Meu noivo perfeito
5 Apagão.
Notas iniciais
Os ponteiros do relógio já marcavam 19:37. Apenas algumas horas haviam se passado desde a reunião que me fez divagar de uma maneira muito surreal.
Era com total convicção que eu afirmava ter sido a experiência mais esplêndida da minha vida, de segundo a segundo. Meu estado letárgico ainda era tão grande que de minutos em minutos eu estava tendo pequenos flashback's do que ocorreu; a minha ousadia, o modo como consegui expor minhas ideias com uma firmeza que não me pertencia nem hoje e nem nunca, mas principalmente, o poder de intimidação que o olhar do chefão me fez sentir.
Sasuke Uchiha. De repente esse nome e o dono dele com todos os seus aspectos haviam se tornado algo referencial demais para mim. Na minha querida mente um foco enorme estava recaindo sobre ele e somente ele.
E como toda boa empresa que sempre mantém seus funcionários bem informados, as notícias logo se espalharam mais rápido que a vez da minha repentina amizade com Hinata. Quando voltei do almoço percebi as pessoas me olhando o mais discreta que conseguiam, mas se tratando da CIT, pouco estranhei quando não percebi nenhum cochicho. Talvez a minha vidinha pacata fosse insignificante demais para seus preciosos tempos, quem vai saber, não é?
No momento eu estava copiando e organizando documentações valiosas sobre o novo projeto do Sr. Sasuke. Claro que ele não me chamou e pediu pessoalmente tudo isso e mais, na verdade eu nem sabia o que minha apresentação havia significado de fato para ele, mas caso em algum momento a minha pessoa passasse em sua linda cabeça, como ter mais interesse em minhas ideias, eu teria uma ficha bem mais complexa sobre todo o projeto.
Primeiro planejei um rascunho em folhas separadas antes de dar início enfim no computador. Meu tempo não era lá essas coisas, e infelizmente de acordo com as regras da empresa, eu não poderia levar para fazer em casa. Tudo o que se fazia ali dentro, ficava ali dentro, algo muito óbvio até.
Com muita sorte eu ainda não tinha dado de cara com Karin desde a reunião, e isso era a última coisa que eu queria na minha vida no momento. Suportar a áurea maligna dela toda despejada em mim me fazia perder a noção das boas coisas. E agora, depois de tudo que a fiz passar, tenho mais do que certeza que ela me jogaria na frente do primeiro carro que visse. O que me fazia ficar em alerta, já que as chances de Karin aprontar comigo estavam ada vez maiores e eu não sabia se teria paciência de aguentar mais uma coisa vindo dela.
Acariciei minha mãos com o rumo dos meus pensamentos, no fundo me sentindo preocupada com qualquer coisa que pudesse ser suspeita para mim.
Escrevi e organizei mais algumas coisas para guardar todos os prontuários na gaveta. Fitei minha cabine, que como todas as outras era muito grande, não havia nada de pessoal nela, mas com um dos computadores de última linha lançado pela CIT; uma impressora altamente qualificada e mais apetrechos que ainda não tive a chance de verificar. Girei em minha cadeira de rodinhas e peguei minha bolsa de ombro.
Ao chegar em um dos elevadores dou de encontro com oito funcionários a caminho também do primeiro andar, todos estavam sérios e apenas três olharam para mim. Oito homens e uma mulher, eu. Pior que está não pode ficar. Foi uma pequena viagem silenciosa, por sorte os elevadores eram bastante rápidos e não eram cheios de espelhos como alguns, apesar de haver muita sofisticação entalhada em cada lugar dele.
Assim que desci no primeiro andar, peguei meu celular quando senti sua vibração em minha bolsa. O toque de uma nova mensagem, era da Hinata:
" Sinto muito, Saky, mas tive que sair da empresa mais rápido do que o previsto. Espero que entenda ó.ò "
Hinata era realmente inacreditável. Como ela me manda uma mensagem dessas quando sou eu que devo pedir perdão por preocupá-la dessa maneira. Então respondi:
" Boba, não precisa se preocupar, você não me deve nada. Eu é que ofereço gratidão por tudo que vem fazendo por mim. Pegarei um táxi, estou sendo mimada demais, rsrs. "
O que era um fato, minha dívida com Hinata está muito grande, meio que uma semana inteira indo e vindo com a carona dela. Esse era um assunto bem delicado que eu pretendia tocar depois.
Cumprimentei educadamente os secretários do balcão principal. Poucos acenaram de volta, mas logo voltaram a seus afazeres. Me pergunto até que horas eles devem ficar trabalhando aqui, apesar de serem muitos, jamais vi alguém diferente domando aqueles computadores.
Passei pelas postas de entrada esperando que nenhum barulho estranho do detector de metais soasse. O caminho pela avenida é calmo, tirando o fato de ter meus pés sendo massacrados na grande multidão e um empurrão que acabou me desequilibrando no meio daquele povo. Nada como a movimentação do horário de voltar para casa.
Por extinto comecei a andar mais rápido quando vi um carro da polícia passando em alta velocidade depois de outro, levar uma bala perdida era algo muito indesejado por mim.
Chamei um táxi e pedi para seguir até um dos bairros mais humildes de Los Angeles, vulgo, meu bairro. Ele me olhou estranho quando sai do carro, mas não me importei, só segui direto sem olhar para outra direção que não fosse minha casa/apartamento.
Rápida como um raio, foi assim que entrei na sala de estar. Tia Tsunade levou um pequeno susto, até tinha me esquecido do trauma dela, ia pedir-lhe desculpas, mas... O ser que ela observava na mesa captou minha atenção.
Uma pequena bola de pelos brancos estava sentada em cima da mesa, me aproximei e reparei melhor nos belos olhos verdes, olhos ônix por um segundo me lembraram de outros olhos verdes lindos, mas fiz questão de espantar esses pensamentos inapropriados. Quem sou eu para ficar deslumbrando aquele ser perfeito...
– Sakura? — Tia Tsunade me tirou do meu transe interno antes que falasse demais.
– O que é isso? — perguntei apontando para o animal.
– "Isso" tem nome e é Lotus, e ela é uma gatinha... — interrompi-a.
– Eu sei que é um gato...
– Gata, ela é fêmea. — respirei fundo.
– Não importa, quero saber o que essa gata está fazendo em cima da mesa com todos esses machucados, e me explique que história é essa de nome, hein? Você já a deu um? — olhei-a chocada. — Não me diga que...
– Por favor Sakura. — pediu manhosa e chorona. — Ela não tinha ninguém, estava morrendo de fome e tinha todos esses machucados, meu coração de humana falou mais alto e eu pensei em cuidar dela, por favor, ela não tem ninguém... — implorou.
– Não.
– Sakura, ela estava sozinha nesse beco escuro aqui ao lado, miava tanto...
– Nem comece.
– Por favor, Saky... A mãe abandonou ela, e deve ter sido brutalmente machucada por animais maiores, como cães de rua, por favor... — Pediu chorona.
– Já disse que não. Você sabe que criar um animal dá muito trabalho e eu não vou estar presente por todo o dia e a senhora...
– Eu prometo cuidar dela com muito zelo, você nem ao menos vai notá-la aqui, por favor, por favorzinho, por mim. Como você consegue resistir à essa criaturinha tão fofa, o ser mais inocente que existe... — Chorou apontando para o animal todo acanhado, olhei dentro daqueles olhos verdes vibrantes e sofredores, inevitavelmente senti meu coração se apertar ao imaginar essa gatinha indefesa na rua. — Como consegue resistir à ela? — Perguntou tentando me convencer.
Tia Tsunade veio junto a mim quando consegui uma bolsa em Harvad, ela ficou tão feliz e não parava de falar que nós duas seríamos muito felizes morando aqui e sem pensar duas vezes deixou toda sua vida no Brasil para trás. Antes ela trabalhava em um parque zoobotânico, em nossa antiga casa ela criava um macaquinho chamado Zico, ele era todo pequenino e fofinho, mas descobrimos que ele estava doente e logo depois morreu. Muito chato. Minha tia era muito apegada à ele, ficou com depressão por um tempo e prometeu que jamais deixaria um animal sofrer novamente com ela por perto. E, bom, lá estava ela cumprindo suas promessas, mas esse não era o motivo pelo qual eu mais me preocupava, um dia ou outro essa gatinha partiria e eu não queria ver tia Tsunade em depressão novamente, era frustrante demais, ainda mais quando EU poderia me apegar também.
E eu odiava perder qualquer coisa importante para mim; meus pais, meus antigos amigos, minha vida no Brasil. Eu odiava.
– Mas tia e se...
– Não tem 'mas' Sakura, eu quero muito cuidar de Lotus e você não irá me impedir. — Falou decidida.
Soltei um longo suspiro, já sabia que tinha perdido aquela batalha assim que ela trouxe a gata para cá.
– Tudo bem, mas não quero ouvir reclamações depois. Acho que quando receber meu salário comprarei algumas rações para ela, mas por enquanto, você é a única responsável. Entendido?
– Sim, sim, sim! — Tia Tsunade me abraçou e foi falar com a gata, Lotus, sobre como seria feliz nessa casa. Fiz uma careta muito estranha e segui para meu quarto.
Anoiteceu há bastante tempo e ainda não pude desfrutar de meu jantar, o que era uma pena, já que nem mesmo um eu tinha.
Me encolhi na cama de tanta fome, na correria para casa esqueci de comprar algum lanche e senti vontade de correr até o restaurante mais próximo.
Reuni forçar para tomar banho, o que não durou muito já que minha barriga encolhia de tanta fome.
– Sakura, venha aqui! – gritou tia Tsunade.
Quase me arrastando fui ver o que ela queria, observei o prato de sopa sobre a mesa e quase tive um ataque de êxtase com o cheiro. Ouvi um ronco alto e não pensei duas vezes antes de atacar aquele prato.
– Que bom que gostou. — Falou minha tia me observando enquanto acariciava Lotus.
– Estava ótima, obrigada.
– Vá dormir, querida. Amanhã você terá um longo dia, descanse bem.
– Certo... Mas, como sabia que eu estava com fome?
– Ouvi sua barriga roncando.
Disse gargalhando. Me retirei emburrada da cozinha e fui dormir.
(...)
O sol ainda não havia crescido completamente quando olhei para a janela, o quarto fazia um pouco de frio, o que me fez enrolar mais o lençol em torno de mim e querer ir dormir, como nos velhos tempos em que eu ainda morava no Brasil e sempre queria voltar a dormir até quando eu cansasse. Tempos onde eu ainda tinha meus pais e toda a correria que tive que me habituar desde que cheguei aqui ainda não existia.
Minha cabeça era um turbilhão de pensamentos, jamais pensei que trabalhar ao amanhecer do dia fosse um processo tão preguiçoso, não quando eu tinha motivação para ganhar meu próprio dinheiro. Gemi ao imaginar uma possível bronca que levaria de Karin se faltasse no trabalho. Sendo que na verdade ela acharia até melhor e por cima aproveitaria para descontar no meu salário.
Em milésimos de segundo eu já cambaleava seguindo para o banheiro. Com a toalha enrolada no meu corpo molhado, tentei achar um peça adequada para o trabalho. Esse era o problema X da questão. Como conseguiria uma roupa decente para ir trabalhar quando meu guarda-roupa era uma lástima, as melhores roupas já haviam sido usadas e... certamente eu não gostaria ter que repeti-las novamente como já fiz à poucos dias.
A hipótese de pedir minha tia roupas emprestadas era descartável, contando principalmente o fato dela usar um número maior que o meu.
Minha última opção foi improvisar. Escolhi uma saia preta até os joelhos, uma camiseta branca com mangas médias e um pequeno salto preto. Prendi meus enrolados em um rabo-de-cavalo e passei um leve brilho labial transparente.
Na cozinha tia Tsunade brincava com Lotus, a gata tinha algumas faixas enroladas no tronco e nas patas. Minha tia deve ter feito um bom trabalho com ela.
Notei um brilho diferente no olhar dela, como se estivesse contente por morar conosco. Já minha tia estava radiante de tanta alegria, quando me viu pediu para eu segurar Lotus enquanto colocava meu café da manhã. Do mesmo jeito que ela fazia quando eu era menor.
Lotus tinha pelos brancos e macios como seda, os olhos eram hipnotizantes. Só seus aspectos físicos já eram encantadores, e derretiam qualquer um com aquele tamanhinho. Tão inofensiva e fofa que dava vontade de apertar.
Não sei o que deu em mim, mas comecei a falar com ela, bem baixinho.
– Você é muito linda, sabia Lotus? Uma pena não que não tenhamos te encontrado antes. Acho que vou te apertar de tanta fofura. — Dei fracas gargalhadas. Aqueles olhos brilharam ao ouvir minha fala, acho que ela gostava de mim.
– Então você também já está enfeitiçada pelos encantos dela também. — Tia Tsunade falou divertida. Dei um sorriso em troca.
– Amanhã pretendo fazer algumas compras. Gostaria de me acompanhar? — Perguntei.
– Compras? Com que dinheiro?
– Vou pedir um adiantamento hoje, quer dizer, pelo menos vou tentar. — Falei sem graça.
– Claro que gostaria de acompanhar. Será que eles vão te deixar ter um adiantamento? Mas...
– Mas o quê?
– Teremos que levar Lotus também.
– Mas ela é muito pequena ainda.
– Por isso mesmo, não posso deixá-la sozinha aqui. — Suspirei e assenti compreensiva.
O resto do dia foi tranquilo, Hinata apareceu para me pegar em casa e fui para a empresa com ela. Eu não estava muito confortável com a escolha das minhas roupas e ver Hinata trajando marcas tão famosas foi desconfortante.
O pior é que todos na empresa se vestiam da mesma maneira. De maneira elegantemente sofisticada. Eu estava normal para trabalhar em uma empresa qualquer, mas eu não trabalhava em uma empresa qualquer.
Enquanto anotava meus rascunhos, me lembrei de pedir um adiantamento no salário. Mas como faria isso quando minha chefe estava com seus nervos à flor da pele em relação à mim. Tentando achar uma solução para evitar a fúria dela, pensei em Hinata, mas não queria incomodá-la com minhas preocupações.
Com determinação fui em direção à sala de Karin. Eu estava nervosa, isso era óbvio, havia claros motivos para eu ficar assim. Mas me perguntava o que faria se ela não concedesse o adiantamento. Ora, mas porque ela não adiantaria? Ela não tem esse direito, ou tem?
Dei leve batidas na porta e escutei um entre abafado.
– Com licença. — disse acanhada. Argh, que raiva. Eu definitivamente não devo ficar assim na presença dessa mulher, ela não merece minha subordinação. Pigarreei e entrei por completo na sala.
Ela me olhou com a testa franzida e disse com desdém.
– O que você quer aqui? — Arrogante. Como sempre.
– Eu queria pedir um adiantamento. — falei direta.
– Tsc, adiantamento é? — me fitou com escárnio.
– Sim.
Ela estalou a língua e se recostou na cadeira pendendo a cabeça para o lado.
– Está passando tanta fome assim? — E lá vem ela jogando seu veneno de cobra.
Cerrei os punhos, mas me mantive firme e respondi educada. Além do mais, eu precisava daquele adiantamento, precisava de roupas novas, e o estoque de alimento estava acabando.
– Na verdade, meus interesses são outros. E tenho sim minha necessidades. — disse firme.
– Vou ser bem clara. — ela começou apoiando os cotovelos na mesa. — Esse é o seu primeiro mês na empresa, acha que basta querer? Não funcionamos assim, então não pense que pode sair pedindo adiantamento sem mais nem menos. Existe uma certa burocracia para isso, quando me mostrá-la completa eu poderei, quem sabe... pensar no seu caso. — Falou e deu um pequeno sorrisinho maldoso.
Eu sei que se desse um uma resposta à ela, esse poderia ser meu último dia aqui na CIT. Então depois de respirar fundo, afirmei com a cabeça.
– Ótimo. Se era só isso pode se retirar.
Sai quase num rompante da sala, mas não me abalarei com aquela mulher.
Qual o problema dela comigo? Tá, eu sei que acabei com as chances dela na reunião, isso depois de humilhá-la falando mal das ideias dela, mas, desde o primeiro dia ela me odeia sem nenhum motivo.
Quando o relógio marcou 20:45, eu já estava arrumando minha bolsa e me preparava para sair. Fui uma das últimas a continuar no amplo setor. Já sentia até certo alívio por poder voltar logo para casa, até ouvir passos de saltos vindo na minha direção, e um voz conhecida me chamar.
– Sakura? Ah, aí está você.
Karin vinha na minha direção.
– Tenho ótimas notícias para você. — ela estava animadinha demais. — Preciso que termine esses papéis para mim. E quero que termine ainda hoje para me dar amanhã. E você sabe que é proibido levar trabalho para casa. Estou muito ocupada para fazer isso, então vou embora.
Um grosso monte de papel foi jogado na minha mesa, olhei incrédula para Karin, ela realmente não pensava que eu faria aquilo, não é? Não consegui pronunciar nada, ela deu uma piscadela e começou a andar rápido até o elevador.
– Se fizer isso, vou dar o seu adiantamento. Mas acho que vai ser impossível. Tenha uma boa noite. — Me falou pondo seu casaco.
– Você não pode fazer isso comigo! — me indignei.
– Na verdade, tenho compromissos importantíssimos agora, como um maravilhoso jantar em Blugadesh. – ela sibilou com um sotaque estranho o nome do restaurante quatro estrelas de L.A.– E você não tem outra opção caso queira comprar suas roupinhas de liquidação do mês. — Fez uma falsa carinha triste até as portas do elevador se fecharem.
Quase corri até o elevador, fervendo de ódio. Karin era de longe uma pessoa horrível. Como ela me diz essas coisas? Tão... Insensível, não vê outra sombra além da dela. E essa desculpa de adiantamento? E toda a burocracia que ela me disse? Bufei irritada e cai na cadeira com os olhos lacrimejando. Sempre fui muito chorona, e pensar que têm pessoas que realmente são tão más assim.
Tem como piorar? Ficar aqui sentada por mais pelo menos... duas horas nesse enorme setor, sozinha e sem comida? Massageei as têmporas e tentei me focar na vantagem de ter que fazer tudo aquilo.
Ela vai me dar meu adiantamento, eu sei que ela vai. Não deve ser muito difícil resolver tudo isso, vai demorar, mas meu adiantamento vale isso. Ver minha tia feliz vale isso.
Ah, seria tão mais fácil se esse setor tivesse outro diretor, um bonzinho pra variar, daqueles bem bacana que se tornam nossos amigos.
Os papéis eram muito complexos, difíceis de decifrar, acho que até entendo porque Karin me deu eles, ou foi por isso ou foi porque ela me odeia mesmo.
Uma hora e meia depois, faltavam poucos papéis para terminar e finalmente ficaria perto de pode desfrutar do meu salário.
Eu rabiscava uma folha quando num piscar de olhos as luzes se apagaram. Todo meu peso pareceu ter ido parar no fundo da minha barriga.
Um apagão? Eles não estavam fechando a empresa, não é? Ela deveria ficar aberta até mais de meia-noite. Foi Hinata mesmo que me disse isso. Meu coração parecia que ia sair pelos meus ouvidos, estava tudo escuro, tudo mesmo, tirando a luz que vinha das paredes de vidro.
Peguei minha bolsa com minhas mãos tremendo e parti em rumo ao elevador, aperto várias vezes no botão, mas ele não ligava. Meu Deus, será que também desligaram o elevador?
Ah, fala sério! Tinha como ficar pior? Sei lá, antes um ataque zumbi do que escuridão. Oh meu Deus! por que coisas ruins tendem a acontecer comigo? Senti uma lágrima descer do meu rosto enquanto mina cabeça pesava.
Resmunguei me encostando na parede. E agora? E agora? Eu não podia ficar presa aqui, não podia. Havia minha tia que precisa de mim, ela ficaria muito preocupada. E agora? Meu Deus!
As escadas! Mas é claro! Como esqueci das escadas? Só terei que descer apenas... engoli em seco.
22 andares.
Com um pingo de força de coragem e morrendo de medo, fui pelas escadas. Era de dar medo, ficar um lugar aterrorizantemente grande, sem nenhuma claridade, e tristemente sozinha. Era sim o pior filme de terror da história, um pesadelo em vida real, era provável que eu desmaiasse assim que chegasse no primeiro andar.
Desci cerca de 6 andares, e me sentindo como um cega precisando de bengala. Tropecei umas dez vezes até aqui, segurando meu peito a cada batida incontrolada.
O ar começava a ficar cada vez mais frio, e tudo por causa que sempre me esqueço de trazer meu casaco para o trabalho. Juro que daqui mais alguns minutos vou conseguir soltar fumaças com a boca por conta do frio. Isso, claro, se eu não morrer de susto daqui até o primeiro andar do prédio. Muita sorte a minha aqui não ter ratos, pois qualquer mínimo barulho — se não minha própria respiração — já é capaz de me causa uma parada cardíaca.
Era uma promessa: nunca mais vou assistir filmes de terror.
Depois de quase meia-hora, o balcão da recepção já estava à minha vista. O salão de entrada era o único lugar iluminado na empresa, e pior, o mais assustador, o mais lindo e mais assustador da maioria.
Me sentei na beirada da fonte para descansar. Meus pés mal me aguentavam em pé, estavam inchados e com prováveis futuros calos. Massageando calmamente o calcanhar e o espaço entre os dedos me permiti soltar um suspiro de alívio.
O cansaço era tanto, que a ideia de dormir ali mesmo não me chegava a ser tão absurda assim. Meu corpo todo estava arrepiado, meus pés pra lá de inchados e doloridos, sem contar meu psicológico danificado.
O barulho de uma porta de fechando me tirou dos devaneios. Meu coração pareceu até um tiro de canhão.
Como assim? Eu não era a única na empresa? Soltei o ar dos meus pulmões e as respirações pesadas tomaram conta de mim.
Ainda não havia acabado? Como eu queria que tudo não passasse de um sonho.
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