Meu pesadelo Benjamim
1 Perigo
Notas iniciais
— Ariel! – soou a voz de um garoto.
Não respondo. Ele grita novamente.
— Argh... – balbuciei alguma coisa que não faço ideia.
— Levante, são seis horas! – me empurra impiedosamente da cama.
Manhã de um dia qualquer. Rotina de sempre. Acordo, reclamo, levanto, percebo que acordei, escovo os dentes, tomo banho, acordo de verdade. Café da manhã? De vez em quando. Não era costume meu, não gostava de comer cedo.
— Vamos! Vai nos atrasar! – reclama Ítalo, meu irmão de dez anos.
Aparência? Cabelos lisos e negros, olhos de mesma cor, eu era ele mais velho, tinha dezenove anos especificamente. Quando estava prestes a sair, vi meu pai largado no sofá meio vestido e meio pelado. Era um bêbado qualquer que costumava dar trabalho.
Esse idiota matou minha mãe quando eu tinha dez anos. De alguma forma, foi uma morte causada por ele. Teve um infarto fulminante depois de vê-lo com a amante na sala enquanto a mesma lambia o chocolate que tinha colocado no corpo dele.
Não sei se morreu de nojo ou de raiva, acredito que dos dois. Não trabalhava, a amante roubou todo o dinheiro, nem sabia que tinha filhos, ou seja, eu era o responsável por mim e Ítalo. Apesar do garoto sempre me acordar já que não consigo.
De manhã, faculdade, à tarde, trabalho. Essa era a minha vida. Ou deveria continuar sendo, não respeitei uma espécie de placa de perigo que viria no futuro.
— Você fez o fórum? – perguntou Sara, a garota mais esquisita da faculdade.
Tinha uma coleção de verrugas na cara, dei um nome a cada uma delas.
— Ah, não tive tempo. – não tinha repulsa dela, nem teria motivo. Ao contrário, gostava.
— Perdemos dois pontos... – suspirou forte enquanto se jogou na cadeira.
Estávamos na biblioteca da faculdade.
— Faz parte.
— Não deveria. Sabe – olha para mim – não pode trabalhar tanto assim Ariel, vai enlouquecer.
— Vou morrer de fome.
— Veja isso como uma dieta.
— Dieta mortal.
Silêncio breve.
— Tá me chamando de gordo? – que absurdo.
— Não, só de alguém com uma circunferência avantajada.
— Maneira educada de me chamar de gordo? – eu não sou gordo – ao menos sou jovem.
— Como posso interpretar essa frase?
— Que você é uma pessoa que está viva há muitos anos.
— Vinte e cinco anos não é velhice.
— É um aquecimento.
Ela ri.
Sara era uma boa menina. Falei que gostava dela? Não dessa forma. Se isso mata sua dúvida, o que existe é uma amizade colorida, por algum motivo não consigo levar um relacionamento a sério, chega um momento em que sinto nojo, é. Não dela, mas das duas outras ex-namoradas que tive.
Foi embora cedo, aquela vaca me abandonou. Tive que levar os livros sozinho até as estantes, quando esbarrei num garoto loiro que usava fones de ouvido absurdamente grandes. Nunca entendi isso, existe algum problema com as orelhas dessas pessoas?
— Desculpe! – falei esperando alguma resposta negativa ou um tudo bem.
Me enganei, não ouvi nada.
Peguei os livros, quando resolvi entender o porquê da falta de resposta, apenas o vi olhando para mim. Uma ruga se formou quando ele juntou as sobrancelhas, saiu irritado.
Não fazia ideia do nome dele, era da minha turma. Pouco popular. Apesar disso era bonito, não com aqueles fones que fazia parecer um alien. Ignorei. Das duas da tarde até a noite era o trabalho. De que?
— Uma pizza de queijo? – perguntei pelo telefone.
É, eu trabalhava numa pizzaria.
— Ariel! Pizza de frango na mesa dois! – gritou o cara que faz a pizza. É assim mesmo que chamo o Miguel.
Posso dizer que era o multifuncional. Mas naquele dia, ou melhor, naquela noite a minha rotina mudaria completamente. As dez da noite estava prestes a sair, o último cliente tinha saído a pouco tempo.
Costumamos sair pelos fundos que só precisa ser trancado pela chave. Miguel fechou enquanto eu jogava os últimos sacos de lixo ali.
— Não quer vir dormir comigo?
Que espécie de pergunta é essa?!
— Pra que? – me afastei.
— Que cruel – ele me puxa, largo os sacos de lixo – olhe para mim quando falo com você. – disse sutilmente.
— Andou bebendo?
— Não.
Conhecia bem o cheiro de bebida, minha casa estava infestada com ela.
— Eu tenho de ir embora Miguel.
Ele me pressiona contra a parede, estava começando a ficar estranho.
— Quer saber porque deveria vir até a minha casa, Ariel?
Ele aproxima o rosto do meu.
— Eu vou te mostrar.
Selinho, foi o que permiti. O empurrei o mais rápido que pude, ele ainda insistiu me abraçando forçadamente, quando o derrubei vi a blusa do outro rapaz que resolveu passar por ali justamente naquela hora.
Perigo, era o que estava escrito na blusa regata do garoto dos fones gigantes, que eu tinha encontrado na biblioteca da faculdade. Ele olhava para mim surpreso, agora sem fones. Passou rápido, sem que eu pudesse dar alguma explicação – não que eu precisasse.
O resultado disso? Não consegui dormir. Como eu iria olhar na cara dele amanhã? Ele vai espalhar para todo mundo? O que eu faço? Calma Ariel, aquele idiota do Miguel costuma agir como gay quando está bêbado. Mas como diabos aquele outro garoto vai saber?! – é, esse sou eu discutindo comigo mesmo.
Pelo menos dessa vez acordei antes do Ítalo. Meu pai ainda estava no sofá, na mesma posição, qualquer dia desses vai nascer cogumelos nele. Ao menos não morre de fome.
Tentei pensar em outra coisa enquanto levava o irmão para a escola e ia para a faculdade. Mas foi impossível, principalmente pelo fato dele ter ficado me encarando todas as vezes que me via.
— Ei. – sussurrou Sara, sentada ao meu lado na sala.
Olho para ela.
— Benjamin não para de te encarar.
Descobri o nome dele. Olho.
— Percebi.
— Você andou saindo com a namorada dele?
— Ele tem?
— Sei lá.
— Então como... – eu não consegui formular uma pergunta de tão idiota que aquilo tinha sido.
No final mandei ela ir avacalhar outra pessoa. Os olhos ficaram me seguindo a todo momento. Ele deve estar pensando que sou gay ou algo do tipo. Eu quase enfartei quando o vi conversando com outros caras e olhando para mim.
Meu Deus, vou sair da faculdade, pedir transferência, mudar de emprego e de nome. – quanto drama Ariel – talvez eu devesse prendê-lo no banheiro – não. Sabe aquelas ideias idiotas? Pois então, elas nascem em situações como essas.
Sai mais cedo da faculdade, encontrei Miguel de ressaca na pizzaria, fingindo estar fazendo seu trabalho. Não faço a mínima ideia de quando ele bebeu, mas você sabe, bêbados são impossíveis.
— Você trancou a porta ontem? Não lembro.
— Não beba enquanto trabalha. – falei, ele me assedia e ainda tem a cara de pau de esquecer.
Não é qualquer pessoa que pode beijar minha boca não colega, aí vai e ainda esquece?!
Antes que eu pudesse reclamar mais mentalmente, o demônio aparece. O garoto estava sentado na mesa de frente ao balcão de atendimento que trabalho olhando para mim com a cara mais cínica do mundo – que absurdo.
Gelei, deu vontade de erguer o braço soltar teia e sair voando como homem aranha. – mas que espécie de frase foi essa? Tudo que eu poderia fazer era ignorá-lo.
Eu tentei.
Bastou que olhasse uma vez se quer – sem querer, eu juro – ele sorriu, passou a mão gentilmente nos cabelos loiros e lisos para tirá-los do rosto, só agora percebi que tinha olhos esverdeados. Ele me chama movendo o dedo indicador. Ah, tudo que veio na minha cabeça foi, “perigo”
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