Meu querido diário
32 Mais um minuto sequer
Notas iniciais

POV Cebola
Cheguei a escola atrasado naquela segunda-feira, mal tive tempo de passar na sala da direção, o dia anterior havia sido pesado, e as noites vinham se tornando o único tempo disponível que eu tinha para me dedicar ao TCC.
O campeonato estava ótimo, apesar de não termos começado no melhor clima, o time se manteve invicto e estávamos em primeiro lugar na chapa.
Tudo seria totalmente tranqüilo naquele dia, se eu não tivesse visto o que eu vi um pouco mais tarde....
—-
POV Monica
— Um nove?! É isso mesmo? Você está reclamando de um nove? – Perguntei pela terceira vez seguida para a Maria que olhava chateada para sua prova.
— Minha média em matemática é dez Mo, tenho que recuperar – Ela respondeu caminhando claramente decepcionada ao meu lado.
— Maria você arrasa, não fica chateada, recuperará seu “dezinho” na próxima prova com certeza! – Dudu passou o braço pelo ombro dela, mas tirou rapidamente assim que viu o coordenador vindo no final do corredor — Ninguém merece o Arthur andando o tempo todo pelo colégio, será que não teremos privacidade nunca? Daqui a pouco vai ser proibido respirar perto de vocês em público.
Eu ri.
— Verdade Maria, eu tirei 8,5 e estou tranqüila, relaxa vai, jajá você recupera, se é que precisa – Respondi guardando meu material no armário.
— Ah, mas você gabarita nas de português – Ela se defendeu tentando esconder o rosto corado devido ao abraço, enquanto repetia a mesma ação que eu.
— E ai pessoal, bora almoçar? Tenho um tempo livre antes do treino de hoje – Fabinho se aproximou junto com dois amigos, que reconheci por sentarem no fundo da classe.
— Veio esfregar seu dez na minha cara, não veio? — Maria choramingou tentando não rir.
— Ah, ela ainda está chateada pelo 9,5? — Ele me perguntou sorridente.
— Você vê... — Respondi retribuindo o sorriso.
— E então? Vamos ou não vamos? — Ele tornou a perguntar.
— Vamos – Respondemos em coro.
—-
No geral o almoço foi uma delicia, tanto a comida quanto a companhia, desde que começamos a andar juntos eu, Maria, Dudu e Fabinho, a escola tinha ficado mais legal e a vontade repentina de desistir do colégio nem passava mais pela minha cabeça. Valeu a pena ter gastado mais do que podia da minha mesada, comemos no melhor restaurante japonês que eu conhecia, ficava na rua da escola, e a comida sempre era sensacional. Só saímos do local, quando vi o Fabinho olhando para o relógio um tanto quanto impaciente, logo percebi que estávamos atrasando eles para o treino e decidi então levantar para ir embora.
— Acho que já está na hora, eu tenho aula extra de Espanhol daqui a pouco, comentei me direcionando ao caixa para pagar minha parte.
— Bom então vamos – Maria concordou me seguindo.
Dudu e Fabinho se entreolharam e levantaram em seguida.
— Por que vocês não assistem ao nosso treino? – Fabio perguntou me surpreendendo, quase nenhum garoto, da escola inteira, gostava quando as meninas entravam na arquibancada para assistir, diziam que tirava o foco, atrapalhavam o rendimento e coisas do tipo.
— Que? Sério? – Maria perguntou, percebi que tão surpresa quanto eu.
— É... – Dudu concordou olhando meio confuso para o Fabio, ele sabia que isso geraria uma briga no vestiário, era regulamento interno, criado por eles mesmos, que nenhum cara do time poderia levar namoradas e afins para assistirem aos treinos.
— Acho melhor não – Eu respondi rapidamente – Eu tenho aula daqui a pouco e também não acho legal a diretora nos pegar por lá, vocês sabem, regras, regras e regras.
— Eu também não poderei meninos, fica pra próxima, mas obrigada pelo convite – Maria agradeceu assim chegamos na frente do colégio novamente — Agora vou embora, beijinhos — Ela se despediu, ficando meio sem jeito quando chegou ao Eduardo.
Dudu a acompanhou com o olhar, e quando ela sumiu de vista, parou ao nosso lado esperando pelo amigo, mas imediatamente percebeu que Fabinho não o acompanharia, pelo menos não naquela hora.
— Acho que vou indo para o treino, dar uma aquecida antes, falou – Ele se despediu sumindo pela porta da quadra.
— Será que esses dois nunca vão perceber que se gostam? – Perguntei para o Fabinho enquanto tirava o material de espanhol do armário.
— Pois é, acha que a Maria daria chance pra ele? – Fabinho questionou se apoiando no armário.
— Claro que daria Fabio, as vezes acho que vocês são tapados – Respondi rindo – Não enxergam as coisas que estão na cara de vocês.
— Será? – Ele perguntou e num susto me vi cara a cara com ele assim que fechei a portinha do armário.
Fiquei sem reação, mas também não tive tempo nenhum de pensar, nossas respirações se fundiram mais rápido do que imaginei e no segundo seguinte senti os lábios dele nos meus. Passou uma mão sobre meu cabelo e a outra na minha cintura.
Num ato inconseqüente fechei os olhos e quando ia me entregar para o beijo, ouvi uma das vozes que eu menos queria naquele momento.
Já em pânico abri novamente os olhos e confirmei o dono do voz, perdi um pouco do compasso.
Nem de longe esse meu desespero que invadia o estomago era por causa da bronca que tomaríamos por quebrarmos talvez trocentas regras do colégio, um Cebola bem nervoso se aproximava e contrapondo meu medo, um Fabinho corajoso se colocou na minha frente.
— Foi minha culpa professor, deixa ela fora disso – Ele falou antes que qualquer sermão tivesse sido dito.
— Os dois, já pra minha sala. – Cebola ordenou no tom mais frio e seco que conseguiu, em momento algum olhou em minha direção.
Meu coração já estava disparado e minhas mãos começaram a suar, caminhamos em silencio para o escritório.
— Professor, isso é pessoal? Porque assim, se for, podemos conversar um papo reto, desde que entrou aqui você pega no meu pé – Fabinho rebateu rebeldemente, me fazendo engolir em seco. – Foi só um be....
— Fabinho, por favor, não tem nada a ver, a gente quebrou uma regra, lembra? – Tentei o fazer parar, aquilo com certeza daria problemas muito piores do que ele podia imaginar.
Cebola nos fulminou com os olhos.
— Não é nada pessoal Fabio, sou um professor desse colégio, e tenho regras a seguir, assim como vocês. Alias, você que estuda aqui há muito mais tempo que eu dou aula, deveria saber que beijos, abraços, e qualquer contato a mais são considerados motivos graves de infração que resultam até em expulsão – Ele começou a falar coçando a cabeça.
— Parece que você nunca foi jovem professor, alias você ainda é, não controlamos o que sentimos, foi só um beijo, que por acaso você atrapalhou! – Ele respondeu de braços cruzados, estava decidido a não baixar a cabeça.
— Pelo que vejo, você anda bem desaforado Fabio Boa Pinta, já fui jovem, ainda sou, e por mais que eu goste de lutar pelo que acredito, as regras existem, e tem que serem cumpridas. Se não concorda abre um dialogo com a diretora, mas não as quebre. Imagina se fosse o coordenador, ou a própria! – Cebola respondeu ainda friamente, a cada palavra que pronunciava parecia que sua sala ficava mais gelada, mais vazia.
— Que seja, qual o castigo? – Fabinho perguntou impaciente — Essa escola parece um internato.
— Já chega Fábio! Vou ter que te levar para a diretoria, você está impossível hoje — Ele concluiu bravo — E até a diretora te chamar quero vocês bem longe um do outro, escutaram? – Cebola rebateu firmemente se aproximando bastante do garoto.
— Cebola – Intervim tentando o alertar sobre a aproximação repentina, afinal para nervos a flor da pele qualquer passo a mais viraria motivo para perder a cabeça.
Fabinho me olhou um pouco confuso, ninguém chamava um professor assim, ainda mais pelo seu “apelido”, afinal seu nome era Cebolácio.
— Professor! Desculpe, foi o nervosismo... – Corrigi rapidamente percebendo a falha.
— Libera ela, seu problema é comigo e fui eu que a beijei – Fabinho pediu de cara fechada.
— Não, eu também tive culpa – Comentei me colocando entre os dois, temia o pior.
— Que lindo! Quanto amor! Os dois se defendendo até me emociona — Ele bateu palmas sarcasticamente — Ambos foram errados! Pode se retirar Fabio me espere no corredor que já te levo á direção. – Cebola pediu me assustando, não queria mesmo ficar em uma sala sozinha com ele, não naquele momento, que o que eu mais desejava era chorar com a cabeça em uma almofada.
— E ela? Não vou deixa — lá sozinha – Ele me defendeu novamente.
— Preciso conversar com a aluna, pode se retirar, em poucos minutos te encontro – Ele concluiu nervoso.
Fabio olhou mais um pouco, analisou na cabeça a situação, sussurrou para mim que qualquer coisa era para chamá-lo e sumiu por entre as portas pisando firme.
Cebola me encarou por um tempo, como se buscasse alguma explicação para o que tinha visto em meus olhos, mas imediatamente olhei para os meus pés.
— Por que está fazendo isso comigo? – Ele perguntou tentando se acalmar o máximo possível, mas falhando notavelmente, passava as mãos sobre o cabelo o tempo todo.
Tornei a olhar para baixo pensando em alguma resposta rápida, afinal, não podia me esquecer que há seis meses, eu que tinha causado o problema que resultou no que estava acontecendo agora, minha mentira lá do começo tinha virado uma bola de neve e agora eu carregava comigo todos os dias, dois corações machucados por causa dela. Optei por afastá-lo ainda mais.
— Isso... Não é mais da sua conta, desculpa professor! – Respondi sentindo uma pontada intensa de dor invadir meu peito. Tentei me segurar o máximo que consegui para não chorar, pelo menos não na sua frente. Dei uma última olhada, e pude ver a expressão de decepção do Cebola que ainda me encarava, seu olhar dessa vez era vazio. Sem esperar outro sermão, virei e sai pela primeira porta que encontrei, o mais rápido que pude, não ousei olhar para trás, eu sabia que não aguentaria encará-lo por mais um minuto sequer.
Fale com o autor