Meu querido Idol
2 O quê pode dar errado?
Eu passei todo o ensino médio economizando e me preparando pra isso.As aulas de coreano,emprego de meio período e também uma ajuda dos pais.Meu coreano não é o melhor,mas o inglês sim,isso foi o suficiente. Nós nos preparamos juntas pra isso e finalmente cumprimos nosso objetivo. Seul é o limite para nós agora,Gangnam nos espera! Simplesmente ir pra Coréia do Sul nunca foi uma opção. Tinha que ser Gangnam porque lá é o centro de tudo o quê nos motivou a tentar a viajem.
Duas malas de rodinhas cheias é tudo o quê eu estou levando,posso comprar o quê precisar depois que chegar ao meu destino. Já andei por toda a casa de cima a baixo tentando pensar se esqueci de algo -escova de dente....passaporte….documentos….tudo aqui.
Do meu escasso guarda roupa eu retirei só as melhores roupas,que couberam perfeitamente em duas malas. O dia estava como sempre muito quente e para chegar ao aeroporto ainda seria necessário três horas de viagem de ônibus até a capital,então optei pelas roupas mais leves que encontrei. Shorts jeans de cintura alta e top branco. Fiz o melhor delineado que consegui e passei o batom mais vermelho. Meu celular tocou, olhei o visor e vi o nome “Tatá” no identificador. Apelido da minha companheira de viagem. Atendi no segundo toque.
–Alô?
–Já tá pronta? -Thais perguntou
–Sim,tô saindo agora. Ainda não acredito que a gente vai mesmo! — Respondi com entusiasmo.
–E você acha que eu acredito? — Na sua voz havia o típico sarcasmo de sempre -Vou rodar Gangnam-gu de cima a baixo!
–Do jeito que você é,seria mais fácil você se perder em Gangnam,e vamos ter que estudar então só vai dar pra sair fim de semana se não tiver muito dever de casa -Assumi um tom de preocupação, estávamos lá pra estudar e não á passeio.
–Detalhes,detalhes….-respondeu com zombaria. Desliguei o telefone,e sai de casa com as malas e um enorme sorriso.
Ao chegar na rodoviária encontrei Thais já na fila comprando nossas passagens de ônibus. Sentei em um dos bancos de granito e resolvi espera-la terminar. Ela também usava roupas leves, cabelo preso em um coque desleixado,all star preto combinando com o short e camiseta do Mickey. Só que diferente de mim ela levava apenas uma única mala.
Nosso ônibus partiria daqui a cinco minutos e só pararia ao chegar na rodoviária da capital,então guardamos nossas malas no bagageiro e seguimos para nossos lugares. Thais estava tão empolgada que não parava de gesticular e conversar sobre como ela achava que seria nossa nova vida...Eu até prestei atenção nas primeiras trinta palavras,depois disso acho que cochilei.
A próxima coisa que me lembro é de Thais me chamando.
–Carla? Carla acorda,chegamos.
–Hmm…. — eu disse “ok”, ou pelo menos foi o quê tentei dizer. Abri lentamente os olhos, relutante em levantar e cambaleei para fora do ônibus. Descarregamos as malas e finalmente demos uma boa olhada na rodoviária.
Era enorme e cheia de lanchonetes, pequenas lojas, bancos laranjas agrupados próximos de cada terminal e pessoas, muitas pessoas.
–Eu estou com muita fome -Thais havia parado de observar o terminal e estava olhando para mim agora,esperando ansiosamente que eu também esteja com fome para irmos logo comer. Eu sorri.
–Quem chegar por último no Subway pede molho chipotle! -Saímos em disparada para a lanchonete mais próxima rindo e nos empurrando.Infelizmente eu estava com duas malas e isso não me favoreceu na corrida.
Matamos a fome. Seguimos de táxi até o aeroporto e embarcamos. Nossa próxima parada seria a última.
Quantas horas se passaram? Umas vinte,talvez mais. Eu estava exausta,nunca tinha viajado de avião,e apesar de ser confortável todo o tempo parada deixou minhas pernas dormentes. Pelo visto as da Thais também porque logo que começamos a descer as escadas ela tropeça e nós duas acabamos caindo no chão em um efeito domino.
–Desculpa! — Thais disse ,mas por baixo da expressão de espanto e vergonha ela estava rindo,rindo muito. Ainda no chão eu joguei os braços para o alto e suspirei.
–Bem vinda a Seul.
Até nossa residência ainda havia um longo caminho,resolvemos pegar o metro até Gangnam-gu por ser mais barato. Logo que saímos do aeroporto percebemos que não seria nada fácil aqui. O fluxo constante de carros e pessoas, muitas pessoas a todo momento. Era confuso até mesmo reconhecer as ruas e ver as lojas. Nosso pequeno apartamento ficava em um local mais afastado,mas ainda assim havia muitas pessoas,e as ruas pareciam labirintos estreitos.Se não fosse pelo meu celular com GPS estaríamos literalmente perdidas.
Finalmente eu avistei o pequeno prédio onde passaríamos a morar. Era novo e confortável, havia dois elevadores logo na entrada. Uma senhora que ficava na recepção nos explicou as regras (tudo em coreano) enquanto nos levava a nossa nova moradia no quarto andar. Se despediu com uma pequena reverência quando chegamos a porta do quarto, nós repetimos o gesto.
Para abrir a porta era necessário um pequeno cartão ao invés de chaves, cada uma de nós havia recebido o seu. O apartamento era pequeno,mas incrível. Logo na entrada havia a cozinha, fogão, geladeira e armários todos encaixados perfeitamente no lado direito da parede. A cozinha terminava em um pequeno balcão que servia para dividi-la da sala. Na sala havia uma TV disposta do lado esquerdo da parede, uma mesinha de centro de vidro e um sofá de três lugares branco. Toda a lateral da parede da sala era de vidro coberta por uma persiana, e dava direto em uma pequena varanda retangular. Na parede oposta à da sala,haviam prateleiras de madeira enormes que eu já imaginei como ficariam lindas cheias de livros. O estreito corredor entre o balcão da cozinha e as prateleiras de madeira levava a duas portas. A da frente era o banheiro e a do lado esquerdo era nosso quarto, que consiste em basicamente dois futons,uma penteadeira com espelho e uma portinha de vidro q dava para um quartinho com cabides e gavetas. O chão era todo de madeira brilhante e lisa e as paredes claras.
–A gente tem um closet!!! -Thais estava dentro do closet revirando todos os cabides e abrindo gavetas.
–Thais sai de dentro do closet — Eu pedi — a parte direita é minha, a outra metade que você desarrumou é toda sua. — Disse enquanto levava nossas malas para dentro do closet.
Depois de colocar todas as roupas no closet ambas estávamos exaustas pelo fuso horário, a essa hora devia ser 10:00 am no Brasil e ainda não havíamos dormido. Não podíamos dormir ainda,se não,acordaríamos no meio da noite, e amanhã temos que ir a escola checar nossa matrícula para começar a frequentar as aulas.
–Vamos sair? -Eu sugeri
–Não sei… está muito tarde agora. — Thais, sempre receosa em quebrar as regras.Mas eu não desisti, não tinha como eu ficar em casa aquela noite, então insisti mais um pouco. -Eu tenho uma amiga aqui que conheci na Internet, ela pode sair com a gente de carro para dar uma volta, vamos! — Disse com minha voz mais persuasiva.
Thais fez uma careta de reprovação, mas meu olhar de cachorrinho ainda não havia desistido.
–TÁ BOM! QUEM SE IMPORTA? — Thais disse com drama exagerado — Vamos sair por aí com sua amiga da Internet que pode ser uma estupradora.
Combinamos de encontrar -minha amiga estupradora da internet- Gaby, daqui a 30 minutos em frente ao nosso prédio.O clima em Gangnam estava muito frio e não queríamos chamar atenção, então colocamos moletons escuros e casacos com capuz, só para o caso de precisarmos esconder os rostos na saída do prédio.
Havia alguém na recepção, mas não era a mesma senhora de antes,era um homem de uns trinta anos incrivelmente alto.Colocamos nossos capuzes cobrindo o máximo de nossos rostos e esperamos uma oportunidade.Ele atendia alguns hospedes muito nervosos e não pareceu notar quando discretamente saímos pela porta.
Atravessamos correndo até o outro lado da rua,onde uma Hillux preta estava estacionada esperando por nós.
–Entrem rápido! — Mandou Gaby.
Thais sentou no banco de trás enquanto eu fui na frente. Antes das portas estarem completamente fechadas Gaby já tinha nos tirado dali.
–Isso foi demais! -Exclamei.Nem de longe pensei que seria tão fácil sair de lá,eu sei que estávamos quebrando uma regra mas a adrenalina de fugir as escondidas pela noite em outro país enchia meu estúpido cérebro de felicidade.Nada poderia dar errado. Eu estava tão feliz comigo mesma que acabei me esquecendo das apresentações.
–A propósito,Thais essa é a minha amiga estupradora Gaby -Fiz um gesto exagerado de reverência com as mãos.-Gaby, essa é a minha amiga Thais.
Gaby torceu o rosto em confusão diante da palavra “estupradora”, mas pela cara de espanto e vergonha de Thais,ela logo percebeu que era uma piadinha interna,então,apenas sorriram uma para outra.
Gaby nos disse todos os melhores lugares para se divertir em Gangnam, enquanto passávamos por várias ruas estreitas e luminosas Thais não parava de apontar e perguntar o quê era cada um dos estabelecimentos.
–Vocês gostam de k-pop,não é? -Gaby perguntou.
–Mas é claro! — Nós dissemos ao mesmo tempo.
–Deu para perceber. -Gaby olhou para nós e caímos na gargalhada.
–E se eu levar vocês para a Big hit? -sugeriu- Não vai ter ninguém por lá essa hora mas vale a pena conferir o prédio.
Eu olhei a hora no meu celular, já eram 1:00am, nós realmente fomos muito longe no passeio.Nosso apartamento ficava em Seocho-gu, mas já que tínhamos ido até outro distrito porque não aproveitar e stalkear alguns Idols?
Gaby entrou em uma rua estreita onde todas as construções pareciam encaixadinhas umas nas outras. O prédio da Big hit já era visível, todo cinza e com reluzentes janelas azuis. Olhando de fora era bem menor do que eu imaginei que fosse,e com muitas escadas. Resolvemos estacionar numa vaga do pequeno estacionamento ao lado da escada que levava à entrada.
–Parece bem pequeno….-Thais disse.
–Por dentro é maior, acredite. -Encorajou Gaby.
–Vamos lá olhar. -Pedi já saindo do carro. Eu estava extasiada com a visão do prédio,apesar de não ser como pensei ainda assim era incrível estar lá. Sem esperar ninguém eu subi o pequeno lance de escadas e me aproximei da entrada. A noite estava fria e o vidro azul cheio de neblina,ali eu vi várias mensagens de apoio e amor ao BTS escritos no vidro,um pequeno sorriso de satisfação surgiu em meus lábios.
–Vocês deviam escrever alguma coisa também. — Disse uma voz às minha costas. Eu me virei e vi Gaby se aproximando, rindo provavelmente da minha cara de boba olhando as mensagens. Mordi o lábio pensativa e lancei um olhar para Thais, que já estava do meu lado se preparando para deixar sua mensagem.
Com os dedos escrevemos no vidro embaçado coisas como, “Oppa saranghae” nada original devo admitir,mas não ficariam lá para sempre de qualquer forma.
Nossos dedos acostumados a climas quentes ficaram vermelhos e gelados em minutos,então, resolvemos voltar para o carro e encerrar a noite. Quando descíamos a escada Thais se adiantou e parou em frente a Gaby. -Eu posso dirigir? — Perguntou cheia de expectativa. Mas Gaby franziu o cenho como se não tivesse entendido a pergunta,e sinceramente eu rezei para que não tivesse entendido,para que Thais aproveitasse a deixa e não fizesse mais perguntas estúpidas. Porém como em 110% das vezes Thais não se manca e insiste na estupidez. -Meu tio me ensinou um pouco a dirigir no Brasil, deixa por favorzinho — Implorou de mãos juntas o melhor que pode.
–Você não quase entrou com o carro do seu tio numa lagoa uma vez? -Eu lembrei. Certa vez Thais me contou que ela precisava virar o carro para a estrada, mas virou de mais e acabou indo parar na lagoa.
–Isso foi a muito tempo! -mentiu. -Eu sei dirigir agora.-mentiu de novo,voltando novamente o olhar para Gaby, que acompanhava nossa conversa como quem assistia uma partida de tênis. Gaby mexeu nas chaves pensativa e as lançou nas mãos de Thais.
–Tudo bem,mas você só vai tirar da vaga. -advertiu.
Thais saiu saltitando em direção ao carro seguida por Gaby e uma EU bem decepcionada.
Sentei no banco de trás,deixando o da frente para Gaby caso Thais precisasse de ajuda. Gaby auxiliava Thais no volante quando algo me chamou atenção. Havia mais um carro estacionado em um canto que ninguém tinha notado antes, eu olhei em volta mas não vi nada além do carro.
–Garotas,aquele carro sempre esteve ali? -Gaby e Thais estavam absorvidas nas suas aulas de direção,mas viraram para trás para ver o que era.
–Que carro? -Gaby apertava os olhos tentando enxergar.
–Ali,olha. — apontei.
–Não me lembro dele ali antes...Vamos embora antes que apareça alguém da empresa perguntar o quê fazemos aqui tão tarde,não quero ser confundida com uma sasaeng. -Gaby concluiu.
Thais e eu concordamos. Senti o carro oscilar levemente para frente e para trás quando Thais tentou tira-lo da vaga, foi o suficiente para me deixar tensa. Agarrei tão forte o banco que tive medo de rasga-lo com as unhas.Uma olhada rápida para Gaby foi o bastante, ela estava igualmente tensa.
–De a ré...devagar -instruiu.
Os nós dos dedos de Thais estavam brancos,ela transpirava nervosismo, não é preciso ser um adivinho para adivinhar o quê aconteceu em seguida. O carro foi para trás com tamanha violência que eu fui jogada para frente, ouvi um barulho estranho na traseira do carro e o som de algo caindo. Thais freou bruscamente. Ninguém falou nada, por vários segundos ficamos apenas paradas tentando imaginar o quê faria um som como aquele, porém todas nós sabiamos, tínhamos acertado alguém.
–Acertamos alguém. -Thais sussurrou.
–Corrigindo.VOCÊ acertou alguém. -Ela era minha amiga, mas se for para ir para cadeia eu prefiro só visita-lá aos fins de semana,obrigado.
–AÍ MEU DEUS! Eu acho que está em baixo do carro! -Gaby falou alarmada.
Ela não devia ter feito isso,só espalhou o pânico entre nós. Thais jogou o carro para frente dessa vez,desesperada para sair de cima da nossa pobre vítima, o quê só piorou tudo. O som de algo se partindo como um galho seco ecoou no ar -quem me dera fosse um galho- entrei em total desespero, me inclinei entre os bancos da frente e arranquei a chave da ignição.
–DA PRA PARA DE ACELERAR ESSA DROGA DE CARRO? — gritei mais de desespero do que fúria,isso não podia estar acontecendo com a gente.Não mesmo.
–Eu vou descer do carro…- Disse com a voz mais controlada dessa vez. -Vocês ficam aqui...e pelo amor de Deus deixa a Gaby dirigir dessa vez. -Entreguei as chaves nas mãos de Gaby e desci do carro. Cobri a cabeça com o capuz felpudo do casaco para me proteger do frio,e impedir de me reconhecerem caso tenha mais alguém por perto. Me aproximei do corpo que parecia todo coberto por um longo casaco bege de inverno, completamente imóvel no chão,temi que o pior tivesse acontecido. Era difícil identificar, me agachei para retirar o capuz do rosto do desconhecido.O ar escapou de meus pulmões, cobri a boca prendendo o grito de surpresa.
–Não, qualquer um menos você.-sussurrei.
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