Meu querido diário
6 Cinderela
Notas iniciais

Alguns minutos depois de muito dançar, eu virei para beber algo e foi então que tudo aconteceu, dei de cara, de cara mesmo, com um carinha, o baque surdo do encontro fez com que ele derramasse boa parte do conteúdo do seu copo no chão, mas não consegui olhar para a bebida recém caida, meu foco foi totalmente outro, encarei aqueles olhos mel vivos, que brincavam lindamente com seus cabelos estrategicamente desarrumados.
Nossos corpos ainda estavam colados um ao outro, e uma de suas mãos ainda seguravam o meu braço quando caímos em si e um rubor tomou conta do meu rosto. Tentei me desculpar, e acho que ele entendeu porque abriu aquele sorriso para mim, posso dizer que um dos mais bonitos que já vi na vida.
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Com a mesma rapidez que nossos olhares se cruzaram se dispersaram, e ele sumiu novamente na multidão. Olhei para os lados e não encontrei vestígios sequer de que ele havia estado ali.
Virei-me para Denise que sorria e papeava com os meninos, e instantaneamente percebi que não adiantaria perguntar se ela tinha visto a cena, provavelmente nem imaginava que tinha acontecido.
Procurei mais um pouquinho atenta aos detalhes do local, mas não o achei, resolvi então continuar a dançar, minha única preocupação era dar de frente com meu irmão, mas em meio a tanta gente a chance de isso acontecer diminuía e muito.
Ainda envolvida pelo ritmo, olhei aflita para o relógio e com alivio percebi que não eram nem meia noite, a festa estava realmente muito boa para acabar tão cedo.
Caminhei até o banheiro e fiquei em frente ao espelho para checar a maquiagem, a Denise tinha caprichado hoje, fez um delineado marcante, fechando com um batom rosa matte.
Arrumei meu cabelo para o lado tentando armá-lo e quando estava quase saindo perdi um pouco do compasso dos batimentos cardíacos, a Aninha abriu a porta do lavabo e se dirigiu tranquilamente para a pia sem ao menos olhar para minha cara. Na hora em que olhou para o espelho, consegui virar rapidamente e decidi não brincar com a oportunidade, tratei de me apressar para sair do local o quanto antes e sumir novamente no meio da galera.
Com o coração acelerado procurei a Denise e não demorei a encontra — lá, percebeu rapidamente que me faltava cor no rosto e se assustou.
— Que que pega gatz? – Ela gritou para que eu tentasse escutar. – Você está da cor da parede.
— A-ni-nha – Soletrei num ato mudo, não adiantaria falar, dentro do salão não se escutava nada.
Ela segurou minha mão com força e me carregou para fora do local.
— Caraca, cuidado Mo, não fica andando muito pelo salão, uma hora você encontra seu irmão ai babou hein, vai ser micão na frente de todo mundo – Ela me alertou, como se eu já não soubesse.
— Eu sei, só fui ao banheiro, e você quem são aqueles gatinhos? – Eu perguntei tentando mudar o foco do assunto, olhando os meninos que estavam perto da gente.
— Ah, contatos darling, contatos... Precisa aprender a te-los – Ela riu voltando ao meu lado para o salão. – E vê se fica atenta, por favor.
Entramos dançando e ela já puxou papo novamente com os garotos, encostei-me ao bar do salão e fiquei olhando o movimento, sempre atenta claro, ouvi alguém mexer comigo e desencostei para verificar, era o Xaveco e um grupinho de amigos dele tentando chamar atenção, dei de ombros, me virei rápido para voltar ao lado da Denise e mais um baque fez com que meu braço ficasse imediatamente dolorido.
— Hey, ai meu braço – Eu reclamei passando a mão sobre o local batido.
— Olha, parece que nos cruzamos mais uma vez – Ele brincou, mais gritando do que falando.
Percebi que era o mesmo carinha, dos olhos lindos e cabelos rebeldes, tentei me acalmar sem levar em consideração a dor do braço para responder.
— Pois é – Falei querendo rir, percebendo de canto de olho como ele era realmente forte e lindo.
— Quer tomar alguma coisa? – Ele perguntou alto e mesmo que não tivesse gritado eu teria entendido. – Assim... Para me redimir pelas duas trombadas.
— Claro... Quer dizer, pode ser – Respondi calmamente, não acreditando que ele estava puxando papo comigo.
— Você é muito bonita – Ele se aproximou sorrindo, com aquele olhar que hipnotizaria todas as meninas da festa.
— Ah... Obrigada – Agradeci um pouco sem graça, nunca levei jeito pra essas coisas.
— Que curso você faz? – Ele perguntou enquanto pedia algo para o barman.
— Jornalismo – Respondi a primeira coisa que me veio a mente – E você?
— Educação física – Ele me respondeu fazendo com que eu engasgasse um pouco – Sou o Cebola, prazer linda, e qual seu nome? — Me cumprimentou, entregando o copo, e se encostando ao meu lado no balcão.
— Sou a Mel, e o prazer é todo meu – Eu conclui sorrindo.
Não precisei pensar em mais nada depois disso, e nem tive tempo de continuar a falar ou entender ao menos se ele apresentava perigo no quesito meu irmão, ele me puxou com força por um dos braços e me tascou um beijo. Envolveu-me naqueles braços fortes, e não consegui conter. Largou o copo e passou uma de suas mãos sobre meu cabelo, me trazendo pra mais perto ainda, comecei a perder o fôlego, mas não o soltei. Passado tempo suficiente pra eu me derreter, nos soltamos aos poucos e ficamos cara a cara nos olhando. A reação dos dois a seguir foi idêntica, sorrimos e continuamos abraçados.
Ele passou a mão sobre meu cabelo, tirando o da minha testa e admirando meu rosto, senti uma ternura invadir meu corpo.
— Você é louco? – Eu perguntei dando risada.
— Só se for por você – Ele respondeu ainda me olhando.
Admirei sorridente seu rosto e voltei a beijá-lo com vontade, ele me envolveu, correspondendo ao ato, quando comecei a perder o fôlego novamente fui soltando aos poucos nossas bocas, terminando com um sorriso demorado. Ele foi quem quebrou o silencio.
— Me fala, Mel por que Jornalismo? – Perguntou, me puxando para um dos banquinhos do balcão, tentando começar uma conversa.
— Sempre gostei de escrever, desde pequena, nunca tive dúvidas do que queria cursar – Respondi com confiança, afinal, era verdade, só não tinha acontecido ainda, e isso ele jamais saberia.
— Gosto de ler sabia Mel?! Acho incrível quem escreve – Ele comentou sorrindo me deixando ainda mais caída, se é que era possível, por ele.
— Isso é ótimo – Eu me animei o encarando nos olhos, ele amava ler, e eu escrever, podíamos casar já não podíamos?!
— Nunca te vi por aqui, se bem que o campus é bem grande – Ele falou aproximando nossos bancos para ficarmos mais próximos.
Sobre os ombros grandes e largos dele consegui ver a Denise eufórica olhando em minha direção, tentei ignorar para não ficar ansiosa e acabar falando demais.
— Também nunca te vi, e olha que já tive oportunidades – Sorri, pensando silenciosamente com uma pontada de pânico se ele era amigo do meu irmão, o que provavelmente seria.
Ele tornou a se aproximar, e eu deixei, claro, como se estivesse com sede do beijo dele. Novamente nos envolvemos, e ele tornou a entrelaçar as mãos pelo meu cabelo, desejei que aquele momento durasse pela noite inteira.
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Ele era realmente incrível, seu papo era bom, ele era bonito, inteligente, me tratou bem e beijava melhor ainda. Torci para que tivesse pensado o mesmo que eu, e um tempinho depois, acho que minha resposta veio a tona.
— Me passa seu número? – Ele pediu me surpreendendo.
— Ah, claro – Peguei uma caneta do balcão e anotei em um guardanapo o entregando.
— Está guardado – Ele colocou no bolso da calça – Agora vem cá – Me puxou para outro beijo.
— Huhum, desculpa atrapalhar, mas a cinderela precisa ir embora, ou a carruagem vira abobora – Denise apareceu ao nosso lado nos assustando.
— Ai, que susto De – Eu soltei do beijo com a mão no coração – Essa é minha amiga a Denise.
— Ah, oi Denise, sou o Cebola – Ele cumprimentou com um aceno de cabeça.
— Opa garanhão, desculpa atrapalhar, eu nem sou disso, mas preciso levar a Mel comigo, temos que fazer umas coisas, precisamos ir embora cedo – Denise me puxou pelo braço.
Sai do enlaço dele com o coração apertado, teria ficado por mais horas ali e senti por não ter tido tempo de o falar isso, ele me olhou com um olhar sedutor e piscou um dos olhos em despedida, se eu ia voltar a vê-lo, não sabia, mas uma coisa eu tinha certeza, iria sentir falta daquele beijo.
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Corremos e muito para chegarmos a casa dela sem sermos notadas, me senti a própria cinderela fugindo do baile proibido, que saco, bem quando eu tinha encontrado um carinha gato e inteligente, que provavelmente nunca mais eu veria. Qual era a chance dele lembrar de me ligar?!
Quando nos aproximamos do local, eu já estava chateada, e a Denise como sempre notou.
— Por que essa cara? – Ela perguntou enquanto abria a porta para entrarmos em silencio.
— Não sei, não queria que a festa acabasse tão cedo – Eu choraminguei fechando a porta ao passarmos.
— Eu também, mas vi seu irmão umas três vezes uns minutinhos antes de irmos embora, por isso te disse que era melhor sairmos, a festa estava ficando vazia e inevitavelmente iríamos nos esbarrar – Ela explicou já trocando de roupa.
— Ele beija tão bemmmm – Eu lembrei me jogando na cama.
— Quem? O Titi? Deve beijar mesmo – Denise perguntou se jogando ao meu lado.
— Claro que não louca, o Cebola, aquelas mãos fortes sabe, aquele abraço apertado – Fechei os olhos enquanto repassava as cenas na cabeça.
— Ihhhh menina, que papo pesado, vou dormir que ganho mais – Ela se cobriu apagando a luz.
— Hey, nem me troquei ainda – Eu me levantei num pulo acendendo o abajur, já falei que não gosto de escuro?
— Então vai logo, fica sonhando ai acordada, esqueceu que ele nem sabe seu nome de verdade? – É ela tinha razão.
— Credo como você é má – Eu conclui fazendo bico, trocando de roupa, e deitando na cama tentando pegar no sono.
— Ta... Me conta, quem é aquele bofe? – Ela pediu rindo e jogando um travesseiro em mim, que no escuro não entendi direito da onde vinha.
— Nãooo, só de raiva também não conto – Eu brinquei devolvendo o travesseiro para qualquer lado, e percebendo instantaneamente que devia ter quebrado alguma coisa da cômoda pelo barulho.
— Pode falarrrrr, ah e se quebrou algum dos meus perfumes você vai pagar, esteja ciente – Ela riu.
— Nem vem, não tenho culpa se está tudo escuro, não enxerguei o que estou fazendo – Caimos na gargalhada – Ai De, ele é incrível, mas acho que conhece meu irmão.
— E que que tem? – Ela me perguntou no silencio da noite.
— Tem que o Titi me mataria por 50 motivos no mínimo – Eu conclui virando para o lado tentando pegar no sono.
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