Meu nome é Aaron
2 Adaptação
O grupo Chandriano destruía meu povo. Bestas enormes estilhaçando tudo o que viam pelo caminho. Encantados morrendo. Centauros com seus arcos e flechas mostrando do que são capazes. Feiticeiros se esforçando para curar ferimentos graves dos seus companheiros. Endelaan era linda, mas pequena, no mínimo três vezesmenor que a Terra. Era um planeta onde se via a beleza flutuar nos rios, no ar e nas paisagens. Antes de tudo aquilo, claro. Então escuto a voz de minha mãe. Tão suave e ao mesmo tempo tão desesperada pedindo socorro no alto da torre central de Endelaan. Ela era tão linda quanto uma mulher pode ser. Ruiva, olhos verdes, pele branca e extremamente gentil, o que a tornava ainda mais bela. Segurando-a pelo calcanhar lá estava ele: Mahammed. O mais perverso de todos. O líder. Sua pele era pálida, como se o sol nunca tivesse a alcançado. Ele era muito alto, no mínimo 2 metros. Usava um sobre tudo preto. Na sua cabeça havia tatuagens esquisitas que não conseguia identificar. Meu pai, moreno, alto e forte como um touro, consegue escutar, e sai em disparada para salvar minha mãe. Nos segundo seguinte Mahammed a solta. Ela cai. Eu sinto minha mãe caindo. Como se fosse eu. Eu a amo tanto. Meu pai se desespera e assassina no mínimo 20 Chandrianos usando telecinesia, poder que eu herdara dele. Seu poder de combate era o domínio dos 4 elementos. E ele era incrível, criou uma tempestade de raios ao seu redor, destruindo todos os inimigos próximos. Ele era muito bom. Mas os Chandrianos eram em maior número. Ele leva uma coronhada e é obrigado a se ajoelhar. Eu vejo seu rosto de perto. Sinto sua dor como se fosse minha. E então, esfaqueiam sua garganta e sinto o sangue jorrar em meu rosto.
Acordo. Suando, tremendo e com medo. Olho o relógio: 6:40hrs, ainda tenho 20 minutos para descansar, de acordo com a regra de Samuel. Fiquei mais 10 minutos deitado e depois fiquei praticando telecinesia com o abajur do quarto. Fiquei invisível e mais uma vez fiz o abajur levitar e se mover por todo o quarto. Estava ficando cada vez melhor.
Estava procurando me adaptar a toda essa novidade, mas não era fácil. Tomei um banho rápido e fui me juntar ao café da manhã com Naomi e Samuel. Ela havia feito panquecas, e devo admitir estavam deliciosas. Samuel foi trabalhar. Tinha uma empresa de eletrodomésticos não muito longe da casa. Mais uma vez eu e Naomi sozinhos, e o silêncio dominava. Não sabia sobre o que falar, não era como se já nos conhecêssemos e tivéssemos assuntos em comum. Então fui caminhar no quintal da casa e brincar com o beagle. Seu nome era Barner e fiquei a hora seguinte com ele. Jogando gravetos cada vez mais longe e ele me trazendo com muita felicidade. Perguntei-me quando fora a ultima vez que haviam brincado com ele. Barner era um cachorro incrível e inteligente. Parecia ser mais ágil do que qual quer outro cachorro. Naomi saiu da casa com uma bandeja de sucos e biscoitos para dividirmos.
– Ele é amigável, não acha? – perguntou se referindo ao cachorro
– Concordo, apenas parece um pouco solitário.
Naomi ficou estranha e tentou disfarçar.
– Ele já está um pouco sofrido. Não faz muito tempo que ele é nosso. Uma mulher velha e um cara que parecia um morador de rua imploraram para ficarmos com ele. Eu e Samuel não vimos problema, e como queríamos adotar um menino achamos que fosse gostar de companhia.
– Entendo. E agradeço também, ele parece ser um cachorro fascinante.
– Gostaria de ir passear com ele? – Me perguntou sorrindo
No começo achei que ela estava querendo se ver livre de mim por um tempo para poder ficar sozinha. Mas vi que isso não fazia o menor sentido.
– É, pode ser. Seria ótimo. — Concordei.
Naomi entrou na casa e saiu segurando uma coleira para Barner. Colocou sobre o pescoço dele e me entregou.
– Não vá muito longe – disse – E tome cuidado.
Concordei em sentido afirmativo com a cabeça e sai portão a fora.
Vestia um calção jeans claro e uma regata do RAMONES branca. Naquela manhã havia penteado meu cabelo ruivo sem definição, então não usava boné. Sentia-me bonito. Fazia muito calor, estava no cume do verão em NY, perfeito para um passeio matinal com seu cachorro.
Barner estava apressado e andava a minha frente puxando um pouco a coleira. Era compreensível devido à atenção que davam para ele. Passávamos pela East Village meio lotada naquela manhã e estava adorável.
Paramos em uma loja de Café ali no centro da cidade, amarrei a coleira na cadeira que escolhi e fui pegar um capuchino para mim e uns biscoitos para Barner. Ele parecia estar adorando tudo aquilo. Foi muito prazeroso. Fez-me pensar que a vida é muito mais do que apenas guerras e destruição. Bem, a maior parte na verdade realmente é isso, mas precisamos saber a hora de desfrutar de momentos bons também.
Paguei a conta, e antes de sair olhei para o relógio da loja: 10h30min precisava me apressar se não me atrasaria para o almoço. Contornei o centro da rua quando me deparei novamente com aquele mendigo que no dia anterior estava na Cetral Park, segurando novamente a mesma placa que dizia “Sempre há esperança”.
– Não acha isso estranho Barner? – Perguntei ao meu cachorro.
O mendigo percebeu que eu o estava observando fixamente. Virei o rosto e continuei meu caminho.
– É claro que acha. – Pensei em voz alta, como se meu cachorro pudesse me entender. Barner latiu duas vezes.
Cheguei a casa aproximadamente11h15min, cansado e um pouco suado. Coloquei Barner na sua casinha em baixo da árvore onde ficava, e depositei um pouco de ração e agua em seus potes de refeição.
Após lavar minhas mãos me sentei no sofá mofado e desgastado para assistir um pouco de televisão enquanto Naomi acabava de preparar o almoço.
– E então como foi o passeio? – Naomi me perguntou
– Muito prazeroso. Eu e Barner fomos até a East Village e tomei um capuchino enquanto ficamos olhando o movimento na rua. – Nós morávamos na LowerEastSide, levava apenas 20 minutos entre as ruas.
– Ótimo! Que bom que gostou então. – Ela parecia mais feliz do que o normal. – O almoço logo ficara pronto. – E se retirou.
Há meia hora seguinte foi um tédio sem fim. Samuel não chegava para podermos almoçar e eu não sabia se continuava fingindo estar assistindo televisão ou apenas ficava trocando de canal para o tempo passar mais rápido.
Samuel chegou às 11h55min, se demorasse um pouco mais iria se atrasar para a própria regra estipulada sobre o horário do almoço. Mas não comentei nada disso, claro.
Nós três sentamo-nos à mesa redonda e pequena da apertada cozinha. Naomi colocou as panelas sobre a mesa, era macarronada com um molho esquisito de salsicha. Tive saudade momentânea da comida de D. Milles. Comi uma quantidade muito menor do que o acostumado. Quando estava pronto para me pedir com licença eme retirar, Samuel abordou um assunto inesperado.
– E então, Aaron, o que está achando da sua nova casa? – Ele parecia contente, o que era estranho.
– Estou achando tudo muito bom, obrigado por perguntar Samuel.
– Ótimo. Eu e Naomi temos um comunicado a fazer.
Senti o clima pesar um pouco. Naomi continuou.
– Aaron, eu e Samuel achamos que já deu o que tinha para dar nessa cidade. Nova York é extremamente grande e o comércio de eletrodomésticos está cada vez mais difícil pelas redondezas. – Disse ela com tamanha certeza. – Por isso, vamos nos mudar e abrir uma nova loja em Illinois, Naperville. Uma cidade menor, onde teremos mais facilidade de fazer nosso negocio crescer.
Illinois? Naperville? Pensei o quão longe dali era. Um novo estado, uma nova cidade. Em minha vida toda eu morei em NY, e achei que só sairia daqui quando fosse a hora certa para procurar meus parentes endelaanianos. Sozinho. Mas estava enganado, mais uma vez.
– Naperville? É uma cidade pequena, não é? – Perguntei, recuperando-me ainda do susto.
– Em comparação com NY, sim. Em média 140 mil habitantes. Teremos mais chances de nosso negocio dar certo por que lá há muito menos lojas de eletrodomésticos do que aqui. – Samuel falava com a mesma autoridade de sempre.
– Ok. Tudo bem. Parece ser bom para todos. Posso ir par ao meu quarto?
Samuel e Naomi assentiram e eu me retirei.
Parecia loucura, mas eu estava desesperado. Eu sei que eu nunca tive uma família aqui na Terra, que eu sempre estive sozinho e a maior parte do tempo com medo. Mas eu não queria sair de NY, não assim. Sei que eu preciso achar meus amigos endelaanianos, mas como posso fazer isso agora com uma família querendo cuidar de mim e me controlando? Então em um ato de impulso gritei e fechei meu punho com muita força e isso fez a lâmpada do abajur explodir em milhões de pedaços. Ouvi passos rápidos nas escadas e Naomi entrou no quarto sem anuncio algum.
– O que aconteceu? – Pediu ela meio desesperada. – Ouvi um barulho e achei que algo tivesse acontecido.
– Desculpa Naomi, eu acho que deixei tempo demais a lâmpada ligada e ela explodiu, deve ter superaquecido.
– Ah, tudo bem Aaron, vá lá para baixo enquanto dou um jeito nisso.
Passei reto por Samuel e fui para o quintal junto com Barner, me escorei na arvore ao lado de sua casinha e o segurei em me colo. Não sabia o que fazer ou o que pensar. Queria chorar, mas me contive. Barner lambeu meu rosto, era como se ele soubesse que algo estava acontecendo e queria me ajudar. Minha cabeça estava latejando e isso não era um bom sinal, coisas ruins aconteciam quando eu estava fora de mim, era como se desaprendesse a controlar meus poderes. E foi aí que minha mão direita começou a sumir, apenas a mão. E depois parte do meu braço esquerdo. Era minha invisibilidade dando falha por estar emotivamente alterado. Eu me esquivei para traz da arvore para tentar me recompor quando Samuel sai porta a fora
– Esta tudo bem ai garoto?
Controlei-me e olhei para os meus membros. Ótimo, estavam voltando ao normal.
– Sim Samuel. Apenas vim pegar um ar aqui fora. – Menti.
Samuel entrou e fiquei ali, parado. Pensando em como minha vida seria daqui para frente. Em tantas outras complicações que teria de enfrentar se continuasse assim, sem ninguém para me ensinar a realmente controlar meus poderes do jeito certo. Pensava se em toda tensão que eu teria, faria algo que não pudesse controlar, talvez até machucasse uma pessoa inocente. Essa era minha vida? Esse era meu destino? Eu não tinha mais certeza de nada.
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