bonitos que já vi na vida.
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