Meu nome é Aaron Evans, eu tenho 15 anos e sou um Encantado.

Ok, ok... Eu sei que não deveria começar assim, mas este é o melhor jeito, acredite em mim! Vou lhe explicar melhor:

Encantados são seres que não vivem aqui onde vocês, humanos comuns estão habituados a viver, a Terra. Nós costumávamos viver no nosso planeta em harmonia com o resto da galáxia, nossa querida Endelaan até que os seres mais perversos de todos os mundos descobriu o tão longínquo paradeiro dos endelaanianos. Entenda: Endelaan não abrigava só nós, os Encantados. Mas também, algumas outras espécies, como a enorme família dos centauros, os amigáveis ciclopes, nossos parentes feiticeiros, os mal interpretados aliens, e outra infinidade de seres que hoje se resumem a praticamente nada, praticamente. Todos acham que nós, Encantados, temos uma aparência misteriosa, mas a verdade é que não. Já faz 13 anos que vivo entre os humanos e me pareço com uma pessoa normal, mas não sou.

A questão é que eu não cheguei nem sequer a conhecer nenhuma dessas espécies. Quando eu tinha aproximadamente 2 anos de idade, Endelaan foi atacada pelo maléfico grupo Chandriano e um casal de cada espécie foi mandado para a Terra, como uma forma de garantir a nossa sobrevivência e um dia retomar Endelaan, que é nossa por direito. Eu fui o menino escolhido dos encantados, vivo hoje no reformatório Duddle, em Nova York, terceiro nesse ano. No qual alegam que sou um menino travesso. Eu discordo, mas não posso fazer nada, sou menor de idade e sem pais que possam se responsabilizar por mim. Mas acho que o pior de tudo isso, foi que nos deixaram sozinhos e separados do nosso respectivo casal. Não sei onde a menina Encantada está, não sei sua aparência, seu nome, ou sua idade. Acho que pensavam que poderiam nos proteger se estivéssemos separados, afinal o Chandriano sabe que fomos mandados para a Terra e está nos procurando para acabar o trabalho de vez.

Por mais poderosos que nós, Encantados, costumávamos ser, não fomos pálios para o exército desse grupo. Eles transformaram em pó meu planeta. Não lembro nem sequer do rosto da minha mãe ou do meu pai, não sei se tenho irmãos ou parentes... A única certeza que tenho desde sempre, é que posso fazer coisas que pessoas normais não podem. E algum dia, eu vou vingar o meu povo. Se eu tiver coragem colocarei aqui a carta que minha mãe me deixou explicando tudo a meu respeito e o que eu precisava saber, mas sei que agora não é a hora certa, é a única lembrança que eu tenho de tudo o que eu fazia parte, e quero que continue sendo só minha. Eu sei que eu cresci sozinho, vivo sozinho e estou sozinho.

Por estar sempre sozinho tive que me habituar as mais diversas “esquesitices” que estavam ocorrendo comigo. Minha mãe havia me alertado na carta, que entre meus 12 anos eu poderia começar a notar anormalidades em mim mesmo, a questão foi que eu estava começando a ganhar meus poderes. Desenvolvi telecinesia, (capacidade de controlar/mover os objetos com o poder da mente) e digo, que depois de três anos de adquiri-lo, o executo com uma perfeição absurda, serio, sou muito bom nisso. Meu outro poder começou a dar sinal 2 meses atrás, quando estava tomando banho em um daqueles banheiro em conjunto com outros 6 meninos e meu corpo começou a desaparecer, exatamente: invisibilidade. Foi um imenso caos. Os meninos falaram que eu era um extraterrestre que iria devora-los. Eu desmenti, e ninguém acreditou neles, claro. Humanos burros! Ainda falta eu desenvolver meu último poder, o qual me permite lutar, e matar em combate, estou curioso sobre que poderei fazer.

Hoje é o meu terceiro mês nesse novo reformatório de Nova York. E por mais incrível que pareça, tem uma família querendo me adotar. Mereço? Enfim, a reunião vai ser daqui a meia hora e terei que dar uma prova de que serei um “ótimo” filho.

Nos 30 minutos seguintes fiquei no meu quarto escutando Dear God – Avenged Sevenfold e quase chorei. Vesti um calção rasgado, coloquei uma camiseta de segunda mão e um boné por cima do meu cabelo ruivo meio ondulado meio liso e fui para a tal reunião.

A sala que eu precisava ir ficava no outro lado do reformatório, o que queria dizer que eu teria que atravessa-lo todo para chegar. Deveria ter saído no mínimo 10 minutos antes para chegar no horário, e é claro, fiz de proposito para chegar atrasado. Parei para cumprimentar a D. Milles. A única coisa boa desse reformatório é ela e a comida que ela faz. Fui ao banheiro e depois me dirigi à sala da reunião. Eu estava 15 minutos atrasado, o que me forneceu uma bela carranca do diretor Maer. Ele era careca e gordo, usava um terno muito menor que o seu tamanho que dava a impressão de que os botões iriam explodir a qual quer momento.

– O senhor está atrasado Aaron, 15 minutos, por sinal – observou o diretor.

– Peso desculpas pelo inconveniente senhores. Prazer, meu nome é Aaron – dei a mão para cumprimentar o homem meio grisalho, mas com uma autoridade impressionante. E a mulher um pouco mais nova, e um tanto mais simpática.

– O prazer é nosso – disse a mulher. – Meu nome é Naomi e esse é Samuel – disse rápido, sem deixar silencio entre a conversa.

Sentei-me, sem falar nada. Sabia que se continuasse sendo gentil teriam uma boa impressão sobre mim, e não era isso que eu queria.

– O diretor Maer falou sobre minha popularidade aqui no reformatório? – anunciei, olhando para o diretor.

Os três se entreolharam e sorriram, o porquê eu não entendi.

– Dessa vez não, Aaron. – Falou o diretor Maer, ainda sorrindo. – Fomos alertados que você tentaria se mostrar uma coisa que na verdade não é, para assim não ser adotado. Mas a realidade é bem pior que isso. Se você não conseguir uma família dentre as próximas semanas serás deportado para sabe-se lá Deus aonde. – continuou ele demonstrando entusiasmo. – As autoridades estão a par da sua situação e estão alegando que NY não tem capacidade para achar uma família para um rapaz que passou por 25 reformatórios durante uns... 13 anos? – concluiu, cheio de si.

Pela primeira vez eu não sabia o que falar, estava fora de mim. Eu seria adotado! E isso soava tão louco quando pode parecer. Se eu for adotado terei uma família, eles se apegarão a mim e tudo estará perdido, não poderei sair à procura dos outros endelaanianos e cumprir o meu legado, o meu dever para com o meu planeta.

– E-eu não s-sei do que o s-senhor está f-fala-ando – gaguejei sem querer.

– É claro que sabe Aaron, saiba que estou fazendo isso para o seu bem, – riu novamente, e tive vontade de soqueá-lo, mas não o fiz. – ou prefere ir para o Paquistão? Sibéria? Ou quem sabe o Afeganistão?

– É talvez eu prefira – o surpreendi.

– Calma, calma – Naomi interferiu. – Eu tenho certeza de que eu, você e Samuel nos daremos muito bem – Samuel não disse nada, mas ficou me encarando por muito tempo. – Onde assinamos os papéis? – concluiu Naomi.

– Ahh! Sim é claro, vou busca-los. Um minuto. – E saiu porta a fora.

O tempo em que o diretor Maer passou fora da sala de reunião foi extremamente perturbador e o silencio dominou. Foi um silêncio enlouquecedor e eu quase explodi de tanta agonia.

Quando ele voltou, teve dificuldade para passar pela porta, quase entalou. Carregava entre o seu braço uma pasta amarela cheia de papéis que eu não estava interessado. Então fui para o hall da janela e fiquei lá por um tempo que não me recordo, apenas observando as crianças brincando do lado de fora, se divertindo, tendo infância.

Meus novos pais estavam orgulhosos por terem eu como filho, e antes mesmo de sairmos da sala do diretor pediram que ele tirasse uma foto da nova família feliz. O flash quase me segou e devo ter saído com uma cara péssima.

Não havia ninguém para eu me despedir então tudo ocorreu muito rápido. Três mudas de roupa, e dois sapatos. Enfiei tudo na mochila e fui dar tchau para D. Milles e agradecer pela sua fabulosa comida. Ela tinha uns 50 anos e era linda. Cheirava bem e usava roupas que deixaria qual quer neto orgulhoso.

Então, com um desanimo que só a pessoa mais desanimada do mundo imaginaria, fui ao encontro de Naomi e Samuel. E lá estavam eles. Na saída do reformatório me esperando. Alegres me abanaram e fizeram sinal para me apressar. Anojei-me.

Dei uma ultima olhada para prédio do reformatório e avistei o diretor Maer comendo uma enorme rosquinha da janela de seu escritório, ri sozinho e pensei que se alguém poderia explodir de tanto comer, seria ele.

Entrei no banco traseiro de passageiros do carro de Samuel, um Ford 2006 com a pintura meio desgastada, e seguimos para a minha nova casa. O percurso inteiro foi uma tentativa em vão de puxar assunto comigo. Naomi me pedia o que eu costumava fazer no meu tempo vago, ou quais atividades gostaria de fazer de agora em diante, eu apenas respondia “nada” ou “tanto faz”. Ela se decepcionou, mas tentou não demonstrar.

Enquanto andávamos de carro avistei lá longe na central park de NY um mendigo com uma placa escrito “Sempre há esperança”. Achei esquisito, mas não comentei nada.

Finalmente depois de percorridos 40 minutos chegamos na casa de Samuel e Naomi. No meio do caminho comentaram comigo que seu sobrenome era Crawano, não dei muita importância, mas acho que eles vão querer que conste no meu nome esse sobrenome. Estão enganados. Nada ira substituir Evans. Meu sobrenome de Endelaan, meu sentido, minha marca, meu sangue.

A casa era um tanto antiquada, de madeira, pintada de branco. Gramado na entrada e cerca de madeira também. Havia um beagle latindo dentro de sua casinha em baixo da árvore ao lado direito da casa que ficou me perseguindo com o olhar, todo o caminho da saída do carro até a entrada da casa. Achei estranho. Ao entrar na casa a situação piorou ainda mais. Havia um cheiro de pó misturado com mofo e os sofás estavam desgastados. Perguntei-me se os antigos morados eram idosos. A única luz que pairava sobre o local era de um abajur no canto da sala. Eu não sabia como me comportar diante daquela situação, estava completamente perdido. Eu deveria mentir e elogiar a casa? Ou apenas pedir onde seria meu quarto e me dirigir a ele. Naomi quebrou a situação constrangedora.

– E então... O que achou? – perguntou entusiasmada.

– É... Aconchegante. – menti.

– Ótimo – disse Samuel – Horário de dormir é as 9hrs. Horário de levantar é as 7hrs. Horário de almoçar é as 12hrs. Não respeite isso e terás as devidas consequências. – falou com a mesma autoridade que demonstrou na sala de reuniões. E se retirou.

Isso me surpreendeu, não achei que ele iria ditar regras no primeiro dia, nem ao menos quis me conhecer antes ou saber como reagiria a isso. Não demonstrei fraqueza, apenas concordei. Eu e Naomi sozinhos na sala agora, me questionava se ela ao menos sabia como era ser mãe, porque parecia estar mais perdida que eu.

Estava louco para praticar telecinesia. Havia horas que não fazia nem um objeto sequer se mexer. Questionei-me ao pensar o que meus novos pais pensariam ao ter um Encantado como novo filho.

– Posso ir para o meu quarto? Já são 08h30min, Samuel não vai gostar se eu não obedecer ao horário estipulado. – olhei para o lado e revirei os olhos.

– Ah! Claro, por aqui – disse Naomi, e eu a segui.

Notas finais
Agradeço a leitura e estarei postando os novos capítulos quando estiverem prontos, se a história for recebida positivamente.