Notas iniciais
Vim trazer mais um capítulo para alegrar essa noite. Espero que gostem da Morrighan tanto quanto eu.

Enquanto andava, Morr escutou um grasnado. Era, sem surpresa, Aro. Logo, o pássaro pousou em sua mão prontamente estendida. As garrinhas afiadas se afundaram, provocando pequenos sulcos na pele branca. Com o pensamento vago, olhou em direção às unhas encardidas, com terra debaixo delas.

Hum – soltou, alongando a última letra — Preciso arrumar essa barbárie — cutucou levemente as cutículas.

O corvo grasnou, chamando a atenção da garota. Morr afastou a trança do ombro, deixando espaço para que ele viesse descansar ali. Apertando o passo, Morrighan se sentia decidida e uma conquistadora. Ainda faltava achar o corcel, com o objetivo em mente se pôs a andar. Se olhasse para trás, o castelo não poderia ser mais visto. A floresta era indomável, suas árvores muito antigas. Morr, apesar do sentimento de conquista, sabia que não havia tanta distância entre ela e a fortaleza de Raposa.

Olhou os risquinhos marcados nas árvores, formando uma trilha amadora. Esta, tão antiga que não sobrara rastro terrestre algum dela. Por sorte, Morr marcara o caminho nas árvores há muitos meses.

Indo discretamente a biblioteca estudar os mapas velhos e empoeirados. Morr ia no meio da madrugada, aprendendo tudo o que podia. Toda a informação que Raposa negara a compartilhar, Morr tinha ido atrás do jeito dela. Olhares atentos e ouvidos bem abertos, além dos passos cautelosos, este era o estilo das madrugadas da garota.

No entanto, algo estava estranho. As marcas pareciam muito novas, recém feitas, com a seiva ainda escorrendo dos cortes. Averno, alguma coisa tinha mudado.

Quando parou para se localizar (não poderia correr o risco de se perder, não quando não havia tempo para retornos) escutou nitidamente um galho se quebrando.

— Morrighan — Raposa cantarolou alegre. Um arrepiou desceu pela coluna dela. Lentamente, foi em direção a um carvalho de aparência antiga. Não havia tempo para escolher qual a melhor árvore, mas a garota teve o cuidado de se certificar de que não havia tanto musgo para atrapalhar. Mesmo que a verificação tenha custado segundos que torcia para que não fossem preciosos.

Estúpida, pensou Morr. Levaria um par de semanas para atravessar as Terras Selvagens e sair primeiro que Raposa por algumas horas não havia colocado distância alguma entre eles. Claro, ela deveria ter previsto. Deveria ter visto o tabuleiro como ele era, não como idealizara. No momento, Morr não se sentia conquistadora, se sentia o conquistado. A presa a qual Raposa caçava.

Burra.

Inconsequente.

No fim, fora presunçosa. E agora iria pagar.

Morrighan começou a escalar, prestando atenção no aproximar do incessante cantarolar. Estava tão perto, e ela tão longe da porra do galho que queria. Não mais que dois galhos pertos do chão, que poderiam ser vistos por uma pessoa caminhando.

— Você não pode fugir, querida — Raposa passava as unhas sobre as árvores conforme avançava na mata. Seus pés faziam barulho, certamente de propósito para pesar ainda mais o ar. Um aviso e uma ameaça. Raposa não mudava, bufou Morrighan.

Forçando os músculos e trincando os dentes de raiva, Morr continuou a subir. Podia ver Raposa claramente. Seu olhar se encontrou com o dele. Era isso. Havia perdido.

Inferno, ele havia parado e agora exibia um sorriso presunçoso. Morr estava indecisa, ou continuava a subir e corria o risco de Raposa subir atrás dela. Ou, simplesmente desistia, pulando em direção ao chão.

Não, ela não ia fugir

Morrighan recomeçou a escalar, colocando todo o seu ódio para fora, que no momento era o que restara para a menina. Agarrando os galhos firmemente. Plantando os pés nas elevações que achava. Morr não entregaria seu destino de bandeja, não mais. Estava farta de Raposa.

— Morr — o macho suspirou, exacerbado com a teimosia de sua protegida — Eu estou te vendo, desça daí e vamos acabar com isso — sua mão descansou em seu quadril, aparentando uma pose despreocupada. No entanto, seu polegar roçava na espada presa ao cinto.

Aos olhos dele, Morr parecia uma criança birrenta e extremamente catarrenta.

— Nunca — rosnou Morrighan. Agora estava em uma altura relativamente boa, podendo, se cair, quebrar um ou dois ossos.

— Desça daí e viajaremos juntos, menina tola — seu tom era encantador, parecia estar fazendo a melhor coisa para Morr. Mas ela conhecia seus truques, há muito tempo que aquele tom não funcionava com ela.

Amaldiçoando-se, Morr questionava porque não tinha brincando de subir em árvores como qualquer criança faery teria feito. Então, lembrou-se dos dias presa no quarto, pequena demais para não colocar o narizinho onde Raposa não queria. Pequena demais para entender que ser invisível era viver mais um dia.

Logo, o inevitável aconteceu. Morr viajara nas lembranças e agora ia de encontro ao chão. Sentindo o raspar fantasma do galho na mão. Estava tão, tão perto. Podia sentir o gosto ferroso do sangue em sua boca, a puxando para a realidade. Praguejou novamente, saindo uma mistura de maldições e murmúrios de dor em conjunto com a palavra "inferno" repetida várias vezes. Suas costas ardiam da pancada. Ela tinha a certeza de que havia aranhões em seus braços. Não havia se mexido, ficando esticada no chão como uma roupa ao sol.

Raposa vencera, de novo

Era óbvio para ela que Raposa poderia a ter pego no colo, salvando-a dos machucados e da torção no tornozelo. Ele era presunçoso o bastante para fazê-lo, se isso significasse algum trunfo. Era óbvio também, que isso era um castigo. E era mais óbvio ainda quando ele veio com um pano com cheiro de flores, pressionando sem cuidado em sua boca e nariz.

Inferno — foi o seu último pensamento. Isso, e um estranho gato risonho a vigiando com seus olhinhos maquiavélicos.

Quando Morr acordou, parecia que o tempo não havia passado. Ainda estava claro e estava no mesmo lugar, encostada no mesmo carvalho maldito. Sua cabeça doía, de novo. A primeira coisa que fez foi tatear o chão, buscando ainda mais estabilidade. As mãos se enterraram, agarrando a terra úmida. Seus olhos negros estavam dispersos e cansados, procurava em vão o corvo. Ele não estava em lugar nenhum, constatou depois de longos minutos. Mas nada era pior do que a dor no tornozelo. Era até bom que Aro se mantivesse longe, pelo menos, por enquanto.

— Bem, vejo que acordou. — ironia, era isso que escorria da voz doce de Raposa.

— Você ganhou — levantou as mãos raladas em rendição, apesar do tornozelo, levantou-se. Odiava o ficar olhando de baixo. Raposa sorriu, convencido. Seu plano estava dando certo, afinal.

— Ah, Morrighan. Você é uma criança perto de mim, e eu sei que agora entende o que é melhor para você. — se aproximou mais, roçando seu nariz na bochecha pálida de Morr. A faery controlou o estremecimento de asco.

— Continuar ao meu lado, como minha passarinha fiel, é a melhor coisa que você pode fazer. —

Morrighan se lembrou de Kenny e de seus avisos. Seus olhos esquadrilharam as árvores, em busca de Aro. Inferno, onde ele estava? Havia subitamente mudado de opinião, Morr precisava do corvo ao lado dela.

Em suas costas, na lombar, uma ponta de faca pressionava. A faca deslizou alguns centímetros, cortando a carne.

— Hum, sim. — deu um passo para trás, se afastando ligeiramente dele. Morrighan notou que ele havia percebido o seu mancar.

— Sabe como é, rebeldia juvenil. — a mão fora automaticamente para o corte, pressionando o ardido ferimento. Quase suspirou, havia mais um machucado para a lista. Um sorriso tímido adornava seu rosto em conjunto de um ligeiro rubor nas bochechas.

No momento, Morr usava seu rosto como distração, havia aprendido com as cortesãs mortus que viviam nas casas dos mais abastados normaevi. Em festas, era a sua diversão. Encantar, culpar, punir e extorquir. Às vezes, a ordem podia-se mudar, dependendo da ocasião.

— Infantilidade, você quis dizer — Raposa sorriu, guiando Morr até a árvore. Sua mão permanecia longe das costas de Morrighan, mas perto o suficiente para sentir o calor presente nas palmas.

Debaixo da árvore, a bolsa de Morrighan residia junto do cavalo marrom que sabia que era de Raposa. Sua boca salivou ao lembrar dos doces. Ao mesmo tempo, seu estômago roncou. Não sabia a quanto tempo estava sem comida, afinal, não fora comer no início da manhã. Levantou a cabeça em direção ao sol, observando o astro em posição poente. Marcas vermelhas o acompanhavam.

Com um estalo, encarou as marcas das árvores. Seus olhos igualmente negros se dirigiram as unhas negras do macho. Resquícios de seiva expostos debaixo das unhas. E então, entendeu. Desta vez, não conseguiu disfarçar a expressão de desalento.

— Vejo que finalmente entendeu a minha pequena brincadeira — Raposa piscou o olho, divertido. A cor de melado se tornava mais profunda, como um oceano que guardava monstros e segredos.

Raiva em sua forma mais pura borbulhava. Sentia as fibras, a carne e o músculo a cada vez que socava o peitoral de Raposa. Ensandecida e agindo tal como a selvagem que era, distribuía tapas e socos no macho feérico estático por opção. Urrava e gritava. Lágrimas grossas e quentes escorriam pelo rosto sujo, deixando uma trilha.

Uma maldita trilha falsa

Decepção. Amargura. Perda. Vergonha. Sentimentos que honraram o bolo na garganta. Céus, doía a cada engolir de saliva tamanha era a raiva.

Raposa, todavia, se sentia exultante. Perverso. Depravado e imoral.

Era deliciosa a sensação palpável de dor de uma menina tão jovem e sua situação devassa. Não obstante, fora enganada por várias vezes, sempre pelo mesmo inimigo. Sempre em um curto espaço de tempo. Sempre preservando sua delicada inocência. Morrighan, querendo ou não, era ingênua. E Raposa usava isso a seu bel-prazer.

O macho adorava jogos, especialmente os que continham adversários ingênuos e que não possuiam todas as regras do mesmo. Para o macho, aproveitar as brechas se tornara essencial.

Quando os socos de Morrighan perderam a força, e seus soluços se tornaram pequenos murmúrios Raposa delicadamente passou os braços em volta do corpo de Morrighan. Para a garota, ele era infância, família, faca e lareira. Com o poder de aconchegar e destruir.

Morr respirava profundamente, sentindo o cheiro almiscarado que as roupas exalavam do macho. Quando se recompôs, se afastou abruptamente, indo em direção ao carvalho sendo seguida por Raposa.

— Por que não me deixa ir sozinha? — perguntou baixinho, sentindo vergonha pela explosão. Odiava ficar no estado onde não era Morrighan com raiva mas sim Morrighan feita de raiva.

Um suspiro profundo foi sua resposta. O macho parecia escolher com cuidado as suas palavras, demorando-se.

— Eu... preciso controlar a situação. Morr, acredite em mim. As fadas que iremos encontrar, elas... — suspirou novamente, seu tom abaixou junto das costas que se curvaram levemente.

Tocou de forma tênue seu braço, o incentivando a falar.

— Enfim, fadas com as quais não conseguiria lidar sozinha — Morr levara para o lado pessoal. Era ridículo supor que ela não conseguiria lidar com umas poucas fadas de natureza entojada. Inferno, ela vivera por anos tendo Raposa como seu padrinho.

Padrinho...

Desde a separação dela e da irmã mais velha, e o assassinato do pai, Morrighan não pensara muito na relação difícil que tinha com Raposa. O amava? Sim, claro. Mas tinha medo, tinha vergonha. Tinha ódio. Mas não era o ódio que sentia que a preocupava, e sim a raiva.

O sentimento de ódio é frio, mantendo-se em espera. A raiva, todavia, é explosiva e irracional. Morrighan não se gostava quando estava com raiva e muito menos do que fazia com o sentimento no peito. Cometia erros, erros estúpidos que custavam preços altos demais.

— Outra coisa: não sabemos o que ele irá querer para acabar com essa sua dívida tola — Morrighan prendera a respiração, fechou os olhos se recusando a ceder. Novamente ele tocara no assunto, querendo que o sentimento de culpa se assentasse em seu peito.

Era uma criança e não sabia o que estava fazendo. Aliás, nenhuma das duas fadas sabia. Tinha seis anos e Carter tinha oito, e as crianças fizeram uma dívida imitando os adultos. Afinal, eram amigos. Não havia perigo.

Morrighan não tinha muitas lembranças do menino de cabelos ruivos, mas lembrava-se bem da raiva do pai. Da imagem do macho destruindo tudo. Todos os móveis, todas as tapeçarias rasgadas. Morrighan fechou os olhos, uma pontada viera. Respirou fundo, tentando acalmar a dor. Era sempre assim quando tentava lembrar do pai ou da mãe. Por vezes, quando tentava lembrar de mais algum detalhe da noite do acordo, vomitava. Era extremamente angustiante. Seu estômago travaria uma batalha feroz. No fim, adormeceria cansada, com lágrimas ainda a lavar as bochechas. Urinada e vomitada.

Averno, mal sabia o que tinha concordado. A única informação que tinha era que na época afirmara sempre ir quando Carter pedir. Não sair do seu lado, ser fiel. Ser uma amiga.

No entanto, as palavras infantis de um ciúmes infantil se tornaram sua prisão. Morrighan poderia socar a mini Morr. Era fato: burra desde sempre.

A fada teria pela sua segunda vez, a liberdade arrancada de suas mãos. Porém, mantinha uma pequena esperança de que Carter a convocara para quebrar o contrato. Encerrar a dívida em honra das memórias partilhadas.

Sabia que era impossível, inferno, ele tinha a equivalência humana de 21 anos. Para os mortus significaria um homem adulto. Mas uma semente de esperança crescia lentamente em seu peito, ignorando todos os sinais.

Morr entendia o suficiente de biologia para ter em mente a paranóia que rondava a sua cabeça: casamento. Se ele quisesse, teria que honrar o compromisso. Afinal, ninguém gostaria de uma maldição nas costas. Morrighan já carregava maldições o suficiente, obrigada.

Raposa se mexeu, tirando-a do transe que havia entrado. O macho parecia desconfortável diante de uma falta resposta mordaz de sua parte.

— Vamos acampar por aqui, por sorte a sua estupidez não nos custou tanto. — apontou, e então sentou começando a remexer a bolsa.

— Como assim? — Morrighan imitou o gesto, procurando algum pão doce. Fora uma pergunta com ares de inocência. Seu nariz escorria levemente, e com a ponta dos seus dedos limpou o local. Raposa emitiu um som de asco, logo lhe entregando um pano limpo que guardava no bolso.

Com um suave bufo, Raposa mexeu em sua própria bolsa que usava a tira colo, de lá, puxou um papel velho e comido por traças nos cantos. Estendeu o papel no chão terroso, sem se preocupar com sujeira. Afinal, seu pobre pano residia nas mãos de uma garota catarrenta.

— Eis o que iremos fazer — seu dedo apontou para a extremidade, via-se uma floresta. — Iremos atravessar — o dedo foi acompanhando enquanto falava. A unha negra resvalava suavemente no papel.

— Chegaremos no território neutro, onde iremos descansar por um dia. Recuperando então, nossas forças. Logo, encontraremos as pessoas que nos esperam lá. Devemos encontra-los bem no meio do território, pagaremos a sua dívida e nós dois, junto de sua irmã, voltaremos para casa — aterrissou novamente no mesmo ponto de antes, desta vez, indo um pouco mais a direita, marcando o castelo.

— Levaremos um mês inteiro fazendo a ida e a volta, isto é, com todas as paradas. A ida é geralmente mais rápida. Sem contratempos, é claro. — seu olhar crítico aterrissou no único cavalo.

— Como tive que sair rapidamente, não tive tempo de preparar os mantimentos necessários. Alguma hora teremos que parar em algum vilarejo.

— Hoje dormiremos aqui? — perguntou a garota em um tom petulante, sem se preocupar com o olhar atravessado que recebeu.

— Prefere ser comida pelos lobos?

— Tanto faz — respondeu por fim a contra gosto ficando em silêncio logo em seguida.

Um suave sorriso adornava o rosto de Raposa em conjunto de pensamentos longínquos. Morr sabia que ele estava pensando na casa dele. A atenção de Morrighan, porém, já se fixara no pão pela metade. O consumira sem nem notar, ocupada demais pensando. Elaborando.

Se Raposa tivesse um pouco mais de prudência e diminuísse a presunção, notaria as engrenagens funcionando no cérebro de Morr. Se pudesse, Morrighan daria uma gargalhada escandalosa. Afinal, ela sempre soubera que tinha um precipício pela loucura.