Meu pesadelo Benjamim
9 Idiota
— O que foi Ariel? – perguntou Sara.
Eu suava muito. Pensei em ir atrás dele mas Sara ia estranhar e eu não queria que a morena soubesse.
— Então, esquece ele. Vamos.
Saiu me puxando pelo braço. Durante o caminho tentei ligar pra ele, mas não atendia.
— Não acabou de ligar para o Ítalo?
Não respondi. Ela estranhou meu comportamento. A livraria não ficava longe da faculdade, era grande com estantes que iam do assoalho até o teto. Tinha dois andares. No segundo haviam duas mesas com sofás estofados ao redor. Um pouco distante delas estava um balcão que vendia café.
A ambientação era meia arcaica, um lustre iluminava bem o lugar e as janelas eram acompanhadas por cortinas cor bege. Era algo absurdamente rico. Como eu trabalharia ali?! Não tem ideia de como a sala de leitura era recheada com detalhes finos que não deviam valer menos de cinco mil reais.
— Como se sente? – perguntou ela.
— Pobre.
Riu, como se isso fosse realmente engraçado. Ela me levou até a amiga dela – uma senhora que beirava os quarenta. Nos apresentou, e como eu tinha um passe bônus – por conhecer uma amiga dela, acabou fazendo a entrevista sem precisar do meu currículo.
Foi chato. Mal conseguia pensar, a minha cabeça orbitava ao redor de Benjamin. Depois de passar quase uma hora sendo entrevistado – isso mesmo, uma hora. Fomos embora.
— Tem certeza que não quer vir para minha casa?
— Tenho, eu preciso ir ver o Ítalo, ele vai morrer de fome! Tchau!
Sai correndo. Mas, o que eu poderia fazer? Quando cheguei em casa fiz o almoço rápido e tomei banho depois. Sentei no chão da sala e comecei a ligar repetidas vezes para ele, e o que eu ouvia?
— O número que você ligou está fora de área ou desligado.
Eu queria estourar aquele telefone no chão, entrei na internet por ele – eu não tinha computador e roubava o wi-fi do vizinho. Mandei umas mensagens para ele pelo facebook.
Nada. Davam três horas, quatro, e nenhuma resposta. Pensei, como posso encontra-lo se não sei onde mora.... Lembrei, falou que sua casa ficava perto da faculdade, a rua de trás se bem me lembro. Bastava que eu procurasse uma casa grande.
Ítalo fazia a lição de casa, apenas o avisei que iria sair. Voltei a faculdade e saí procurando feito idiota a casa dele. O problema? Todas as casas eram grandes. Como assim?!
Suspirei, quando dei meia volta para ir pra casa, esbarrei em alguém.
Ele estava com as mãos nos bolsos, tranquilo.
— Benjamin! – o abracei violentamente – Benjaminmedesulpenãoénadadissoquevocêestápensandoeunãobeijeielanemtenhonadacomaquelavacaporfavormedeixeexplicar!
— O que?
Nunca falei tão rápido na minha vida.
— Ariel. – ele me afasta sutilmente, só agora vejo que estava acompanhado de um rapaz.
Olho pra ele, estranhando.
— Ah, esse é um amigo meu. – aponta para o cara moreno, que acena para mim.
— Preciso falar com você, em particular. – falei, apertava os punhos meio irritado.
— Certo....
Ficamos longe do cara, encostado na parede enquanto esperava Benjamin.
— Benjamin – sussurrei para que o outro não nos ouvisse, apesar de estar longe – você viu, ela que me beijou, não fique irritado comigo.
— Hum.... Ela fez aquilo porque, pelo que entendi vocês tem uma espécie de relacionamento aberto, amizade colorida?
— Ah... Sim, mas isso vai mudar....
— Então não disse a ela sobre nós dois?
— É que ainda não é nada certo e....
— Ah claro, eu tinha esquecido. Não temos um relacionamento firme não é? Significa que pode sair com quem quiser, posso fazer o mesmo.
— Não! Com a gente é diferente!
— Você quebrou o acordo Ariel.
— Desculpa – me aproximo dele – vou dizer a ela hoje mesmo que seremos apenas amigos...
— Amigos?
— Ela é a única que eu tenho... Confie em mim Benjamin...
Ele ergue meu queixo com a mão.
— Em você eu confio, nela não.
Suspirou.
Peguei a mão dele e deslizei para a minha boca, beijando-a de leve. Ele amansa as expressões faciais.
— Está tudo bem entre nós dois? – perguntei.
— Está.
Eita que alívio.... Pensei em fazer uma pequena comemoração interior, mas não pude pois quando fui beijá-lo ele simplesmente virou o rosto. Que?!
— Eu preciso ir Ariel, ele está me esperando. Nos vemos mais tarde.
Chamou o colega acenando, os dois foram juntos pela rua de pedra até a provável casa de Benjamin. Como assim?! Ele sai com outro cara na minha frente, que raiva!
Sai de lá furioso e voltei pra minha casa. Bati a porta forte quando entrei. Sentei no chão da sala irritado. É uma vingança por causa da Sara?! Eu expliquei e ele deve ter visto que ela me beijou.
Sim eu sei, errei por não ter contado a ela que não estava mais disponível, nem a ele que era minha amiga de “benefícios” imagine o que deve estar fazendo com aquele cara? Ele sabe onde é a casa de Benjamin e eu não?!
Ah é, acabei de lembrar, o idiota tinha me dito no banheiro que “queria só se divertir” então é isso deve ter aproveitado o meu deslize como motivo pra me deixar, aquele idiota, quem ele pensa que é.... Quem ele pensa….
Ítalo se aproxima, olha aflito para mim.

— Irmão, você está bem? – ele passa a mão pelo meu cabelo.
Eu estava sentado no chão abraçando os joelhos e escondendo o rosto entre eles.
— O que foi?
Não respondi.
— Está com raiva de alguém?
— Não.... – sussurrei, emburrado.
— Sim, você está, quem te deixou assim?
— Ninguém.
— Benjamin?
— Atéparecequeaqueleidiotairiamedeixarirritadoeuqueroqueelemorra!
— O que ele fez?
— Nada! Somente levou um cara qualquer pra casa dele, eu nunca fui lá! – levantei a cabeça.
Já estava anoitecendo.
— Ciúmes.
— O que?
— Está com ciúmes Ariel.
— Não estou!
— Sim.
— Não!
— Sim.
— Não! Não estou! – virei a cara.
— Ah, parece um menino mimado....
O meu telefone toca, Ítalo o pega rapidamente.
— Ei, me devolva! – fui até ele, mas o menino saiu correndo pela casa.
— Alô? Benjamin?
Agora eu pegava aquele garoto! Sai correndo atrás dele.
— Sim. Não ele está aqui todo encolhido.
— Ítalo me devolve isso!
— Certo. Até mais!
Desliga, para de correr.
— Aqui – me entrega o celular – ele está vindo pra cá.
— Por que disse que ele poderia vir?!
— Ariel! – gritou – deixe de ser infantil. Quando ele chegar vá conversar com ele e resolver isso. Agora fica aí se torturando, se quer saber o que aconteceu vá atrás. Ora, problemas foram feitos para serem resolvidos, então resolva!
Cruzou os braços e saiu do quarto – onde estávamos depois da corrida – bufando enquanto dava passadas barulhentas. Oi? Pior é que ele tinha razão.
Depois de meia hora recebo uma mensagem.
— Tô aqui embaixo, vem abri o portão para que eu possa estacionar na garagem.
Olhei pela janela e vi o carro dele. Desci e fiz o que pediu. O carro tinha vidros escuros eu o acompanhei com os olhos. Por algum motivo ele estacionou no lugar mais distante e vazio.
Entrei no carro, no banco da frente. Ele tranca todas as portas no mesmo instante.
— Oi... – sussurrei.
— Ele não gosta de garotos. É um amigo de ensino médio, nada mais. – falou com as mãos no volante – não te beijei porque não queria que ele visse, seria problemático.
— Então por que o levou para sua casa?!
— Não levei, ele mora por ali. Quem te disse que minha casa fica naquela rua?
Me senti como um idiota.
— Mas ei, Ariel. Quem deveria estar irritado sou eu, não é?
Olha para mim.
— Eu Já me expliquei.... – desvio o olhar para o banco preto e acolchoado.
— Se fossemos namorados eu poderia expressar a raiva que tive na hora.
— De mim?
— Dela. Afinal – se aproxima de mim – você não gosta de garotas, não é?
Taí uma coisa que não parei pra pensar em momento algum.
— É.... – junto minhas mãos.
— Se fosse apenas uma diversão eu não estaria aqui.
Ele lembrou da conversa que tivemos no banheiro.... É.... Aquilo realmente me convenceu, no final eu que fui o idiota.
— Mas apesar disso, você foi um garotinho muito mal, Ariel. Merece uma punição.
Olho pra ele, um sorriso malicioso se desenhou do centro até os cantos da boca. Senti meu coração bater mais rápido.
— Que tipo de punição?
— Você vai descobrir.
O sorriso pareceu se espalhar, e até mesmo aqueles olhos verdes revelavam uma perversão alta vindo deles, ah, o que ele iria fazer comigo?
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