Meu nome é Destino
3 III
Notas iniciais
Carter
Carter estava exausto, e nem havia começado direito a longa viagem que tinha pela frente. Aliás, ele não havia saído do lugar. Estava no castelo, preso com sua mãe em seus calcanhares reclamando sobre a sua solterice. De todas as coisas possíveis, sua mãe o enlouquecia justamente com casamento.
A mulher deveria ter se contentado com os outros cinco filhos, que felizmente, haviam se casado. Havia até um herdeiro do trono a caminho!
— Mãe — parou abruptamente, a mulher se calou, alisando os amassados invisíveis da saia cor de carmim, esperando a próxima desculpa esfarrapada que o filho iria dar. — Eu te amo, mas pelo amor da deusa Dana, me deixe em paz! Mal completou três dias que vim para casa e você já está me atazanando com este assunto.
— A culpa é sua! — a honorável e graciosa rainha bateu o pé no chão, provocando um barulho oco.
Os olhos do ruivo se arregalaram em descrença. Soltou um xingamento baixinho, sua mãe era mesmo inacreditável.
— Sinceramente mãe — suspirou, olhando fundo nos olhos castanhos dela — Eu. Não. Vou. Casar.
— Não me desafie, Carter. Você entrará por aquela porta casado!
— Ah, que pena. Vou ter que começar a usar as janelas — ironizou, um sorriso ladino em seu rosto.
— Carter Hydref não fale desse jeito com a sua mãe! — Carter suspirou mais uma vez, a senhora a sua frente não o deixaria descansar. Exasperado, passou a mão nos cabelos ruivos, estes, que resvalavam em seus ombros.
— O pai me incubiu de uma missão. Prometo que penso nisso e, quem sabe, posso até trazer uma moça para a senhora aterrorizá-la.
A mulher, vendo que não tinha muitas chances frente ao seu filho caçula teimoso, aceitou. Logo, os dois se abraçaram. O homem sentiu um beliscão na região da barriga. Rapidamente se separou, esfregando a área atingida. Olhando feio para a mulher de expressão angelical a sua frente, ela prontamente se defendeu.
— Trate de arrumar uma esposa, Carter. Uma boa esposa. — revirando os olhos perante a insistência, se despediu rapidamente. Com um suave beijo na testa da mãe, o príncipe já se encaminhava em direção ao quarto. Precisava arrumar suas coisas para a viagem. Maldito o dia em que firmou uma dívida de sangue com uma selvagem.
Ainda não fazia ideia do que pediria. Serviços eternos? Não, não queria uma escrava. Pegou a bolsa com os pensamentos fervilhando, socando as roupas no fundo. Então, parou. Uma ideia se instalara em sua mente, era vantajosa e mataria dois coelhos com uma cajadada só. Lentamente, um sorriso adornou sua face.
O macho sentiu-se um gênio.
Foi em direção a janela em função de contemplar a sua ideia. Viu um corvo surgir no horizonte, se aproximando rapidamente. Interessado no pássaro, Carter se içou no janela, colocando seus pés para fora, balançando-os no ar. Fazia isso desde os onze anos, e não havia caído nenhuma vez.
Sua mãe não poderia nem sonhar que se pendurava em sua janela, a cinco metros do solo do jardim. Claro, havia torres muito altas no castelo, porém, por escolha própria, gostava de ficar especialmente naquele cômodo.
Era engraçado lembrar da passagem secreta que ficava bem de baixo do nariz dos pais. Serpenteava por todo o castelo, podendo desaparecer rapidamente. Por vezes a usava para furtar doces da cozinha, em um prazer infantil. O feérico ainda não havia descoberto todas as entradas e saídas, mas sabia que já havia decorado uma boa parte.
Carter era um macho, comandava exércitos e mesmo assim seus progenitores ainda o enxergavam como uma criança. Para os faerys, ele era realmente uma criança, contudo, crianças não lutavam em guerras. Havia sangue em suas mãos, morte e desespero.
O feérico definitivamente não gostava de ser tratado como uma criança, mas nem se a Deusa estivesse em pé na frente da mãe dele, afirmando que o príncipe não deveria ser tratado assim, a rainha da corte outonal acreditaria. Pior, ainda daria de dedo na cara da deusa Dana.
Com o pensamento, o longaevi estremeceu. Sua mãe era difícil, sabia bem. Era terrível — para os outros — que compartilhava o mesmo gênio que o dela.
O pássaro entrou no quarto, batendo as asas negras. Pousou na cama real de Carter, afundando levemente o colchão com o peso, agora, de um mortus. O príncipe cumprimentou o homem humano a sua frente.
— Aro, que bom vê-lo — o mesmo fez uma mensura em respeito. Curvando levemente a cabeça, seus cabelos negros caíram na frente do rosto. Os olhos, diferentes do pássaro, eram de uma cor lilás.
— Bem, para mim é sempre um prazer, príncipe — O humano pisco o olho, divertido com a feição encabulada do ruivo.
Se observasse bem de perto, poderia se notar pequenas manchas mais escuras de roxo, algumas com manchas ainda mais pequenas de azul, como se alguém tivesse respingado tinta neles. No nariz, uma pintinha marrom minúscula decorava seu rosto.
Para o ruivo, realçava o charme natural do homem.
Os olhos eram o indício de que era amaldiçoado. Uma marca chamativa, de um grande poder, evidenciando um forte feitiço de fada. Um feitiço que dificilmente seria quebrado.
Carter desviou o olhar do corpo bronzeado e nú do humano, um leve rubor marcava presença em seu rosto, evidenciando a sua vergonha. Aro sorriu de canto com o embaraço do ruivo.
O mesmo foi em direção ao seu guarda roupa, fingindo uma concentração demasiada na procura de uma camisa. Por fim, pegou uma muda de roupas leves para Aro, não queria cair em tentação como das outras vezes. Seus olhos focaram no rosto de Aro, o moreno passou a língua levemente em seu lábio inferior vermelho e cheinho, abrindo um sorriso ainda mais largo e Carter poderia jurar pela Deusa que o humano estava brincando com a sua cara.
Irresistível de uma figa, amaldiçoou o feérico.
Sabia a quantidade de pintinhas distribuidas pelo corpo de Aro, era um antigo hobbie passar madrugadas contando uma por uma. Às vezes, com a língua. Ainda poderia sentir o toque fantasma do cabelo de Aro roçando em seu corpo. Carter balançou a cabeça em negação. Não faria de novo. Não iria estragar ainda mais a vida de Aro revivendo um sentimento que para o de cabelos negros já estava morto. Mesmo que o maldito o provocasse.
Não se perdoaria por magoar ainda mais o humano. Aro não merecia isso, ele era uma humano e tendia a pensar irracionalmente. Simplesmente não era justo.
— Carter, eu tenho informações deveras interessantes sobre Morrighan das Terras Selvagens.
Fale com o autor