Meu querido diário
31 Grupo definido
Notas iniciais

Ele olhou mais um pouco para os termos, pude ver sob a meia luz que entrava pela janela, as mãos dele levemente tremulas.
— Está aqui, assinado, espero que não se arrependa da sua decisão – Ele entregou os papeis em minhas mãos, visivelmente nervoso.
— Foi você que me mostrou que essa era a atitude certa a se tomar – Conclui olhando talvez pela última vez apaixonadamente dentro dos olhos dele e sumindo de vista pela porta que dava para o corredor, sem olhar para trás.
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Desempenhar o resto da minha árdua tarefa foi um pouco menos complicado, a parte mais difícil tinha acabado de ser deixada para trás. Gostaria de ter conseguido ouvir pelo menos um pouco o pensamento dele, pra saber como tinha ficado, mas com certeza isso mexeria comigo, então era melhor não.
Foi um pouco mais demorado do que imaginei, mas só sai da diretoria quando consegui o carimbo da dispensa e minha transferência para o Espanhol, começaria na semana seguinte, torci seriamente para que a partir daquela segunda-feira, junto com a nova matéria, viesse uma nova etapa na minha vida.
Cheguei em casa psicologicamente exausta e me tranquei no quarto, passei voando pela sala e sequer reparei se havia alguém por ali, abri meu diário rapidamente e fui anotando tudo que vinha na minha cabeça, precisava urgente desabafar, demorei cerca de três horas para atualizar todos os acontecimentos e somente depois consegui ir tomar um banho para tentar descansar.
Sai do banheiro com frio, correndo nas pontas dos pés para me trocar, o Outono estava chegando e trazendo com ele uma brisinha gelada, gostosa. Peguei um lanche, deitei na cama confortavelmente, e quando ia ligar a TV, ouvi meu celular apitar.
Soltei o controle ao meu lado e desbloqueei agilmente o aparelho, um número desconhecido estampava minha tela e somente quando abri descobri quem era.
“- Oi Monica, é o Fabinho, o do colégio, sabe?! Vi que você ficou meio chateada, e achei super injustiça o professor te tirar do time, se quiser vou falar com ele junto com você, te queremos com a gente... Ah não briga com a De, fui eu que insisti pra pegar seu número com ela, beijos”
Olhei mais um pouco para a mensagem e com um meio sorriso respondi educadamente.
— Oi Fabio, tudo bem? Ah, muito obrigada pela preocupação, eu fiquei um pouco chateada, mas já passou, não poderei revogar minha saída porque pedi dispensa da matéria, vou fazer espanhol no lugar, estava precisando de um reforço.
— Ah, você optou pela dispensa... Algumas pessoas da sala fizeram isso também, mas só os que realmente não gostam de esportes e esperavam desesperadamente desde o primeiro ano por essa oportunidade de poderem desistir... Você é diferente, da para perceber que joga muito, vamos tentar falar com ele?! Não custa nada... – Ele insistiu.
— Obrigada mesmo Fabinho, mas preciso do reforço de Espanhol, quero prestar para Jornalismo e me dedicar ao curso de letras enquanto ainda tenho tempo disponível, depois da escola, vem a faculdade e ai o tempo fica super apertado – Contei a verdade. Ta, ta bom, meia verdade... Eu queria muito jogar, mas jamais iria implorar por isso, ainda mais para o Cebola, e também precisava melhorar meu inglês e o espanhol.
— Jornalismo... Que demais! Curto letras também, mas meu lance mesmo são os números, quero fazer Engenharia – Ele contou sem eu ao menos perguntar, senti uma compaixão momentânea.
— Acho interessante, mas não para mim, se eu ficar vendo muito número na frente eu piro – Brinquei.
— Você é legal Monica Sousa, gostei de conversar contigo, amanhã se quiser sentar na nossa mesa no intervalo, vamos papear mais – Ele ofereceu...
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Não sei exatamente em qual mensagem, mas foi em meio a conversa que eu peguei no sono ainda com o celular na mão, o assunto não acabou ali, foi virando outro, que virou outro, e quando eu vi, já era tarde e sem perceber meus olhos se fecharam.
Acordei como sempre num pulo com o despertador mais alto do que de costume, teria estranhado isso se não fosse o fato dele estar bem em baixo da minha cabeça.
Chequei as mensagens da noite anterior ainda sonolenta e confirmei o que estava imaginando, realmente tinha deixado o Fabinho falando sozinho, costume meu, não conseguia evitar. Nada contra ele, ao contrário nossa conversa estava ótima, mas meu sono, pelo menos naquele dia foi maior.
Tomei um banho correndo, comi alguma coisa sem sequer olhar para a cara do Titi, que tomava café mal humorado ao meu lado, e corri ao encontro da Denise.
— Miga mil desculpas, o bofe insistiu tanto e você sabe, não resisto ao sorriso dele, tive que dar seu número – Ela se desculpou antes mesmo de me dar bom dia.
— Bom dia pra você também De, sem problemas amiga, sabe que ele tem um papo até legal, chamou a gente para comer na mesa dele hoje – Contei sabendo que ela se animaria, Fabinho sentava com os meninos mais gatos e populares do colégio inteiro, todo o time de futebol estaria por lá.
— Que? Cala a boca, as meninas vão se morder de inveja – Ela gritou me abraçando, já imaginando mil coisas na cabeça.
Eu apenas ri, era bom conseguir me distrair mesmo em meio aquela sensação de buraco que vinha me acompanhando por onde eu ia.
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Os dias foram passando rápido, se tornando semanas e conseqüentemente meses, já estávamos em Julho, “pré férias” e em partes as coisas estavam mais tranqüilas, já tinha me realocado no colégio, feito mais amizades e um grupo definido. Não doía com tanta intensidade igual o começo, pelo menos agora não mais, eu já havia aceitado que eu e o Cebola não éramos compatíveis. Já conseguia comer normalmente, rir de algo engraçado, me envolver com o pessoal da escola e aproveitar o tempo junto com eles.
Naquela manhã fria de inverno corri o máximo que consegui para não perder o começo da primeira aula, cheguei ofegante no colégio a tempo de me encontrar com o pessoal na porta.
— Caraca Mo, achei que iria se atrasar, esqueceu que hoje tem a nota das provas finais? – Maria perguntou passando o braço pelo meu.
— Desculpa, fiquei até tarde escrevendo, perdi totalmente a noção da hora – Contei tentando normalizar a respiração com a mão sobre o peito.
— Olha, se você colou de mim pode ficar feliz que foi bem – Dudu riu entrando na classe.
— Você sabe que eu não colo Eduardo – Respondi mostrando a língua e o empurrando com uma mão.
— É brincadeira, mas estou ansioso – Ele respondeu sorrindo para Maria, que instantaneamente corou. Era incrível como ela perdia o compasso quando se tratava do assunto “coração”.
— E você Fabinho, foi bem pelo menos? – Perguntei olhando para ele que se acomodava na carteira ao meu lado.
— Acho que sim, você sabe, meu ponto fraco é humanas – Ele riu tirando o caderno da mochila.
— E eu o contrário. – Completei o imitando.
— Já leram o jornal de hoje? – Denise perguntou entrando na classe, jogando exemplares em cima dos alunos. –Tem todas as noticias dos novos acontecimentos.
— Denise, a diretora tem ciência que você inventou de jogar panfletos pela sala? Ela vai te matar se souber que esse jornal saiu da internet – Comentei checando rapidamente as noticias, era sempre bom não encontrar uma sobre você mesmo por lá.
— Acho que sabe – Denise respondeu sem dar muita bola, se sentando ao lado da janela.
Passei o olho rapidamente pelas novas informações, o jornal não era de todo ruim, tirando a parte das fofocas, tinham informações importantes para quem prestaria vestibular, ou queria se atualizar sobre economia, política, dicas de cursos, campeonatos profissionais e inter-colegiais, sem contar o cantinho do protesto, onde eles abriram espaço para os alunos protestarem por algo que achavam injusto no colégio, claro com moderação.
Virei a folha e pude sentir uma fisgada invadir o peito, a foto do Cebola se destacava como treinador estrela do campeonato, perdi o compasso dos batimentos por alguns segundos e somente depois da Maria me chamar três vezes, que voltei ao foco.
— Monica, me da esse panfleto, por favor – Ela pediu arrancando-o da minha mão – Não tem nada de interessante aqui hoje.
Eu sabia que ela havia percebido, abaixei a cabeça mexendo no meu anel rapidamente, e um enjôo leve começou a incomodar novamente meu estomago.
Não foi, nem estava sendo fácil esse tempo todo sem ele, tinham dias que sentia falta de ar, de tanta saudade. Já havia lido sobre grandes romances, sobre o poder de um sentimento na cabeça de jovens perdidamente apaixonados, mas na prática nada ali descrito se comparava com o que eu sentia. Não sabia se era normal, ou se era exagero, mas minha saudade era quase palpável.
Tinha aprendido a ignorar essa dor em público, pelo menos em partes. Meu foco naquele momento tinha que ser o vestibular da UOP — Universidade de Ouro Preto, no qual eu e a Maga tínhamos nos inscrito, desde pequenas sonhávamos com esse dia. Ele aconteceria em Outubro e eu tinha que gabaritar, era uma das melhores faculdades em Jornalismo, e ela me chamava pelo nome e sobrenome. Com tudo isso, fui tentando a cada dia que passava, esquecer a dor que nossa separação me causava, não que eu conseguisse de fato, mas me distrair e fazer outras coisas já me ajudava bastante.
A verdade é que demorou, mas eu tinha entendido que por mais que se amem algumas pessoas simplesmente não eram destinadas a ficarem juntas.
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POV Cebola
Mesmo após alguns meses depois de tudo que tinha acontecido, ainda não era fácil encarar aquela classe sabendo que o motivo pelo qual ela tinha desistido da matéria havia sido uma infantilidade minha.
Pelo menos a dor era um pouco menor, eu a via com pouca freqüência, só pelos corredores, seja do colégio ou das noites de TCC na casa do Titi, o que ajudava um pouco a lidar com a situação.
O Titi já tinha se desculpado, inclusive pareceu realmente preocupado quando o contei sobre minha situação com a Monica, não preocupação do tipo de quem torce para que o casal de certo, mas sim pela tristeza de duas pessoas que julgo eu, eram importantes para ele. Se bem que naquele momento já não fazia mais sentido algum, eu e a irmã dele já não nos conhecíamos mais, se é que um dia tivéssemos nos conhecido.
Cheguei na escola atrasado naquela terça-feira, mal tive tempo de passar na sala da direção, o dia anterior havia sido pesado, e as noites vinham se tornando o único tempo disponível que eu tinha para me dedicar ao TCC.
O campeonato estava ótimo, apesar de não termos começado no melhor clima, o time se manteve invicto e estávamos em primeiro lugar na chapa, sem contar que eu estava há alguns jogos de ganhar o título de técnico destaque.
Tudo seria totalmente tranqüilo naquele dia, se eu não tivesse visto o que eu vi....
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